domingo, 14 de outubro de 2018

OS RECRUTAS DE ASSIS BRASIL E O HEROÍSMO DO VEREADOR (José de Anchieta Batista)

Estado do Acre, início da década de  80.
Não sei como as coisas evoluíram para os dias atuais. Naquele tempo, ao ingressar na vida de caserna, o recruta era submetido a um período de rigoroso internato, que durava mais ou menos quarenta e cinco dias. Naquela fase inicial de adaptação, havia uma correria dos diabos, num vai e vem descomunal. Do toque de alvorada, às seis da manhã, ao toque de silêncio, às vinte e duas horas, a vida dos coitados era movida a gritos, sem quase descanso, num ambiente de verdadeiro pandemônio. Tudo aquilo visava ao enquadramento dos jovens aos rígidos regulamentos do quartel. O ajustamento de conduta àquele novo mundo exigia muito e custava caro a cada recruta. Para os superiores, parecia que nada estava correto, mesmo que estivesse perfeito. Havia sempre repetições e mais repetições de tudo que era executado.

O coroamento dessa fase, chamada de Instrução Individual Básica, se dava, aqui na Amazônia, com a participação na famosa Operação Boina. Eram oito dias de treinamentos intensivos na floresta, com prática de operações de guerra, em que se buscava imitar um combate real na selva.

Terminada a fase de adaptação, que significava uma completa imersão daqueles jovens em outra realidade totalmente adversa, havia a grande festa de entrega das boinas verdes, com a presença de autoridades civis e militares e, principalmente, de familiares e amigos. Estavam ali, prontos para enfrentar qualquer inimigo, os novos “Rambos”.

Na fase seguinte, era procedida a distribuição dos efetivos para os pelotões de fronteira, nas cidades de Assis Brasil, Brasileia e Plácido de Castro, permanecendo em Rio Branco, os designados para servir na sede do 4º Batalhão Especial de Fronteira.

Num daqueles anos do início da década de 80, em Assis Brasil, após mais cinco dias de instrução interna, ainda sob regime de confinamento, chegou a sexta-feira em que receberiam um pequeno grito de liberdade.

Por volta das 16h30, os recrutas ouviram severas recomendações quanto ao comportamento na cidade, e foram liberados. Correram para o alojamento, puseram seus uniformes de passeio, e desceram, quase num único grupo, a ladeira que liga o quartel à Assis Brasil.

Muitos recrutas eram de outras localidades e não conheciam nada por ali. Estavam ansiosos por manter novo contato com o mundo que haviam deixado do lado de fora da caserna, ver as garotas, tomar umas lapadinhas de cachaça, comer algo diferente das gororobas do rancho.

Foi praticamente uma invasão a Assis Brasil. Mais parecia uma faminta vara de queixadas rompendo a selva. Poucos escolheram a pracinha para passar aqueles momentos. A maioria já tinha como destino certo os poucos botecos do centro. Não podiam perder tempo. A ordem era se recolherem ao quartel até as 21h00, no toque do pernoite.

Como era de se esperar, por volta das dezenove horas, surgiu um arranca-rabo entre um grupo de recrutas e alguns rapazes da cidade, que bebiam no salão de uma pensão. O vereador Zé Louzeiro - nome fictício - que estava presente, tentou apaziguar a recrutada, mas a coisa ficou feia para seu lado. Preferiu, então, dar um jeito de sumir na escuridão do fundo do imenso quintal, indo se esconder debaixo do poleiro das galinhas. Ali aguardou silencioso por quase meia hora, até que tudo voltasse ao normal. De lá, apenas escutava a barulheira e observava o que era possível, na espera de que fosse seguro retornar. Os rapazes da cidade, em desvantagem, resolveram dar o fora, mas o quebra-quebra continuou.

De repente, algum dos moradores teve a ideia de gritar bem alto: - “lá vem a patrulha do quartel!”.

Pareceu uma voz de comando determinando que a tropa debandasse. Os recrutas evitaram a estrada e enfrentaram a subida íngreme que dava acesso às proximidades do quartel. Deles, não ficou ninguém. Escafederam-se até mesmo os que estavam na pracinha.

O vereador, quando sentiu que as coisas estavam normalizadas, voltou ao salão, ainda vazio e com algumas cadeiras e mesas quebradas. Foi até o fogão, retirou um tira-gosto da panela, encheu um copo de pinga e marchou garboso até a beira da calçada, onde um grupo de muitas pessoas, no meio da rua, se ocupava em comentar o ocorrido. 
No ombro esquerdo da camisa, Zé Louzeiro trazia algumas manchas de sangue, provocadas por arame farpado. Eram seus “ferimentos 
Todo posudo, as vestes sujas de titica de galinha, o vereador ergueu o copo, tomou um respeitável gole de cachaça, saboreou o pé de galinha que trazia na outra mão, pediu silêncio a todos, e bradou com ares de grande herói:
- Senhoras e senhores de Assis Brasil, como vocês viram, eu botei eles pra correr e se voltarem eu boto de novo! Tão pensando o quê? Que aqui não tem macho, é? Meu dever é defender vocês! Isso, acabei de fazer! E tenho dito!- discursou o vereador, ingerindo o restante da pinga e retornando ao interior da pensão, sob palmas e gargalhadas dos moradores que ali estavam.
********************

domingo, 2 de setembro de 2018

ESMOLA PRA SÃO JOSÉ - (*) Poeta Zé Laurentino

Tem certas coisa, seu moço,
Que eu num gosto munto, não!
Por inxemplo: ouvir contá
Históra de assombração,
De arracamento de dente,
Ouvir históra de briga...
Eu posso até escutá,
Mas me dá u’a fadiga!...

E outra coisa, seu moço,
Que de bom gosto eu num faço,
É dá esmola a quem pede
Com santo imbáxo do braço.
Pois eu acho que o santo
Num tem munta precisão,
Afiná, eu nunca vi
Um santo comer feijão.

Mas, por arte dos pecado,
Ou por minha pouca fé,
Todo dia lá em casa
Passa um velho andando a pé,
Por siná, munto feliz,
Chega em minha porta e diz:
Esmola pra São José!!!

E o diabo da muié,
Que é muito da alcovitêra
(Inda num vi u’a muié
Mode num sê rezadêra),
Adquire um tanto ou quanto,
Corre, vai dá ao santo,
Pra o velho fazê a fêra.

Muitas vez, logo cedinho,
Se eu vou tomar o café,
Quando dou fé o grito:
Esmola pra São José!!!

Isto foi me enchendo o saco,
Cada vez enchendo mais…
E um dia, eu cheguei em casa,
Com a barguia pra trás,
Sentei num sepo de pau,
Tomei uma de rapé,
E ouvi a voz lá porta:
Esmola pra São José!

Pro mode dá a esmola,
A muié se arremexeu,
Mas eu lhe gritei: Num vá,
Que quem vai hoje sou eu!

Quando eu cheguei lá na porta,
O velho teve um espanto!
E eu disse: Vá trabaiá,
Que eu num dou esmola a santo!
Troque o santo numa enxada,
Deixe de ser preguiçoso,
Que santo num quer esmola,
Num seja tão presunçoso!

O velho me olhou e disse:
Que São José te perdoe…
E se Deus tiver ouvindo,
Quero que ele te abençoe

E que cubra a tua casa
De paz, amor, união
Saúde, prosperidade,
Sossego e compreensão…

E se um dia o senhor,
Precisar deste velhinho
Ele não mora tão perto,
Mas eu lhe ensino o caminho.
Fica no sítio Acauã,
Onde já morou meu pai,
À direita de quem vem,
À esquerda de quem vai.

Se um dia, o senhor passar
Por ali, com precisão,
De fome o senhor não morre,
Também não dorme no chão.

Quando o velho disse aquilo,
Eu senti naquele instante
Como se eu fosse uma formiga
Sob os pés dum elefante.

Tava com as perna tremendo,
Digo e não peço segredo:
O velho deu-me uma surra,
Sem me tocar com o dedo.

Eu, com tanta ignorança,
Ele tanta mansidão,
Fez eu pagar munto caro

A falta de inducação.
Entonce, naquele instante,
Eu gritei por Salomé,
Que trouxesse pro velhinho
Uma xícara de café.
E fui contá meu dinheiro,
Tinha somente um cruzeiro,
Dei todinho pra São José!…
***********************************************
(*) ZÉ LAURENTINO: - Grande poeta (também radialista) paraibano, nascido no Sítio Antas, em Puxinanã-PB, no dia 11/04/1943. Faleceu no dia 15/09/2016, em Campina Grande, cidade onde residiu durante quase toda sua vida.  Este amigo poeta, nos velhos tempos, fez parte de minhas andanças etílicas, em alguns recantos de Campina. E haja versos!!! Depois, sumi pelo mundo, e nunca mais nos vimos. Caprichos da vida. Guardei dele boas lembranças e me doeu saber que foi versejar em outras dimensões.
***********************************************

sábado, 18 de agosto de 2018

OS IMBOCIOTAS - José de Anchieta Batista

Em tempo de guerra, a convocação para o serviço militar se sobrepõe à mera voluntariedade, pois se estabelece, acima de tudo, a obrigação de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Isto é algo milenar na vida castrense. Em tempo de paz, contudo, a escolha da profissão militar significa bem mais uma aceitação voluntária daqueles rigorosos preceitos que regem a vida na caserna. Em nenhum caso, entretanto, seja em momento de guerra, seja em momento de paz, é dado insurgir-se contra os regulamentos. O descumprimento do dever, mesmo de forma parcial, possui em algum lugar dos mandamentos disciplinares, uma dosagem apropriada de amargo remédio.
O cotidiano nos quartéis transcorre de forma ímpar, diferente do mundo civil, pautada na estrita obediência à hierarquia e à disciplina, princípios basilares em que se fundamenta a vida militar. Estes são dois pilares imprescindíveis para que seja possível o sucesso na paz e na guerra. Pelo menos era assim durante o tempo em que por lá estive. Dizem que mudou muito, mas continuo com a certeza de que, afastadas as duas vigas mestras, melhor será fechar os quartéis e contratar vigias, guardas-noturnos e jagunços, pois a bagunça estará instalada e nada funcionará a contento.
Naquele ambiente de severa observância às normas, onde é sempre repetido que “ordem dada deve ser ordem cumprida”, acontece de tudo. Ali, vamos encontrar permanentes relações humanas bem propícias a dois comportamentos doentios: o puxa-saquismo e o abuso da autoridade.
Em vinte e três anos de caserna, juntei uma penca de “causos” que trago bem guardados num compartimento especial do alforje de minha vida.
Lembro que certa vez, no pátio do quartel, um cabo que cuidava da faxina, aproximou-se do comandante e, com um lenço na mão esquerda, fez sua apresentação em voz alta e falou:
- Coronel, uma andorinha indisciplinada fez cocô lá de cima e sujou o ombro de sua gandola. Peço permissão para limpar.
O comandante, avessos a bajulações, deu-lhe uma “mijada” e determinou que ele sumisse dali e fosse cumprir suas obrigações com o lixo.
Noutra oportunidade, um sargento foi voluntário para um desgastante treinamento de sobrevivência na caatinga e justificou o porquê de ser ele voluntário:
- Capitão, eu tenho me sentido com excesso de saúde.
Muitos e muitos fatos de bajulices estão registrados na memória do passado dos quartéis.
Vale relembrar um episódio ocorrido no Batalhão Especial de Fronteira, daqui de Rio Branco: um soldado convidou o comandante da Companhia de Selva para ser o padrinho de batizado do filho. Dias depois, passou por minhas mãos uma certidão de nascimento, em que o garoto herdara o nome completo de seu padrinho, acrescido apenas da palavra Silva.
Em outro quartel de fronteira, não me lembro precisamente onde, em plena efervescência do governo militar, quando sobejavam frases de incentivo ao patriotismo, a filha de um cabo do rancho recebeu, num ato de puxa-saquismo nacional, o nome de Elvira do Ipiranga.
E assim proliferam as sagas tragicômicas dos bajuladores.
Enfoquei aqui “causos” do meio militar, mas ao vir conviver no mundo civil, encontrei também essa doença alastrada com maior prodigalidade. É uma moléstia humana.
Mas, não posso fechar esta crônica sem registrar pelo menos um fato de abuso de autoridade. Em um quartel nordestino onde eu servia, estávamos na primeira reunião de subtenentes e sargentos, com o novo comandante, um sujeito cuja fama de tirano chegou ali bem primeiro do que ele. Em certo momento daquele primeiro encontro, um sargento ousou interrompê-lo, pedindo permissão para fazer uma pergunta. Coitado de meu amigo! Recebeu a maior mijada de sua vida. Para mim, foi um momento extremamente ridículo. Jamais alguém poderia supor que aquele miserável babaca pudesse pensar que estava acima de Deus.
- Cale a boca, sargento! Não interrompa a fala de seu comandante! Fique sabendo que quando um comandante fala até o vento para – bradou ele do alto de seu Olimpo particular.
Perplexos, escutamos aquela sentença como uma predição de tudo o que haveríamos de passar em seus dois anos de comando. Um inferno, um terror.
A partir daquela primeira reunião, algum espirituoso tascou-lhe o apelido de “o imbociota”, palavra resultante de sua condição de “imbecil”, “boçal” e idiota”, e que foi sobejamente dita e repetida durante aquele malfadado biênio. Era nossa insignificante vingança.
Finalizo com um alerta de que estes “causos” não existem como regra dentro dos quartéis. A rigorosidade dos regulamentos militares podem até favorecer, mas não são responsáveis pela prática de condutas abomináveis. Aqueles regulamentos, pela peculiaridade da missão, não podiam deixar de ser rigorosos, mas neles também estão previstas regras da boa convivência humana, respaldada no absoluto respeito. Os exageros são produtos dos “IMBOCIOTAS”.

***********************

sábado, 11 de agosto de 2018

A BRABEZA DO BRABO - José de Anchieta Batista(*)

Do livro: “Histórias e Causos que a Vida Contou”
Desde os seis ou sete anos de idade, passou a ser chamado pelo apelido de Brabo.
No primeiro dia de escola, toda a meninada encontrou nele, imediatamente, muitos motivos para gozações. Parecia um boneco de brinquedo. Tinha metade da estatura dos outros, era exageradamente franzino e sua cabeça parecia a de um macaquinho. Com aquele jeito esquisito, seu primeiro apelido foi “monstrinho”, mas diante de suas reações agressivas, os colegas adicionaram outro apelido que veio a predominar definitivamente: Brabo. É que ele saía no braço com meio mundo. Fosse quem fosse. Tivesse o tamanho que tivesse. Havia, contudo, uma infinita desvantagem nisso. Não vencia um só dos embates. Na maioria das vezes, no auge da brabeza, os garotos erguiam-no do chão, sem qualquer esforço, e ele ficava balançando no ar as duas perninhas, sem alcançar coisa alguma. Depois ia ele se sentar, amuado, chorando e xingando, lá pelos recantos.
Os dias se passaram, consagrou-se realmente como Brabo e, até hoje, por volta dos cinquenta anos, quase ninguém sabe seu verdadeiro nome. No transcorrer de todas essas décadas, certamente cansou-se de reagir ao apelido e se tornou tão natural ser chamado assim, que a brabeza do Brabo, para reagir a isso, sumiu. Se o chamarem por seu nome de batismo, que também não sei qual é, com certeza não atenderá. 
O lado bom de tudo isso é que, apesar do apelido, o Brabo se fez um cidadão pacato, absolutamente avesso à violência. Por outro lado, o garotinho briguento dos tempos de escola não conseguiu mudar sua compleição física. Continuou um magricela, um pedaço de gente, com estatura bem inferior a um metro e meio.
Há algum tempo, nosso personagem resolveu montar um bar a que deu o nome de “Bar Paz e Amor”. Num pequeno salão de duas portas, instalou prateleiras e balcão, comprou geladeira, sinuca, mesas, cadeiras e adquiriu utensílios para servir tira-gostos. Ele atende lá na frente e sua mulher cuida dos afazeres da cozinha. A todos ele faz questão de dizer que o ambiente é familiar, em contradição com as atitudes das figuras femininas que lá frequentam. O negócio tem andado de vento em popa, mas o Brabo, vez por outra, tem que apelar para a polícia vir restabelecer a ordem, em decorrência de algum arranca-rabo.
Certo dia, o tempo fechou lá no bar do Brabo e a urgência foi atendida por uma guarnição da Companhia de Operações Especiais, conhecida popularmente como COE, cujos componentes passam por uma seleção rigorosíssima, como se estivessem procurando lutadores de vale-tudo. Só pode fazer parte da corporação quem tiver corpo agigantado e muita disposição na hora do quebra-pau. Vestem farda preta, são de pouca conversa e, dependendo da valentia do abordado, deixam o sujeito moído de peia.
A guarnição atendeu com presteza ao chamado, mas um fato pouco comum aconteceu. Ao entrar no bar, um daqueles gigantes de dois metros de altura e massa corpórea de um mamute, foi logo fazendo a pergunta de praxe:
- Quem é o brabo daqui?
- Sou eu! – respondeu firmemente o pobrezinho do Brabo, caminhando em direção ao soldado.
Por infeliz coincidência, empunhava um pedaço de taco de sinuca que alguém houvera quebrado na hora da confusão e que ele acabara de apanhar do chão para jogar no lixo. O brutamontes não quis papo. Sentiu-se ameaçado e desceu-lhe a mão aberta no tronco da orelha. O pobre do Brabo foi estatelar-se a uns oito metros de distância, completamente nocauteado, lá no meio da rua.
- Comigo, brabeza é na porrada! Mais algum brabo por aqui? - arrematou desafiante o policial.
Quem era doido de responder? Alguns presentes, porém, com muito jeito, apressaram-se em desfazer o lamentável equívoco e correram para acudir o coitado do Brabo que, totalmente zonzo, procurava identificar em que mundo se encontrava.
Desfeito o tumulto, verificou-se que os baderneiros responsáveis pela confusão já estavam muito longe e o comandante da patrulha entabulava, comovido e prestimoso, um insistente pedido de desculpas pela violenta trapalhada.
Vida afora, o Brabo se fez manso, mas infelizmente continua a carregar e a sofrer o peso da falsa brabeza de seu apelido.

*****
(*) Escritor, poeta, passageiro do tempo e da agonia... e não sei mais 
o quê.

sábado, 4 de agosto de 2018

NA CASA DA OUTRA - (por José de Anchieta Batista)

Há muitos anos escolhi a Eletrônica do Severino para proceder os consertos de meus equipamentos domésticos. Severino é um cara simples, sem muita conversa, mas de bom convívio, que sempre demonstrou conhecer muito bem a profissão, e nunca me despertou qualquer desconfiança quanto a sua honestidade.
Na parte da frente do estabelecimento, dona Letícia, sua esposa, cuidava da recepção e gerenciava a pequena loja, onde um empregado atendia os fregueses que ali procuravam mercadorias do ramo da eletrônica. Na parte de trás, separada por uma porta larga, sempre mantida fechada, funcionava a oficina do Severino.
Dona Letícia não trazia uma beleza que chamasse atenção, mas para o Severino, feio, buchudo e meio grosseiro, ela estava bem acima do padrão. No dia a dia, cuidava das anotações, fazia a emissão das notas fiscais, telefonava para os fregueses da casa, controlava as cobranças e era responsável pelo “caixa”. Sempre educada e solícita, ela própria servia cafezinho e água aos clientes, além de alimentar um bom papo, principalmente quando o assunto era futebol. Era uma flamenguista exaltada e sempre aproveitava minha passagem por ali, para zonar com minha cara, diante de qualquer derrota do Vasco. Com certeza, quando a vez da chacota era minha, dava-lhe o troco na mesma moeda. Assim, eu sempre passava pela Eletrônica do Severino para prosear, tomar um cafezinho, futricar com as coisas do Flamengo e também pegar no pé da dona Letícia em razão de suas preferências políticas. Podia-se dizer que havia se estabelecido uma boa amizade.
Um dia cheguei por lá, levando para conserto, um forno micro-ondas. Dona Letícia atendeu-me carrancuda, sem quase responder ao meu bom-dia. Estava visivelmente atormentada por algum a coisa. Matutei sobre o que poderia ser e se partira de mim. Claro que não. Imaginei algum aborrecimento tolo do cotidiano e parti para quebrar aquele gelo:
- Dona Letícia, cadê o Severino? - perguntei-lhe.
- Sei lá! - respondeu-me secamente.
Como eu desconhecia qualquer sacanagem por parte dele, e como era costume meu brincar com ela sobre as ausências do marido, disse-lhe sorrindo:
- Se perturbe não, Dona Letícia, ele foi somente lá na casa da outra mas volta já.
Não havia hora mais inoportuna para eu fazer aquilo. Dona Letícia olhou para mim como se eu fosse seu pior inimigo, como se quisesse me morder, e disparou aos gritos:
- Até o senhor já tá sabendo, seu Anchieta? Aquele cachorro, safado, filho da puta…
Resolvi interferir e me justificar:
- Dona Letícia, queira me perdoar, eu não sei de nada! A senhora acha que se eu soubesse de alguma coisa, que nem imagino o que seja, eu iria afrontar a senhora? Nunca!
- Sabe, sim! Homem não vale nada! Rio Branco inteira já sabe disso! Este safado só prestava pra ser corno! Tem uma mulher séria como eu em casa e vai pra rua arranjar uma quenga qualquer!
Resolvi não mais alimentar qualquer papo. Não adiantava conversar. Dirigi-me para a porta e, enquanto ela ainda falava, entrei no carro, sem deixar o micro-ondas, e sumi pela Chico Mendes, intrigado com o incidente.
A partir de então, dei um tempo sem passar pela Eletrônica.
Uns seis meses depois daquilo, entrei lá para pedir a opinião do Severino sobre uma marca de televisor. Fui atendido por uma morena estonteante, daquelas que não fazem questão de esconder o lado da vulgaridade. Um perigo.
- Bom-dia, moça. Onde está o patrão? – perguntei-lhe.
- Bom-dia, meu amor. Severino saiu para o centro, mas se quiser deixar algum recado, eu sou a esposa dele – falou-me, acentuando sua voz melosa, enquanto se dirigia à mesa do computador, com seu rebolado provocante.
- Não, minha senhora, depois eu venho. Obrigado. – disse-lhe, dirigindo-me à saída.
- Tenha um bom-dia, meu bem, e volte sempre – disse-me com aquele olhar de quem queria me saborear vivo.
Nunca mais retornei ali, nunca mais falei com o Severino e, também, nunca soube do destino da dona Letícia, que tanto me enchia a paciência nas derrotas cruzmaltinas.
Concluo afirmando que, mesmo sendo um apaixonado pela Cruz de Malta, há mais de meio século, eu preferia mil vezes que continuasse dependurado naquela parede, o enorme distintivo do Flamengo, que a nova esposa do Severino substituíra pelo brasão do Vasco.
========================
RETORNAR AO FACEBOOK
========================

sábado, 28 de julho de 2018

REZA MILAGROSA PRA CURAR DOR DE DENTE

José de Anchieta Batista
O poder da fé é algo de que não se deve duvidar. Quando Jesus se referiu à fé que transporta montanha, deixou bem claro que nossa mente está muito aquém de sua magnitude, e que quase não é exercitada. Vivemos aqui na Terra sob o poder de regras e leis que a Ciência vai aos poucos descobrindo. A cada passo que ela avança, a cada nova descoberta, avança também nossa estupefação, e sempre nos fazemos mais conscientes de que somos criaturas pequeninas, frágeis, estúpidas, ignorantes e metidas a conhecedoras do que não conhecemos. Diante desta maravilhosa amplidão, em que estamos inseridos, e que é toda preenchida por uma magia indescritível, ignoramos de onde viemos e não sabemos por que estamos aqui. Também nos é vedado saber qual será nosso próximo destino, depois do que chamamos de morte. Em suma, somos um bando de bestas em busca da verdade. E como não a alcançamos, cada uma das bestas inventa a sua versão e se compraz em se iludir. O Homem de Nazaré evidenciou nossa tamanha ignorância e pediu que buscássemos a verdade pois só ela nos libertará. Enquanto isso não acontecer, estaremos rastejantes, buscando forjar verdades particulares. E assim vivemos sob a batuta do que não é verdadeiro.
Dei um toque simples, nas linhas acima, em um assunto muitíssimo sério, para exordiar um “causo” verídico, que agora vou relembrar, e no qual fica evidenciado o poder da fé.
Barbosinha, companheiro de carraspanas e presepadas, em Campina Grande, convidou-me para passar um fim de semana numa fazenda perto do município de Ingá de Bacamarte. Lá moravam parentes de sua namorada, a Cidinha, naquela época estudante do curso de Ciências Econômicas, e com quem se casou algum tempo depois.
Enchemos o tanque do velho fusquinha azul e partimos para mais uma aventura etílica. Uma hora de viagem até Ingá e outra hora até a fazenda. Após o ritual de apresentações aos familiares, fomos agasalhar nossas mochilas num dos quartos do velho casarão, para depois nos dirigirmos a um banho de cacimba, na companhia de alguns primos da Cidinha.
Mais tarde, sentamo-nos ao redor da mesa do alpendre - éramos mais ou menos umas trinta pessoas - para saborear tira-gostos de todo tipo, com acompanhamento de algumas doses de cachaça. Foi quando um garoto trouxe um recado, avisando que o sanfoneiro não poderia vir para a noitada, por conta de uma dor de dente dos diabos. O forrozeiro estava com a cara redonda de tão inchada e o pobre coitado, lá em sua casa, gemia feito um doido e nem sequer conseguia falar. Dessa forma, também o forró da noite do sábado estaria comprometido. Todos se entreolharam decepcionados e externando alguma lamentação.
Naquele momento, lá me vem o Barbosinha com mais uma de suas maquinações.
- Onde é que mora esse sanfoneiro? Amanhã vai ter forró, sim! – sentenciou, pedindo que alguém o acompanhasse até o fusquinha.
- Que é que tu vais fazer, Barbosa? – indagou Cidinha sem entender nada.
- Ora, meu amor, vou rezar nele uma reza forte que meu avô me ensinou, e amanhã ele estará aqui para comandar nosso forró – respondeu, já entrando no carro, fazendo-se acompanhar por um familiar da namorada.
Eu e a Cidinha olhamos um para o outro, mas nem eu nem ela entendemos nada. Intrigado, pensei comigo: “
- Esse fio duma égua já vai aprontar mais uma.
Esperamos ansiosos por seu retorno. Não demorou muito. Foi chegando e desabafando em voz alta:
- Fiz minha parte. Agora depende do santo e da fé dele – falou com força, engolindo uma dose reforçada de pinga.
Todos se entreolharam, sem comentários, como se preferissem aguardar o outro dia.
Evitei externar minhas reais impressões, mas logo depois me aproximei dele e falei baixinho:
- Homem, deixa de ser sem-vergonha, cara! Você tá doido, é? Amanhã vai passar um vexame.
- Eu? Se der errado vou botar a culpa nele mesmo - respondeu-me com tranquilidade.
No outro dia, o forró foi um dos mais animados já acontecidos ali. O sanfoneiro estava sem dor de dente, sem inchaço na cara, e animou o rala-bucho até o sol raiar.
A partir de então, Barbosinha ficou com a fama de grande rezador. Sempre que aparecia por aquelas bandas, era procurado para rezar até contra dor de corno. Com o acontecido, eu mesmo fiquei com minhas dúvidas se não seriam reais os poderes do Barbosinha. Passei, então, a chamá-lo de “curandeiro”.
Certo dia, lá em Campina Grande, exigi a verdade:
- Barbosinha, você é meu amigo e vai me contar agora qual foi a sacanagem que você aprontou com aquela reza no sanfoneiro.
Ele, então, com a cara mais lambida do mundo, se abriu:
- Anchieta, não é pra falar a verdade pra Cidinha, pois ela pensa que sou mesmo o maior rezador do mundo. Até me pede para benzê-la também – disse com uma estridente gargalhada, fazendo uma pausa para tomar mais uma lapada.
Em seguida concluiu:
- Meu amigo, foi meu avô, que era bem mais sacana do que eu, quem me repassou a oração. Naquela noite, repeti umas vinte vezes, com o galho do pinhão roxo na bochecha do sanfoneiro. Escute aí como é poderosa:

É corno quem acredita
Nesta minha reza à toa...
Ô dente filho da puta,
Na boca dessa pessoa,
- Se quiser passar, que passe!
- Se quiser doer que doa!

*****

sábado, 21 de julho de 2018

DOUTOR RIVALDO GUIMARÃES E O “CAUSO” DO REGATÃO[1]

José de Anchieta Batista
Meu saudoso amigo, Dr. Rivaldo Guimarães, que viajou para a outra dimensão em 2012, era meu conterrâneo, nascido na cidade de Cajazeiras, lá no sertão da Paraíba, e foi trazido para o Acre, nos idos de 1948, aos três anos de idade. Antes de entregar-se ao mundo do Direito, militou como jornalista em diversos órgãos da imprensa acreana.
Doutor Rivaldo, como eu o chamava, era um cidadão simples e da melhor qualidade, um sujeito porreta, um cara espirituoso, um apreciador da boa prosa, um admirador do cordel, um apaixonado por sua raiz nordestina e, ao mesmo tempo, um valoroso acreano que se denominava, como eu, um “acreibano” – neologismo que significa a mistura da alma acreana com a paraibana. Sempre que nos encontrávamos, íamos ao fundo do baú, buscar alguma coisa rimada, alguns versos das pelejas de violeiros, ou algum fato pitoresco, descrito em versos, por aqueles nossos sertanejos espirituosos.
Em 1988, nomeado por concurso para o cargo de Juiz de Direito, foi assumir a comarca de Feijó, cidade às margens do Rio Envira, lá no interior do estado do Acre. Sempre foi um cara simples antes de ser juiz e conduziu seu alforje de humildade pela vida afora, mesmo depois que se fez magistrado. Seria naquele município interiorano, um homem da Justiça, sem a imponência e a arrogância de muitos que se sentem acima dos mortais. Conheci vários, em minhas andanças por este mundo de meu Deus, que para externar a autoridade da função ocupada, passavam o tempo como se estivessem vinte e quatro horas com raiva, com vontade de morder alguém, expelindo fumaça pelas ventas, odientos e mal-educados. O Dr. Rivaldo, era exatamente o contrário: um juiz do povo. Compreendia a alma caipira do interiorano. Premido pelo ambiente sui generis daquela gente, adaptava com visão humanista, a figura do juiz, ao modo de ser daquela gente simples. Assim cumpriu seu dever, em algumas comarcas, sem ferir a dignidade do cargo e sem querer postar-se acima de sua condição de ser humano.
Naquela sua simplicidade, o cidadão comum não percorria uma distância muito grande, nem tinha que vencer muitos obstáculos para chegar até o Juiz.
Narro aqui um dos “causos” de sua coleção:
Uma certa tarde, um regatão de nome Pedro Cotia (nome fictício), que residia nos arredores da cidade de Feijó, compareceu ao fórum e, na antessala do Dr. Rivaldo, insistia em ser recebido por ele. A atendente explicou que o “doutor juiz” estava ocupado, estudando os processos das audiências do dia seguinte e que, por isso, não seria possível atendê-lo. O regatão, contudo, argumentava que era muito urgente e que tinha que ser naquela hora. Como o cara tinha fama de ser brabo, a mocinha sentiu-se meio amedrontada. O que diabo aquele cara de voz alta e estridente podia querer com o juiz? A essa altura o chefe de gabinete e um soldado que trabalhava à disposição da comarca, aproximaram-se para contornar a situação. Foi explicado o quanto seria inconveniente interromper a autoridade naquele momento, mas o sujeito fincou pé:
 - Eu só saio daqui depois de falar com o doutor – bradou, sentando-se na cadeira mais próxima que encontrou. Não sou bandido. Sou um homem de bem.
Ali na sala, todos sabiam mais ou menos o motivo por que ele estava ali, mas preferiam fazer de conta que de nada sabiam. Só não estavam entendendo a razão por que ainda não tinha acontecido a desgraça que muita gente previa, nem a razão de estar procurando o juiz. Também evitaram perguntar o que significava aquele catombo na testa, o corte no lábio inferior e aquele jeito de andar com alguma dificuldade. Mesmo assim ele explicou que tudo teria sido ele amansando um burro brabo num daqueles seringais.
- Vocês me conhecem. Sou um cidadão nascido e criado aqui, vivo sofrendo pra cima e pra baixo nesse Envira, sou um cabra respeitado, cumpridor de meus deveres e nunca fui preso.
 Fez uma pausa para beber um copo d’água, e continuou seu discurso de pabulagem, como o cara mais brabo do mundo:
- Não devo a filho da puta nenhum, não cobiço mulher alheia, nunca dei porrada em ninguém sem merecer, nunca levei aborrecimento pra casa e em meus negócios, “comprou, pagou”, ou o cara se arrepende – desabafava em voz alta.
De seu gabinete, o Dr. Rivaldo ouvia tudo. Sabia, entretanto, que seus auxiliares, como em outras oportunidades, saberiam resolver o problema.  Contudo, passados alguns momentos, resolveu chamar pelo interfone seu chefe de gabinete e indagou o que estava acontecendo. Ficou ciente, então, da insistência do regatão em manter uma conversa com ele, informando-lhe também que se tratava de pessoa tida como violenta e que não era conveniente recebê-lo.
- Perceberam se está armado? – perguntou o juiz.
- Está não, doutor. Deu pra ver que não está.
Dr. Rivaldo levantou-se, foi até a porta, abriu-a e chamou o sujeito:
- Amigo, venha cá. Entre e sente-se ali – disse, apontando uma cadeira à frente de sua mesa.
Pedro Cotia apressou-se em cumprir o que mandou a autoridade e foi logo se abrindo:
- Doutor, não quero tomar muito seu tempo, mas é que tô numa situação bem difícil. Sou regatão e vivo fazendo longas viagens pelo Envira. Desta vez passei dois meses fora e quando cheguei, agora meio-dia, encontrei em casa um cabra safado que se mudou pra viver com minha mulher e os dois nem sequer deixaram eu entrar. Veja se isso é possível? Tenho que pelo menos pegar minhas coisas.
O juiz passou a mão no queixo, sem conseguir decifrar aquela contradição: O sujeito tinha fama de muito brabo; era respeitado ali na cidade e também nas brenhas por onde circulava, ao longo do Rio Envira; nos negócios, ninguém lhe dava calote, por medo das consequências; sabia-se de surras que havia aplicado por aí, em razão de não levar desaforo pra casa e, naquele momento, o desaforo estava dentro da própria casa e o cara amarelou diante do “ricardão”. Vá entender? – questionou-se o Dr. Rivaldo, sem contudo, externar essa estranheza, para não incentivar alguma atitude violenta.
Diante da aflição daquele leão abatido, perguntou-lhe:
- E o que o senhor quer que eu faça? 
- Doutor, não vim pedir muita coisa. Já que não tenho filho com ela, quero só pegar meus troços o mais ligeiro possível. Nada mais.
O magistrado redigiu um bilhete para o delegado, entregou ao soldado, e mandou que o indigitado cidadão o acompanhasse.
Pedro Cotia agradeceu, e se despediu para nunca mais ser visto nas redondezas.
Soube-se depois que, na realidade, a confusão tinha sido feroz, o Pedro tinha levado uma surra daquelas, ficando confirmada como verdadeira aquela frase: 
- “Remédio para um brabo é outro mais brabo na corcunda”.


[1] BLOG ALMANACRE (28.08.2010) – REGATÃO: Herói atípico da Amazônia – Autor: Elson Martins:  “... Historicamente, o regatão da Amazônia é o pequeno comerciante que entra nos rios e igarapés com sua pequena embarcação carregada de miudezas, oferecendo esses produtos aos moradores dos rincões da região. Troca – mais que vende – produtos industrializados por espécies valiosas da floresta. ...”