segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CAPOEIRA DAS ÉGUAS - Por Valdeci Duarte

(Coluna "Prosa Poética" do Jornal Página 20 de 15/01/2017)


Valdeci Duarte
Tomei conhecimento desta obra ainda no seu lançamento, em Janeiro de 2015 e estava na expectativa de leitura e comentário à altura. Felizmente chegou o momento. Trata-se de um relato emocionante sobre esta cidadezinha da Paraíba, uma história contada por um genuíno paraibano, o mestre das letras, José de Anchieta Batista, que há muitos anos reside em terras acreanas.
Logo nas primeiras folhas o autor faz questão de esclarecer alguns pontos do seu enredo, inclusive apresentando alguns personagens centrais da trama, como o Sargento Neves, o garoto Dino e a menina Celina. Ainda comenta sobre os lugares comuns em todo o romance, como o lugarejo que à época se chamava Capoeira das Éguas, que no final dos anos 60 virou cidade, “um local no meio do sertão da Paraíba em que as pessoas conviviam como se fosse uma comunidade de parentes, num jeito solidário de subsistência, mesmo quando entre elas não havia nenhum tipo de parentesco”.
No início, Capoeira das Éguas era tratada com o maior descaso, o que até os dias de hoje ainda se perpetua em partes significativas do nordeste brasileiro. Em locais assim, há sempre alguém que se aproveita da miserável situação do povo, em proveito próprio. A condição de dependência em que vive grande parte do povo brasileiro, conforme relata o autor, é típico do que acontecia com a pequena população do vilarejo que em alguns momentos, alguns “se sentiam eternamente gratos e fiéis a esses verdadeiros carcarás da humanidade”.
Um relato cômico é o do personagem Cu Pelado, papagaio da raça estrela, verdadeiro ser pornográfico daquelas bandas e do vira-lata Lampião, que à época da terrível seca de 1953, teriam recebido recursos para acudir os flagelados. No mesmo capítulo houve o relato da velhinha que surgiu mendigando no povoado, sendo encontrada em estado de putrefação debaixo de um juazeiro, após os urubus terem dado os primeiros sinais. Tudo indica que a miserável teria morrido de fome.
O mais curioso da história da velhinha é que no lugar em que ela foi encontrada e sepultada, nasceu uma espécie de seita de veneração à indigente. Muitos ignorantes e desesperados pela verdade teriam fundado um grupo dos denominados “Filhos da Santa Velhinha”. Diante do surgimento de tantas denominações religiosas, talvez o autor tenha tido a intenção de satirizar esta situação. Neste caso, chegou a afirmar que quase um século depois a devoção à “Santa Velhinha” permanecia até os dias atuais naquelas bandas.
O romance Capoeira das Éguas traça um perfil das pequenas cidades que se formaram durante a colonização do interior do Brasil, em especial no interior do nordeste, pelo sertão da Paraíba, característico dos muitos rincões onde a religião predomina, não pelo conhecimento, mas pelo convencimento do achismo dos indivíduos “entendidos” sobre as coisas do outro mundo.
Esta foi uma boa leitura. Revivi algumas coisas que ouvi, quando vivia no meio da mata, contados pelos avós seringueiros, sobre as botijas encantadas. Há pequenas variações, já que os relatos que ouvi eram de botijas escondidas nos mais variados lugares, na floresta amazônica. Um show de descrição da parte do autor que afirma ter crescido e ter voado “nas asas do tempo, deixando para trás” seu chão natal, sua gente.
Uma figura digna de apreciação, diz respeito ao personagem Antônio Moura, homem dos melhores que habitavam as cercanias de Capoeira das Éguas. Um sujeito entendedor de muitos assuntos. Um homem paciente com seus colegas. Era bem resolvido na vida, tinha dinheiro e sempre estava disposto a apoiar as melhores causas em prol dos outros. Talvez por isso fosse detentor de grande admiração de seus compatriotas. Mas apesar da enorme aceitação na comunidade local nunca aceitou enveredar pelos caminhos da política.
Na figura de padre Israel, em uma de suas passagens por Capoeira das Éguas, o autor enfatiza o seu contentamento e a sua postura diante das coisas de Deus. Um dos homens justos do lugar e dedicado em sua missão. Assim o autor o descreve: “desapegado do mundo material, sempre pronto a acudir os necessitados era uma figura amada, que convivia com seus paroquianos misturando-se a eles com forma brincalhona de ser”.
Algo bem curioso foi a abordagem do autor sobre a sexualidade daquele povo sertanejo, que tinha nesse assunto verdadeiro preconceito. Por ali, “tudo que se referia a sexo era um enorme tabu em todos os recantos”. De forma experiente foram narrados episódios de extrema curiosidade que as crianças passavam a ter sobre esse assunto, tanto os meninos, quanto as meninas, também os adultos e pessoas que enveredavam pelos caminhos do homossexualismo.
Em um dos capítulos, o autor faz a narração da existência de um prostíbulo inaugurado na cidade que apesar da grande aceitação dentre os homens, teria sido veemente condenado pelas senhoras direitas do lugar que não sossegaram até fecharem o puteiro.
Lá pela metade da trama, é possível entender o semelhante paralelo existente entre a vida dos personagens Dona Laura, Sargento Neves, Celina, Dino e a de seu criador, com sua vida após o abandono do seminário. Fica evidente que um dos personagens tomou emprestada a vivência do autor, quando da sua ida ao seminário, enviado contra a sua vontade, acabou vivendo no seminário, até quando foi obrigado, mas veio a largar antes de se formar padre em busca de viver o seu amor infantil. O final feliz dos personagens principais, Celina e Dino, foram garantidos.
O leitor consegue assistir a um romance revivido pelo autor que atravessou toda essa trama no início da vida, logo após os 10 anos de idade. O relato da ida ao internato, as evidências de que não chegaria ao final do “Seminário de Padre”, as fortes lembranças de Celina, a despedida de Dona Laura, as novas amizades feitas no convento e a decisão de voltar em busca de seu final feliz.
É com carinho e admiração que li e faço a indicação desta obra de José de Anchieta Batista, que uma vez lida, passam os leitores a conhecer um pouco mais da vida do autor, que embora não tenha deixado explicitas as aparências com a realidade que o mesmo viveu um dia, elas são evidentes.
(*) Leitor de José de Anchieta Batista.

sábado, 14 de janeiro de 2017

VERSOS DE ZÉ LIMEIRA - O POETA DO ABSURDO

Este personagem histórico chamado Zé Limeira (1886 – 1954), natural da mesma cidade onde nasci (Teixeira – PB), foi definitivamente incorporado ao folclore nordestino. Não o conheci. Contudo, velhos familiares meus assistiram a suas cantorias, quando perambulava por aqueles pés de serra. Pelo retrato que dele se faz, era um sujeito fora de seu tempo. Muito antes do aparecimento dos astros do Rock, já chocava os costumes sertanejos com sua indumentária diferente, fitas coloridas enfeitando a viola, adornos de anéis e colares, óculos tipo Ray Ban, etc.
Os versos que improvisava fizeram de Zé Limeira um poeta diferente. Misturava personagens, fatos históricos, épocas, lugares, numa verdadeira “salada”, não importando o resultado da absurda alquimia de seus versos. O importante era RIMAR!
Orlando Tejo, paraibano de Campina Grande, poeta, advogado, jornalista, professor, peregrinou por algum tempo, colhendo “valorosos versos” desse vate extravagante e condensou tudo num livro chamado ‘Zé Limeira – Poeta do Absurdo”.

Transcrevo aqui, algumas dessas joias:

Quando Jesus veio à Terra
Foi gerente da Paulista,
Sócio de São João Batista,
Depois da Segunda Guerra...
De tanto subir a Serra
Tivero um padecimento,
Inda existe documento
Da juvenia dos dois,
Hoje, amanhã e depois
Diz o Novo Testamento.

O Marechal Floriano
Antes de entrar pra Marinha
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano,
Foi vaqueiro vinte ano,
Fora os dez que foi sargento,
Nunca saiu do convento
Nem pra lavar a corveta,
Pimenta só malagueta
Diz o Novo Testamento!

Pedro Álvares Cabral,
Inventor do telefone,
Começou tocar trombone
Na volta de Zé Leal,
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumento
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três,
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento!


Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e o mundo,
O poeta Zé Raimundo
Começou castrar jumento
Teve um dia um pensamento:
“Tudo aquilo era boato”
Oito noves fora quatro
Diz o Novo Testamento!

Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraíba falada,
Cantando nas Escritura,
Saudando o pai da coalhada,
A lua branca alumia,
Jesus, José e Maria,
Três anjos na farinhada.

Uma véia gurizada
Pra mim já é fim de rama,
Um véio Reis da Bahia
Casou-se em riba da cama,
Eu só digo pru dizê,
Traga o Padre pra benzê
O suvaco da madama.

Jesus foi home de fama
Dentro de Cafarnaum,
Feliz da mesa que tem
Costela de gaiamum,
No sertão do cariri
Vi um casal de siri
Sem comprimisso nenhum.

Napoleão era um
Bom capitão de navio,
Sofria de tosse braba
No tempo que era sadio,
Foi poeta e demagogo,
Numa coivara de fogo
Morreu tremendo de frio.

domingo, 8 de janeiro de 2017

UM MONÓLOGO, QUASE ORAÇÃO

Ó Deus!
Com certeza existes muito além das ilusões que estão por aí;
Ou melhor, das futilidades que estão por aqui.
Não te quero adquirido das prateleiras religiosas! Não, não quero.
Ali, és artesanal, és imperfeito, és feio, és macabro!
Pois é. Ali, deturpam-te todo e ainda conseguem dizer-te Perfeito, Boníssimo, Amor e Luz!
Foi assim que me fizeram o ateu que eu não sou!
Não te creio aquilo!

Ó Deus!
Creio-te tão grande no microcosmo, quão simples no que é infinitamente grande.
E eu, na minha significância tão insignificante, me contorço nesta amplidão feita de tempo e de espaço ...
Com certeza aqui estou, ó “Razão Primária de Tudo”, por algum salutar motivo. Não talvez por ser tão pequenino, mas por ser acólito irrefreável de minha própria rebeldia.  Mesmo assim, diante de tudo, não me sinto teu prisioneiro, mas prisioneiro de mim mesmo. Na verdade, estão grudadas em mim, as minhas asas para voar; Sei que as tenho, sinto-as, mas não consigo desprendê-las!

Ó Deus!
Fervem mistérios em minh’alma. Minha evolução adormecida parece despertar. E eu vago como um sonâmbulo ...  Tateio paredes, quero dizer versos ... restam-me grunhidos. Já não sei a diferença entre o pesadelo e o sonho.  
Tudo bem! O que importa isso?
Não! Não quero mais sonhar. Quero realizar, quero fazer, porque também sou Deus ...  Quero voltar das margens para o centro, donde me afastei para encontrar estes malditos grilhões.
E eu tenho pressa, pois o tempo, que é tão nosso, passa! E como tantos outros ignorantes e desnorteados, às vezes lanço meu tempo no desperdício, buscando-te nos burburinhos indecifráveis que me ensurdecem e me confundem, dentro deste labirinto em que me perdi.

Ó Deus!
Sempre que te busco nas religiões, sinto-me um órfão, um infeliz, uma simples interrogação irrespondível. Sinto-me no Coliseu da velha Roma ...  E ali:
- sou o impiedoso César que se deleita!
– sou o leão faminto e enfurecido!
- sou o Cristão à espera de um milagre!
E ainda consigo ver-te assistindo a toda a barbárie, alheio, insensível,  como se nada te tocasse.
É neste momento que me revolto e te pergunto agressivamente:  Que Deus és tu?

Ó Deus!
Por vezes, 
lá estou eu lustrando as pedras da coroa de Herodes; 
lá estou eu com João Batista, em meio ao deserto, jogando conversa fora, num banquete de mel com gafanhoto; 
lá estou eu vendendo bodes, pombos e bugigangas, no templo de Jerusalém ...
Por vezes,
lá estou eu a segurar a bacia de Pilatos e até mesmo a lhe enxugar as mãos...
E minhas mãos? Sim! Aquelas mesmas mãos que bateram palmas em apoio a Caifás ... que acenaram por Barrabás ... que fugiram de enxugar a fronte do Messias ... são as mesmas que agora empunham e manejam a lança do centurião.

Ó Deus!
Tudo isso me faz quase um deserto insuportável! Não estás aqui, mas estás em tudo ...  Estás em tudo, mas não estás aqui. É como se existisses, sem existir.
Apesar de tudo, fica em mim uma certeza: - tu não és nada disso que me oferecem! E se eu não te fizer nascer em mim, grande como verdadeiramente és, continuarás sendo esta ilusão absurda, perversa, inconcebível e inexplicável. Não te quero assim!

Ó Deus!
Tu estás em mim e eu em Ti! Somos UM!
Basta de minha pequenez! Dá-me o caminho de volta!
Busquei a cegueira! – abre-me os olhos!
Tornei-me surdo! – abre-me os ouvidos!
Caminhei para a escuridão! – ilumina-me!
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MATUTO NO FUTIBÓ - Zé Laurentino

ZÉ LAURENTINO: - Grande poeta (também radialista) paraibano, nascido em Puxinanã-PB, no dia 11/04/1943. Faleceu no dia 15/09/2016, em Campina Grande, cidade onde residiu durante quase toda sua vida.   Nos velhos tempos, tomamos algumas carraspanas juntos, em alguns recantos de Campina.  O Zé era uma criatura extraordinária. Era um sujeito porreta. A Paraíba perdeu um ícone da "poesia popular".
- Oxente! Isso é hora de tu ir imbora, hômi? Ô cabra avexado da peste! Tchau, Zé!

MATUTO NO FUTIBÓ

Hoje o pessoá do mato
já tá si civilizano.
já tem rapaz istudano
pras banda da capitá;
Já tem moça qui namora
cum os imbigo de fora,
ediceta, coisa e tá.

Mas essas coisa eu istrãin,
mi dano e num acumpãin
a tá civilização ...
Quero qu’a morte me mate:
- Nunca fui numa buate;
- Nunca vi televisão.

E esse tá de cinema,
eu num sei nem cuma é ...
Avião? - Deus qui mi livre!!
- Só ando im burro ou a pé!
E seno eu brocoió,
um triato nunca vi
e tombêin nunca assisti
um jogo de futibó.

É isso mermo, patrão!
eu naci pra sê matuto,
vivê qui nem bixo bruto
dano di cumê a gado...
Mas cum certeza sô gente,
pruquê um véi, meu parente,
dixe qu’eu fui batizado.

Mais pru arte dos pecado,
um fí di cumpádi Chico
o fazendêro mai rico
dali daquele arredó,
cum priguiça di estudá,
inventô di inventá
um jogo de futibó

E no paito da fazenda
mandô butá duas barra
e eu fui ispiá a farra
do lote de vagabundo ...
mais quando oiêi... afroxei!
E acridite qu’eu achei
a coisa mió do mundo!.

Eu, cabôco lazarino,
cum dois metro de artura,
os braco dessa grussura,
medo p´ra mim é sulipa!
- de jogar tive um parpite,
e aceitei o cunvite
pru mode jogá de quipa.

Mi dero um carção listrado
e um pá de jueieira
tombém um pá de chuteira,
u’a camisa de gola,
e eu gritei: arre diabo!
- eu já peguei tôro brabo
e sigurei pelo rabo
pruquê num pego u’a bola?

Sei que o jogo começô ...
- o juiz bom e honesto -
p´ra começá era Ernesto
o nome do apitadô,
qui mitido a justicêro,
pru mode o jogo pará,
bastava a gente chutá
a cara dum cumpanhêro.

Bola vai e bola vem...
um tá de Zé Paraíba
inventô de dá uns driba
no fí de Chica Brejeira...
esse deu u’a rasteira
qui o pobe do matuto
passô uns cinco minuto,
imbolando na poeira.

O juiz mandô chutá
uma bola contra eu
pruquê meu fubeque deu
um coice no Honorato...
Aí o juiz errô !!!
Se o fubeque é quem chuto
ele qui pagasse o pato

Mais afiná, meu patrão
não gosto de confusão...
mandei o cabra chutá!
fiquei esperando o choque...
tanta fôça a bola vinha
qui vinha piquinininha
Cumo bala de bodoque!

E eu fui pegá a danada,
me atrapaei, meu patrão...
passou pru dento dos braço,
Isprudindo o tirombaço
Bem “naquela região”!
E foi bateno e eu caino
Me espulinhano no chão.

O povo batêro im riba,
Me dero um chá de jalapa,
uns treis copo de garapa,
E um chá de quixabeira.
Quando tive u’a miora
joguei a chuteira fora,
Saí batendo a poeira.

E desse dia pra cá,
nem mode ganhá dinhêro,
num jogo mais de golêro...
Nem cum chuva, nem cum só ...
Nem aqui, nem no diserto...
nunca mais passo nem perto
dum campo de futibó.

*********

domingo, 11 de dezembro de 2016

HISTÓRIA DE UM CÃO

(*) Luis Guimarães Júnior                                   
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve mundo.
     Recebi-o das mãos dum camarada.
     Na hora da partida. O cão gemendo
     Não me queria acompanhar por nada;
     Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo, cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava ...
"Adeus!" - me disse, - e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
     “Trata-o bem. Verás como o rafeiro
     Te indicará os mais sutis perigos;
     Adeus! E que este amigo verdadeiro
     Te console no mundo ermo de amigos.”
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
     Nas longas noites de luar brilhante,
     Febril, convulso, trêmulo, agitando
     A sua cauda - caminhava errante,   
     À luz da lua - tristemente uivando.
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
     Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
     Cinco meses depois, do meu amigo
     Um envelope fartamente cheio:
     Era uma carta. Carta! - Era um artigo.
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes;
     Gabava o steamer que o levou; dizia   
     Que ia tentar inúmeras empresas;
     Contava-me também que a bordo havia
     Toda a sorte de risos e belezas.
Assombrara-se muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo.
Citava o caso d'uma passageira ...
Mil coisas mais de que me não recordo.
     Finalmente, por baixo disso tudo,
     Em nota bene do melhor cursivo
     Recomendava o pobre do Veludo,
     Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão, tranquilo e atento,
Me contemplava, e creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
     Depois lambeu-me as mãos, humildemente,
     Estendeu-se aos meus pés, silencioso,
     Movendo a cauda, - e adormeceu contente,
     Farto dum puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente, um dia,
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
     E respirei: - “Graças a Deus! Já posso”
     Dizia eu “viver neste bom mundo,
     Sem ter que dar diariamente um osso
     A um bicho vil, a um feio cão imundo”.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
     Mal respirei, porém! Quando dormia,
     E a negra noite amortalhava tudo,
     Senti que à minha porta alguém batia:
     Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito:
E - de cansado - foi rolar dormindo,
Como uma pedra junto do meu leito.
     Praguejei furioso. Era execrável
     Suportar esse hóspede importuno
     Que me seguia como o miserável
     Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em voz alta e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.
     Zunia uma asa fúnebre dos ventos;
     Ao longe o mar na solidão gemendo,
     Arrebentava em uivos e lamentos...
     De instante a instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto,
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto,
E a chuva meus cabelos fustigava...
     Despertei um barqueiro. Contra o vento,
     Contra as ondas coléricas vogamos;
     Dava-me força o torvo pensamento:
     Peguei num remo - e com furor remamos.
Veludo, à proa, olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
     No largo mar ergui-o nos meus braços,
     E arremessei-o às ondas de repente...
     Ele moveu gemendo os membros lassos
     Lutando contra a morte! Era pungente!
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas, moribundo.
     Mas ao despir, dos ombros meus, o manto,
     Notei - oh grande dor! - haver perdido
     Uma relíquia que eu prezava tanto!
     Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente,
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente,
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
     Certo caíra além no profundo mar,
     No eterno abismo que devora tudo;
     E foi o cão, foi esse cão imundo
     A causa do meu mal! Ah! se Veludo
Duas vidas tivera, duas vidas,
Eu arrancava aquela besta morta,
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.
     Corri, abri ... Era Veludo! Arfava;
     Estendeu-se aos meus pés  e docemente,
     Deixou cair da boca, que espumava,
     A medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo; estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
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LUIS Caetano  Pereira GUIMARÃES JUNIOR
Diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 17 de fevereiro de 1845, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 20 de maio de 1898. Foi um dos dez Eleitos membros para se completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde Criou uma Cadeira n. 31, que tem como patrono o poeta Pedro Luís.
Era filho de Luís Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira. (Há uma divergência na data de seu nascimento: Sílvio Romero indica o ano de 44; outras fontes registram 1847. A filha do poeta, primeiros D. Iracema Guimarães Vilela, forneceu uma Múcio Leão de dados de 45). Fez os estudos no Rio Rio de Janeiro. Aos dezesseis anos escreveu o romance Lírio Branco, dedicado a Machado de Assis. Partiu para São Paulo, a fim de continuar os estudos PREPARATÓRIOS, e lá recebeu uma carta de Machado de Assis, animando-o um Prosseguir na carreira das letras. Fez o curso de Direito não Recife entre 1864 e 1869. Ali assistiu ao desenvolvimento da "escola condoreira", tomou parte em que mais Diretamente ou menos. Continuou a escrever, multiplicando-se no jornalismo e escrevendo livros de contos, comédias e poesias. Aos 28 anos, apaixonado por Cecília Canongia, cogitou de se casar. Sua situação não jornalismo e nas letras, embora brilhante, não lhe proporcionava os Meios estavelmente para viver. O poeta e amigo Pedro Luís, então ministro dos Negócios Estrangeiros, Oferece-lhe um lugar na diplomacia como secretário de Legação em Londres. De 1873 um 1894, passou por vários outros postos, em Santiago do Chile, em Roma, onde serviu sob as ordens de Gonçalves de Magalhães, e em Lisboa, foi, depois, como enviado extraordinário, para Veneza. Em 1894, transferiu-se aposentado, já, para Lisboa, onde veio falecer um.
Em Lisboa, como secretário de Legação, teve ocasião de conhecer alguns dos mais ilustres espíritos do tempo. Foi amigo de Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Fialho de Almeida. Distinguia-se como poeta e como homem do mundo. Ramalho Ortigão assim o definiu: "Como poeta, ele é um primeiro adido da legação A elegância ... O seu estilo tem um lavor de renda, uma suavidade de veludo e ar um perfume de toilette". Tinha predileção pelas cidades da arte e do pensamento. O poeta celebra Londres, celebra Roma. Mais que tudo porém, recorda o seu país. Suas principais obras são Corimbos e Sonetos e rimas. O primeiro representa a fase em que vivia no Brasil (1862 um 1872); o outro, o período em que residiu na Europa. A Apreciação de críticos e estudiosos como Vicente de Carvalho, Medeiros e Albuquerque e Carlos de Laet, foi de pleno Reconhecimento da poesia de Luís Guimarães Júnior. Seus sonetos Revelam um grande apuro da forma, combinações métricas finas e sutis, eo gosto pelos motivos exóticos que ele Pôde sentir em observar e suas Peregrinações por terras estrangeiras. Romântico de inspiração, mas já dentro da orientação parnasiana, ele foi, no apuro da expressão, um precursor da poesia de Raimundo Correia, Bilac e Alberto de Oliveira.
Obras: Lírio branco, romance (1862); Uma cena contemporânea, teatro (1862); Corimbos, poesia (1866); A família agulha, romance (1870); Noturnos, poesia (1872); Filigranas, ficção (1872); Sonetos e Rimas, poesia (1880); Contos sem pretensão (1872), e várias peças de teatro.


(DADOS EXTRAÍDOS DA PÁGINA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS)
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