terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A GANGORRA

Gióia Junior

Quando eu desço, você sobe,
quando eu subo, você desce...
Lá fora dança a gangorra,
desde que o dia amanhece...

Desce e sobe, sobe e desce
num compasso sempre igual:
No centro, um ponto de apoio
prende a tábua horizontal!

Há borrões de sol vermelho
na loira manhã sem par,
e a gangorra não descansa,
sobe e desce sem parar...

A gangorra é como a vida,
nos movimentos que tece;
quando eu desço, você sobe,
quando eu subo, você desce...

Você, que ficou no alto,
não deve de mim sorrir;
você terá que descer,
quando eu tiver que subir!

sábado, 13 de novembro de 2010

O EU-DEUS

O EU-DEUS,
pisando forte,
machucando o chão,
mais que soberano...
Com a imponência de quem assinou a "ordem de serviço"
para a construção do mundo...
Não perde tempo:
- faz ecoar nas montanhas,
para que chegue aos ouvidos
de todos os reles e desprezíveis seres,
seu poder sobre todas potestades,
Infalível, extraordinário,
bem mais do que perfeito!
- Depois...
prossegue sem se despedir,
sem a concessão de um simples aceno...
e, inatingível em sua onipotência,
parece berrar lá dentro de sí próprio: - até amanhã se EU quiser!

- Coitado!

(Anchieta)

domingo, 7 de novembro de 2010

OS TRÊS MAL-AMADOS

João Cabral de Melo Neto
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas.
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus.
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

De tudo sobraram três coisas (do Livro: Encontro Marcado) - de FERNANDO SABINO

(Adaptação que se consagrou como filosofia descritiva dos momentos de nossa vida)
De tudo ficaram três coisas:
a certeza de que estamos sempre começando,
a certeza de que é preciso continuar
e a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar.
Façamos da interrupção um caminho novo,
da queda, um passo de dança,
do medo, uma escada,
do sono, uma ponte,
da procura, um encontro.

(muitos usam "sonho" em lugar de "sono")
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(Texto original da 4ª capa do romance "ENCONTRO MARCADO")
"De tudo ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava sempre começando, 
a certeza de que era preciso continuar
e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho novo.
Fazer da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro." 
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

AMIGOS,
DESCULPEM-ME!
Meu Blog tem ficado meio longe de mim. Fui sobrecarregado por outras ocupações. Em breve voltarei a postar.

Abraços.

Anchieta

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

VOCÊ DE VOLTA PARA VOCÊ!

Se você agora mesmo está se sentindo infeliz... nulo... desesperado... Não saia buscando, fora de você, soluções em lugar nenhum do universo! Nem nas ciências ocultas, nem nas ciências oficiais. Não haverá remédio, nem na psicologia, nem na parapsicologia, nem na psiquiatria,  nem nas religiões, nem nos seus deuses. Ninguém curará você, a não ser você.
Neste momento, dê um salto de sua cadeira ou leito, e mergulhe em seu confuso mundo interior!  Faça  um destemido inventário pessoal. Vasculhe tudo! Seja seu próprio peregrino, numa viagem de procura por você mesmo... Encontre-se e traga você de volta, mesmo que ainda confuso e não totalmente  desvencilhado do enorme cipoal em que se meteu. Limpe-se dos lixos que lhe jogaram, rebele-se e desfaça-se de todos os malditos deuses e demônios que lhe foram  impostos. Eles o escravizaram.  Mate-os! Extermine-os! Pratique um exorcismo!
Mergulhe-se cada vez mais em você... e expulse os medos que se escondem nos empoeirados escaninhos de sua alma. Em um novo estágio, você sentirá um bem-estar nunca vivido: - Sua liberdade.
A regra principal para tudo isso é que você se ame. Somente assim é possível cortar as amarras e os grilhões que o fazem prisioneiro. Ame-se o quanto puder, para que lhe seja possível lutar! Lute, lute e lute, porque você não nasceu para ser infeliz. Sua vida existe para ser maravilhosa. E se você aceitar alguma  ajuda... Que não seja de um  doutrinador de qualquer espécie (principalmente, dos religiosos)! Eles tentarão  reescravizar você! Tente caminhar você mesmo!
Ame-se procurando também distribuir amor, pois o amor não distribuído, não é amor.  É um ritual de egoísmos, onde também impera a infelicidade. Seja feliz amando os semelhantes. Para isso é preciso não se esquecer de que somente aquele que se ama de verdade tem amor de sobra para dar.
Em tudo isso, somente o amor é caminho para encontrar DEUS. Um Deus que mora dentro de cada um de nós. Este, sim! - O verdadeiro Deus!
Encontrou-o? Não se esqueça de festejar esta maravilhosa reconciliação, porque você encontrou sua cura! Neste momento, sentirá que você finalmente voltou a ser você! Curado e FELIZ!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O GRANDE AGORA


Prisioneiros do tempo e do espaço,  não nos apercebemos de que vivemos num imenso agora...  num agora que é simplesmente eterno! 
É uma ilusão pensarmos que o passado passou, porque o passado está acontecendo neste momento. Do mesmo modo, não devemos esperar pela felicidade do amanhã, porque o amanhã já está sendo vivido. 
Não esperemos por nada! 
É agora que devemos ser felizes!

(Anchieta)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

AI, SE SÊSSE!...

(ZÉ DA LUZ)
Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

VIOLA REINVENTADA:
video
Que show!!!
Obrigado à amiga virtual Maria Inês Simões (Fundadora da Academia Virtual Brasileira de Letras - AVBL), que me enviou este vídeo impressionante.
Nossa!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

TUAS MÃOS

Pablo Neruda
Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

domingo, 15 de agosto de 2010

METADE

(Oswaldo Montenegro)
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda, que triste.
Que a mulher que amo seja sempre amada,
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste.
Que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba,
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade, a canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor
e a outra metade... também.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE DEUS

Enquanto a verdade não se impõe,
Sobra-nos a tortura de conviver,
Em meio à ignorância da fé que é cega,
Num labirinto de mentiras e fantasias,
Curvados diante de um deus cruel.

Se eu fosse Deus...
O Deus maior que todos os deuses,
Soberano e perfeito,
A causa primária de todas as coisas,
O responsável por todas as existências,
Aquele que é "onipotente", "onisciente" e "onipresente",
Reconheceria as imperfeições de minha criação!

Se eu fosse Deus,
Decretaria logo o apocalipse,
Para pôr fim a esse roteiro, há muito anunciado,
de tão extrema e desumana crueldade...
Cumprir-se-iam logo essas tais escrituras e... pronto!

Se eu fosse Deus,
Saberia que os defeitos da arte têm origem no artista!
Então, corrigiria os descuidos que me negassem como Deus,
Faria voltar tudo à estaca zero,
Para reformular o meu projeto...
Jamais permitiria que de minha essência,
Única, pura e perfeita,
Surgissem todas as imperfeições,
Que de forma tão flagrante
Desabonariam meus atributos como um Deus.

Eu vedaria todas as contradições,
Proibiria todas as religiões,
Seria um Deus sem quebra-cabeças
E sem mistérios,
Não permitiria que escrevessem nada sobre mim
E a ninguém seria dado falar em meu nome.
- Eu me mataria como mentira,
Para me fazer nascer como verdade...

Se eu fosse Deus,
Mesmo diante de todos os esplendores da natureza,
Olharia para o ser humano
E me sentiria fracassado como Deus...
Então, talvez mais cômodo me fosse,
No ápice da revolta e do desgosto,
Aspirar em meu ser todo o universo
E mergulhar no niilismo absoluto.

Seria uma tragédia suprema corrigindo outra...
Mas, quem sabe?
- Um verdadeiro Deus surgisse desse novo nada!,
E perfeita fosse a nova criação!

Mas como não sou Deus nem posso sê-lo...
Bendigo o Deus real que mora em mim!

(José de Anchieta Batista)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

TIMIDEZ

                                              Cecília Meireles

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra calda
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.
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terça-feira, 13 de julho de 2010

PASSARELA CULTURAL


               No último fim de semana, domingo (11/07/2010), fui agraciado com um valioso presente:  - Uma matéria sobre o "Menino da Rua do Bagaço" foi inserida num dos Blogs mais interessantes que tive a oportunidade de descobrir e acessar.   Trata-se do PASSARELA CULTURAL, editado por DASLAN MELO LIMA.             
               Como nordestino, nascido lá em Teixeira - Paraíba, e residindo em Rio Branco, no Acre, tocam-me deveras os conteúdos ali inseridos. Embora não conheça Timbaúba, o Blog traz-me a sensação de passear por suas ruas, em meio a conhecidos, inclusive o próprio Daslan.
Como apaixonado por nosso Nordeste, mergulho sempre numa saudade indescritível desses ares nordestinos. É que em meu Nordeste todos os recantos se assemelham.    O Daslan é, indiscutivelmente, um magnífico poeta. Sabe dar alma aos assuntos que lhe tocam a alma. Fotografa com palavras os fatos e o ambiente.  O seu jeito de abordar as coisas transporta-me para junto de minha maravilhosa gente.  E tudo tem um cheiro especial das terras do meu Nordeste.
Ali se descortinam cenários inesquecíveis do agreste, da caatinga, da zona da mata, das praias e de seus coqueirais...
Ali estão, o juazeiro, o xiquexique, o avelós, a macambira, a jurema, a flor de muçambê...
Ali se saboreia uma buchada de bode com pinga...  numa farta mesa com pão de milho, feijão verde e carne de sol...
Ali, a fé de minha gente sobe aos céus com o calor de uma fogueira de São João, ao som da concertina, de um triângulo e de um zabumba...
Ali se ouve o cantar da asa branca, do galo-de-campina, do sabiá, do assum preto, do juriti... Ali está o caboclo forte, um lutador incansável que nunca esmorece...
Ali está a cabocla, a sertaneja, a agrestina, a mulher brejeira, com sua beleza inconfundível e peculiar...
Ali está, o sonho, a esperança, a bravura, um jeito diferente de ser feliz, e, sobretudo, o AMOR... Tudo isto ao ritmo maravilhoso de um xaxado, de um xote, de um baião, de um forró.
O PASSARELA CULTURAL traz sempre um cheirinho especial da terra  e da gente nordestina. É bem mais que um espaço literário. Visite-o e verá!
               http://passarelacultural.blogspot.com/
               
               Meu caro DASLAN,

               Parabéns por seu Blog!
               Meus agradecimentos por ter a honra de merecer uma referência sua a respeito de minha humilde pessoa e de meu “MENINO DA RUA DO BAGAÇO”.

               A ANÍSIA GASPARINA talvez nem saiba que eu exista, mas ela mereceu meus humildes versos, sendo, portanto, personagem que desfilou e ainda desfila, não só nas passarelas dos concursos de beleza, onde foi injustiçada, mas, também, na passarela de minha juventude, além de, mui merecidamente, ainda desfilar em sua exuberante PASSARELA CULTURAL.

A seguir, orgulhosamente, transcrevo a matéria postada pelo DASLAN :
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Daslan Melo Lima

PRÓLOGO

       No dia 09/08/2008, a secção Sessão Nostalgia foi dedicada a Anísia Gasparina da Fonseca, Miss Brasilia 1967. A matéria continua on-line e é uma das várias postagens antigas que você poderá rever em PASSARELA CULTURAL. A bela Anísia voltou a ser focalizada nesta semana por um motivo poético. Vale a apena conferir.


ANÍSIA GASPARINA, UM CONTO DE FADAS DOS ANOS SESSENTA 
Anísia Gasparina da Fonseca (Revista Manchete, 1º/07/1967)
               Anísia Gasparina da Fonseca, natural da cidade de Patos de Minas, Estado de Minas Gerais, morava em Taguatinga, cidade satélite de Brasília, Distrito Federal, trabalhava como empregada doméstica, vivia num barraco de madeira de chão de barro e teto de zinco com D.Raimunda, a mãe lavadeira, três irmãos e uma irmã, quando foi convidada para disputar o título de Miss Clube da Área Alfa. Anísia foi a vitoriosa. Venceu em seguida o Miss Brasília e foi a preferida do público e a mais aplaudida das concorrentes ao título de Miss Brasil 1967, onde obteve apenas o quarto lugar. Sua derrota foi atribuída à falta de escolariedade, pois Anísia tinha apenas o terceiro ano primário. Quando o saudoso apresentador Paulo Max, na hora da entrevista, perguntou a Anísia se lhe fosse permitido fazer três pedidos ao Presidente da República que coisas pediria, ela respondeu: “Pediria uma casa para minha mãe morar, conforto para meus irmãozinhos e um emprego para mim.”
Anísia Gasparina da Fonseca (Revista O Cruzeiro, 15/07/1967)

       O título de Miss Brasília mudou para sempre a vida de Anísia: o prefeito do Distrito Federal deu a ela uma casinha de presente num bloco construído pelo Banco Nacional de Habitação, em Taguatinga; conseguiu um emprego no Departamento de Turismo de Brasília, com um salário muito bom em moeda da época, 400 cruzeiros novos; ganhou uma casa pré-fabricada da Cinasa-Construção Industrializada Nacional; conheceu Valdomiro de Souza, um milionário de origem pobre, com quem casou e foi morar em Goiânia; conseguiu terminar os antigos cursos ginasial e científico e fez um curso de Educação Física.

JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA, O MENINO DA RUA DO BAGAÇO

      Em 27/05/2009, navegando na Internet, o Sr. José de Anchieta Batista encontrou PASSARELA CULTURAL e a Sessão Nostalgia dedicada a Anísia Gasparina. Na ocasião, ele deixou um comentário no espaço apropriado do blog afirmando que “...sua beleza era indubitavelmente inigualável. Eu, naquela época morava em Brasília e tive a satisfação de conhecê-la em uma das festas lá do clube da Marinha - o Área Alfa. Na mesma noite, lembro-me de haver comentado com um amigo: -Como pôde Deus exagerar tanto na beleza dessa mulher?"

José de Anchieta Batista (Foto: Blog do Anchieta)

        O Sr. José de Anchieta Batista é nordestino de Teixeira-PB e está radicado no Estado do Acre desde o início da década de 1980. É Bacharel em Ciências Contábeis pela UFPB-Universidade Federal da Paraíba e possui Complementação Pedagógica pela UFAC-Universidade Federal do Estado do Acre. Lecionou por várias anos na ETCA-Escola Técnica de Comércio Acreana. Em 1994, aposentou-se como Auditor Fiscal do INSS-Instituto Nacional do Seguro Social, quando instalou escritório de consultoria e assessoria contábeis. A partir de 1999, exerceu diversos cargos no Governo do Estado do Acre, como presidente de diversas estatais e Secretário de Estado da Administração. Desempemha atualamente a função de Diretor-Presidente do Instituo de Previdência do estado do Acre e edita o blog www.blogdoanchieta.blogspot.com/.

        No dia 02/12/2009, José de Anchieta Batista lançou o livro Menino da Rua do Bagaço, editado pela Publit Soluções Editoriais, do Rio de Janeiro. Recentemente, ele enviou-me um exemplar do referido livro. Foi com muita emoção que, ao chegar na página 45, deparei-me com o poema Versos para Anísia, escrito pelo autor no Bar Caravelle, então situado na W3 Sul, em Brasília, em julho de 1967. Adiante, os lindos versos do poeta dedicados a Anísia Gasparina. 

VERSOS PARA ANÍSIA

Anísia Gasparina da Fonseca (Manchete, 15/07/1967)

Parai tudo, tudo quando,
Anísia com seu fulgor,
Luzindo o seu resplendor,
Fôr pela rua passando!

Recebei-a com carinho,
Vede só o quanto é bela,
jogai flores da janela,
Perfumando o seu caminho!

Oh! Daí ouvidos a mim,
Somente por um segundo:
- Bebida pra todo mundo,
Seu moço do botequim!

Guardas, agora parai
Todos os carros da rua,
Pois tão bela quanto a lua,
Anísia passando vai!

Contemplai sua beleza,
Soberana e irradiante...
Comparai-a neste instante,
Com a própria natureza!

Jogai-lhe flores cantando,
Retirai vossos chapéus,
Brilhai estrelas dos céus,
Pois Anísia vai passando!

Seu moço do violão,
Seu coração não palpita?
- Sole uma valsa bonita!
- Cante uma bela canção!

Poetas, versos falai!
Não vos inspirais bastante?
Fazei versos neste instante,
Que Anísia passando vai!

Tangei, sinos da Matriz!
Cantai, pardais, com fulgor!
Exala perfume, ó flor,
Que esta rua está feliz!

Abre alas, minha gente,
E, silêncio! – por bondade,
Porque Sua Majestade
Vai passando à nossa frente!

Anísia Gasparina da Fonseca (Fatos & Fotos, 08/07/1967)

A MISS E O MENINO DA RUA DO BAGAÇO

Em dezembro de 1975, vivendo entre Brasília e a capital de Goiás, dona de mansões e fazendas com aeroportos particulares, Anísia Fonseca, uma das mulheres mais ricas do planalto central, deu um depoimento a Marlene Anna Galeazzi, publicado na revista Fatos & Fotos, de 29/12/1975, onde entre outras coisas afirmou:

       Quando lembro as coisas que passei para sobreviver, penso que é um sonho. Acho que hoje não teria condições de enfrentar, sempre sorrindo, as dificuldades dos anos passados. Graças a Deus, aos brasilienses e ao meu marido, que é também um pai para mim, pude ajudar a minha família.

Engraçado, às vezes sinto saudades daquela época, sabe o que é? A lembrança da educação que minha mãe, com toda sua humildade, nos deu. O carinho que ela dedicava aos filhos, dentro de um mísero barraco, me ajudou muito, principalmente agora. Graças a isso, não virei uma dondoca sem objetivos. Como agradecimento pelo que a vida me deu, procuro ajudar aos outros, através do Asilo São Cotolengo, no interior de Goiás, onde pessoas de todas as raças e idades vão procurar um pouco de paz.
 
No livro Menino da Rua do Bagaço tem um poema homônimo que diz:
 
Que bom voltasse tudo uma outra vez...
A rua, a vida, o tempo e o mesmo espaço...
Meninos lá da Rua do Bagaço,
Neste momento, onde é que estão vocês?
 
Dispersos pela vida amarga e crua,
Na vã procura da felicidade!
Oh! Como dói saber que na verdade
Ela morava ali na nossa rua!
 
Esse tempo distante é como um vulto
Que me segue na rota da velhice...
E agora eu vejo o quanto era tolice
O sonho pertinaz de ser adulto.
 
EPÍLOGO
 
Há mil ruas do Bagaço por esse Brasil afora, com suas mil Anísias e mil meninos. Quantas Anísias e quantos meninos mudarão de vida? Quantas Anísias e quantos meninos se perderão nos caminhos da ilusão? Quantas garotas lindas terão o destino de glória de Anísa Gasparina da Fonseca, Miss Brasília 1967? Nem o vento frio de julho que agora sopra em alguma Rua do Bagaço saberá responder."
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sexta-feira, 9 de julho de 2010

POEMA DO BECO - (Manuel Bandeira)

Que importa a paisagem,
a Glória,
a baía,
a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.                            
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

POEMA DA ÁGUA

RAUL MACHADO  - Paraibano de Taperoá (1891 - 1954)
(Jurista, Escritor, Poeta)

A água também nasce pequenina
- nasce gota de orvalho ou de neblina...

A água também tem a sua infância
- quando apenas riacho cantarola
brinca de roda nos redemoinhos
salta os seixos que encontra
e faz apostas de corrida - travessa -
por entre as grotas e peraus
e arranca as flores que a marginam
para engrinaldar a cabeleira solta
sobre o leito revolto das areias...

A água também tem adolescência
- sonha lagos românticos à lua
fitando os astros namorados dela
embevecida em seus olhos de ouro...
e assim sempre amorosa e sonhadora
vai tecendo e bordando - dia e noite
o seu vestido de noiva nas montanhas
e o seu véu de noivado nas cascatas...

A água também tem maturidade
- fica serena e grave em rios fundos
e num destino generoso e amigo
espalha a vida que em si mesma encerra
semeia bençãos para o grão de trigo
abre caminhos líquidos da terra
e enlaça os povos através dos mares...

A água também tem sua velhice
-e de ver-lhe os cabelos muitos brancos
onda lenta de espuma destrinçada
 em neve, nos ares flutuando...

A água também sofre...e quando sofre
se faz divina e vem brilhar em lágrimas
ou se reflete a dor da natureza
geme no vento transformada em chuva.

A água também morre...e quando seca
- e a sua morte entristece tudo :
choram-lhe, enfim na desolação,
todos os seres vivos que a rodeiam
porque ela é o seio maternal da vida
e de tal maneira ama seus filhos rudes
que muitas vezes para os salvar se deixa
ficar sem o murmúrio de uma queixa
prisioneira de poços e açudes...

Bendita seja, pois, água divina
que fecunda, consola, dessedenta, purifica,
e que, desde pequenina,
feita gota de orvalho,
mata a sede das plantas entreabertas
e prepara o festivo esplendor da primavera...
e que, nascida em píncaros da serra
vem de tão alto, procurando sempre ter
um fim de planície e de humildade
até perder, na última renúncia,
o nome de batismo de seus rios
para ficar anônima nos mares.

sábado, 3 de julho de 2010

BASE.ANDO QUEM? - Maria Inês Simões

(Professora, poetisa, escritora, etc etc. etc, MARIA INÊS SIMÕES é membro fundadora da ACADEMIA VIRTUAL BRASILEIRA DE LETRAS - AVBL)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A MÁQUINA DE ESCREVER

GIUSEPPE Artidoro GHIARONI
Jornalista
Poeta
Nasceu no dia 22 de Fevereiro de 1919, em Paraíba do Sul - RJ
Morreu no dia  21 de Fevereiro de 2008, no Rio de Janeiro - RJ

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.


Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

(Giuseppe Ghiaroni)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

REFLEXÕES

(Transcrição de um quadro da sala da casa de minha mãe -
pode-se até pensar diferente mas é bom refletir sobre essas afirmações)

O dia mais belo - HOJE
A coisa mais fácil - ERRAR
O maior obstáculo - O MEDO
A raiz de todos os males - O EGOISMO
A distração mais bela - O TRABALHO
A pior derrota - O DESÂNIMO
Os melhores professores - AS CRIANÇAS
A primeira necessidade - COMUNICAR-SE
O que lhe faz mais feliz - SER ÚTIL AOS DEMAIS
O pior defeito - O MAU HUMOR
A pessoa mais perigosa - A MENTIROSA
O pior sentimento - O RANCOR
O presente mais bonito - O PERDÃO
O mais imprescindíível - O LAR
A rota mais rápida - O CAMINHO CERTO
A sensação mais agradável - A PAZ INTERIOR
A sensação mais afetiva - O SORRISO
O maior remédio - O OTIMISMO
A maior satisfação - O DEVER CUMPRIDO
A força mais potente do mundo - A FÉ
O mais belo sentimento - O AMOR

segunda-feira, 21 de junho de 2010

SARAMAGO NÃO MORREU

(com correções do autor em 20.06.2010)
- José de Anchieta Batista - (humílimo xará)

Lá se foi Zé Saramago!

Com certeza foi viver
num lindo vale que existe
para os que lutam na Terra
pra melhorar nosso mundo...
.
Lá se foi Zé Saramago!

Veio a morte e o escondeu,
pois não conseguiu levá-lo...

Zé Saramago aqui fica,
nos seus rastros de palavras,
no eco de sua voz,
na imensa inquietude
de um pensamento revolto...
na busca pela verdade,
nesta sede insaciável
de paz,
de amor,
de justiça...

E assim, Zé Saramago,
tão audaz e destemido,
não há de morrer jamais...
Não se vai num funeral!
Não se acaba numa tumba!

Nosso adeus ao Saramago,
neste voo de condor...
(Vê que a morte não existe!
Vê que a vida não se finda!)

Agradeço ao grande Zé,
por me fazer, neste instante,
refletir e perguntar-me
que tipo de Zé sou eu
e o que fiz por nosso mundo...

Lá se foi Zé Saramago!
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(Anchieta)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

POEMA DE SETE FACES

Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
............

COM LICENÇA POÉTICA

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
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domingo, 6 de junho de 2010

MURILO CHEGOU! AUMENTOU A COLEÇÃO DE NETOS E NETAS!

Minhas manias, meu cansaço, minha insônia, o império do “não pode!”...
Os meus papos estão recheados de “no meu tempo...”, “quando eu era...” “naquela época...”.
A idade avança...  e ao rememorar o passado, sinto-me realmente  um ex-isso, um ex-aquilo... um ex-quase-tudo!
O médico anima-me, otimista:
- Você está um garoto! Tudo cem por cento!
- Isso não interessa! O diagnóstico pode estar equivocado!
E assim prossigo, ouvindo todos os dias os repetidos alertas, que têm origem no peso da minha idade:
- Cuidado com o batente!
- Feijoada, não!
- Me dê a mão!
- Tá na hora de dormir!
- Tomou o remédio?
- Um gole para espairecer? - De jeito nenhum!!!
- Deixe que eu dirijo!
- Olhe o colesterol!
- Cuidado com o açúcar!
- Não faça isso! não faça aquilo!
E a ladainha continua...
Pensando bem: - que bom, nesta idade, ter ao redor de mim pessoas que me amam e que se preocupam comigo! De uma coisa estou certo: - Não é fácil lidar com um velho resmungão... não é, minha querida Glads?
Mas... como disciplinar este zelo? Como cuidarem de mim sem a prevalência dessa sensação de “ex-“?  Que esta realidade é dura, isto... é! Não adianta gestos ou palavras acalentadoras!
A velhice nos faz diferentes, queiramos ou não.  Cabe-nos agasalhar dentro d´alma a sobrevivência da eterna juventude. Se isto é uma autoenganação, pelo menos nos alivia bastante. 
Que a ladainha dos "não pode" é torturante... não tenham dúvidas!   Mas, sabem de uma coisa?  -  Obrigado por todas essas aparentes chatices, porque, enquanto elas me aborrecem, muitas maravilhas vão-me acontecendo e me afirmando que a velhice não é uma condenação! 
Em todo esse contexto, é verdade que a tal ladainha é massacrante, mas...
( Há sempre um "mas" que complica ou alivia )
Neste "mas"... A Suzana deu-me um lindo netinho. Isso é esplêndido!
Murilo nasceu!
Trouxe-me com ele a grande certeza de que a velhice não é tão nefasta. Ela tem o seu encanto e, para falar a verdade,  na convicção de que a vida continua depois da morte, ela simplesmente não existe. Quem me grita isto é a eternidade!  Que bom saber que não estarei morto após a "morte"!
Eu não sou só isso!
A vida não se acaba!
A vida se renova!
A natureza é bela e eu sou natureza!
Tudo está muito certo!
Deus te abençoe, Murilo!
Viva!
Viva minha velhice!
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COLEÇÃO DE NETOS E NETAS:
Presenteados pela Sílvia:        Priscila e Paulo Vitor
Presenteados pela Rossana:   Luiz Henrique e Bianca
Presenteado pela Suzana:      Murilo
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