sábado, 18 de agosto de 2018

OS IMBOCIOTAS - José de Anchieta Batista

Em tempo de guerra, a convocação para o serviço militar se sobrepõe à mera voluntariedade, pois se estabelece, acima de tudo, a obrigação de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Isto é algo milenar na vida castrense. Em tempo de paz, contudo, a escolha da profissão militar significa bem mais uma aceitação voluntária daqueles rigorosos preceitos que regem a vida na caserna. Em nenhum caso, entretanto, seja em momento de guerra, seja em momento de paz, é dado insurgir-se contra os regulamentos. O descumprimento do dever, mesmo de forma parcial, possui em algum lugar dos mandamentos disciplinares, uma dosagem apropriada de amargo remédio.
O cotidiano nos quartéis transcorre de forma ímpar, diferente do mundo civil, pautada na estrita obediência à hierarquia e à disciplina, princípios basilares em que se fundamenta a vida militar. Estes são dois pilares imprescindíveis para que seja possível o sucesso na paz e na guerra. Pelo menos era assim durante o tempo em que por lá estive. Dizem que mudou muito, mas continuo com a certeza de que, afastadas as duas vigas mestras, melhor será fechar os quartéis e contratar vigias, guardas-noturnos e jagunços, pois a bagunça estará instalada e nada funcionará a contento.
Naquele ambiente de severa observância às normas, onde é sempre repetido que “ordem dada deve ser ordem cumprida”, acontece de tudo. Ali, vamos encontrar permanentes relações humanas bem propícias a dois comportamentos doentios: o puxa-saquismo e o abuso da autoridade.
Em vinte e três anos de caserna, juntei uma penca de “causos” que trago bem guardados num compartimento especial do alforje de minha vida.
Lembro que certa vez, no pátio do quartel, um cabo que cuidava da faxina, aproximou-se do comandante e, com um lenço na mão esquerda, fez sua apresentação em voz alta e falou:
- Coronel, uma andorinha indisciplinada fez cocô lá de cima e sujou o ombro de sua gandola. Peço permissão para limpar.
O comandante, avessos a bajulações, deu-lhe uma “mijada” e determinou que ele sumisse dali e fosse cumprir suas obrigações com o lixo.
Noutra oportunidade, um sargento foi voluntário para um desgastante treinamento de sobrevivência na caatinga e justificou o porquê de ser ele voluntário:
- Capitão, eu tenho me sentido com excesso de saúde.
Muitos e muitos fatos de bajulices estão registrados na memória do passado dos quartéis.
Vale relembrar um episódio ocorrido no Batalhão Especial de Fronteira, daqui de Rio Branco: um soldado convidou o comandante da Companhia de Selva para ser o padrinho de batizado do filho. Dias depois, passou por minhas mãos uma certidão de nascimento, em que o garoto herdara o nome completo de seu padrinho, acrescido apenas da palavra Silva.
Em outro quartel de fronteira, não me lembro precisamente onde, em plena efervescência do governo militar, quando sobejavam frases de incentivo ao patriotismo, a filha de um cabo do rancho recebeu, num ato de puxa-saquismo nacional, o nome de Elvira do Ipiranga.
E assim proliferam as sagas tragicômicas dos bajuladores.
Enfoquei aqui “causos” do meio militar, mas ao vir conviver no mundo civil, encontrei também essa doença alastrada com maior prodigalidade. É uma moléstia humana.
Mas, não posso fechar esta crônica sem registrar pelo menos um fato de abuso de autoridade. Em um quartel nordestino onde eu servia, estávamos na primeira reunião de subtenentes e sargentos, com o novo comandante, um sujeito cuja fama de tirano chegou ali bem primeiro do que ele. Em certo momento daquele primeiro encontro, um sargento ousou interrompê-lo, pedindo permissão para fazer uma pergunta. Coitado de meu amigo! Recebeu a maior mijada de sua vida. Para mim, foi um momento extremamente ridículo. Jamais alguém poderia supor que aquele miserável babaca pudesse pensar que estava acima de Deus.
- Cale a boca, sargento! Não interrompa a fala de seu comandante! Fique sabendo que quando um comandante fala até o vento para – bradou ele do alto de seu Olimpo particular.
Perplexos, escutamos aquela sentença como uma predição de tudo o que haveríamos de passar em seus dois anos de comando. Um inferno, um terror.
A partir daquela primeira reunião, algum espirituoso tascou-lhe o apelido de “o imbociota”, palavra resultante de sua condição de “imbecil”, “boçal” e idiota”, e que foi sobejamente dita e repetida durante aquele malfadado biênio. Era nossa insignificante vingança.
Finalizo com um alerta de que estes “causos” não existem como regra dentro dos quartéis. A rigorosidade dos regulamentos militares podem até favorecer, mas não são responsáveis pela prática de condutas abomináveis. Aqueles regulamentos, pela peculiaridade da missão, não podiam deixar de ser rigorosos, mas neles também estão previstas regras da boa convivência humana, respaldada no absoluto respeito. Os exageros são produtos dos “IMBOCIOTAS”.

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sábado, 11 de agosto de 2018

A BRABEZA DO BRABO - José de Anchieta Batista(*)

Do livro: “Histórias e Causos que a Vida Contou”
Desde os seis ou sete anos de idade, passou a ser chamado pelo apelido de Brabo.
No primeiro dia de escola, toda a meninada encontrou nele, imediatamente, muitos motivos para gozações. Parecia um boneco de brinquedo. Tinha metade da estatura dos outros, era exageradamente franzino e sua cabeça parecia a de um macaquinho. Com aquele jeito esquisito, seu primeiro apelido foi “monstrinho”, mas diante de suas reações agressivas, os colegas adicionaram outro apelido que veio a predominar definitivamente: Brabo. É que ele saía no braço com meio mundo. Fosse quem fosse. Tivesse o tamanho que tivesse. Havia, contudo, uma infinita desvantagem nisso. Não vencia um só dos embates. Na maioria das vezes, no auge da brabeza, os garotos erguiam-no do chão, sem qualquer esforço, e ele ficava balançando no ar as duas perninhas, sem alcançar coisa alguma. Depois ia ele se sentar, amuado, chorando e xingando, lá pelos recantos.
Os dias se passaram, consagrou-se realmente como Brabo e, até hoje, por volta dos cinquenta anos, quase ninguém sabe seu verdadeiro nome. No transcorrer de todas essas décadas, certamente cansou-se de reagir ao apelido e se tornou tão natural ser chamado assim, que a brabeza do Brabo, para reagir a isso, sumiu. Se o chamarem por seu nome de batismo, que também não sei qual é, com certeza não atenderá. 
O lado bom de tudo isso é que, apesar do apelido, o Brabo se fez um cidadão pacato, absolutamente avesso à violência. Por outro lado, o garotinho briguento dos tempos de escola não conseguiu mudar sua compleição física. Continuou um magricela, um pedaço de gente, com estatura bem inferior a um metro e meio.
Há algum tempo, nosso personagem resolveu montar um bar a que deu o nome de “Bar Paz e Amor”. Num pequeno salão de duas portas, instalou prateleiras e balcão, comprou geladeira, sinuca, mesas, cadeiras e adquiriu utensílios para servir tira-gostos. Ele atende lá na frente e sua mulher cuida dos afazeres da cozinha. A todos ele faz questão de dizer que o ambiente é familiar, em contradição com as atitudes das figuras femininas que lá frequentam. O negócio tem andado de vento em popa, mas o Brabo, vez por outra, tem que apelar para a polícia vir restabelecer a ordem, em decorrência de algum arranca-rabo.
Certo dia, o tempo fechou lá no bar do Brabo e a urgência foi atendida por uma guarnição da Companhia de Operações Especiais, conhecida popularmente como COE, cujos componentes passam por uma seleção rigorosíssima, como se estivessem procurando lutadores de vale-tudo. Só pode fazer parte da corporação quem tiver corpo agigantado e muita disposição na hora do quebra-pau. Vestem farda preta, são de pouca conversa e, dependendo da valentia do abordado, deixam o sujeito moído de peia.
A guarnição atendeu com presteza ao chamado, mas um fato pouco comum aconteceu. Ao entrar no bar, um daqueles gigantes de dois metros de altura e massa corpórea de um mamute, foi logo fazendo a pergunta de praxe:
- Quem é o brabo daqui?
- Sou eu! – respondeu firmemente o pobrezinho do Brabo, caminhando em direção ao soldado.
Por infeliz coincidência, empunhava um pedaço de taco de sinuca que alguém houvera quebrado na hora da confusão e que ele acabara de apanhar do chão para jogar no lixo. O brutamontes não quis papo. Sentiu-se ameaçado e desceu-lhe a mão aberta no tronco da orelha. O pobre do Brabo foi estatelar-se a uns oito metros de distância, completamente nocauteado, lá no meio da rua.
- Comigo, brabeza é na porrada! Mais algum brabo por aqui? - arrematou desafiante o policial.
Quem era doido de responder? Alguns presentes, porém, com muito jeito, apressaram-se em desfazer o lamentável equívoco e correram para acudir o coitado do Brabo que, totalmente zonzo, procurava identificar em que mundo se encontrava.
Desfeito o tumulto, verificou-se que os baderneiros responsáveis pela confusão já estavam muito longe e o comandante da patrulha entabulava, comovido e prestimoso, um insistente pedido de desculpas pela violenta trapalhada.
Vida afora, o Brabo se fez manso, mas infelizmente continua a carregar e a sofrer o peso da falsa brabeza de seu apelido.

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(*) Escritor, poeta, passageiro do tempo e da agonia... e não sei mais 
o quê.

sábado, 4 de agosto de 2018

NA CASA DA OUTRA - (por José de Anchieta Batista)

Há muitos anos escolhi a Eletrônica do Severino para proceder os consertos de meus equipamentos domésticos. Severino é um cara simples, sem muita conversa, mas de bom convívio, que sempre demonstrou conhecer muito bem a profissão, e nunca me despertou qualquer desconfiança quanto a sua honestidade.
Na parte da frente do estabelecimento, dona Letícia, sua esposa, cuidava da recepção e gerenciava a pequena loja, onde um empregado atendia os fregueses que ali procuravam mercadorias do ramo da eletrônica. Na parte de trás, separada por uma porta larga, sempre mantida fechada, funcionava a oficina do Severino.
Dona Letícia não trazia uma beleza que chamasse atenção, mas para o Severino, feio, buchudo e meio grosseiro, ela estava bem acima do padrão. No dia a dia, cuidava das anotações, fazia a emissão das notas fiscais, telefonava para os fregueses da casa, controlava as cobranças e era responsável pelo “caixa”. Sempre educada e solícita, ela própria servia cafezinho e água aos clientes, além de alimentar um bom papo, principalmente quando o assunto era futebol. Era uma flamenguista exaltada e sempre aproveitava minha passagem por ali, para zonar com minha cara, diante de qualquer derrota do Vasco. Com certeza, quando a vez da chacota era minha, dava-lhe o troco na mesma moeda. Assim, eu sempre passava pela Eletrônica do Severino para prosear, tomar um cafezinho, futricar com as coisas do Flamengo e também pegar no pé da dona Letícia em razão de suas preferências políticas. Podia-se dizer que havia se estabelecido uma boa amizade.
Um dia cheguei por lá, levando para conserto, um forno micro-ondas. Dona Letícia atendeu-me carrancuda, sem quase responder ao meu bom-dia. Estava visivelmente atormentada por algum a coisa. Matutei sobre o que poderia ser e se partira de mim. Claro que não. Imaginei algum aborrecimento tolo do cotidiano e parti para quebrar aquele gelo:
- Dona Letícia, cadê o Severino? - perguntei-lhe.
- Sei lá! - respondeu-me secamente.
Como eu desconhecia qualquer sacanagem por parte dele, e como era costume meu brincar com ela sobre as ausências do marido, disse-lhe sorrindo:
- Se perturbe não, Dona Letícia, ele foi somente lá na casa da outra mas volta já.
Não havia hora mais inoportuna para eu fazer aquilo. Dona Letícia olhou para mim como se eu fosse seu pior inimigo, como se quisesse me morder, e disparou aos gritos:
- Até o senhor já tá sabendo, seu Anchieta? Aquele cachorro, safado, filho da puta…
Resolvi interferir e me justificar:
- Dona Letícia, queira me perdoar, eu não sei de nada! A senhora acha que se eu soubesse de alguma coisa, que nem imagino o que seja, eu iria afrontar a senhora? Nunca!
- Sabe, sim! Homem não vale nada! Rio Branco inteira já sabe disso! Este safado só prestava pra ser corno! Tem uma mulher séria como eu em casa e vai pra rua arranjar uma quenga qualquer!
Resolvi não mais alimentar qualquer papo. Não adiantava conversar. Dirigi-me para a porta e, enquanto ela ainda falava, entrei no carro, sem deixar o micro-ondas, e sumi pela Chico Mendes, intrigado com o incidente.
A partir de então, dei um tempo sem passar pela Eletrônica.
Uns seis meses depois daquilo, entrei lá para pedir a opinião do Severino sobre uma marca de televisor. Fui atendido por uma morena estonteante, daquelas que não fazem questão de esconder o lado da vulgaridade. Um perigo.
- Bom-dia, moça. Onde está o patrão? – perguntei-lhe.
- Bom-dia, meu amor. Severino saiu para o centro, mas se quiser deixar algum recado, eu sou a esposa dele – falou-me, acentuando sua voz melosa, enquanto se dirigia à mesa do computador, com seu rebolado provocante.
- Não, minha senhora, depois eu venho. Obrigado. – disse-lhe, dirigindo-me à saída.
- Tenha um bom-dia, meu bem, e volte sempre – disse-me com aquele olhar de quem queria me saborear vivo.
Nunca mais retornei ali, nunca mais falei com o Severino e, também, nunca soube do destino da dona Letícia, que tanto me enchia a paciência nas derrotas cruzmaltinas.
Concluo afirmando que, mesmo sendo um apaixonado pela Cruz de Malta, há mais de meio século, eu preferia mil vezes que continuasse dependurado naquela parede, o enorme distintivo do Flamengo, que a nova esposa do Severino substituíra pelo brasão do Vasco.
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sábado, 28 de julho de 2018

REZA MILAGROSA PRA CURAR DOR DE DENTE

José de Anchieta Batista
O poder da fé é algo de que não se deve duvidar. Quando Jesus se referiu à fé que transporta montanha, deixou bem claro que nossa mente está muito aquém de sua magnitude, e que quase não é exercitada. Vivemos aqui na Terra sob o poder de regras e leis que a Ciência vai aos poucos descobrindo. A cada passo que ela avança, a cada nova descoberta, avança também nossa estupefação, e sempre nos fazemos mais conscientes de que somos criaturas pequeninas, frágeis, estúpidas, ignorantes e metidas a conhecedoras do que não conhecemos. Diante desta maravilhosa amplidão, em que estamos inseridos, e que é toda preenchida por uma magia indescritível, ignoramos de onde viemos e não sabemos por que estamos aqui. Também nos é vedado saber qual será nosso próximo destino, depois do que chamamos de morte. Em suma, somos um bando de bestas em busca da verdade. E como não a alcançamos, cada uma das bestas inventa a sua versão e se compraz em se iludir. O Homem de Nazaré evidenciou nossa tamanha ignorância e pediu que buscássemos a verdade pois só ela nos libertará. Enquanto isso não acontecer, estaremos rastejantes, buscando forjar verdades particulares. E assim vivemos sob a batuta do que não é verdadeiro.
Dei um toque simples, nas linhas acima, em um assunto muitíssimo sério, para exordiar um “causo” verídico, que agora vou relembrar, e no qual fica evidenciado o poder da fé.
Barbosinha, companheiro de carraspanas e presepadas, em Campina Grande, convidou-me para passar um fim de semana numa fazenda perto do município de Ingá de Bacamarte. Lá moravam parentes de sua namorada, a Cidinha, naquela época estudante do curso de Ciências Econômicas, e com quem se casou algum tempo depois.
Enchemos o tanque do velho fusquinha azul e partimos para mais uma aventura etílica. Uma hora de viagem até Ingá e outra hora até a fazenda. Após o ritual de apresentações aos familiares, fomos agasalhar nossas mochilas num dos quartos do velho casarão, para depois nos dirigirmos a um banho de cacimba, na companhia de alguns primos da Cidinha.
Mais tarde, sentamo-nos ao redor da mesa do alpendre - éramos mais ou menos umas trinta pessoas - para saborear tira-gostos de todo tipo, com acompanhamento de algumas doses de cachaça. Foi quando um garoto trouxe um recado, avisando que o sanfoneiro não poderia vir para a noitada, por conta de uma dor de dente dos diabos. O forrozeiro estava com a cara redonda de tão inchada e o pobre coitado, lá em sua casa, gemia feito um doido e nem sequer conseguia falar. Dessa forma, também o forró da noite do sábado estaria comprometido. Todos se entreolharam decepcionados e externando alguma lamentação.
Naquele momento, lá me vem o Barbosinha com mais uma de suas maquinações.
- Onde é que mora esse sanfoneiro? Amanhã vai ter forró, sim! – sentenciou, pedindo que alguém o acompanhasse até o fusquinha.
- Que é que tu vais fazer, Barbosa? – indagou Cidinha sem entender nada.
- Ora, meu amor, vou rezar nele uma reza forte que meu avô me ensinou, e amanhã ele estará aqui para comandar nosso forró – respondeu, já entrando no carro, fazendo-se acompanhar por um familiar da namorada.
Eu e a Cidinha olhamos um para o outro, mas nem eu nem ela entendemos nada. Intrigado, pensei comigo: “
- Esse fio duma égua já vai aprontar mais uma.
Esperamos ansiosos por seu retorno. Não demorou muito. Foi chegando e desabafando em voz alta:
- Fiz minha parte. Agora depende do santo e da fé dele – falou com força, engolindo uma dose reforçada de pinga.
Todos se entreolharam, sem comentários, como se preferissem aguardar o outro dia.
Evitei externar minhas reais impressões, mas logo depois me aproximei dele e falei baixinho:
- Homem, deixa de ser sem-vergonha, cara! Você tá doido, é? Amanhã vai passar um vexame.
- Eu? Se der errado vou botar a culpa nele mesmo - respondeu-me com tranquilidade.
No outro dia, o forró foi um dos mais animados já acontecidos ali. O sanfoneiro estava sem dor de dente, sem inchaço na cara, e animou o rala-bucho até o sol raiar.
A partir de então, Barbosinha ficou com a fama de grande rezador. Sempre que aparecia por aquelas bandas, era procurado para rezar até contra dor de corno. Com o acontecido, eu mesmo fiquei com minhas dúvidas se não seriam reais os poderes do Barbosinha. Passei, então, a chamá-lo de “curandeiro”.
Certo dia, lá em Campina Grande, exigi a verdade:
- Barbosinha, você é meu amigo e vai me contar agora qual foi a sacanagem que você aprontou com aquela reza no sanfoneiro.
Ele, então, com a cara mais lambida do mundo, se abriu:
- Anchieta, não é pra falar a verdade pra Cidinha, pois ela pensa que sou mesmo o maior rezador do mundo. Até me pede para benzê-la também – disse com uma estridente gargalhada, fazendo uma pausa para tomar mais uma lapada.
Em seguida concluiu:
- Meu amigo, foi meu avô, que era bem mais sacana do que eu, quem me repassou a oração. Naquela noite, repeti umas vinte vezes, com o galho do pinhão roxo na bochecha do sanfoneiro. Escute aí como é poderosa:

É corno quem acredita
Nesta minha reza à toa...
Ô dente filho da puta,
Na boca dessa pessoa,
- Se quiser passar, que passe!
- Se quiser doer que doa!

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sábado, 21 de julho de 2018

DOUTOR RIVALDO GUIMARÃES E O “CAUSO” DO REGATÃO[1]

José de Anchieta Batista
Meu saudoso amigo, Dr. Rivaldo Guimarães, que viajou para a outra dimensão em 2012, era meu conterrâneo, nascido na cidade de Cajazeiras, lá no sertão da Paraíba, e foi trazido para o Acre, nos idos de 1948, aos três anos de idade. Antes de entregar-se ao mundo do Direito, militou como jornalista em diversos órgãos da imprensa acreana.
Doutor Rivaldo, como eu o chamava, era um cidadão simples e da melhor qualidade, um sujeito porreta, um cara espirituoso, um apreciador da boa prosa, um admirador do cordel, um apaixonado por sua raiz nordestina e, ao mesmo tempo, um valoroso acreano que se denominava, como eu, um “acreibano” – neologismo que significa a mistura da alma acreana com a paraibana. Sempre que nos encontrávamos, íamos ao fundo do baú, buscar alguma coisa rimada, alguns versos das pelejas de violeiros, ou algum fato pitoresco, descrito em versos, por aqueles nossos sertanejos espirituosos.
Em 1988, nomeado por concurso para o cargo de Juiz de Direito, foi assumir a comarca de Feijó, cidade às margens do Rio Envira, lá no interior do estado do Acre. Sempre foi um cara simples antes de ser juiz e conduziu seu alforje de humildade pela vida afora, mesmo depois que se fez magistrado. Seria naquele município interiorano, um homem da Justiça, sem a imponência e a arrogância de muitos que se sentem acima dos mortais. Conheci vários, em minhas andanças por este mundo de meu Deus, que para externar a autoridade da função ocupada, passavam o tempo como se estivessem vinte e quatro horas com raiva, com vontade de morder alguém, expelindo fumaça pelas ventas, odientos e mal-educados. O Dr. Rivaldo, era exatamente o contrário: um juiz do povo. Compreendia a alma caipira do interiorano. Premido pelo ambiente sui generis daquela gente, adaptava com visão humanista, a figura do juiz, ao modo de ser daquela gente simples. Assim cumpriu seu dever, em algumas comarcas, sem ferir a dignidade do cargo e sem querer postar-se acima de sua condição de ser humano.
Naquela sua simplicidade, o cidadão comum não percorria uma distância muito grande, nem tinha que vencer muitos obstáculos para chegar até o Juiz.
Narro aqui um dos “causos” de sua coleção:
Uma certa tarde, um regatão de nome Pedro Cotia (nome fictício), que residia nos arredores da cidade de Feijó, compareceu ao fórum e, na antessala do Dr. Rivaldo, insistia em ser recebido por ele. A atendente explicou que o “doutor juiz” estava ocupado, estudando os processos das audiências do dia seguinte e que, por isso, não seria possível atendê-lo. O regatão, contudo, argumentava que era muito urgente e que tinha que ser naquela hora. Como o cara tinha fama de ser brabo, a mocinha sentiu-se meio amedrontada. O que diabo aquele cara de voz alta e estridente podia querer com o juiz? A essa altura o chefe de gabinete e um soldado que trabalhava à disposição da comarca, aproximaram-se para contornar a situação. Foi explicado o quanto seria inconveniente interromper a autoridade naquele momento, mas o sujeito fincou pé:
 - Eu só saio daqui depois de falar com o doutor – bradou, sentando-se na cadeira mais próxima que encontrou. Não sou bandido. Sou um homem de bem.
Ali na sala, todos sabiam mais ou menos o motivo por que ele estava ali, mas preferiam fazer de conta que de nada sabiam. Só não estavam entendendo a razão por que ainda não tinha acontecido a desgraça que muita gente previa, nem a razão de estar procurando o juiz. Também evitaram perguntar o que significava aquele catombo na testa, o corte no lábio inferior e aquele jeito de andar com alguma dificuldade. Mesmo assim ele explicou que tudo teria sido ele amansando um burro brabo num daqueles seringais.
- Vocês me conhecem. Sou um cidadão nascido e criado aqui, vivo sofrendo pra cima e pra baixo nesse Envira, sou um cabra respeitado, cumpridor de meus deveres e nunca fui preso.
 Fez uma pausa para beber um copo d’água, e continuou seu discurso de pabulagem, como o cara mais brabo do mundo:
- Não devo a filho da puta nenhum, não cobiço mulher alheia, nunca dei porrada em ninguém sem merecer, nunca levei aborrecimento pra casa e em meus negócios, “comprou, pagou”, ou o cara se arrepende – desabafava em voz alta.
De seu gabinete, o Dr. Rivaldo ouvia tudo. Sabia, entretanto, que seus auxiliares, como em outras oportunidades, saberiam resolver o problema.  Contudo, passados alguns momentos, resolveu chamar pelo interfone seu chefe de gabinete e indagou o que estava acontecendo. Ficou ciente, então, da insistência do regatão em manter uma conversa com ele, informando-lhe também que se tratava de pessoa tida como violenta e que não era conveniente recebê-lo.
- Perceberam se está armado? – perguntou o juiz.
- Está não, doutor. Deu pra ver que não está.
Dr. Rivaldo levantou-se, foi até a porta, abriu-a e chamou o sujeito:
- Amigo, venha cá. Entre e sente-se ali – disse, apontando uma cadeira à frente de sua mesa.
Pedro Cotia apressou-se em cumprir o que mandou a autoridade e foi logo se abrindo:
- Doutor, não quero tomar muito seu tempo, mas é que tô numa situação bem difícil. Sou regatão e vivo fazendo longas viagens pelo Envira. Desta vez passei dois meses fora e quando cheguei, agora meio-dia, encontrei em casa um cabra safado que se mudou pra viver com minha mulher e os dois nem sequer deixaram eu entrar. Veja se isso é possível? Tenho que pelo menos pegar minhas coisas.
O juiz passou a mão no queixo, sem conseguir decifrar aquela contradição: O sujeito tinha fama de muito brabo; era respeitado ali na cidade e também nas brenhas por onde circulava, ao longo do Rio Envira; nos negócios, ninguém lhe dava calote, por medo das consequências; sabia-se de surras que havia aplicado por aí, em razão de não levar desaforo pra casa e, naquele momento, o desaforo estava dentro da própria casa e o cara amarelou diante do “ricardão”. Vá entender? – questionou-se o Dr. Rivaldo, sem contudo, externar essa estranheza, para não incentivar alguma atitude violenta.
Diante da aflição daquele leão abatido, perguntou-lhe:
- E o que o senhor quer que eu faça? 
- Doutor, não vim pedir muita coisa. Já que não tenho filho com ela, quero só pegar meus troços o mais ligeiro possível. Nada mais.
O magistrado redigiu um bilhete para o delegado, entregou ao soldado, e mandou que o indigitado cidadão o acompanhasse.
Pedro Cotia agradeceu, e se despediu para nunca mais ser visto nas redondezas.
Soube-se depois que, na realidade, a confusão tinha sido feroz, o Pedro tinha levado uma surra daquelas, ficando confirmada como verdadeira aquela frase: 
- “Remédio para um brabo é outro mais brabo na corcunda”.


[1] BLOG ALMANACRE (28.08.2010) – REGATÃO: Herói atípico da Amazônia – Autor: Elson Martins:  “... Historicamente, o regatão da Amazônia é o pequeno comerciante que entra nos rios e igarapés com sua pequena embarcação carregada de miudezas, oferecendo esses produtos aos moradores dos rincões da região. Troca – mais que vende – produtos industrializados por espécies valiosas da floresta. ...”


sábado, 14 de julho de 2018

COMO EDUCAR UM MAU VIZINHO (Anchieta)

Aconteceu há uns vinte anos, na cidade de Brasileia, no Estado do Acre.
A troca de farpas entre os dois vizinhos já se prolongava por mais de ano. Zé Jovino, funcionário de uma agência bancária local, cidadão pacato, de boa índole, suportou o quanto pôde os abusos cotidianos do Tonhão.
Sem falhar um dia sequer, o som estridente do vizinho rompia a calma da noite, por volta das dezenove horas.  A potente aparelhagem de som, adquirida na zona franca de Cobija, na Bolívia, fazia-se ouvida muito distante. Era somente uma meia dúzia de músicas de dor de cotovelo, repetidas incessantemente. O abuso era tanto que muitas vezes a parada musical se prolongava até depois da meia-noite. Aquilo era simplesmente um absurdo.
Zé Jovino não encontrou nenhum jeito de convencer o atrevido vizinho. Registrou, então, um boletim de ocorrência na polícia. O delegado, diante dos dois, expôs os direitos e deveres de cada um, com grandes reprimendas ao comportamento do Tonhão, que se comprometeu a não mais exagerar na altura do som e também a silenciar suas caixas de som às 10 horas da noite. Ao final, como era de praxe, a autoridade policial determinou que os dois se apertassem as mãos.
Muito em breve, o Tonhão se esqueceu do que tinha prometido na delegacia e voltou a praticar os mesmos abusos, principalmente quando tomava umas carraspanas. Sábado e domingo, então, era o fim da picada.
Zé Jovino pensou em voltar à delegacia, mas desistiu. O delegado era visto apenas como um banana, um bestalhão sem moral, que só falava e falava, mas não dava jeito a coisa nenhuma. Entrara no serviço público pela janela e fora nomeado delegado por ingerência política, pois não tinha qualificação para tal.
Passados alguns dias de novos abusos, ocorreu a Zé Jovino, por várias vezes, pegar sua espingarda calibre 12 e destruir a eletrola do vizinho. Tinha coragem de sobra para fazer isso. Quem aquele sujeito pensava que era? Embora o Tonhão fosse um grandalhão metido a brabo, todo mundo sabia que se tratava de um sujeito frouxo, molenga, capaz mijar nas calças, diante de qualquer aperto. Mas o Zé, depois de medir as consequências, desistiu disso e foi maquinar outro remédio.
Quando sua esposa anunciou que estava grávida, Zé Jovino se preocupou bem mais. Seu primeiro filho não poderia ficar exposto à esculhambação do maldito som do Tonhão. Decidiu então por uma outra solução: Pedir socorro à juíza. Aquela autoridade o conhecia e com certeza o ajudaria, pois era cliente especial do banco em que trabalhava. Levou avante sua ideia, mas voltou para casa ainda mais triste e decepcionado com a resposta que recebera da magistrada:
- Seu José Jovino, para que a Justiça aja, é necessário ser provocada. O Senhor tem que entrar com um processo, por meio de um advogado, contra esse seu vizinho. Não posso fazer nada. Lamento.
Saiu do gabinete cabisbaixo. Pensou novamente em sua espingarda, avaliou mudar-se para outra casa ou, em último caso, pedir transferência para Rio Branco. Achava, porém, um absurdo ser ele o grande perdedor da querela. Não! Jamais iria sair dali por causa de um vizinho mau-caráter. Iria à luta.
Faltavam quatro meses para a esposa trazer ao mundo seu primeiro pimpolho. Tinha que agir logo. Só não podia fazer alguma besteira que viesse complicar a sua vida.
De repente, Zé Jovino lembrou-se de que a coisa que o Tonhão mais adorava na vida era a soneca de depois do almoço. Todo início de tarde, janela aberta bem junto ao muro, Tonhão se espojava na velha rede encardida. Seu ronco se ouvia à distância. Eram duas horas mergulhado num sono profundo, mais parecendo um velho porcão sem qualquer compromisso. Durante esses momentos, o sujeito era capaz de sair no tapa com quem ousasse acordá-lo. A mulher e os filhos não davam um pio.
Pronto! Até que enfim encontrara a chave de ouro para sua vingança.
Zé Jovino pôs em prática seu plano. Trouxe de sua colônia um motor de puxar água, daqueles mais barulhentos que se possa imaginar e instalou-o no quintal, bem ao lado da janela do Tonhão. Meio-dia e meia, o velho motor entrava em ação, com seu barulho ensurdecedor. Parecia uma turbina desses aviões de carga. Era de tal forma barulhento que, mesmo que o Tonhão fosse dormir em qualquer lugar da casa, jamais conseguiria desfrutar de uma soneca.
Quatro meses depois, quando o guri nasceu, todo aquele problemão de Zé Jovino estava resolvido. Depois de uns quinze dias da instalação do motor, a tranquilidade passou a reinar. O Tonhão entendeu o recado e se viu obrigado a abandonar, completamente, o mau costume de encher o saco do vizinho com sua vitrola e suas caixas de som. Foi uma bênção de Deus.
Quando Zé Jovino sentiu que o remédio surtira o efeito desejado, deixou quieto seu potente motor de puxar água do rio, devolvendo-o a sua colônia e voltou a usar somente o motor antigo, quase silencioso.

sábado, 30 de junho de 2018

MINHA CANDIDATURA

(Anchieta)
 Para cumprir cotidianamente minha jornada de trabalho, no Instituto de Previdência do Estado do Acre, comumente utilizo como entrada a porta de acesso ao estacionamento da repartição, o que me obriga a cruzar a sala de espera da Junta Médica. Por hábito, sempre cumprimento aqueles que ali aguardam atendimento, dirigindo-lhes um fraterno bom-dia e um “Deus abençoe a todos”. Em algumas ocasiões, quando não são muitos os presentes, acrescento um aperto de mão a cada um deles.  Assim procedo porque assim sempre procedi. Dispensar bom tratamento a meu semelhante é uma herança sem dúvida alguma trazida de minha infância. Assim me foi ensinado e exigido, e passou a fazer parte de meu proceder. Mas, nos dias de hoje, parece já não ser muito usual esse meu modo de agir.
A sala de espera da Junta médica é um ambiente em que dificilmente existem pessoas que não tragam consigo a aflição de algum problema de saúde, seu ou de um ente querido.  É bem nítido que os comportamentos dessas pessoas são diferenciados enquanto ali permanecem. Algumas, durante todo o tempo, permanecem silenciosas, introspectivas, olhar no infinito, como se estivessem indiferentes a tudo. Outras tagarelam incessantemente, por vezes em voz alta, inconformadas com alguma coisa. Maldizem as leis da previdência, culpam os médicos, ou dirigem impropérios ao governo. São aquelas mesmas criaturas que, em qualquer lugar e a todo momento, estão esbravejando e nomeando um culpado para tudo. Geralmente, os governantes e demais políticos.
Há alguns dias, após minha costumeira saudação, quando já me dirigia ao elevador, pude ouvir de uma senhora idosa, visivelmente cansada e abatida, mas sem travas na língua, um desabafo de revolta:
- Vocês viram? Está chegando o tempo de eleições. Nem sei quem é essa figura, mas com certeza isso deve ser candidato a alguma coisa. Agora todo mundo passa a ter valor para esse bando de safados e corruptos – disse, com voz muito fraca, pronunciando as palavras com dificuldade.
Uma professora, amiga e contemporânea de sala de aula no Colégio Professor José Rodrigues Leite, retrucou:
- A senhora me desculpe, mas seu julgamento está equivocado. Acho que a senhora não tem por costume ser bem tratada. Conheço o professor Anchieta há trinta anos. Nunca foi candidato a nada e sempre agiu assim.
Não me voltei, nem falei nada. Segui normalmente o caminho para minha sala, no andar superior, deixando para trás o diálogo entre as duas.  Soube, depois, que se tratava da mãe de uma ex-aluna, hoje advogada e servidora pública. Estava chegando de São Paulo, onde se submetera a tratamento no Hospital do Câncer. Ainda muito pálida e com um lenço cobrindo a cabeça sem cabelos, aquela senhora realmente carregava problemas bem maiores do que todos os meus.
Ali, foi bem mais sábio de minha parte, seguir o meu caminho. Existem momentos em que é bem melhor permanecermos surdos e mudos. Não me abalei com suas palavras e fui em frente silencioso. Pela personalidade de minha colega professora, sei que o diálogo chegou a um respeitoso termo.
 Claro que fiquei agradecido a minha amiga, pela defesa assumida e pelo autêntico elogio a minha pessoa, valendo destacar que realmente nunca me candidatei a coisa alguma. Jamais o fiz, porque jamais me adaptaria ao exercício de qualquer cargo eletivo. Não faz meu gênero.
Continuo apenas candidato a defunto.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

OS CARAS DE PAU

José de Anchieta Batista
Valha-nos Deus! As eleições vêm aí.
Alguns pronunciamentos vindos de determinadas pessoas que se arvoram defensoras da moral e da ética, causam-nos repugnância.  Sentem-se puras. Julgam-se com autoridade para falar de moral, gritar contra a corrupção, com o dedo em riste para os outros. Não é possível que dentro de suas almas não haja um “desconfiômetro” apontando para si mesmos. Não é possível que, diante de tudo o que praticaram e ainda praticam, não se vejam hipócritas, vagabundos, crápulas, ladrões, e mais um rosário interminável de adjetivos que se destinam aos safados que este mundo produz. São verdadeiras latrinas disfarçadas. Alguns já responderam a inúmeros processos por surrupiar o que não lhes pertence, mas continuam falsamente “vestidos” de pureza e luz. E quando isto lhes é lembrado, a resposta é bem contundente:
- Estou limpo. De nada posso ser acusado. Ninguém nunca provou nada contra mim. Tudo perseguição. Além disso, a justiça já arquivou essas mentiras e em todos os outros processos, fui inocentado – pronuncia-se o meliante de luxo, com cinismo e empáfia.
Sabe Deus de que forma o miserável ladrão da coisa pública conseguiu anular as acusações. Quase sempre os processos estão recheados de provas irrefutáveis. E ele sai por aí, na maior desfaçatez, peito estufado, fanfarronando, zombando da sociedade, apontando o dedo sujo contra cidadãos do bem. Sua ilusão é a de que limpo u sua fama de corrupto e que agora é visto como um cidadão sacrossanto, sem qualquer mácula. Ah, coitado! Haja óleo de peroba!
Há alguns dias reclamei para um amigo:
- Eles pensam que somos idiotas.
E a resposta não podia ser mais verdadeira:
- Eles não pensam que somos idiotas. Eles têm certeza!
Nesse mundo das bandalheiras, nossa realidade é ainda muito triste, mas já sentimos alguma melhora. Temos que aliviar para as próximas gerações. Queira Deus que isso aconteça!
Antes de concluir, não posso deixar de aqui ressalvar os que são vítimas das falsidades e mentiras. Isso também existe.
Concluo alertando que somente a verdade é caminho para a evolução. O resto é realmente o resto. E acrescento: o olho de Deus, como qualquer um O conceba, é do mesmo tamanho do Universo. Ele vê tudo!

sábado, 9 de junho de 2018

AMAR... E VIVER!

(Anchieta)

Se o amor é vida,
A vida é amor...  
Sem amor, esta vida  
É nula em sabor...  
O amor é luz...  
É luz e é cor...  
São todas as luzes,  
São todas as cores  
E exala o perfume  
De todas as flores.  
O mais lindo tema,  
De todos os temas!  
São só quatro letras,  
E a sonoridade  
De todos fonemas!  
Não cabe em meu peito  
Nem nos meus poemas.  
 
De qualquer semente,  
Brota e se expande,  
Se faz forte e grande,  
Faz-se infinito...  
Bendito ou maldito,  
No inexplicável  
De suas raízes:  
- Céu dos venturosos!  
- Dor dos infelizes!  


O amor que respiro  
É o misto das coisas  
Mais transcendentais...  
É a beleza de todos  
Os sons musicais,  
Tocados na harpa  
De meus ideais...  
- O amor por que vivo  
Que bem que me faz!  

Não há sinonímia  
Para o meu amor...  
Sinto-me senhor,  
Faço-me cativo...  
Eu sinto que amo!  
Eu sinto que vivo!  
Quero a simbiose  
De nossa existência,  
Na plenipotência  
Do amor que há em mim...  
Meu ser em teu ser...  
Teu ser em meu ser...  
Amar e viver  
Deste amor que é só teu,  
Deste amor que é sem fim!

***
(Versos da Adolescência)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

OS CORRUPTOS DE MINHA INFÂNCIA

(Trecho do livro: Capoeira das Éguas – Capítulo II)
“ ...
Em 1953, a seca foi terrível e, em consequência, os governantes implantaram, mais uma vez, programas para acudir os flagelados. Na execução desse socorro às vítimas do flagelo das secas, conhecido popularmente como “emergência”, inexistia qualquer controle efetivo que os revestisse de algum princípio de moralidade. Isso propiciava toda espécie de desmandos. Os chamados “fantasmas” fervilhavam em meio à relação de nomes dos trabalhadores. Até animais de estimação faziam parte dos que recebiam aquele socorro.
Dentre tantos desmandos, citam-se exemplos deveras curiosos, e até engraçados.
Naquele ano, foram inscritos, nas frentes de trabalho, dois flagelados com os nomes de José Aurora da Silva e de José Virgulino Caetano. Como nunca se ouvira falar da existência dessas criaturas ali em Capoeira das Éguas, os mais curiosos deram um jeito de saber o destino dos envelopes com o dinheiro. Um, era entregue na Pensão Aurora e o outro, no açougue do Zé Caetano. Como todos os parentes deles já estavam abrangidos pelo programa, deduziu-se que um dos “Josés” era o pornográfico papagaio “Cu Pelado”, da proprietária da pensão Aurora, e o outro “José” se tratava do vira-lata “Lampião”, do debochado Zé Caetano, um açougueiro vendedor de carne de bode. Para completar o absurdo, os “Josés” ganhavam como fiscais de tarefas, pois a remuneração era um pouco maior. Claro que os donos dos bichinhos dividiam com alguém o “suado” pagamento.
Descoberta a trampolinagem, tudo ficou por isso mesmo, e os envolvidos, ao serem perguntados sobre o assunto, ainda tinham o descaramento de se justificarem:
Esse dinheiro não é de ninguém mesmo! Se a gente não faz, outro faz!
E era desse jeito que os programas de socorro aos flagelados aconteciam.
Aqui, um parêntesis para um destaque ao famoso “Cu Pelado”.
Tratava-se de um papagaio da raça “Estrela”, proveniente das bandas do Pará, cuja “erudição e eloquência” o fizeram famoso. Era versado em xingamentos e saudações pornográficas a quem transitasse por perto dele. Além de saber gritar: “café-vovó!”, “Dá-pé-meu-lô-ro!”, “au-ro-ra-vem-cá!”, ele passava o tempo todo numa gritaria só: “Pi-ri-qui-tô!... Pi-ri-qui-tô!”... “Seu-bos-ta!”... “Seu-bos-ta!”.
Aprendia facilmente tudo o que lhe ensinavam, principalmente quando se tratava de sacanagem. Mas, quem fazia isso, às vezes, se tornava vítima das próprias aulas ministradas ao safado. Dona Aurora bem que tentou, muitas vezes, ensinar-lhe um hino da igreja, mas nunca teve sucesso.
Todos os dias, bastava ouvir a voz do João Mendes e lá se iam os repetidos conselhos do louro: “tomá no cu!”, “tomá no cu!”, “tomá no cu!”.
O Tonheiro, todo santo dia, passava por perto da pensão só para ouvir o louro fazer a festa: “fi-da-pu-ta!”... “fi-da-pu-ta!”... “fi-da-pu-ta!”. E os dois ficavam se insultando com o mesmo xingamento.
O Sebinha teve de suportar a vida inteira: “viado-véi!”, “viado-véi!”, “viado-véi!”.
Cu Pelado aliava a pessoa aos ensinamentos dela recebidos. Era realmente uma graça.
Na esculhambação da “emergência”, pelo menos o louro era responsável por alegrar a “Pensão da Aurora”. A velha tinha de ser bastante agradecida ao papagaio, pois fazia a propaganda de seu estabelecimento. Significava uma atração à parte, animando os clientes da casa.
O papagaio nunca estava de lundu, mas só aceitava “dar o pé” para pessoas de seu convívio mais aproximado. Só nunca se soube o porquê de sua inscrição como trabalhador da “emergença”, como alguns chamavam. Acredita-se que se tratava de um cachê artístico. E assim, “Cu Pelado” cumpriu o importante e histórico papel como personagem daquele tempo. Enfim, o safado do papagaio morreu de velho, mas sua fama vem sendo repassada de geração a geração.
Quanto ao outro flagelado, o “Lampião” do Zé Caetano, só servia para dormir, ficar tentando morder o próprio rabo, ou latindo para o João Mendes, que adorava bater o pé em sua direção.
Tudo isso faz parte das histórias daquele fim de mundo, em que o pranto e o sorriso, a tragédia e a comédia, o inferno e o paraíso, aconteciam no mesmo ambiente, quase sem um muro que os separasse.
...”


segunda-feira, 28 de maio de 2018

O SEXO É DIVINO


José de Anchieta Batista
Estou no septuagésimo terceiro degrau de minha atual passagem pelo planeta Terra. Neste estágio da travessia, há um sentimento de estar vivendo num compartimento separado dos demais. Falo assim, mas não me imaginem um velho rabugento, resmungão e recantado. É que, nestes momentos da vida, passamos a apreciar um certo tipo de solidão, que não sabemos descrever. Isso porque, como idosos, nossa ocupação predileta é pensar, é avaliar a trajetória percorrida, é amargar arrependimentos que não levam a lugar nenhum, já que a roda do tempo não gira para trás. As celebrações referentes ao passado quase não existem. Neste crepúsculo vespertino da vida, descobrimos que ainda não sabemos quem somos. Parece até que perdemos todo nosso viver numa construção sem sentido.
Nessas malucas lucubrações da velhice, surgiu-me, num desses dias, súbito questionamento de como seria a humanidade, se quem a inventou não houvesse nos ofertado as maravilhas e o poder do sexo. E de imediato brotou-me a resposta. Ora, sem uma forma de reprodução da espécie, com certeza a humanidade teria se resumido às mitológicas figuras de Adão e Eva. Mas não foi bem assim. O Criador de tudo isso determinou aos dois primitivos humanos “crescei e multiplicai-vos!”, numa clara ordem para que não parassem de produzir novas criaturas semelhantes, a fim de ocuparem todo o planeta Terra. Para tanto, o casal original não teve a menor dificuldade em identificar e usar os instrumentos desse trabalho. De imediato descobriram quão maravilhoso era aquilo. E o que era apenas para fabricar mais gente, transformou-se no divertimento mais esplendoroso da vida. E o “mexe-mexe”, além de ser a maior e insuperável diversão humana, tornou-se responsável por essa confusão desenfreada que é o mundo. Em todo recanto, só se pensa “naquilo”.
Não sei se é plenamente correta a informação, mas o professor Google me disse que a média de duração do orgasmo masculino é de três a cinco segundos e o feminino chega a atingir dez. Parabéns ás mulheres, pela generosidade do Criador, ofertando-lhes um gozo muito mais longo do que temos nós, os machos. Maravilha, queridas.
O tão esplendoroso ato sexual, que para mim é o encontro mais profundo de duas almas, divido-o, na minha maneira rude e brincalhona de ser, em dois estágios: os “prolegômenos” e os “finalmentes”. Este último é como se fosse a batalha final, que culmina com o êxtase indescritível do orgasmo.
Neste ponto de minha grosseira análise,  surge-me outro questionamento: E se houvesse o sexo, mas não existisse o orgasmo, para coroar os “finalmentes”, como seria cumprida a ordem dada por Deus?  Ah, ninguém se iluda. Sem a fome que atraem os corpos, sem o fogo ardente da volúpia, sem a explosão do orgasmo, isso que chamamos vulgarmente de “gozo”, ninguém iria perder tempo de estar agarrado por aí, se lambuzando um no outro, sem chegar a lugar nenhum. A multiplicação também estaria comprometida e, dessa forma, a Terra estaria hoje vazia.
Admito como verdade que se o Criador nos fez com sexo, aquele que o repudia está contra Deus. Foi feito para ser usado, evidentemente dentro de princípios saudáveis apontados pela razão. Claro que o mau uso, os abusos, as violências, as práticas doentias que estão em nosso cotidiano, não são aceitáveis. São anomalias. A luz vermelha tem que estar sempre acesa, pois manter-se em plena normalidade racional é bem difícil. O sexo é poderoso, enlouquece, mexe com tudo em nosso corpo, desequilibra, leva-nos a insensatez. Isso tudo, em busca daqueles três segundinhos de extremo êxtase que vêm coroar o ritual dos prolegômenos.
Mas o que é normal no sexo? Tudo! Desde que se respeite o que verdadeiramente tem que ser respeitado, principalmente o outro. E o resto é o resto.
Certa vez um sujeito que se dizia “profeta e homem de Deus”, me disse que um casal deve fazer sexo sem volúpia, sem lascívia, sem excesso de sensualidade. Era pecado. Quase mando o falso moralista à merda. O autêntico imbecil não soube me dizer como é possível fazer isso.
Vem do ser humano, em meio a tantas maravilhas que o Criador nos ofertou, fazer o belo ficar feio, mudar as cores da vida, colocar no que é puro os trajes do pecado, transformar as dádivas sagradas em instrumentos de infelicidade.
Meus amigos, fico por aqui.
Sequer sei porque hoje falei sobre esse lado saboroso da vida. Não estranhem, pois na velhice também se pensa naquilo. Ademais, além de este combatente ainda não estar vencido, morto e enterrado, carrega saborosíssimas reminiscências... e sei que já fui muito bom nisso!
Finalmente, não se esqueçam de que, em tudo o que acima abordei, a presença do amor é o ingrediente mais fabuloso para que a plenitude seja atingida.
O sexo é divino, minha gente!