sábado, 10 de fevereiro de 2018

OS IRREVERENTES, OS TURRÕES E OS CATASTRÓFICOS


Tendo em foco as muitas formas de ser dos que conosco convivem, visitaremos hoje, sem a pretensão de abordagem mais profunda, três tipos de pessoas: os espirituosos irreverentes, os raivosos turrões e os catastróficos.
No folclore nordestino existem alguns personagens altamente festejados no mundo da “grossura”. Essas criaturas espirituosas e irreverentes sempre obedeceram a uma regra: se a pergunta é burra, a resposta tem que ser um coice.
Dentre eles, posso citar, embora não tenha conhecido nem um dos dois, seu Manduri, na cidade de Patos das Espinharas (Pb), e seu Lunga, lá no Juazeiro do Norte (Ce). Certamente que, em meio aos inúmeros fatos pitorescos que são contados e recontados, muitos deles foram inventados por aí e atribuídos a essas figuras mitológicas da “delicadeza”. Da forma como narram as piadas de que são protagonistas, forma-se a ideia, talvez até equivocada, de que tenham sido pessoas extremamente raivosas, brutas e permanentemente mal-humoradas. Realmente não sei se isso é verdadeiro, mas foi dessa forma que sempre os imaginei. Contudo, apesar de todo esse perfil de turrões e coiceiros que incorporaram, um lado bom eles trouxeram: a produção de piadas para fazer o mundo achar graça e descontrair a vida.
Em outro quadrante de nossa convivência, sem essa qualidade de pessoas espirituosas e irreverentes, encontramos aqueles que, em nosso dia a dia, sem fazer graça nenhuma, vivem esturrando e colocando fumaça pelas ventas, como se fossem os dragões dos filmes de ficção ou das historinhas que nos contavam quando crianças.  Estas pessoas são indubitavelmente doentes e simplesmente infelizes. Levantam-se da cama já raivosas e mal-humoradas, talvez porque em seus pesadelos, brigaram sem parar durante a noite inteira. Com certeza não vivem a vida. Estão naturalmente em conflito com tudo e com todos, principalmente com os próximos mais próximos. São pessoas indiferentes aos fulgores da vida, ao lado bom da convivência humana e aos encantos da natureza. Em suas realidades interiores, a vida não tem vida. É uma masmorra onde é proibido ser feliz.
Outro tipo é o que navega sempre nos mares da catástrofe. Trabalhei com uma moça que trazia, todo santo dia, uma novidade cruel em sua vida. Quando não era isso, ela sempre achava que algo terrível ia acontecer. E sempre acontecia. Era uma profetisa das tragédias. Nunca falava de algo venturoso, nem previa momentos de felicidade.  Como creio na “lei de atração”, tenho certeza de que a pobre coitada atraía a doença para o filho, a queda da avó, a batida do carro do marido, o assalto a sua casa, e outros infortúnios de seu cotidiano.
Passei uns dez anos sem vê-la.  Num encontro recente, vi que sua vida mudara para pior. De imediato ela foi abrindo sua caixa de tragédias:
- Me sinto velha e doente, meu pai morreu, estou desempregada, meu marido está preso, a enchente invadiu minha casa...
Ouvi sua ladainha silencioso e sem qualquer interesse. Depois aconselhei, mais uma vez, a voltar o pensamento para coisas boas. Aquele modo de ser, contudo, se transformou em uma doença crônica e sem remédio:
- Só pode ser castigo, professor. Isso não muda. Só acontece o que não presta – disse-me com voz trêmula e desesperançada.
Dei um jeito de abreviar aquele papo, alegando estar atrasado para um compromisso, e sumi dali o mais rapidamente possível.

Sem quaisquer frescuras ou crendices vulgares, creio que essas energias nos afetam.

sábado, 20 de janeiro de 2018

AS ILUSÕES DOS ILUDIDOS

(José de Anchieta Batista)
A realidade seria simplesmente sem graça, não houvesse o tempero do sonho e da ilusão. Não dá para alguém ser tão hostil consigo mesmo, e se fazer tão realista, a ponto de nunca se sentir um visionário ou sonhador. Isso é que faz nossos momentos da vida mais bonitos e enfeitados com as cores do arco-íris. Assim, conduzimos em nossas bagagens de malucos e desvairados, aquele saco, às vezes já roto, abarrotado das nossas pencas de sonhos e fantasias.
Sonhamos, sonhamos e sonhamos, porque é gostoso sonhar. Mas, com certeza, não podemos chamar de sonho, o sonho que se sonha sem os pés no chão. Isto é muito mais uma ilusão, porque o verdadeiro sonhar é palpável, e está ali presente na luta de cada um, sendo trabalhado em cada momento da vida. A ilusão, não.  O sonho exige a luta, enquanto a ilusão requer tão simplesmente as asas da imaginação, do devaneio, da maluquice de cada um. E assim se desenham as realidades de cada visionário, de cada sonhador.
Os sonhos vão nos embalando com mais concretude, porque os sonhos têm algo de sagrado. As ilusões, por nos enganarem tanto, têm um quê de mentira e falsidade, e, talvez por isso, sejam tão cheias de encantamento. E lá estão elas bem guardadinhas em nossos armários da alma. Umas já caducas, outras recém-nascidas; algumas já mortas, mas insepultas; outras bem moribundas, mas que teimam em não morrer. E neste contexto, alguns ideais se transformam em ilusões, enquanto muitas ilusões evoluem e se fazem ideais. As ilusões enfeitam o lado psicodélico da vida, para que não morramos de tédio todos os dias. Sim, porque elas são renováveis ou repintadas todos os dias, e parece que quando se vão, também com elas nós morremos um pouco. É isso aí. Não é somente o sonho que impulsiona a vida. A ilusão muito nos ajuda a viver, e faz uma falta danada quando se desfaz ou perde suas cores. Não trago comigo qualquer dúvida de que na vida somos carentes de sonhos, mas ... o que seria de nós sem o fabuloso mundo da ilusão?
E já que abordamos a ilusão e o sonho, concluo transcrevendo aqui os versos de “Luzes da Ribalta”, daquele gênio chamado Charles Chaplin:
“Vidas que se acabam a sorrir,
Luzes que se apagam, nada mais.
É sonhar em vão, tentar aos outros iludir,
Se o que se foi,
P´ra nós não voltará, jamais.
Para que chorar o que passou,
Lamentar perdidas ilusões,
Se o ideal que sempre nos acalentou,
Renascerá em outros corações?”.
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

RECORDAR É VIVER (OU AJUDA A MORRER)

No primeiro dia de 2018,  resolvi ouvir algumas “pérolas” do Adoniran Barbosa. Dentre elas, o “Apaga o Fogo, Mané”, com os Demônios da Garoa. A letra relata a desdita do pobre do Mané, abandonado pela Inês.

Hoje, consideradas as exceções que todos conhecemos, as letras se recheiam de lugares-comuns de tanta mesmice e mau-gosto que poderiam ser escolhidas umas 10 melodias como padrão, e nelas apenas adaptar novas letras falando bobagens. Até o falar de amor, parece ter entrado para o rol das babaquices. Não há criatividade. A alma da humanidade está morrendo.

ATENÇÃO: Não estou contra nem a favor de estilo nenhum. Até aprecio algumas “dores de cotovelo” de determinados bregas.
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APAGA O FOGO, MANÉ (1956) – ADONIRAN BARBOSA

Inês saiu dizendo que ia
comprar pavio pro lampião
- pode me esperar, mané,
que eu já volto já.
Acendi o fogão, botei água pra esquentar
e fui pro portão só pra ver Inês chegar...
Anoiteceu e ela não voltou,
fui pra rua feito louco
pra saber o que aconteceu.

Procurei na central,
Procurei no hospital e no xadrez,
andei a cidade inteira
e não encontrei Inês...
Voltei pra casa triste demais,
o que Inês me fez não se faz...
E no chão, bem perto do fogão,
encontrei um papel escrito assim:
- pode apagar o fogo, mané,
que eu não volto mais.

domingo, 17 de dezembro de 2017

MOMENTO DE DESENCANTO - (Anchieta Batista)

Vivemos hoje perdidos
Sob o domínio do mal,
Um sofrer descomunal,
Um desencanto profundo...
Só restou a insensatez,
O desamor, a inclemência,
A guerra, a dor, a violência,
Tomando conta do mundo...
.
Poluindo e destruindo
Rios, pântanos e mares,
Desde as calotas polares
A chegar na estratosfera...
Matando a flora e a fauna
E seu próprio semelhante,
O homem é, neste instante,
Um louco, um traste, uma fera.
.
Quem devia dar exemplo,
Usurpa o ouro do trono...
E o povo no abandono,
Sem ter circo e sem ter pão...
E esta maldita sujeira
Vem também manchar a toga
E a gente sente que a droga
Quer destruir a Nação.
.
Sem uma metralhadora,
Canhão, pistola ou fuzil,
Nas grotas deste Brasil,
Tento esconder-me ou fugir...
Mas de repente descubro
Que hoje sou prisioneiro
E nem mesmo no estrangeiro
Eu tenho pra onde ir.
.
Como lutar? Vou-me embora!
Vou-me embrenhar na caatinga...
E não me façam mandinga
Pedindo p´ra eu ficar...
Com desdita ou sem desdita,
Mesmo com sede ou com fome,
Não chamem mais por meu nome,
Pois eu não quero voltar.
.
Talvez até que eu me arrisque
Sumir por alguma estrada,
Sem despedir-me de nada,
Sem dar adeus p´ra ninguém...
Montado num burro brabo
Dos que dão coice no vento,
Sem lenço e sem documento
E sem destino também.
.
Sem portar identidade
Nem também um telefone,
Vou passear num ciclone
Por este espaço sem fim...
Sem um rumo definido,
Sem pousada ou endereço
Esqueçam todo o apreço
Que já tiveram por mim...
.
Nunca me vi tão cansado,
Tão assim desiludido,
Acabrunhado e perdido,
Olhando um mundo sem jeito...
É triste a realidade,
Que minha mente hoje alcança,
Mas espero que a esperança
Volte a morar no meu peito.
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domingo, 10 de dezembro de 2017

VISITANDO MINHA MÃE






Estive, nesses últimos dias, em Campina Grande, Paraíba, visitando D. América, minha mãe. 
A querida sobrinha Maysa Batista, advogada e poetisa, registrou o momento do reencontro:



DEUS TE CRIE PARA O BEM!
(*) Mayza Batista

Eu estava lá. Eu vi. E não quero nunca esquecer.
Havia um jardim. Humilde jardim de canto de parede.
Algumas flores de cor rosa, que sequer sei nomeá-las.
Havia uma brisa leve, que mesmo invisível, também compunha o cenário.
Era um encontro entre duas almas.

Eu estava lá. Eu vi. E não quero nunca esquecer.
A mãe que espera seu filhinho amado, que há tanto não via.
À sua espera, a casa foi arrumada e os lençóis trocados.
O cheiro de amor, estava em cada canto da casa.
E amor tem cheiro? Amor tem cheiro sim!
Amor também tem sorriso, tem expectativa e tem café na mesa.

Eu estava lá. Eu vi. E não quero nunca esquecer.
”Cheguei mamãe!”
“Deus te abençoe, meu filho”
Ele que trazia só alegria. Também trazia a saudade do pai que já partiu.
Ao vê-lo, ela chorou.
Lágrimas de alegria, lágrimas de saudade, lágrimas de gratidão.

Eu estava lá. Eu vi. E não quero nunca esquecer.
Eles se abraçaram e eu pude registrar a cena na memória.
Havia uma aura luminosa naquele abraço.
Os pássaros cantavam e a brisa os envolvia.
Sem fotos, sem filmagens. Elas não conseguiriam captar a essência daquilo.
O invisível estava sendo visto. O indizível estava sendo dito.

Eu estava lá. Eu vi. E não quero nunca esquecer.
Talvez nem eles tenham percebido, mas me parece que aquele abraço durou uma vida.
Mais precisamente 89 anos dela e 72 anos dele.
O primogênito dos 11 filhos que ela teve, estava em casa.
Não é porque já é avô que deixa de ser filhinho. Um dos filhinhos dela.
E, ainda, quando pede a bênção à sua mãe, sorri com a resposta:
 “Deus te crie para o bem!” 
Tenho certeza de que já o criou.

Me peguei a pensar no quão privilegiados eles são.
Será que se dão conta disso?
Ela de 1928. Ele de 1945.
Hoje, 2017.
Talvez eu quem seja a privilegiada.
Porque eu estava lá. Eu vi. E não quero nunca esquecer.

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(*) ,Mayza Batista (minha sobrinha) é advogada e poetisa

sábado, 30 de setembro de 2017

NÃO SOMOS O QUE SOMOS (Anchieta)

O que quero hoje, aqui neste espaço, é realmente afirmar que não somos o que parecemos ser. As regras do mundo, aliadas a nossas idiossincrasias, vão forjando e dando cores ao indivíduo. A sociedade, desde nossa mais terna idade, vai nos travestindo daquele ser humano que ela acha que devemos ser. Os ambientes e as pessoas com quem vamos convivendo, vão moldando nossa individualidade, que não é nada individual, já que não nos pertencemos. Somamos saberes, ignorâncias, maluquices, virtudes, e tantas outras coisas que dão conteúdo e forma ao ser que é construído em cada um de nós. Ao cabo dos anos, ficamos prontos para coisa nenhuma, porque estamos sempre inacabados. Se nos inventariarmos de forma destemida, considerando aquele desejo de nossas mães em nos fazermos “homens de bem”, veremos que, na verdade, nos tornamos simulacros do que gostariam que nós fôssemos. Forjamos aparências e gritamos ao mundo que somos o que realmente não somos. Tornamo-nos uma espécie de Frankenstein. Armazenamos personagens os mais diversos.  E vamos por aí, dando nosso jeito para escolher, dentro de nós, o artista mais adequado para, no palco da vida, contracenar com o mundo, em cada nova situação. Uns mais e outros, menos, vamos assimilando a grande filosofia de vida que impera entre nós: a hipocrisia.
 As coletividades, os grupos sociais, os ajuntamentos de pessoas, são a soma de todos os indivíduos que os compõem, com seus costumes, suas culturas, suas doenças morais, suas desigualdades, suas angústias, suas dores humanas, seus sonhos, suas desesperanças, seus paraísos e seus infernos. E em meio a todos, estamos nós, com o peso de nossas bagagens pessoais. 
Nessa longa caminhada, não somos autênticos nem transparentes. Por medo, por conveniência, ou por deformação moral e ética, escondemo-nos por trás de alguma das máscaras que trazemos conosco e, cotidianamente, lutamos por fazer crer aos outros, que não somos o que verdadeiramente somos.
Independentemente de nós, o tempo passa. E durante toda a vida, com nosso dedo em riste, apontamos sempre para os outros, atribuindo-lhes a culpa por nossos infortúnios e insucessos. É a regra mais fácil. E assim, aprendemos a pôr em prática a vida, sob o comando da hipocrisia.
Deixo com o divino homem da Galileia, o fechamento desta crônica:
- “Raça de víboras”!  “Sepulcros caiados”!

Isso é comigo, é com você, é com todos nós!

sábado, 23 de setembro de 2017

QUEM SOMOS? DE ONDE VIEMOS? PARA ONDE VAMOS?

          Neste momento, olhe ao redor de si. Pergunte-se, então, quem é você, o que está fazendo aqui nesta confusão de mundo, como deve viver a própria vida e, por fim, para onde você irá, quando bater as botas.
Esses questionamentos são suficientes para deixar louco qualquer um que tente mergulhar com profundidade na busca de respostas irrefutáveis. Contudo, para avançar em busca da verdade, é imprescindível despir-se de medos e ideias preconcebidas. Que confusão!
Se acreditamos que somos seres eternos, mas que estamos passando por algum estágio na Terra, admitimos que vivemos aqui uma espécie de segmento de nossa própria eternidade. Assim, admitimos nossa existência bem antes de aqui nascermos e que, depois da morte, continuaremos a existir em algum lugar do Universo. Por outro lado, se acreditamos que somos seres que iniciamos nossas existências aqui mesmo, no momento em que fomos paridos, temos duas possibilidades:
-  A primeira se resume a um pequeno tempo de vida aqui na Terra, talvez uns oitenta anos. Nesse caso, tem-se por premissa que viemos do nada, fomos gerados pela união de um espermatozoide com um óvulo, nascemos nove meses depois, vivemos, morremos e voltamos a ser nada. Pronto, acabou-se! “Tu és pó e ao pó retornarás!”. 
- A segunda, é que continuaremos a existir depois da morte, em algum lugar que ninguém sabe onde, e para onde viajaremos a fim de vivermos, para sempre, no gozo das bem-aventuranças, ou condenados a um suplício eterno.
Minha opinião sobre como você deve pensar? Juro que não sei. Alguém já disse, com muita propriedade, que “ninguém crê no que quer; crê no que pode crer”.
Muitos nem pensam em questionar minimamente nada. Melhor deixar isso pra lá. É preferível não mexer com esses mistérios.  E veem o ciclo da vida por uma ótica tão simples, que o ato de viver é uma passagem fútil aqui por este mundo. Tudo se resume em: nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Pronto. Nada mais. - “É bem mais fácil que as religiões digam quem sou, de onde venho e para onde vou.”.

Para mim, é mais lógico, mais confortável, mais justo e menos doloroso, que aqui eu esteja cumprindo um estágio de meu eterno caminho. E assim prosseguirei pensando, convicto de que minha existência tem um sentido bem maior do que na visão comum. Creia, porém, que respeitarei sempre a forma como você se posiciona no contexto de tudo.
(Anchieta) 

domingo, 17 de setembro de 2017

SIMPLESMENTE DEUS

Hoje acordei pensando em Deus. Não sei por quê. Afinal, Deus é um ser que não me preocupa. Cada um o concebe da forma como pode alcançá-lo. Não me interessa o que pensem de mim por causa disso. Se me julgam herege, ateu, amigo dos capetas, ou condenado ao Inferno, nada me abala. Mesmo assim, saibam que, mesmo descrente nos deuses impostos pelas religiões, não sou ateu. Creio em um Poder Superior, do jeito que pude compreendê-lo, e tenho minha forma personalíssima de com Ele me relacionar.
Volto no tempo. Lembro-me da primeira recitação que fiz em um evento público, no seminário onde eu estudava.  Foi uma semana inteirinha de preparação para o Dia das Mães. Os padres eram – como ainda hoje o são - muito caprichosos. Coral, monólogos, esquetes, poesias etc., tudo tinha que estar na ponta da língua e muito bem ensaiado em todos os detalhes. Afinal, teríamos presenças importantíssimas, como Dom Zacarias, os padres da diocese, as freiras e as alunas do Colégio N. S. de Lourdes, além das famílias dos seminaristas.  Muitas mães lá estariam. Dona América, contudo, morava longe e, pelas poucas posses, claro que não poderia estar lá.
Coube-me recitar o poema “Deus”, de Casimiro de Abreu. Doze versos, em três estrofes, que me fizeram perder o sono naquelas noites que precederam o grande momento. Vamos aqui transcrevê-los, mesmo na certeza de que quase todos os conhecem e talvez já os tenham também recitado em criança:

                                       DEUS

                Eu me lembro! Eu me lembro! - Era pequeno
                E brincava na praia; o mar bramia
                E, erguendo o dorso altivo, sacudia
                A branca escuma para o céu sereno.

                E eu disse a minha mãe nesse momento:
                “Que dura orquestra! Que furor insano!
                “Que pode haver maior do que o oceano,
                “Ou que seja mais forte do que o vento?!” -

                Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus
                E respondeu: - “Um Ser que nós não vemos
                “É maior do que o mar que nós tememos,
                “Mais forte que o tufão! Meu filho, é Deus! ”

Parece que me saí até bem. Pelo menos, bateram palmas e muitos dos presentes, inclusive o Senhor Bispo, deram-me os parabéns.
Lembro hoje aquele momento com certa saudade, mas minha intenção aqui, é mesmo outra. Quero afirmar que ninguém é obrigado a acreditar em Deus. Também é absurdo que queiramos que os outros o concebam da mesma forma como nós o concebemos.  A grande maioria das religiões, cada uma a seu modo, se propõem fazer isso, mas utilizando-se do terror de um Inferno eterno após esta vida. Isso nada me vale, porque, hoje, creio convictamente na reencarnação, embora respeite aqueles que não a admitem.
Volto à mensagem do poema, para reforçar o óbvio. Seria sem sentido acreditar num Deus que não fosse Todo Poderoso. Dessa forma, o jovem poeta Casimiro de Abreu, falecido aos vinte e três anos, traduziu isso, mediante extraordinários fenômenos da Natureza.
Minha infância se foi. Vivi, pela vida afora, perguntando-me como seria realmente este Ser que chamamos de Deus. Nunca me veio uma resposta convincente, nem da Teologia, nem das religiões, nem dos livros, nem dos sacerdotes, nem das diversas filosofias, porque nesses espaços Ele é muito pequeno e imperfeito, na forma como é visto e traduzido.
Concluo afirmando que a melhor forma de concebermos esse Deus indefinível é nos sentirmos, cem por cento, parte integrante da Natureza, e mergulharmos no mais profundo de nosso ser, rebelando-nos contra as ilusões e mentiras que insistem em nos impor. Deus está vivíssimo na Natureza!  Deus está vivíssimo em nós! Lembremo-nos de que nós também somos deuses!

sábado, 26 de agosto de 2017

FAZ VERGONHA O GILMAR MENDES (Anchieta)

Ó Deus, fazei do Brasil
A Pátria com que se sonha...
Livrai-nos deste covil
Que nos afronta e envergonha!

Há muito que vivo puto
Com esta esculhambação:
Há quem eleja o corrupto,
Há quem proteja o ladrão!

Se vejo um Gilmar ministro
Do Supremo Tribunal,
Todo o restante é sinistro,
E o desarranjo é total.

Gilmar, respeita a agonia
De um povo triste e infeliz,
Some! E esquece que um dia
Tu te fizeste juiz.

Como tal tu nos ofendes ...
- Seja com vara ou sem vara –
Vai-te embora, Gilmar Mendes,
Criar vergonha na cara!

Neste mal que nos afoga,
Teu cinismo continua ...
Devolve logo essa toga,
Que ela é do povo e não tua.

Quem se faz um desonrado
Na nobre missão que tem,
Dando guarida ao safado
Vira safado também.

Ó Deus, fazei do Brasil
A Pátria com que se sonha...
Livrai-nos deste covil
Que nos afronta e envergonha!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

DO FUNDO DO BAÚ

            Nesta semana, o velho amigo Ênio Machado revirou meu poeirento baú e retirou, lá do fundo, uns versos meus, dos quais nem me lembrava mais. Coisas de meus tempos de juventude, sempre acometido de "apaixonites agudas” quase imorredouras. Reminiscências de uma época em que sonhávamos acordados ... em que o amor era sempre um êxtase indescritível, e o desamor doía demais! Matava por dentro.
Agora, ninguém se posta mais na janela para ver alguém passar; já não existe o vaivém na praça, em busca de um olhar, de um aceno, de um sorriso; não mais se passeia de mãos dadas; não existe mais o “eu te quero”, o “eu te amo”, o “eu te adoro”, em cartinhas ou bilhetinhos perfumados; não se ouve mais uma serenata na madrugada; não se fala mais em primeiro abraço, em primeiro beijo, em primeiro amor. Até parece que vivemos o entardecer dos sentimentos. Até parece que agora tudo nasce frio e sem vida... e desaparece como se nunca houvesse existido. Tudo passa disforme e efêmero como as nuvens passam. A vulgaridade desvirtuou tudo e, assim, já não se "morre" mais de amor e de saudades.
Ah, como eu preferia aquelas dificuldades de meu mundo romântico.
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Eis os versos que o Ênio me relembrou:

TRISTE APELO
Se queres mesmo o fim deste sonhar,
Risca meu nome dos teus alfarrábios,
Esquece a luz do meu tristonho olhar,
Desculpa o mel que te roubei dos lábios!

Se julgas que entre nós tudo morreu,
Só nos resta um adeus neste momento...
Para que prosseguirmos tu e eu,
Se te convém buscar o esquecimento?

Rasga todos os versos que te fiz!
Olvida meu amor e meu carinho!
Se junto a mim jamais serás feliz,
Não serei mais a pedra em teu caminho!

Esquece nossas íntimas carícias,
Se é que assim tu viverás em paz...
Nossos beijos e todas as delícias
Do nosso amor... - Não te recordes mais!

Amargos prantos o meu rosto cobrem,
Mas não te cause pena a minha dor!
Segue feliz! E dentro em ti não sobrem
Sequer as cinzas deste nosso amor!

Mas, se souberes que um desventurado,
Viveu do amor e nele pereceu,
Reza uma prece pelo desgraçado
Pois pode ser que tenha sido eu!
                                          (Anchieta)

ANTE UM DESRESPEITO ABOMINÁVEL CONTRA A FÉ CATÓLICA

(Publicado no Jornal “Página 20”, de 23/08/2017 – Rio Branco – Acre) 

Não combato as religiões. Respeito-as todas. Minha indignação é contra as práticas que se utilizam da fragilidade, da desesperança, da ignorância, e até mesmo da ambição humana, para promover assédios e lavagens cerebrais. Assim, minhas posições não são contra as religiões, nem contra seus seguidores. Respeito suas crenças, seus dogmas e a forma como concebem o sagrado. Contudo, discordo, e discordarei sempre, de comportamentos obtusos, praticados por aqueles que venham, por quaisquer meios, tolher liberdades, promover a discriminação ou ofender nossos semelhantes.
Os que me conhecem um pouco mais, sabem que nasci em berço católico, estudei em seminário de padres, mas que atualmente não me posso dizer um católico. Hoje, com todo o respeito a minhas origens, sou orgulhosamente umbandista. Muitos ignoram e discriminam a Umbanda, tratando-a como algo fora de Deus. Não é bem assim. A Umbanda é um ritual de vida que se inicia na reforma íntima e que busca o Sagrado na própria Natureza.
Por minhas posições acima, meu desabafo aqui, não é como um adepto do catolicismo, mas como ser humano que respeita seus semelhantes em suas diferenças e em suas escolhas, sejam elas religiosas ou não. Vejam bem: eu não pratico somente o que chamamos de TOLERÂNCIA, porque, acima disso, eu acredito mesmo é no RESPEITO. E quero deixar bem claro que eu não respeito o desrespeito. Jogo duro com isso.
Nesta semana, tive notícia de algo que muito mexeu comigo. Quero, então, disparar aqui uma flecha contra o cara que inventou a Igreja Plenitude. Há alguns dias este meliante, maluco, vivaldino, e não sei mais o que, cometeu um desrespeito contra os irmãos católicos. Ridicularizou uma divindade da maior expressão, Nossa Senhora, comparando-a, juntamente com os Santos da Igreja, a uma garrafa de Coca-Cola. Trata-se de um tal Agenor Duque, que há algum tempo se autoproclamou Apóstolo, e que realiza suas pregações trajado de mendigo, mas que no dia a dia dirige um Porsche ou uma BMW e cruza os céus num jatinho Cessna Citation, conforme publicou recentemente a Revista Época.
Expresso aqui toda minha indignação contra a atitude criminosa deste imbecil. Este idiota cometeu, acima de tudo, uma babaquice anticristã!
Queridos irmãos católicos, estamos juntos. DEUS É UM SÓ e TODOS SOMOS UM!
Concluo, lembrando que aquela frase de Jesus agonizante “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”, não cabe a este sujeito. Ele sabe muito bem as safadezas que pratica.

sábado, 12 de agosto de 2017

====> OS BRUZUNDANGAS E A ARTE DE FURTAR

(Anchieta)
O que tem acontecido neste nosso país reforça-me a convicção de que somos realmente moradores da Bruzundanga. Quem não sabe ou não se lembra o que significa pertencer àquele país, imaginado por Lima Barreto, deve ler ou reler “Os Bruzundangas”. Afirmei que o autor, morto em 1922 com 41 anos, teria “imaginado” um país, mas o que realmente fez foi transferir para o papel um Brasil vivido por ele e por seus contemporâneos naqueles recém-declarados “Estados Unidos do Brasil”. Fez isso de forma satírica, mas baseado num ambiente real, em que a esculhambação já era historicamente dominante. Os desmandos, a pouca-vergonha, a corrupção, e outros males que estão no DNA brasileiro, já eram praticados sem o menor pudor. Hoje, passados quase cem anos (o livro foi editado em 1923, ano seguinte à sua morte), vemos que tais descaramentos continuam de forma bem mais “modernizada”.
O livro “Os Bruzundangas” é prefaciado pelo próprio autor, que já insere na primeira página, uma curiosa citação extraída do Capítulo IV da “Arte de Furtar’: “Como os maiores ladrões são os que têm por oficio livrar-nos de outros ladrões".
Esta foi a frase com a qual Lima Barreto ilustrou e sintetizou a nova elite que passou a ocupar os postos de mando nos primeiros anos de república. Os novos mandachuvas, como os tratava, traziam as mesmíssimas mazelas copiadas das práticas utilizadas no império. Só houve uma passagem de bastão.
Quanto à obra “Arte de Furtar”, nunca a li. Num passeio pelo Google, tive notícia de que foi entregue a D. João IV em 1652, mas só um século depois teria tido sua primeira impressão. Sobre a autoria, uns a atribuem ao Padre Antonio Vieira, outros ao jesuíta Padre Manuel da Costa. Não pude colher, entretanto, uma plena certeza de quem teria sido o verdadeiro autor.
Já li e reli “Os Bruzundangas”, mas a “Arte de Furtar” só agora entrou em minha lista de espera. Brevemente percorrerei seus capítulos. A razão de minha decisão é que, ao consultar o “index” de uma edição histórica do livro, achei muito interessantes os temas abordados em cada capítulo. São setenta. Os dois primeiros afirmam, em tom de sarcasmo, que furtar é uma arte, que é uma ciência e que furtar é muito nobre. E por aí vai, de forma nitidamente crítica e irônica, citando e descrevendo os ladrões e a roubalheira da época.  Adivinhem sobre o que se ocupa o último capítulo? Imaginaram? Pois bem, o septuagésimo capítulo trata exatamente do “desengano geral”, isso que continuamos a sofrer em nosso Brasil.
Desculpem-me dar uma olhada no retrovisor de minha existência.
Naquele sertão inóspito de minha Paraíba, em meados do Século XX, eu vivia na Bruzundanga do Lima Barreto e não sabia. Lembro-me de que, na execução dos programas de emergência, criados pelo governo para ocupar sertanejos famintos e necessitados, eram explícitas as desumanas tramoias praticadas. Roubavam descaradamente o pouco que ali chegava em socorro aos retirantes e flagelados da seca. Naquele cenário de aflição e dor, nunca pude esquecer o mais triste dos fatos que presenciei: Certo dia, os urubus voavam em círculo, sobre uma capoeira ressequida e pedregosa. Denunciavam o cadáver putrefato de uma velhinha que desaparecera de nossas portas.  Morrera, com certeza, de fome e sede. Foi algo que chocou todo mundo.
Nasci em meio a uma gente realmente humilde, pobre e desprezada, onde a mais nutriente alimentação era o poder da fé. Meu povo recebia tudo como vontade de Deus e a Ele agradecia por suas dores e prantos. A seca estava sempre ali massacrando. Era uma gente pedinte, miserável e ignorante, que não conhecia nem sabia reivindicar direitos, mas que se dizia “feliz, graças a Deus! ”. E enquanto os velhos coronéis e raposas políticas de então se autoproclamavam salvadores do povo, a desgraça de minha gente se perpetuava. Na verdade, eles não queriam que nada mudasse.  Alimentavam-se politicamente daquela penúria. Eram também abutres.
Olho o Brasil de hoje. Em todos os recantos, continuamos a respirar a mesma fedentina provocada pela mesmíssima disenteria moral e ética.
Estamos em 2017. Os mais recentes fatos, a que todos assistimos, servem para carimbar a minha certeza de que vivemos numa república onde a pouca-vergonha e o cinismo continuam a imperar.
Viva a Bruzundanga! 

sábado, 5 de agosto de 2017

========== O NOSSO MANICÔMIO ==========

(Anchieta Batista)
 Para começar, ressalto que não possuo qualquer formação acadêmica em qualquer uma das ciências que cuidam das psicopatologias, ou de algo parecido. Meu jeito de ser não se enquadraria. E isso é verdade. Imagino-me nesta condição, como discípulo de Freud, tratando de pacientes malucos como eu. O consultório se tornaria um ambiente de desvarios mútuos, em que o meu lugar, n´algumas vezes, deveria ser o divã, e o cliente, tido como doido varrido, passaria a dirigir a sessão de cura. Não estou com gozação. Em se tratando deste assunto, embora eu nunca tenha buscado os diagnósticos das minhas patologias da alma, decerto devo estar enquadrado num rosário de diversificadas esquizofrenias. E elas só não são mais vistas, inclusive por mim mesmo, porque todo o mundo padece de males congêneres, com afetação individual ou coletiva. Não é falsa aquela frase da música de Sílvio Brito: “Tá todo mundo louco!”. E não tem jeito. Ou você é louco ou a sociedade o obriga a sê-lo.
Amigos, não tenho qualquer dúvida de que o mundo nada mais é do que um enorme manicômio. O Planeta Terra é um grande celeiro de desequilibrados comportamentais. É só observar. Uns mais, outros menos, mas todos temos algum parafuso frouxo ou fora do lugar. O interessante é que, pelas convivências mantidas nestes meus setenta e dois anos de vida, nunca vi um doido que admitisse ser doido. Quanto mais maluco, mais se julga plenamente são.
Nesta permanente confusão esquizofrênica, tenho exercido cotidianamente as minhas maluquices, mas estou sempre de olho nas doideiras dos companheiros de jornada. Por isso, contarei aqui uma historinha que me ficou bem gravada:
- Há alguns anos, tive que me submeter a exames complementares de um concurso público. No consultório do médico que emitiu meu laudo neuropsiquiátrico, vivi um momento muito peculiar. O homem de branco, depois de responder por entre os dentes, ao meu ‘boa-tarde!”, apontou-me uma cadeira e me mandou sentar. No mesmo instante, levantou-se, bateu três vezes na mesa com as palmas das mãos, rodeou-a apressadamente, voltou a bater mais três vezes, sentou-se de novo, ajeitou os óculos na cara, assobiou algumas notas musicais e iniciou um rápido interrogatório sem pé nem cabeça. Nunca me esqueci daquela cena. Até hoje acho que, entre nós dois, o mais maluco naquela sala, era exatamente o doutor. Nosso diálogo não demorou mais de dez minutos. Saí dali apto para ocupar meu cargo público. Tudo plenamente normal. Nada fora da bitola. O mundo é assim mesmo. Doido cuidando de doido.
A vida, para mim, nada mais é do que um vai e vem de desatinados, que se cruzam incessantemente, numa ciranda sem fim. É uma eterna tragicomédia, num cenário de vida e morte, em que os atores se sucedem, ao som de uma sinfonia em que predomina o pranto.
Como creio num Deus perfeito, só posso admitir que, por trás de tudo isso, exista um sentido que não conseguimos compreender.
E haja malucos!

domingo, 30 de julho de 2017

PRA QUE TANTA RIQUEZA, SE A PESSOA / NADA LEVA DAQUI PRA SEPULTURA?

(*) Zé Adalberto – Itapetim-PE

Muitas vezes, sozinho, eu me pergunto:
Pra que tanta riqueza, se depois
Que o caixão encostar e couber dois,
O amigo melhor não quer ir junto?
Pra que cara fragrância, se o defunto
Não exige perfume da “natura”?
Mesmo a alma é cheirosa quando é pura,
Mas o cheiro do corpo ainda enjoa.
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que casa cercada por muralha,
Se a cova é cercada pelo pranto?
Se pra Deus todos têm do mesmo tanto,
Tanto faz a fortuna ou a migalha.
Pra que roupa de marca se a mortalha
Não requer estilista na costura,
Se o cadáver que a veste não procura
Nem saber se a costura ficou boa?
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu me esconder detrás de um pão,
Se a miséria não bate em minha porta?
Pra que eu me cansar regando horta,
Se amanhã ou depois já é verão?
Pra que eu confiar no coração,
Sem saber quanto tempo a vida dura?
Se as feridas da alma não têm cura,
Quando é a ganância que as magoa?
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Não sou dono de ônibus nem de trem,
Mas enquanto eu puder me locomovo.
Pra que eu invejar um carro novo,
Se o transporte final nem rodas tem?
Nem me avisa dizendo quando vem,
Mas só anda na minha captura
E bem abaixo da sua cobertura,
Ele tem quatro asas, mas não voa.
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu toda hora dar balanço
No que eu tenho ou andar atrás de bingo?
Pra que tanta hora extra no domingo,
Se Deus fez esse dia pro descanso?
Pra que eu trabalhar feito um boi manso,
Se a chibata do dono me tortura?
Pra que eu reclamar de minha altura,
Se o que a mão não alcança, Deus me doa?
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu com dois olhos na barriga,
Se os da cara já são suficientes?
Pra que eu invejar os meus parentes,
Se eu já sei que o retorno é uma intriga?
A formiga que evita ser formiga
Cria asas, se torna tanajura,
Cresce a bunda demais, cria gordura,
Fica muito pesada e cai à toa.
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura

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(*) José Adalberto Ferreira (Zé Adalberto), nasceu no sítio Juá, Município de Itapetim – Pernambuco,  em 25 de junho de 1962.   Zé Adalberto não é cantador de profissão. Até os 25 anos de idade foi agricultor e, desde 1985, é funcionário público, na função de Auxiliar de Serviços Educacionais, lotado no Grupo Escolar Tereza Torres – Itapetim – PE. É um extraordinário poeta nordestino, tendo muitas de suas poesias publicadas em diversos livros e coletâneas. (Foto: O poeta em casa com esposa e filhos)
 (Informações colhidas do Blog “Itapetim.net – Poetas e Declamadores”)

PROCISSÃO DOS DESGRAÇADOS - Rio Branco - 1989 (Anchieta)

Crianças abandonadas,
Mendigos pelas esquinas,
Multidões desesperadas,
Prostituídas meninas.

Morando em rua sem nome,
Trajando sujos molambos,
Os párias morrem de fome,
Na miséria dos mocambos...

Procissão dos desgraçados,
Cortejo dos infelizes!
Dizei-me, ó desventurados:
- Quais são as vossas raízes?

Se não supondes suplício
Viverdes de circo e pão,
Então vibrai co´o bulício
Desses tempos de eleição!

Se não vos dói essa dor,
Nem vos sucumbe a agonia,
Então vibrai co´o sabor
Dos frutos da hipocrisia!


Nutri-vos com a promessa,
Aplaudi vossa desgraça...
Correi, correi, bem depressa,
Que hoje há comício na praça!