sábado, 12 de agosto de 2017

====> OS BRUZUNDANGAS E A ARTE DE FURTAR

(Anchieta)
O que tem acontecido neste nosso país reforça-me a convicção de que somos realmente moradores da Bruzundanga. Quem não sabe ou não se lembra o que significa pertencer àquele país, imaginado por Lima Barreto, deve ler ou reler “Os Bruzundangas”. Afirmei que o autor, morto em 1922 com 41 anos, teria “imaginado” um país, mas o que realmente fez foi transferir para o papel um Brasil vivido por ele e por seus contemporâneos naqueles recém-declarados “Estados Unidos do Brasil”. Fez isso de forma satírica, mas baseado num ambiente real, em que a esculhambação já era historicamente dominante. Os desmandos, a pouca-vergonha, a corrupção, e outros males que estão no DNA brasileiro, já eram praticados sem o menor pudor. Hoje, passados quase cem anos (o livro foi editado em 1923, ano seguinte à sua morte), vemos que tais descaramentos continuam de forma bem mais “modernizada”.
O livro “Os Bruzundangas” é prefaciado pelo próprio autor, que já insere na primeira página, uma curiosa citação extraída do Capítulo IV da “Arte de Furtar’: “Como os maiores ladrões são os que têm por oficio livrar-nos de outros ladrões".
Esta foi a frase com a qual Lima Barreto ilustrou e sintetizou a nova elite que passou a ocupar os postos de mando nos primeiros anos de república. Os novos mandachuvas, como os tratava, traziam as mesmíssimas mazelas copiadas das práticas utilizadas no império. Só houve uma passagem de bastão.
Quanto à obra “Arte de Furtar”, nunca a li. Num passeio pelo Google, tive notícia de que foi entregue a D. João IV em 1652, mas só um século depois teria tido sua primeira impressão. Sobre a autoria, uns a atribuem ao Padre Antonio Vieira, outros ao jesuíta Padre Manuel da Costa. Não pude colher, entretanto, uma plena certeza de quem teria sido o verdadeiro autor.
Já li e reli “Os Bruzundangas”, mas a “Arte de Furtar” só agora entrou em minha lista de espera. Brevemente percorrerei seus capítulos. A razão de minha decisão é que, ao consultar o “index” de uma edição histórica do livro, achei muito interessantes os temas abordados em cada capítulo. São setenta. Os dois primeiros afirmam, em tom de sarcasmo, que furtar é uma arte, que é uma ciência e que furtar é muito nobre. E por aí vai, de forma nitidamente crítica e irônica, citando e descrevendo os ladrões e a roubalheira da época.  Adivinhem sobre o que se ocupa o último capítulo? Imaginaram? Pois bem, o septuagésimo capítulo trata exatamente do “desengano geral”, isso que continuamos a sofrer em nosso Brasil.
Desculpem-me dar uma olhada no retrovisor de minha existência.
Naquele sertão inóspito de minha Paraíba, em meados do Século XX, eu vivia na Bruzundanga do Lima Barreto e não sabia. Lembro-me de que, na execução dos programas de emergência, criados pelo governo para ocupar sertanejos famintos e necessitados, eram explícitas as desumanas tramoias praticadas. Roubavam descaradamente o pouco que ali chegava em socorro aos retirantes e flagelados da seca. Naquele cenário de aflição e dor, nunca pude esquecer o mais triste dos fatos que presenciei: Certo dia, os urubus voavam em círculo, sobre uma capoeira ressequida e pedregosa. Denunciavam o cadáver putrefato de uma velhinha que desaparecera de nossas portas.  Morrera, com certeza, de fome e sede. Foi algo que chocou todo mundo.
Nasci em meio a uma gente realmente humilde, pobre e desprezada, onde a mais nutriente alimentação era o poder da fé. Meu povo recebia tudo como vontade de Deus e a Ele agradecia por suas dores e prantos. A seca estava sempre ali massacrando. Era uma gente pedinte, miserável e ignorante, que não conhecia nem sabia reivindicar direitos, mas que se dizia “feliz, graças a Deus! ”. E enquanto os velhos coronéis e raposas políticas de então se autoproclamavam salvadores do povo, a desgraça de minha gente se perpetuava. Na verdade, eles não queriam que nada mudasse.  Alimentavam-se politicamente daquela penúria. Eram também abutres.
Olho o Brasil de hoje. Em todos os recantos, continuamos a respirar a mesma fedentina provocada pela mesmíssima disenteria moral e ética.
Estamos em 2017. Os mais recentes fatos, a que todos assistimos, servem para carimbar a minha certeza de que vivemos numa república onde a pouca-vergonha e o cinismo continuam a imperar.
Viva a Bruzundanga! 

sábado, 5 de agosto de 2017

========== O NOSSO MANICÔMIO ==========

(Anchieta Batista)
 Para começar, ressalto que não possuo qualquer formação acadêmica em qualquer uma das ciências que cuidam das psicopatologias, ou de algo parecido. Meu jeito de ser não se enquadraria. E isso é verdade. Imagino-me nesta condição, como discípulo de Freud, tratando de pacientes malucos como eu. O consultório se tornaria um ambiente de desvarios mútuos, em que o meu lugar, n´algumas vezes, deveria ser o divã, e o cliente, tido como doido varrido, passaria a dirigir a sessão de cura. Não estou com gozação. Em se tratando deste assunto, embora eu nunca tenha buscado os diagnósticos das minhas patologias da alma, decerto devo estar enquadrado num rosário de diversificadas esquizofrenias. E elas só não são mais vistas, inclusive por mim mesmo, porque todo o mundo padece de males congêneres, com afetação individual ou coletiva. Não é falsa aquela frase da música de Sílvio Brito: “Tá todo mundo louco!”. E não tem jeito. Ou você é louco ou a sociedade o obriga a sê-lo.
Amigos, não tenho qualquer dúvida de que o mundo nada mais é do que um enorme manicômio. O Planeta Terra é um grande celeiro de desequilibrados comportamentais. É só observar. Uns mais, outros menos, mas todos temos algum parafuso frouxo ou fora do lugar. O interessante é que, pelas convivências mantidas nestes meus setenta e dois anos de vida, nunca vi um doido que admitisse ser doido. Quanto mais maluco, mais se julga plenamente são.
Nesta permanente confusão esquizofrênica, tenho exercido cotidianamente as minhas maluquices, mas estou sempre de olho nas doideiras dos companheiros de jornada. Por isso, contarei aqui uma historinha que me ficou bem gravada:
- Há alguns anos, tive que me submeter a exames complementares de um concurso público. No consultório do médico que emitiu meu laudo neuropsiquiátrico, vivi um momento muito peculiar. O homem de branco, depois de responder por entre os dentes, ao meu ‘boa-tarde!”, apontou-me uma cadeira e me mandou sentar. No mesmo instante, levantou-se, bateu três vezes na mesa com as palmas das mãos, rodeou-a apressadamente, voltou a bater mais três vezes, sentou-se de novo, ajeitou os óculos na cara, assobiou algumas notas musicais e iniciou um rápido interrogatório sem pé nem cabeça. Nunca me esqueci daquela cena. Até hoje acho que, entre nós dois, o mais maluco naquela sala, era exatamente o doutor. Nosso diálogo não demorou mais de dez minutos. Saí dali apto para ocupar meu cargo público. Tudo plenamente normal. Nada fora da bitola. O mundo é assim mesmo. Doido cuidando de doido.
A vida, para mim, nada mais é do que um vai e vem de desatinados, que se cruzam incessantemente, numa ciranda sem fim. É uma eterna tragicomédia, num cenário de vida e morte, em que os atores se sucedem, ao som de uma sinfonia em que predomina o pranto.
Como creio num Deus perfeito, só posso admitir que, por trás de tudo isso, exista um sentido que não conseguimos compreender.
E haja malucos!

domingo, 30 de julho de 2017

PRA QUE TANTA RIQUEZA, SE A PESSOA / NADA LEVA DAQUI PRA SEPULTURA?

(*) Zé Adalberto – Itapetim-PE

Muitas vezes, sozinho, eu me pergunto:
Pra que tanta riqueza, se depois
Que o caixão encostar e couber dois,
O amigo melhor não quer ir junto?
Pra que cara fragrância, se o defunto
Não exige perfume da “natura”?
Mesmo a alma é cheirosa quando é pura,
Mas o cheiro do corpo ainda enjoa.
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que casa cercada por muralha,
Se a cova é cercada pelo pranto?
Se pra Deus todos têm do mesmo tanto,
Tanto faz a fortuna ou a migalha.
Pra que roupa de marca se a mortalha
Não requer estilista na costura,
Se o cadáver que a veste não procura
Nem saber se a costura ficou boa?
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu me esconder detrás de um pão,
Se a miséria não bate em minha porta?
Pra que eu me cansar regando horta,
Se amanhã ou depois já é verão?
Pra que eu confiar no coração,
Sem saber quanto tempo a vida dura?
Se as feridas da alma não têm cura,
Quando é a ganância que as magoa?
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Não sou dono de ônibus nem de trem,
Mas enquanto eu puder me locomovo.
Pra que eu invejar um carro novo,
Se o transporte final nem rodas tem?
Nem me avisa dizendo quando vem,
Mas só anda na minha captura
E bem abaixo da sua cobertura,
Ele tem quatro asas, mas não voa.
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu toda hora dar balanço
No que eu tenho ou andar atrás de bingo?
Pra que tanta hora extra no domingo,
Se Deus fez esse dia pro descanso?
Pra que eu trabalhar feito um boi manso,
Se a chibata do dono me tortura?
Pra que eu reclamar de minha altura,
Se o que a mão não alcança, Deus me doa?
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura?

Pra que eu com dois olhos na barriga,
Se os da cara já são suficientes?
Pra que eu invejar os meus parentes,
Se eu já sei que o retorno é uma intriga?
A formiga que evita ser formiga
Cria asas, se torna tanajura,
Cresce a bunda demais, cria gordura,
Fica muito pesada e cai à toa.
Pra que tanta riqueza, se a pessoa
Nada leva daqui pra sepultura

*********

(*) José Adalberto Ferreira (Zé Adalberto), nasceu no sítio Juá, Município de Itapetim – Pernambuco,  em 25 de junho de 1962.   Zé Adalberto não é cantador de profissão. Até os 25 anos de idade foi agricultor e, desde 1985, é funcionário público, na função de Auxiliar de Serviços Educacionais, lotado no Grupo Escolar Tereza Torres – Itapetim – PE. É um extraordinário poeta nordestino, tendo muitas de suas poesias publicadas em diversos livros e coletâneas. (Foto: O poeta em casa com esposa e filhos)
 (Informações colhidas do Blog “Itapetim.net – Poetas e Declamadores”)

PROCISSÃO DOS DESGRAÇADOS - Rio Branco - 1989 (Anchieta)

Crianças abandonadas,
Mendigos pelas esquinas,
Multidões desesperadas,
Prostituídas meninas.

Morando em rua sem nome,
Trajando sujos molambos,
Os párias morrem de fome,
Na miséria dos mocambos...

Procissão dos desgraçados,
Cortejo dos infelizes!
Dizei-me, ó desventurados:
- Quais são as vossas raízes?

Se não supondes suplício
Viverdes de circo e pão,
Então vibrai co´o bulício
Desses tempos de eleição!

Se não vos dói essa dor,
Nem vos sucumbe a agonia,
Então vibrai co´o sabor
Dos frutos da hipocrisia!


Nutri-vos com a promessa,
Aplaudi vossa desgraça...
Correi, correi, bem depressa,
Que hoje há comício na praça!

SENHOR DEUS DOS DESGRAÇADOS! (Anchieta)

Pedro Álvares Cabral,
Que maldição, afinal,
Nos fez a sorte tristonha?
Será que em tua viagem
Não puseste na bagagem
A honestidade e a vergonha?

Seu Pero Vaz de Caminha,
Aqui, a planta daninha
Proliferou muito mais...
E esta minha triste gente,
Sofrida, pobre e indolente,
Não sabe mais o que faz!

Jesuítas, jesuítas,
Às vossas preces benditas,
Ninguém nos céus disse "amém!"...
De lá, Poeta, responde,
Onde é que Deus se esconde,
Que socorrer-nos não vem?!

Castro Alves, vem de novo,
Chorar a sorte de um povo
- Os filhos dos degredados -...
Vem lançar ao infinito
Novamente aquele grito:
- "Senhor Deus dos desgraçados!"

OLHOS DE VER E OUVIDOS DE OUVIR (Anchieta)

Depois de um período de clausura no ventre materno, geralmente nove meses, somos promovidos à condição de recém-nascidos, momento em que passamos a contar idade, pela passagem no Planeta Terra. Eis-nos, talvez, os mais indefesos dos animais. Somos frágeis e não temos consciência de nada ao derredor. Estamos absolutamente nus. Não temos conhecimento, nem capacidade para praticar as regras de sobrevivência. E se não tivermos cuidadores que nos alimentem e protejam, teremos apenas alguns instantes ou algumas horas de vida.
Ao chegar aqui, um tem a sorte de nascer em berço de ouro, provido de finíssima inteligência e de uma compleição física perfeita e bela. Outro vem ao mundo em meio à miséria, às vezes com deficiência física e mental, ou traz consigo assombrosa feiura. Um estará rodeado pelo amor, outro, pelo ódio. Um nasce num país onde reina a paz, outro, em meio à barbárie da fratricida guerra. Em suma: um tem mais probabilidade de atravessar a vida nas asas da felicidade. Outro está condenado a conduzir o fardo da miséria e da desgraça.
Uma síntese bem simples e rudimentar desta realidade seria afirmar que nossa vida neste mundo faz parte de uma tragicomédia em cujo roteiro predominam o paradoxo, o mistério, as condenações sem motivo e as injustiças inexplicáveis.
Neste contexto, de onde viemos? Que estamos fazendo aqui? Para onde iremos depois? Será que após nossa passagem pela Terra, viajaremos para o “nada”? Onde está o que chamamos de Deus? Ele existe? Como realmente ele é? Qual a verdade sobre tudo isto?
Eu, particularmente, trago a convicção de que há algo maior. Há de existir uma outra realidade paralela que comanda tudo.
Espero que, motivados por minhas interrogações, não me apareçam centenas de “iluminados”, que veem e ouvem tão-somente com a miopia e a surdez de seus olhos e ouvidos físicos.
Há alguns dias, mantive importantíssima conversa com uma senhora que me é muito querida e a quem devoto desmedido respeito, oportunidade em que abordamos este assunto.
Foi-me por ela dito que tais questionamentos sempre foram feitos e sempre foram respondidos com justificativas que só satisfazem aos detentores de fé não raciocinada. E isto a tradição nos repassa como verdades supremas, com um inferno e um céu que ilustram tudo.
E minha sábia amiga, quando se referiu a Deus, arrematou:
- Temos que buscar o Deus que está dentro de cada um de nós. Só assim nos aproximaremos da Verdade. Durante a vida, colocam um deus num caixote e nos repassam. Aí, passamos a morar ali também, encaixotados e sem horizontes. Coitados daqueles que não buscam os “olhos de ver” nem os “ouvidos de ouvir”!


EU DISSE ONTEM MAS VALE P’RA HOJE

- O que estão fazendo com nosso povo leva-me à conclusão de que Calabar deveria ser canonizado.
***
- Agiota é o sujeito que socorre uma vítima para terminar de liquidá-la.
***
- Parem aí, coveiros apressados, o Brasil pode ainda estar vivo!
***
- Aviso aos conservadores intransigentes: é mais fácil ser atropelado no trilho do que na trilha.
***
- As feministas têm mesmo muitas coisas a conquistar; as femininas, não.
***
- Sociedade! Sociedade! Por que fedes tanto?
***
- Abram as portas dos hospícios! Não precisamos disso. Estamos vivendo num imenso manicômio.
***
- Não sei que vantagem existe em ser poeta. Comecei a ser "fazedor de versos" aos oito anos, mas se fosse para viver de escrever poesias, já teria morrido de fome..
***
- Eu sei lá o que é consenso nesta política brasileira! - Desconfio de que seja alguma coisa com corrupção no meio.
***
- A estrada da sabedoria começa na humildade e termina no infinito.
***
- Com o quadro educacional dos dias de hoje, é bom não se permitir que os animais pastem em terrenos de estabelecimentos escolares. Pode ser que lhes seja outorgado algum "deproma". (1988).
***
- Comunista, no Brasil, é o sujeito que sonha ser burguês; quando isso acontece, torna-se ferrenho defensor do capitalismo.(1988)
***
- Existem sorrisos que nos torturam mais do que mil bofetadas.
***
- Chamam-me de poeta. Afinal, o que diabo é "ser poeta"?
***
- Atualmente, sentir vergonha de ser brasileiro é um sentimento deveras patriótico.
***
- A mãe-pátria, há muito, virou madrasta!
***
- Quem chora de alegria não está chorando! Com certeza, está sorrindo!
***
- De forma alguma acredito em horóscopo, mas sempre leio o meu.
***
- A amizade promíscua tem sido mãe de terríveis intrigas.
***
- "Liberdade ainda que tardia" para mim não serve. Quero minha liberdade enquanto ainda existo.
***
- Há diversas classes de marginais. Com certeza eu pertenço a alguma.
- Quem diz que pobreza não deve causar vergonha a ninguém, é simplesmente um sem-vergonha!
***
- Não gosto da filantropia, porque ela é uma impostora vestida de caridade.
***
- Não sei quem disse isso, mas é uma verdade: "Deus limitou a inteligência e se esqueceu de limitar a burrice!".
***
- Não sou psiquiatra, mas tenho certeza de que um dos maiores problemas no tratamento da loucura é a nossa capacidade de convencer o mundo de que somos doidos, enquanto jamais admitimos nossa doidice.
***
- Está na hora de alguém colocar uma placa na entrada do mundo: "NÃO HÁ MAIS VAGAS PARA IDIOTAS!"
***
- O sonho tem acalentado de tal forma a minha existência, que se for anunciado meu último minuto de vida, aproveitá-lo-ei para viver meu derradeiro sonho. Ainda não sei qual.
***
- Há pessoas cujo transatlântico não cabe em nenhum oceano e, por isso, são infelizes. Outras navegam em pequenos igarapés, conduzindo seus caíques como se cruzassem um verdadeiro mar de felicidades. E assim, são simplesmente felizes.
***
- É simplesmente impossível conviver com certas criaturas sem amá-las. Depois disso, é simplesmente impossível esquecê-las.
***
- A falta que fazemos é do tamanho de nossa importância.
***
- Já não sei o que posso chamar de amor.
***
- Sentir saudade é sentir o perfume de um doce momento que passou.

Pinto do Monteiro X João Furiba

Dizem que quando o grande poeta repentista Pinto do Monteiro encontrava-se já bem doente, foi visitado pelo também poeta João Furiba que, logo da porta, resolveu descrever o prazer de visitá-lo:

“Há tempo que eu não vinha
nesta santa moradia ...
visitar o velho Pinto
Me traz tanta alegria
Que é mesmo que ter tirado
O bolão da loteria”

Pinto, embora feliz pela visita, provocou gargalhadas em todos os presentes, quando respondeu ao velho amigo, com criatividade e bom humor:

“Eu não imaginaria
que você chegasse agora ...
Com essa sua presença
Obtive uma melhora,
Quer ver eu ficar bom mesmo
É quando você for embora


**********

O PREFÁCIO DO MENINO DA RUA DO BAGAÇO

Em 2007, na véspera de enviar o material de meu livro MENINO DA RUA DO BAGAÇO para a editora, não havia ainda o tradicional “prefácio”. Não tinha me disposto pedir isso a ninguém, embora eu mesmo pudesse escrevê-lo. O mais usual é que se procure outro autor, geralmente já consagrado.
Acontece sempre o seguinte: O escritor sem fama, às vezes visivelmente constrangido, vai suplicar a personalidades famosas e tidas como cultas e eruditas, para fazê-lo. O mais das vezes busca algum frequentador do “chá das cinco” lá das academias de letras. É que o prefácio é uma carta de apresentação, em que alguém faz referências ao autor, ao conteúdo existente entre uma capa e outra, e promove exagerados ou cautelosos elogios. As palavras são escolhidas de forma a não comprometer ninguém. Nem o pedestal do prefaciador, nem a qualidade literária do pretenso escritor ou escrevinhador. Assim, o prefácio pode ser algo bem sincero, mas tem tudo para vestir-se de caridosa hipocrisia.
Bem, amigos, naquele momento, diante de tão humildes escritos, optei por não suplicar a caridade de ninguém, e, à guisa de prefácio, escrevinhei os versos abaixo: 
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EM VEZ DE PREFÁCIO, UM PRÉ-FÁCIL

Queiram desculpar-me o atrevimento,
Por esta obra que a vocês eu passo...
Denominada no seu nascimento
De “Menino da Rua do Bagaço”!

A linguística faz-se aqui precária,
Mas os meus sentimentos são profundos...
Não se trata de obra literária:
- São pedaços de vidas e de mundos!

Pela modéstia não irá somar
Alguma coisa à nossa “Flor do Lácio”,
E por isso fugi de suplicar
Que alguém me fizesse algum prefácio.

Jogar-me-iam, com certeza, flores,
Num estilo de atroz verborragia...
- “Ao notável poeta, mil louvores!” -
E por detrás de tudo: - a hipocrisia!

Para que ocupar um erudito
Que com certeza pouco tempo tem?
É tão humilde o que eu tenho escrito
Que eu me proíbo perturbar alguém!

Talvez sobejamente o livro peque
Por ser este menino inconsequente...
Mas assim mesmo nasce este “moleque,”
Travesso, humilde, pobre e irreverente.


(José de Anchieta Batista) “

N O S T A L G I A

Na tarde tristonha,
Estava eu morrendo,
Minh´alma sofrendo
A angústia dos sós...
Porém, de repente,
Teu vulto aparece,
E, como uma prece,
Eu ouço tua voz.

O mundo sombrio,
A dor que em mim arde,
As sombras da tarde,
A falta de calma...
Mas a melodia
Que cantas me encanta...
Tua voz me acalanta,
Perfuma minh´alma!

E como se eu fosse
Um teu velho amigo,
Divides comigo
as mágoas sentidas...
E o mesmo eu te faço,
Sem susto e sem medo,
Te abrindo o segredo
Das minhas feridas.

Nós dois pela tarde,
Dois seres, dois mundos...
Tormentos profundos
Matando nós dois...
Sofridos, perdidos,
Morrendo nas águas
De um rio de mágoas
Que a vida compôs.

Daqueles momentos
De grande ternura,
A tua doçura
Comigo ficou...
Ainda te escuto,
Ainda te vejo,
- Sublime lampejo
Que não se apagou!

Senti tua ausência,
Teus pés no caminho...
Fiquei tão sozinho
Nesta ansiedade...
E em meu mundo triste,
Às vezes suponho
Que tu foste um sonho
Que agora é saudade!

--------- (Do livro: Menino da Rua do Bagaço)

A ASSOMBRAÇÃO QUE VENDIA OVOS

(Trecho do livro “Capoeira das Éguas” – Autor: José de Anchieta Batista)
Nunca foi deixado no esquecimento a história da “assombração” que saía vendendo seus produtos, dentro da noite, quando todos supostamente já dormiam. É bom relembrar essa palhaçada histórica:
Nas madrugadas de duas sextas-feiras seguidas, daquele julho de 1955, alguém inventou de sair vendendo ovos aos capoeirenses. Meia-noite em ponto começava a ladainha:
– Olhe os ovos! A dúzia é dois “mim réis”! – gritava, repetidamente, uma voz grossa e fanhosa.
Descia correndo por uma das ruelas, balançando um chocalho e arrastando algo como se fossem latas velhas amarradas umas às outras. Sua demora era somente o tempo de chegar até as imediações da velha ponte. Desaparecia, então, dentro da noite, sem deixar vestígios.
Dizem que, da primeira vez, saiu dos fundos da igreja, um local descampado e escuro. Da segunda vez, sua “aparição” teria iniciado nas proximidades do cemitério, aumentando o alvoroço sobre coisas do outro mundo. Não demorou muito para que aparecessem as mais estapafúrdias versões sobre aquela coisa estranha, principalmente por parte dos que acreditavam em visagem ou assombração.
Todo mundo de portas fechadas a partir das nove horas, quando o velho gerador de luz piscava duas vezes, antes de entrar em silêncio absoluto, dez minutos depois. Se não fosse noite de lua, passava a reinar a completa escuridão. Naqueles dias, ninguém era doido de ficar na rua até tarde. As mentes mais férteis deram vazão à criatividade, com histórias detalhadas e assombrosas, dignas de virarem roteiro de filmes de terror.
A culpa seria das “almas penadas”. Para essas almas, muitas beatas da igreja dedicaram suas rezas durante muitos dias. Outros achavam que era o Zuzu, um rapaz que enlouquecera, em agosto de 1954, por ocasião da morte de Getúlio Vargas. Fazia um ano que, na força da lua, vagava sem destino por tudo quanto era canto, fazendo discursos ou repetindo a carta-testamento do finado presidente:
“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. ... Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.
Quando estava atacado, discursava e repetia a cartatestamento, incansavelmente, pelas ruelas de Capoeira das Éguas. Zuzu sabia de cor, palavra por palavra. A forma de pronunciá-las era teatral e chegava a comover quem ouvisse.
Embora alguns tenham tentado atribuir-lhe a autoria da venda dos ovos dentro da madrugada, isso foi descartado, porque um maluco varrido não forjaria isso, nem desapareceria depois de fazer aquela presepada.
Todos buscavam descobrir quem seria o culpado pela façanha dos ovos. Até a alma da “Santa Velhinha”, falecida dois anos antes, em 1953, passou também a ser vista como uma possibilidade de provocar aquele mistério. Os devotos da “bem-aventurada” esbravejavam revoltados: – Isso vem dos pecados de vocês! Isso é coisa do maligno! A Santa Velhinha é uma santa! Não vai se ocupar com essas besteiras.
Não admitiam de forma nenhuma aquele sacrilégio. Ora! 
Alguns mais maliciosos desconfiavam de que algum gaiato estava corneando alguém do lugar e ainda zombava da própria vítima, fazendo propaganda dos próprios “ovos”. 
E o mistério continuou. Foi, então, que entrou em cena o Sargento Neves, comissário de polícia de Capoeira das Éguas. Sentiu-se na obrigação de desvendar a palhaçada. Convocou seus dois soldados e aceitou o reforço de um de seus amigos, o Zé Pirrita, que veio se oferecer voluntariamente.

Na sexta-feira seguinte, ficaram de tocaia num ponto estratégico, por onde, provavelmente, o malfazejo haveria de passar. O Zé Pirrita era metido a brabo e demonstrava uma revolta desmedida contra aquele novo perturbador da ordem local.
Munidos de fuzis, de revólveres, de cacetes e de uma velha espingarda de carregar pela boca, esconderam-se por trás de um capão de mato, junto da velha ponte, a fim de surpreenderem o engraçadinho. Alguém havia jurado que os vira-latas acompanhavam o sujeito até as imediações da ponte, com seus latidos barulhentos, embora inofensivos. Era ali que iam esperá-lo, com o firme propósito de moer o sujeito na peia.
Aguardaram-no pacientemente até quase o romper da aurora. Nada de assombração, lobisomem, ou fosse lá o que fosse. Voltaram indignados para casa, principalmente o Zé Pirrita que jurava de todas as formas desvendar aquela coisa esquisita. Contudo, a partir daquela noite, o malfazejo não mais deu as caras. Desapareceu de uma vez, deixando para trás, e por muitos anos, uma histórica palhaçada, revestida de grande mistério.
Uns quarenta anos depois, antes de bater as botas, num dos hospitais de Campina Grande, soube-se da boca do próprio Zé Pirrita, um dos caçadores do malfazejo, que ele próprio teria sido o misterioso vendedor de ovos!


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A MALA DA PROPINA - (Anchieta)

Para cumprir seu roteiro,
O farsante, o vigarista,
Dentro da noite paulista,
Pegou a mala e sumiu...
E como alguém lhe pediu,
Foi esconder o dinheiro...
Mas Deus se fez justiceiro
E logo “a casa caiu”.

Coitada de nossa gente,
Pela maldade que sofre
Dos que roubam nosso cofre
Forjados de gente fina...
Quanta ave de rapina!
(Que Deus poupe as exceções!)
ó meu Deus, quantos ladrões
Movidos pela propina?!

Enquanto isso, haja dor,
Haja fome, haja pobreza,
Haja pranto, haja tristeza
Haja deseducação...
O viver parece vão
Em meio à desesperança...
Precoce morre a criança,
Mas prolifera o ladrão.

A mala veio de volta,
Por força dos “Federais”...
Meio milhão de reais,
Retornou ao nosso povo...
- Um cínico baba-ovo
De algum mandão do poleiro,
Com medo, trouxe o dinheiro
Pro nosso cofre de novo.

Só espero que outras malas
Condutoras de propina
Dobrem esta mesma esquina,
Seja por mal ou por bem...
E quero pedir também:
- Já que não pode haver “peia”,
Pelo menos da cadeia,
Não fique livre ninguém!
********

POESIA DE MEU SERTÃO

Abro nosso “ESPAÇO DO ANCHIETA” com duas sextilhas minhas, escritas na década de 80, mas que estão ainda atualíssimas:
O Brasil está ferido,
Com grande fratura exposta...
- Brasileiro é povo besta,
Que de sofrer muito gosta,
Por não saber dizer: basta!,
Vive nadando na bosta!
(Anchieta)
Esta gente brasileira,
É doce, é linda e é nobre...
Por faltar-lhe Educação
Seu valor nunca descobre...
- É um Brasil podre de rico
E um povo podre de pobre!
(Anchieta)
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O grande Patativa do Assaré, falando de saudade, assim versejou:
Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo:
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente
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Fragmentos da poesia do conterrâneo Valdir Teles, poeta repentista nascido em Livramento-PB, no ano de 1953:
1) – Retratando a beleza do velho e sofrido Sertão:
Não precisa de energia,
Lá só basta o sol e a lua;
Ele despido, ela nua;
Um de noite, outro de dia.
Na hora que a tarde esfria,
Deus faz a transformação:
O sol apaga o clarão,
A lua desfila acesa,
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.
2) - Uma cena de seu tempo de criança:
Pai vinha de São José
Com uma bolsa na mão,
Minha mãe abria a bolsa,
Me dava a banda de um pão
Porque se desse o pão todo
Faltava pro meu irmão.
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JOIAS DO GIÓIA

Rafael GIÓIA JUNIOR nasceu no dia 9/8/31, em Campinas/SP. Foi escritor. poeta, radialista, jornalista, advogado e político. Faleceu em 3 de março de 1996.
Dele, aqui transcrevemos dois poemas.
No primeiro, ele descreve de forma muito atual, num mundo de violência desmedida e irrefreável, a ansiedade de quem aguarda em casa, madrugada adentro, o doce barulho da maçaneta, anunciando o retorno do filho querido. O segundo poema retrata a desgraça que o "poder", ou as posições sociais, tão efêmeras, podem causar nas almas das pessoas, diante de seus semelhantes. Esquecem-se do que nos pode trazer o amanhã.
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ORAÇÃO DA MAÇANETA
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Não há mais bela música
que o ruido da maçaneta da porta
quando meu filho volta para casa.
Volta da rua, da vasta noite,
da madrugada de estranhas vozes,
e o ruído da maçaneta
e o gemer do trinco,
o bater da porta que novamente se fecha,
o tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto,
uma suave cantiga de ninar.
Só assim fecho os olhos,
posso afinal dormir e descansar.
Oh! a longa espera,
a negra ausência,
as histórias de acidentes e assaltos
que só a noite como ninguém sabe contar!
Oh! os presságios e os pesadelos,
o eco dos passos nas calçadas,
a voz dos bêbados na rua
e o longo apito do guarda
medindo a madrugada,
e os cães uivando na distância
e o grito lancinante da ambulância!
E o coração descompassado a pressentir
e a martelar
na arritmia do relógio do meu quarto
esquadrinhando a noite e seus mistérios
Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa
com todos os ruídos secundários.
-Oh! os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e o festival dos passos que ganham a escada!
Nem as vozes da orquestra
e o tilintar de copos
e a mansa canção da chuva no telhado
podem sequer se comparar
ao som da maçaneta que sorri
quando meu filho volta.
Que ele retorne sempre são e salvo,
marinheiro depois da tempestade
a sorrir e a cantar.
que na porta a maçaneta cante
a festiva canção do seu retorno
que soa para mim
como suave cantiga de ninar.
Só assim, só assim meu coração se aquieta,
posso afinal dormir e descansar
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GANGORRA
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Quando eu desço, você sobe,
quando eu subo, você desce...
Lá fora dança a gangorra,
desde que o dia amanhece...
Desce e sobe, sobe e desce
num compasso sempre igual:
No centro, um ponto de apoio
prende a tábua horizontal!
Há borrões de sol vermelho
na loira manhã sem par,
e a gangorra não descansa,
sobe e desce sem parar...
A gangorra é como a vida,
nos movimentos que tece;
quando eu desço, você sobe,
quando eu subo, você desce...
Você, que ficou no alto,
não deve de mim sorrir;
você terá que descer,
quando eu tiver que subir!
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