sábado, 13 de março de 2010


POETA ZÉ DA LUZ
Nome: Severino de Andrade Silva,
Nasceu: em Itabaiana, PB, em 29/03/1904
Faleceu: no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965.


"... Veio ao mundo como Severino de Andrade Silva e recebeu a alcunha de Zé da Luz. Nome de guerra e poesia, nome dado pela terra aos que nascem Josés e, também, aos Severinos, que se não for Biu é seu Zé.
Sua poesia é dita nas feiras, nas porteiras, na beirada das estradas, nas ruas e manguezais. Perdeu-se do seu autor pois em livro não se encontra. Se encontra na boca do povo, de quem tomou emprestado a voz, para dividi-la em forma de rima e verso.
Seus poemas têm a cor do nordeste, o cheiro do nordeste, o sabor do nordeste. Às vezes trágico, às vezes humorado, às vezes safado. Quase sempre telúrico como a luz do sol do agreste. (os editores)"

AS FLÔ DE PUXINANà (Zé da Luz)

Três muié ou três irmã,
três cachôrra da mulesta,
eu vi num dia de festa,
no lugar Puxinanã.

     A mais véia, a mais ribusta
     era mermo uma tentação!
     mimosa flô do sertão
     que o povo chamava Ogusta.

A sigunda, a Guiléimina,
tinha uns ói qui ô! mardição!
Matava quarqué cristão
os oiá déssa minina.

     Os ói dela paricia
     duas istrêla tremendo,
     se apagando e se acendendo
     im noite de ventania.

A tercêra, era a Maroca.
Cum um cóipo munto má feito.
Mas porém, tinha nos peito
dois cuscús de mandioca.

     Dois cuscús, qui, prú capricho,
     quando ela passou pru eu,
     minhas venta se acendeu
     cum o chêro vindo dos bicho.

Eu inté, me atrapaiava,
sem sabê das três irmã
qui eu vi im Puxinanã,
qual era a qui mi agradava.

     Inscuiendo a minha cruz
     prá sair desse imbaraço,
     desejei, morrê nos braços,
     da dona dos dois cuscús!

***

BRASI CABÔCO  (Zé da Luz)

O qui é Brasí Caboco?

É um Brasi diferente
do Brasí das capitá.
É um Brasi brasilêro,
sem mistura de instrangero,
um Brasi nacioná!
É o Brasi qui não veste
liforme de gazimira,
camisa de peito duro,
com butuadura de ouro...
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da “polista”
gibão e chapéu de coro!
Brasi caboco num come
assentado nos banquete,
misturado cum os home
de casaca e anelão...
Brasi caboco só come
o bode seco, o feijão,
e as veiz uma panelada,
um pirão de carne verde,
nos dias da inleição
quando vai servi de iscada
prus home de posição.
Brasi caboco num sabe
falá ingrês nem francês,
munto meno o português
qui os outros fala imprestado...
Brasi caboco num inscreve;
munto má assina o nome
pra votar pru mode os home
Sê gunverno e diputado.
Mas porém. Brasi caboco,
é um Brasi brasileiro,
sem mistura de instrangero
Um Brasi nacioná!
É o Brasi sertanejo
dos coco, das imbolada,
dos samba, dos vialejo,
zabumba e caracaxá!
É o Brasi das vaquejada,
do aboio dos vaquero,
do arranco das boiada
nos fechado ou tabulero!
É o Brasi das caboca
qui tem os óio feiticero,
qui tem a boca incarnada,
como fruta de cardoro
quando ela nasce alejada!
É o Brasi das promessa
nas noite de São João!
dos carro de boi cantano
pela boca dos cocão.
É o Brasi das caboca
qui cum sabença gunverna,
vinte e cinco pá-de-birro
cum a munfada entre as perna!
Brasi das briga de galo!
do jogo de “sôco-tôco”!
É o Brasi dos caboco
amansadô de cavalo!
É o Brasi dos cantadô,
desses caboco afamado,
qui nos verso improvisado,
sirrindo, cantáro o amô;
cantando choraro as mágua:
Brasi de Pelino Guedes,
de Inácio da Catingueira,
de Umbelino do Texera
e Romano de Mãe-d’água!
É o Brasi das caboca,
qui de noite se dibruça,
machucando o peito virge
no batente das jinela...
Vendo, os caboco pachola
qui geme, chora e soluça
nas cordas de uma viola,
ruendo paxão pru ela!

É esse o Brasi caboco.
Um Brasi bem brasilero,
sem mistura de instrangêro
Um Brasi nacioná!
Brasi, qui foi, eu tô certo
argum dia discuberto,
pru Pêdo Arves Cabrá!!!

***

Um comentário:

Isaac Melo disse...

Caro Anchieta,
Zé da Luz possui aquela sabedoria inata que para muitos só se alcança por longos e longos anos em bancos de academia e ainda de forma imperfeita.
Itabaiana, como esse nome me soa bem. Só me lembro o outro grande Zé, o Lins do Rego, Fogo Morto. Paraíba, Oh! torrão frutífero!!!

Um grande abraço!