terça-feira, 15 de setembro de 2009

Conversando com minha morte

Há um encontro marcado entre nós dois...
E não nos é permitido
deixar de consumá-lo.
Não sei em qual momento,
nem sei em qual lugar...
mas, virás!
Então me levarás por mundos desconhecidos...
onde não sei se "descansarei em paz",
onde não sei se me cansarei bem mais...

Esse é teu jeito de ser: - uma incógnita!

Ninguém sabe, aliás,
onde moras,
como és,
donde vens,
nem quando virás...

És imprevisível!

E embora nosso encontro seja inevitável,
serás tu que virás até mim,
pois não pretendo buscar-te
para a celebração do meu suposto fim.

Desde criança imaginei-te a mais cruel das criações,
pois no contexto de todos os contextos,
sempre foste para mim
a mãe da maldade universal!
E assim...
alimentei um terrível pavor de ti
e te odiei com toda a amplitude...
pois tu eras simplesmente o próprio mal.

Um dia, porém,
resolvi desmascarar-te!
Vasculhei o meu mundo de ilogismos
e fui encontrar-te na raiz
de minha própria gênese...
... e na perenização de minha espécie...
condutora de imorredouros egoísmos.

Mas, deixa isso pra lá!

O que eu quero é estar preparado para receber-te...
e como um lunático que espera
a sua namorada imaginária,
eu te esperarei...
com a inquietude
de um condenado,
com a incerteza de quem não sabe para onde está indo,
mas trazendo dentro de mim
a mansidão de um cordeiro a ser imolado.

Então,
eu quero que tuas asas
deslizem macias pela amplidão...
pelo desconhecido...
e me levem a mundos melhores do que este,
já que este tão insano me tem sido.

Sabes?
Tenho tentado preparar-me para receber-te,
com um sorriso nos lábios...
sereno e enternecido...
E até saudar-te como se procede
no reencontro com uma velha amiga...
- E eu sei que isto me será permitido.

Ah! Se possível,
quero preparar-te
uma roda de samba,
um forró de pé-de-serra,
ouvir “assum preto” e o “último pau-de-arara”,
pela última vez...
e não me acuses de insensatez!

Sim, amiga,
eu tenho certeza de que um dia virás...
mas, quando enfim decidires,
por favor...
chega sem barulho,
sem confusões,
sem atormentar-me,
sem desesperar ninguém...
e leva-me... leva-me... leva-me...
                      
Leva-me pelo além,
mas, com a ternura que por vezes tens...
leva-me, se possível,
sem fazer sofrer ninguém!
sem aquele doloroso e interminável suspense...
leva-me ao doce som de alguma valsa vienense...

Descobrirei, por fim,
que moravas aqui,
dentro de mim!

Não quero lágrimas,
não quero orações,
não quero rezas,
não quero cantos fúnebres,
não quero cultos,
não quero missa!
Leva-me em paz...
Ó mais profundo símbolo de justiça!

(Anchieta)

2 comentários:

Isaac Melo disse...

Anchieta,
já li muitos poemas, mas nenhum tão belo, lúcido e verdadeiro como este acerca da morte.
É o que tenho dito: és o grande poeta, atualmente, do nosso Acre!

Um forte abraço meu amigo!

Dona Chicosa disse...

"...Sem fazer sofrer ninguém!" é bem pouco provável... O poema é maravilhoso, embora saibas o quanto não gosto do tema achei-o belissimo.
Parabéns querido.