sábado, 31 de outubro de 2009

A hipocrisia da "melhor idade"

Ouvi hoje, 31/10/2009,  dos alto-falantes do aeroporto de Porto Velho, em Rondônia:
- "Convidamos para o embarque os passageiros da "melhor idade"...".
Obedeci ao chamamento, já por mim ouvido com indiferença tantas vezes em outros aeroportos, e, pela primeira vez, detive-me na análise do que realmente aquilo significava.
Éramos oito os enquadrados no rol dos tais passageiros da "melhor  idade".   Puxavam o cordão: um velhindo quase cego, que era conduzido por uma filha,  um outro da mesma idade que sofria do mal de Parkinson,  uma velhinha numa cadeira de rodas, também acompanhada por uma filha e, a seguir, completávamos o grupo, eu (com intensas dores num ombro e nos joelhos)  e outros quatro velhotes já enferrujados pelo tempo. Sim, porque depois de certa idade existe, com certeza, uma espécie de "ferrugem" que ataca os nossos músculos e ossos, bem como, as "dobradiças" do corpo.
Olhei aquele nosso grupo formado ao acaso e parecia haver uma conformação com as nossas "sucatas" corporais. Estávamos descontraídos e até rimos todos quando tropecei num pequeno batente e brinquei: - não empurra!
Entramos no avião.
Enquanto me acomodava na poltrona, pensava: - Que bom ter este privilégio de ser dos primeiros a entrar na aeronave! Que bom que nos respeitem pelo peso da idade, pelos cabelos brancos, por nossa trajetória de vida! Intimamente agradeci aquela deferência, mas aquela história de "melhor idade" não me soava bem.  A expressão me intrigava. Havia naquilo algo que não refletia os reais sentimentos dos outros para conosco. Havia uma falsa bajulação. Era melhor que nos respeitassem com mais autenticidade.  Quem teve essa ideia maluca, esqueceu-se de que a "melhor idade" deve ser sempre aquela que estamos vivendo, independentemente de ser na infância, na juventude ou na velhice. A busca da felicidade deve ser uma constante. 
Decretei, então, dentro de mim, toda uma aversão àquilo. Era uma bobagem sem fundamento!
- Qual foi o imbecil, o fariseu, o idiota, o sujeito que quis aparecer  e que inventou de nos enquadrar nessa tal "melhor idade"?  Será que com essa bajulice pensava transformar-se em nossos herói?
- "Melhor idade", porra nenhuma!
Vamos à cruel realidade de considerável maioria:
- para muitos, tudo é restrito ou proibido,  não conseguem fazer a própria higiene, nem podem se alimentar sozinhos, são limitados na locomoção, não podem viajar sem um acompanhante, ganham uma aposentadoria miserável, vivem pela caridade alheia, a tesão está de alguma forma comprometida... ou vira coisa do passado...  e outros e outros e outros mil males, impedimentos e deficiências.
Acredito que quem criou essa asneira de "melhor idade" está zombando de nós. Isso é um falso respeito. É uma bajulação sem sentido. Muito melhor e mais autêntico, quando nos enquadravam como da "terceira idade".
Embora me sinta inexoravelmente adaptado a minha velhice, tentando nela viver uma idade prazerosa, repudio a conotação de paraíso e de felicidade existente na tal expressão "melhor idade".
Sou um idoso! Chamem-me assim!
É mais respeitoso e mais verdadeiro!
A tal "melhor idade" é uma gozação!
É uma mentira deslavada!
É uma hipocrisia!
"Melhor idade" em quê?

(José de Anchieta Batista - 65 anos)

2 comentários:

Anônimo disse...

Senhor José de Anchieta,

Também sou idoso. Tenho 68.

Concordo. Também acho isso sem a menor coerência.

Antonio Gomes
Recife

Isaac Melo disse...

Anchieta,
esse negócio de politicamente correto é complicado. Concordo com sua indignação. Não tenho a idade para ser chamado assim, mas quando tiver quero que me chamem de velho mesmo.

Abraços, meu caro amigo!