quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

HISTÓRIA DE UM CÃO  (Luiz Guimarães Júnior)
(Aos dezessete anos , em 1962, decorei este verdadeiro conto em forma de poema,  do poeta  Luiz Guimarães Júnior, a  fim de declamá-lo numa festividade do Grêmio Literário Castro Alves, na Escola Agrotécnica Vidal de Negreiros, lá em Bananeiras - PB.
Até hoje, aos 65 anos, nunca me esqueci de uma única estrofe. É um poema longo, mas vale a pena ler. Expressa um roteiro de AMOR e FIDELIDADE)
                                    
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve mundo.
     Recebi-o das mãos dum camarada.
     Na hora da partida. O cão gemendo
     Não me queria acompanhar por nada;
     Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo, cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava ...
"Adeus!" - me disse, - e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
     “Trata-o bem. Verás como rasteiro
     Te indicará os mais sutis perigos;
     Adeus! E que este amigo verdadeiro
     Te console no mundo ermo de amigos.”
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
     Nas longas noites de luar brilhante,
     Febril, convulso, trêmulo, agitando
     A sua cauda - caminhava errante,   
     À luz da lua - tristemente uivando.
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
     Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
     Cinco meses depois, do meu amigo
     Um envelope fartamente cheio:
     Era uma carta. Carta! - Era um artigo.
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes;
     Gabava o steamer que o levou; dizia
     Que ia tentar inúmeras empresas;
     Contava-me também que a bordo havia
     Toda a sorte de risos e belezas.
Assombrara-se muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo.
Citava o caso d'uma passageira ...
Mil coisas mais de que me não recordo.
     Finalmente, por baixo disso tudo,
     Em nota bene do melhor cursivo
     Recomendava o pobre do Veludo,
     Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão, tranquilo e atento,
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
     Depois lambeu-me as mãos, humildemente,
     Estendeu-se aos meus pés silencioso,
     Movendo a cauda, - e adormeceu contente,
     Farto dum puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente, um dia,
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
     E respirei: - “Graças a Deus! Já posso”
     Dizia eu “viver neste bom mundo,
     Sem ter que dar diariamente um osso
     A um bicho vil, a um feio cão imundo”.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
     Mal respirei, porém! Quando dormia,
     E a negra noite amortalhava tudo,
     Senti que à minha porta alguém batia:
     Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito:
E - de cansado - foi rolar dormindo,
Como uma pedra junto do meu leito.
     Praguejei furioso. Era execrável
     Suportar esse hóspede importuno
     Que me seguia como o miserável
     Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em voz alta e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.
     Zunia uma asa fúnebre dos ventos;
     Ao longe o mar na solidão gemendo,
     Arrebentava em uivos e lamentos...
     De instante a instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto,
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto,
E a chuva meus cabelos fustigava...
     Despertei um barqueiro. Contra o vento,
     Contra as ondas coléricas vogamos;
     Dava-me força o torvo pensamento:
     Peguei num remo - e com furor remamos.
Veludo, à proa, olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
     No largo mar ergui-o nos meus braços,
     E arremessei-o às ondas de repente...
     Ele moveu gemendo os membros lassos
     Lutando contra a morte! Era pungente!
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas, moribundo.
     Mas ao despir, dos ombros meus, o manto,
     Notei - oh grande dor! - haver perdido
     Uma relíquia que eu prezava tanto!
     Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente,
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente,
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
     Certo caíra além no profundo mar,
     No eterno abismo que devora tudo;
     E foi o cão, foi esse cão imundo
     A causa do meu mal! Ah! se Veludo
Duas vidas tivera, - duas vidas,
Eu arrancara àquela besta morta,
E àquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.
     Corri, abri ... Era Veludo! Arfava;
     Estendeu-se aos meus pés - e docemente,
     Deixou cair da boca, que espumava,
     A medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei lhe o corpo; estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.

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LUIS GUIMARÃES Caetano JUNIOR
Diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 17 de fevereiro de 1845, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 20 de maio de 1898. Foi um dos dez Eleitos membros para se completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde Criou uma Cadeira n. 31, que tem como patrono o poeta Pedro Luís.
Era filho de Luís Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira. (Há uma divergência na data de seu nascimento: Sílvio Romero indica o ano de 44; outras fontes registram 1847. A filha do poeta, primeiros D. Iracema Guimarães Vilela, forneceu uma Múcio Leão de dados de 45). Fez os estudos no Rio Rio de Janeiro. Aos dezesseis anos escreveu o romance Lírio Branco, dedicado a Machado de Assis. Partiu para São Paulo, a fim de continuar os estudos PREPARATÓRIOS, e lá recebeu uma carta de Machado de Assis, animando-o um Prosseguir na carreira das letras. Fez o curso de Direito não Recife entre 1864 e 1869. Ali assistiu ao desenvolvimento da "escola condoreira", tomou parte em que mais Diretamente ou menos. Continuou a escrever, multiplicando-se no jornalismo e escrevendo livros de contos, comédias e poesias. Aos 28 anos, apaixonado por Cecília Canongia, cogitou de se casar. Sua situação não jornalismo e nas letras, embora brilhante, não lhe proporcionava os Meios estavelmente para viver. O poeta e amigo Pedro Luís, então ministro dos Negócios Estrangeiros, Oferece-lhe um lugar na diplomacia como secretário de Legação em Londres. De 1873 um 1894, passou por vários outros postos, em Santiago do Chile, em Roma, onde serviu sob as ordens de Gonçalves de Magalhães, e em Lisboa, foi, depois, como enviado extraordinário, para Veneza. Em 1894, transferiu-se aposentado, já, para Lisboa, onde veio falecer um.
Em Lisboa, como secretário de Legação, teve ocasião de conhecer alguns dos mais ilustres espíritos do tempo. Foi amigo de Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Fialho de Almeida. Distinguia-se como poeta e como homem do mundo. Ramalho Ortigão assim o definiu: "Como poeta, ele é um primeiro adido da legação A elegância ... O seu estilo tem um lavor de renda, uma suavidade de veludo e ar um perfume de toilette". Tinha predileção pelas cidades da arte e do pensamento. O poeta celebra Londres, celebra Roma. Mais que tudo porém, recorda o seu país. Suas principais obras são Corimbos e Sonetos e rimas. O primeiro representa a fase em que vivia no Brasil (1862 um 1872); o outro, o período em que residiu na Europa. A Apreciação de críticos e estudiosos como Vicente de Carvalho, Medeiros e Albuquerque e Carlos de Laet, foi de pleno Reconhecimento da poesia de Luís Guimarães Júnior. Seus sonetos Revelam um grande apuro da forma, combinações métricas finas e sutis, eo gosto pelos motivos exóticos que ele Pôde sentir em observar e suas Peregrinações por terras estrangeiras. Romântico de inspiração, mas já dentro da orientação parnasiana, ele foi, no apuro da expressão, um precursor da poesia de Raimundo Correia, Bilac e Alberto de Oliveira.
Obras: Lírio branco, romance (1862); Uma cena contemporânea, teatro (1862); Corimbos, poesia (1866); A família agulha, romance (1870); Noturnos, poesia (1872); Filigranas, ficção (1872); Sonetos e Rimas, poesia (1880); Contos sem pretensão (1872), e várias peças de teatro.
(DADOS EXTRAÍDOS DA PÁGINA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

SONETOS DE RAUL MACHADO

LÁGRIMAS DE CERA

Quando Estela morreu choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada

Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada !

Ah! ... não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,

Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!

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NO CAMPO SANTO

A sepultura em que repousa Estela,
– Lírio que, mal se abrira, desmaiara! –
Não tem jarros, estátuas, nem capela,
Nem inscrições em lousa de Carrara.

Mas é tão simples, tão florida e clara,
Que basta ver-se-lhe a feição singela,
A sua alvura, entre roseiras, para
Saber-se que é a sepultura dela...

É o mais pobre dos túmulos vizinhos...
E o mais lindo, entretanto, que há na terra!
Cantam, na sua cruz, os passarinhos...

E, ressurgindo em formas caprichosas,
A mocidade morta, que ela encerra,
Sorri à vida, transformada em rosas.

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Quem foi RAUL Campêlo MACHADO?

Era jurista, ensaísta, conferencista, escritor, poeta e poliglota.
Nasceu em 07 de abril de 1891, em Batalhão, atual Taperoá, Estado da Paraíba.
Iniciou os estudos em Taperoá, complementando-os no Lyceu Paraibano; a seguir, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde cursou somente o 1º ano, indo concluir na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
Aos 15 anos, já compunha versos que publicava no Jornal A União, órgão oficial do governo do Estado da Paraíba.
Aprovado em concurso público, foi nomeado Auditor de Guerra, indo servir nos Estados do Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.
Exerceu as funções: Promotor da Justiça Militar, em Pernambuco; Ministro do Tribunal de Segurança Nacional; Secretário Geral da Comissão Organizadora dos Estatutos dos Funcionários Públicos e Ministro Corregedor da Justiça Militar.
Era Membro da Sociétè dês hommes de lettres e da Sociétè Academique d`histoire Internationale, da França.
Faleceu em 19 de julho de 1954, a bordo no navio Provence, quando regressava da Europa, aonde fora em busca de tratamento de saúde.
Patrono da Cadeira 35 da Academia Paraibana de Letras

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domingo, 10 de janeiro de 2010

DALVA DE OLIVEIRA


Nome de registro: Vicentina de Paula Oliveira
Nome artístico: DALVA DE OLIVEIRA
Nasceu em 5 de maio de 1917, em Rio Claro-SP
Morreu em 31 de agosto de 1972, no Rio de Janeiro.


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TUDO ACABADO
Composição: J. Piedade / Osvaldo Martins

Tudo acabado entre nós,
Já não há mais nada.
Tudo acabado entre nós...
Hoje de madrugada,
Você chorou, eu chorei,
Você partiu, eu fiquei...
Se você volta outra vês,
Eu não sei.
(bis)

Nosso apartamento agora,
Vive à meia-luz...
Nosso apartamento agora,
Já não me seduz.
Todo o egoísmo
Veio de nós dois,
Destruímos hoje
O que podia ser depois

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PEQUENO COMENTÁRIO MEU:
Simplemente e realmente,
A música já não se faz

como era antigamente!
Será menor a alegria
Ou menor será a dor
Que nossa alma hoje sente?
(ANCHIETA)
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

EULÁLIA

Poema de ROGACIANO LEITE

Deixei-a solitária por uns dias,
Enquanto melhorava do ciúme,
E saí pra evitar muitas porfias
Que entre nós se davam de costume.

Nesse tempo eu andava arruinado...
E as brigas entre nós, frequentemente,
Transformavam a abelha do passado
Numa aranha de dor sempre presente!

Então o inseto que fazia, outrora,
Mel de carícias na feliz colmeia,
Vinha fazendo entre nós dois, agora,
O fel da vida - numa horrível teia!

Corri mundos, andei por terra estranha,
Procurando renúncia, esquecimento...
Mas dia-a-dia se infiltrava a aranha
Na teia enorme do meu pensamento!

Mandava-lhe presentes de onde estava,
Escrevia-lhe cartas carinhosas
Pedindo que esperasse que eu voltava
E novamente nasceriam rosas...

Mas, uma noite, triste noite, amigo,
Eu entrei num cassino, que amargura!
Ah! Não chores de ouvir o que te digo
Nem te rias da minha desventura!

A sala estava cheia de cinismo
Dos que, no vício, vão matar a sede...
Era um antro de fumo e alcoolismo,
Com visões sensuais pela parede!

Um perfume de bétulas e sândalos
Recendia da carne e sedas finas,
E a luz envergonhada dos escândalos
Parecia tremer sob as cortinas!

A dona do cassino, a abelha-mestra
Do cortiço infeliz, torpe e devasso,
Dava bebida aos maganões da orquestra
E mandava agitar sempre o compasso...

Enquanto os instrumentos gargalhavam
Na frivolência do pagode insano,
Eu distinguia as notas que choravam
Nas cordas ultrajadas de um piano!

Mais tarde, era o intervalo do pecado...
Enquanto a orquestra demorava o ensaio,
A pianista curvando-se ao teclado,
Dedilhava a canção Rosa de Maio...

Era aquela canção - quando partimos -
A que Eulália tocava todo o mês...
Pois foi no mês de maio que nos vimos,
Eulália e eu - pela primeira vez!

Recordação, saudade, sofrimento...
Aproximei-me sem saber por quê...-
Era Eulália que estava no instrumento!
Sim, Eulália... vestida de "soirée"!

Quando me viu, eu vi também seu vulto
Afogar-se nas brumas de um desmaio...
E até hoje em minh`alma um piano oculto
Vive sempre a tocar Rosa de Maio!

domingo, 3 de janeiro de 2010

ROGACIANO LEITE (TRANSCRIÇÃO DE MATÉRIA DE AUTORIA DO POETA ÉSIO RAFAEL)


"ROGACIANO LEITE - Um poeta popular e erudito

À Helena Marinho
por Ésio Rafael*

Rogaciano Bezerra Leite nasceu no Sítio Cacimba Nova, pertencente à Vila Umburanas, hoje Itapetim, Pajeú pernambucano, no dia 01 de Julho do ano de 1920. Ainda hoje, existe a polêmica, no que concerne à naturalidade do poeta. É que à época, a Comarca se localizava em São José do Egito, logo, Rogaciano, Os irmãos Batista: Louro, Dimas e Otacílio, Jó Patriota, além de outras “feras”, nasceram realmente em Itapetim, mas tudo pertencia à São José do Egito. E agora? Bom, polêmica à parte, o fato é que Rogaciano faleceu no dia 07 de Outubro de 1969, no Hospital: Souza Aguiar, Rio de Janeiro. Infarto do miocárdio. Aliás, existem dois deuses da poesia Pajeuzeira, Rogaciano Leite e João Batista de Siqueira, Cancão, na concepção do seu povo. Apesar das diferenças entre eles, algumas coincidências os aproximam: poetas da mesma região, da mesma “torceira”, além da questão literária. Assim como Rogaciano, Cancão leu: Fagundes Varela, Cassimiro de Abreu, e, logicamente, Castro Alves. Aliás, alguns estudiosos querem afirmar o fato de Cancão não ter conhecido a mitologia Grega, e no entanto mostrar para o público uma intimidade que somente se explicaria através da Psicografia, principalmente para os adeptos de Kardec. Cancão estava limpando mato no seu sitio, em São José do Egito, quando de repente deu uma chuva. O poeta correu para se proteger embaixo de um pé de joazeiro. Fora quando ele se lembrou de uma Professora de Sertânia, moxotó, perto de São José, que ele mantinha uma simpatia por ela. Vejamos que prêmio que ele aprontou para ela: “És das regiões polares / A mais delicada planta / Vives igual uma santa / Entre as toalhas lunares / Os gênios dos longos mares / Dão-te atração soberana / Es a mais gentil liana / Em forma de criatura / Nasceste da ninfa pura / Da maresia indiana.


Poeta-repentista de primeira grandeza, escritor, jornalista (Gazeta do Ceará), compositor e boêmio. São alguns traços que compuseram a personalidade de Rogaciano. Funcionário do Banco do Nordeste S.A., migrou para o Rio e São Paulo entre os anos 50 e 55. Repórter de: A Última Hora e Revista da Semana. Diplomado em Literatura Clássica - 1949, Faculdade de Filosofia do Ceará. Intelectual, leitor de vários clássicos da literatura brasileira, dentre eles, os ultras românticos. “Ele era de fato um poeta Castralvino. Assim falou o Professor pesquisador – Aleixo Leite. Pois, além de ler: Fagundes Varela, Cassimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Cruz e Souza, o poeta tinha uma afeição especial por Castro Alves, como rezam os seus textos.


“Perdulário de inteligência e da imaginação”, segundo depoimento de Carlyle Martins, da – Gazeta de Notícias do Ceará. Fernando Viana da Academia Maranhense de Letras: “Ouvir Rogaciano, não é encher os ouvidos de versos, é extasiar-se da própria poesia. É confundir-se com os homens na sublimação do Belo. Isso ocorreu em 47.


Várias obras de sua autoria compuseram o acervo do poeta Rogaciano: “Acorda Castro Alves”, “Quando Eles se Encontram Novamente”, “Dois de Dezembro”, “Poemas Escolhidos”, “A Vida de Antônio Silvino”, “A Vida do Cego Aderaldo”, “Os Trabalhadores” (Excelente!); “Carne e Alma” (Este traduzido por vários idiomas). Sobre o seu livro: “A Ronda do Tempo”, (Imprensa Oficial, Natal-71), escreveu Câmara Cascudo: “Rogaciano é uma visão arrogante de Castro Alves, um Rutebeuf sem fome, e um François Villon sem frutos dono de um sitio em Messejana, e de um cavalo cadilac.


Viajando para a Europa, como componente de uma caravana sob a tutela de - Assis Chateaubriand, Embaixador do Brasil em Londres, cujo destino era uma festa em um Castelo das Ilhas Britânicas. Rogaciano se apaixonou por uma francesinha, por isso, o Pajeú, o Ceará e o Brasil, ganharam mais poesias. O homem escreveu 100 sonetos dedicados a essa mulher (100 sonetos para Ane). Diz-se que com o fim do romance, o poeta ficara desestruturado, a ponto de o caso ter sido também, a razão de seu fim.
O poeta, foi enterrado no cemitério: São João Batista, em Fortaleza, terra escolhida por ele próprio, como a de seu coração, embora que enfartado. Os “Diários Associados” foram responsáveis pelo translado do corpo. O seresteiro: Osvaldo Santiago cantou em sua cova/túmulo, a valsa: “Cabelos Cor de Prata”, da autoria do poeta, gravada por Sílvio Caldas.


Aqui por estas areias
Já correram muitos pés...
Estalaram muitos arcos,
Vibraram muitos borés...
Estes garbosos coqueiros
São fantasmas de guerreiros
Que o tempo não quis matar!
Estas palmeiras delgadas
São índias apaixonadas
Por homens brancos do mar!

Trecho do poema “Ceará Selvagem” de Rogaciano Leite

INFORMAÇÕES DE AMIGOS:

Jó Patriota - O último dos Líricos, era fã de Rogaciano, e falava muito em seu nome. “Rogaciano era um poeta danasco, alto, forte, elegante, vasta cabeleira, boêmio. Ele chegava a passar 8 dias fora de casa, morando na mesma cidade. Tinha um certo desprazer com Itapetim. Cantando em sua cidade, fazendo dupla com Lourival Batista, queixou-se: “Minha terra me desprezou”. Aí, o poeta genial, Louro, advertiu: - Não maltratas tua terra / Rogaciano sossega / Ela é mãe e tu és filho / Paciência meu colega / Filho que maltrata a mãe / Morrendo o Diabo carrega. Rogaciano, ciente do que disse, arrematou de maneira também genial: - De fato caro colega / Sua razão não se some / O Diabo carrega o filho / Que da mãe manchar o nome/Mas também carrega a mãe / Que mata o filho de fome.
Pinto do Monteiro, o maior de todos até agora, deu o “serviço” do seu aluno, ainda lamentando a sua perda: - Começou junto comigo / Conduzindo uma viola / Cantando em qualquer artigo / Glosando em toda bitola / Andando em toda ribeira / Vivendo de feira em feira / Por São Vicente e Sumé / Prata, Boi Velho e Monteiro / Bom Jesus e São José. (Roteiro de velhos Cantadores e Poetas Populares do Sertão, pg 247.).
Rogaciano Leite ganhou o “Prêmio Esso de Jornalismo, ao escrever matéria sobre: Areia Monazítica, na região do Amazônia. Navegava entre o “popular e o erudito”. Orador de “Mão cheia”. Todavia, quando visitava a sua terra, dava de garra de uma viola, e cantava do mesmo jeito. Ainda houve uma época em que se questionava o fato de ele não ter morrido. E que poderia estar residindo na França, com a sua francesinha, Ane. Comenta-se que o caixão onde estaria o seu corpo, não fora aberto, continuando hermeticamente fechado, até a hora em que o obscuro coveiro lacrou o túmulo com cimento e tijolo. “O Trabalhador”, “Ceará Selvagem”, ainda correm na memória do povo. São trabalhos imortalizados, criados pelo talento inquestionável de Rogaciano Leite, que nasceu com a bênção dos deuses e a proteção do rio feiticeiro do Pajeú.

*ÉSIO RAFAEL é poeta e estudioso de poesia popular.

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 O amor não é racista... ela dizia,
Quando em beijos ardentes me abrasava,
Ao seu peito nervoso me apertava,
Ao meu peito nervoso eu lhe prendia.

Era noite na praia, ninguém via
Aquele par que se beijando estava...
Nos braços do cristão ela sonhava!
E eu sonhava nos braços da judia!

No templo azul daquela noite calma,
Eu lhe dei uma pátria na minh’alma
E ela me deu em sua alma a Canaã...

Desde então o racismo se inverteu!
Vivo pensando que fiquei judeu,
E ela pensando que ficou cristã...

(Soneto de Rogaciano datado de 01/08/1950)"

domingo, 27 de dezembro de 2009

Festas de final de ano

Muitos estranham meu modo de ver as festas de Natal.
Em vez de estar alegre, sinto-me tristonho. Talvez seja pela certeza de que o Cristo esteja mais feliz nos outros dias do ano, do que no dia que carimbaram como sendo Seu.
Respeito, porém, que cada um se curve diante de suas convicções sagradas (ou profanas), desde que se respeitem as convicções dos outros, e sempre dentro de um padrão de moral e de ética.
É meu jeito de ver o mundo e de senti-lo. Pronto! Deus me entende!
De qualquer forma, vamos a uma frase que virou um clichê:

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!

Desejo aqui transcrever novamente dois poemas de meu livro “Menino da Rua do Bagaço”:

NATAL DO MENINO POBRE
(Pág. 51)

Dentro de sua bagagem,
Que me trará o velhinho?
Vai me deixar uma bola!
Talvez, quem sabe? - um carrinho!

Vai entrar bem de mansinho,
Antes do nascer do dia,
Pra me dar o meu presente
E a boneca da Maria!

Será bem grande a alegria
Que eu terei amanhã cedo...
Papai é pobre e não pode
Me comprar nenhum brinquedo

Eu não vou fazer segredo...
Gritarei pra toda a gente:
- Venham ver! - Papai Noel
Me trouxe um lindo presente!

- Não sonhe assim, ó menino,
Nem fique feliz, porque
Papai Noel vai passando
Sem se lembrar de você!

É melhor não ser tão crente
Que alguma coisa lhe sobre...
Desde quando este velhinho
Visita menino pobre?

Se houver um gesto nobre
E abrir-lhe sua sacola
Pra deixar algum presente,
Não é presente! É esmola!

Neste caso, então, você
Terá do Papai Noel
O fruto da piedade
Num embrulho de papel!
(Anchieta)

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O CRISTO SUMIU?
(Pág. 48)

Não sei se o Natal é isto...
Onde é que está Jesus Cristo?

Nesse daí que é um mito,
Juro que não acredito!
Na alegria do Natal,
Cristo é artificial,
Com jeito mercantilista...
Um cristo materialista,
Pelos homens fabricado,
Um cristo desvirtuado,
Duma pequenez tamanha,
Incapaz de algum dia
Ter tido a sabedoria
Do sermão lá da montanha.

Pra onde o Cristo sumiu?
- O olhar maldito não viu!
Eu não quero o cristo morto,
Eu busco o Cristo do horto,
Divino, humilde e humano...
Não quero um cristo mundano,
Dado à luxuosidade,
E que inspira a vaidade
Na alma fraca e perdida...
Eu quero o Cristo-primeiro,
O filho do Carpinteiro,
Caminho, verdade e vida!

Com alma pura e serena
Foi resgatar Madalena
Para um mundo de bondade...
E com amor e humildade,
Fez-se em tudo o próprio exemplo.
Não quero o cristo do templo
Das religiões mesquinhas,
Nem o cristo das lapinhas...
Eu quero um Cristo-luzeiro!
Não quero um cristo que serve
À vaidade e à verve
Do fanático embusteiro!

Quero o Cristo da igualdade,
Da lei da fraternidade,
Da paz que falta na Terra...
Não quero o cristo que a guerra
Fomenta nos corações,
Nem o cristo das paixões,
Da inócua filantropia!
Eu quero um Cristo-alegria,
Mas feito de amor e luz!
Nos Natais que eu tenho visto,
Fazem festa para um cristo
Mas não pra Cristo-Jesus!

Não sei se o Natal é isto...
- Onde é que está Jesus Cristo?
(Anchieta)

sábado, 19 de dezembro de 2009

INSENSATEZ

(Matéria publicada no blog do Altino - http://altino.blogspot.com/)


















Foi-se o lindo casarão...
Ninguém vai vê-lo outra vez!
Demoliram, simplesmente,
Num ato de estupidez!

Deus do Céu, quanto absurdo!
Que coisa irracional!
- Violentar nossa gente
Por causa do vil metal!

Quem destrói essas relíquias
Destrói a nossa memória,
Trata tudo como lixo
No curso de nossa história.

A casa foi demolida...
E o responsável, foi quem?
- Devia estar dentro dela
Pra virar lixo também!!!

(Anchieta)

domingo, 6 de dezembro de 2009

LANÇAMENTO DO "MENINO DA RUA DO BAGAÇO"

Mais de cem amigos foram prestigiar-me no lançamento do livro.  O Manoel Paim, proprietário da Livraria onde ocorreu o evento, participou ativamente. Inclusive nos brindou dançando para nós um forró bem nordestino, ele que tem desenvolvido seus dotes numa academia de danças. Obrigado por tudo, Paim!
Algo bem interessande foi o teatro de bonecos falando-nos sobre aquele momento. Muito bom! Minha gratidão!
A Raquel, amiga nossa e assessora lá no Acreprevidência,  teve uma atuação incansável durante toda a preparação e realização do evento. Sem ela não teríamos alcançado tanto sucesso.     Qualquer agradecimento fica aquém do que ela merece. Claro que não foi surpresa, haja vista sua comprovada competência, sua desenvoltura e sua inteligência.  Foi lindo, menina! Obrigado! 
Meu especial carinho a Samira, Ana, Socorro Chaves, Natália, Frank (envolvidos diretamente na preparação do evento) e demais companheiros de Acreprevidência, que de uma forma ou de outra me ajudaram a alcançar o brilhantismo daquela festa.
A professora Robélia, amiga de longas datas e expressão cultural de nosso Acre,  muito me lisonjeou com suas palavras. A ela, também, meu muito obrigado! O Deputado Moisés Diniz, grande poeta e escritor, foi uma presença que me surpreendeu, pois não são poucos seus afazeres neste momento de encerramento dos trabalhos do ano na Assembléia Legislativa.
Desculpem-me outros muitos amigos que ali estiveram e que não estão sendo nomeados aqui. Tenho-os lembrados no coração.
Meu agradecimento a todos os que se fizeram presentes:
Meus amigos, minha esposa, minhas filhas, minhas netas...

Um abraço fraterno para todos.

Anchieta.

Entrevistado pela afável amiga e brilhante jornalista Mirla Miranda, que me presenteou com sua eficiente cobertura. Esteve presente em todos os momento de forma absolutamente voluntária.
Meu muito obrigado, menina!
Mais de cem pessoas... Para um menino humilde, um garoto sem expressão, lá da Rua do Bagaço, foi muito bom. O evento foi realmente um sucesso! Alimentou nossa vaidade.


Alguns dos amigos que me prestigiaram, aparecendo minha filha Sílvia em primeiro plano (sentada).


GLADS, minha amada esposa.
Cumpriu aí seu papel, direcionando-me alguns elogios e agradecendo a presença dos amigos.
A ela agradeço minha esplêndida alegria de viver!!!
Obrigado, querida! Beijos!


Minha filha Rossana discursando sobre o papai.



Autografando para minha filha Silvia, sob os olhares das netas Priscila e Bianca (a menor)

OUTRAS FOTOS:

Minha amiga Mariêda


O Comandante da Polícia Militar do Acre - Meu Amigo Coronel Célio -
Ao lado do Diretor de Previdência do Acreprevidência José dos Santos Pereira


Autografando


Minhas amigas Dra. Heloisa Mourão e Dra. Flora


Agradecimentos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A CRIAÇÃO DA MULHER 

Deus quis fugir da ociosidade
e do tédio de sua solidão...
Planejou em seus mínimos detalhes
a sua esplendorosa criação...
- Pôs em prática a sua engenharia
e descansou depois do sexto dia,
quando de barro já criara Adão.

Fez dele um soberano sobre tudo,
do que pra ser feliz fosse preciso,
mas no rosto de Adão, Deus não pudera
plantar o encanto pleno de um sorriso...
e buscando as razões dessa tristeza,
viu ainda incompleta a natureza,
viu ainda sem graça o paraíso.

Não é bom que ele seja solitário,
na triste insipidez que o domina...
Deus, então, lhe retira uma costela
para mudar de vez a sua sina...
Busca o fulgor que um novo ser requer
e esculpe, esplendorosa, uma mulher,
a tão sublime inspiração divina...

E o homem sorridente e fascinado,
mergulha a vida num deslumbramento...
Reconhecido se dirige ao Pai,
num gesto nobre de agradecimento...
Viu compensado o tempo de esperá-la,
viu que Deus esmerou-se ao planejá-la
e bendisse o divino esquecimento.

(José de Anchieta Batista)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SEM RUMO E SEM PORTO

Na vaga noite,
sem rumo, eu vago,
e em mim não trago
qualquer sonhar...
Se eu gritar
ninguém responde...
Meu ser se esconde
num endereço
que não conheço,
na rua triste
que não existe...

Na treda noite,
meu mundo tredo,
e eu com medo
dos meus zumbis...
Algo me diz
que estou enfermo,
mas sigo a ermo...
Na madrugada
navego o nada,
num rio morto
que não tem porto.

Na fria noite,
um vento frio,
que vem de um rio
que vai pro mar...
Chorar? Cantar?
- Não há mais canto!
- Não há mais pranto!
...Nesta agonia,
a noite é o dia
que não findou...
- E eu, quem sou?

(Anchieta)
(Rio Branco-Ac, 05/11/2009)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Meus mortos

(Reedição - em razão da passagem do "dia de finados")

Os meus mortos não morreram,
Porque meus mortos não morrem...
Meus mortos seguem comigo,
Mais vivos do que meus vivos...
                                   
Caminham no meu caminho,
Choram meus prantos comigo,
Cantam as mesmas cantigas
Que já comigo cantaram...
Meus mortos não morrem nunca,
Vivemos na mesma vida!
            
Às vezes quero chorar
A saudade inexorável,
Mas descubro de repente
Que meus mortos não morreram,
Que meus mortos estão vivos!

(Anchieta)

sábado, 31 de outubro de 2009

A hipocrisia da "melhor idade"

Ouvi hoje, 31/10/2009,  dos alto-falantes do aeroporto de Porto Velho, em Rondônia:
- "Convidamos para o embarque os passageiros da "melhor idade"...".
Obedeci ao chamamento, já por mim ouvido com indiferença tantas vezes em outros aeroportos, e, pela primeira vez, detive-me na análise do que realmente aquilo significava.
Éramos oito os enquadrados no rol dos tais passageiros da "melhor  idade".   Puxavam o cordão: um velhindo quase cego, que era conduzido por uma filha,  um outro da mesma idade que sofria do mal de Parkinson,  uma velhinha numa cadeira de rodas, também acompanhada por uma filha e, a seguir, completávamos o grupo, eu (com intensas dores num ombro e nos joelhos)  e outros quatro velhotes já enferrujados pelo tempo. Sim, porque depois de certa idade existe, com certeza, uma espécie de "ferrugem" que ataca os nossos músculos e ossos, bem como, as "dobradiças" do corpo.
Olhei aquele nosso grupo formado ao acaso e parecia haver uma conformação com as nossas "sucatas" corporais. Estávamos descontraídos e até rimos todos quando tropecei num pequeno batente e brinquei: - não empurra!
Entramos no avião.
Enquanto me acomodava na poltrona, pensava: - Que bom ter este privilégio de ser dos primeiros a entrar na aeronave! Que bom que nos respeitem pelo peso da idade, pelos cabelos brancos, por nossa trajetória de vida! Intimamente agradeci aquela deferência, mas aquela história de "melhor idade" não me soava bem.  A expressão me intrigava. Havia naquilo algo que não refletia os reais sentimentos dos outros para conosco. Havia uma falsa bajulação. Era melhor que nos respeitassem com mais autenticidade.  Quem teve essa ideia maluca, esqueceu-se de que a "melhor idade" deve ser sempre aquela que estamos vivendo, independentemente de ser na infância, na juventude ou na velhice. A busca da felicidade deve ser uma constante. 
Decretei, então, dentro de mim, toda uma aversão àquilo. Era uma bobagem sem fundamento!
- Qual foi o imbecil, o fariseu, o idiota, o sujeito que quis aparecer  e que inventou de nos enquadrar nessa tal "melhor idade"?  Será que com essa bajulice pensava transformar-se em nossos herói?
- "Melhor idade", porra nenhuma!
Vamos à cruel realidade de considerável maioria:
- para muitos, tudo é restrito ou proibido,  não conseguem fazer a própria higiene, nem podem se alimentar sozinhos, são limitados na locomoção, não podem viajar sem um acompanhante, ganham uma aposentadoria miserável, vivem pela caridade alheia, a tesão está de alguma forma comprometida... ou vira coisa do passado...  e outros e outros e outros mil males, impedimentos e deficiências.
Acredito que quem criou essa asneira de "melhor idade" está zombando de nós. Isso é um falso respeito. É uma bajulação sem sentido. Muito melhor e mais autêntico, quando nos enquadravam como da "terceira idade".
Embora me sinta inexoravelmente adaptado a minha velhice, tentando nela viver uma idade prazerosa, repudio a conotação de paraíso e de felicidade existente na tal expressão "melhor idade".
Sou um idoso! Chamem-me assim!
É mais respeitoso e mais verdadeiro!
A tal "melhor idade" é uma gozação!
É uma mentira deslavada!
É uma hipocrisia!
"Melhor idade" em quê?

(José de Anchieta Batista - 65 anos)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eu vi uma flor, eu vi Marilena!

(Manaus-Am, fevereiro de 1987)

Na tarde tão quente,
o sol causticante...
No meio da gente,
surgiu fascinante,
com imensa candura,
formosa e serena...
-  E eu vi uma flor!
E eu vi Marilena!

O sol em declínio,
buscando o arrebol,
porém, com fascínio,
nascia outro sol,
no olhar doce e puro
daquela pequena...
- E eu vi uma flor!
E eu vi Marilena!

Que imensa beleza!
Que paz! Que encanto!
Na voz, com certeza,
das aves, o canto!
E a cálida tarde
se fez mais amena...
- E eu vi uma flor,
E eu vi Marilena!

Daquele momento
de felicidade,
ficou o tormento
de minha saudade...
Na extrema ternura
daquela pequena,
- Eu vi uma flor,
Eu vi Marilena!

(Anchieta)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Na escola da vida

Neste meu mundo de amarguras cheio,
a dor impera e nada me consola...
- Se fizeste da vida a grande escola,
me diz, ó Deus: - Cadê o meu recreio?

Perdoa o fraquejar! Eu não me rendo!
Bem maior faz-se a alma no sofrer...
e assim te agradeço, amado Ser,
por todas as lições que em vida aprendo.

Deste mundo, meu Pai, quando eu me for,
terei de certo a paz de que preciso...
e então hei de entender que meu sorriso
foi construído por detrás da dor!

(Anchieta)

sábado, 17 de outubro de 2009

Novamente o debate: - Acriano ou Acreano?

A respeito deste assunto, peço a todos que visitem o blog do Altino (http://www.altino.blogspot.com/) e leiam um iluminado texto sob o título  "ACRIANO É ALIENÍGENA", escrito pelo Dr José Augusto Fontes (acreano, poeta, cronista e juiz de direito). A  abordagem é  riquíssima.
Como sempre, os "comentários" postados expressam entendimentos divergentes  sobre o assunto. De minha parte externei a seguinte opinião:

...........................................................
 ANCHIETA BATISTA disse...
Esta bandeira também é minha, Dr. José Augusto. Quem quiser que aceite a teoria do "tanto faz, como tanto fez". Eu, não! A indiferença quanto aos costumes, às tradições e a outros valores telúricos, é uma forma de não amar a terra onde nascemos ou vivemos.
Nosso grande poeta Castro Alves bradou que "a praça é do povo, como o céu é do condor...". Devemos nós aqui crescentar: " ... e a lingua é do povo!". Que história é esta de modificar, por meio de uma lei, o modo como uma gente decidiu se autodenominar? Este gentílico faz parte de uma história! É marca nossa! Não se deve admitir qualquer imposição contrária. Discutindo este mesmo assunto, há alguns dias, ouvi um acreano dizer que se mudassem o nome do Acre para qualquer outro, ele continuaria muito satisfeito, "quanto mais uma besteira dessas". O papo teve que acabar ali! Não havia como continuar.
Minha humilde forma de ser escriba não adotará esta maldita inovação. Serei um rebelde!
Não peço que me desculpem por minha indignação, porque há um motivo extremamente justo para tanto.
Um abraço a todos.

José de Anchieta Batista
9:03 AM
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Linda

Porque Linda mora lá,
dizem que o mundo é mais lindo
lá no Jardim Tropical.
Tem mais vida a natureza,
há mais perfume nas flores,
tudo é mais doce e mais puro
porque Linda mora lá.
As quatro estações do ano
se resumem em primavera...
e os passarinhos cantando
têm no canto mais encanto
porque Linda mora lá.
Entre as ruas que existem
lá no Jardim Tropical,
há uma que é mais festiva,
mais romântica, mais bonita:
- a rua onde ela mora!
Onde as canções são p`ra ela,
onde há sonhos e poesias,
sonhadores e poetas,
violões e trovadores...
devotos da mesma santa
lá do Jardim Tropical.



Vou depressa, vou correndo,
ofuscar-me em seus encantos!
Vou ver de perto o feitiço
da formosura de Linda!
Eu quero me embriagar
no torpor de seu perfume,
na beleza indescritível
que enfeita o mundo de lá!



E depois... depois, quem sabe?
- ficarei prisioneiro
lá do Jardim Tropical,
se é que a vida é mais bela,
se é que o mundo é mais lindo
porque Linda mora lá.
(Anchieta)

domingo, 11 de outubro de 2009

Convicção

Já não me assusta morrer,
Mas me tortura o tão pouco que fiz
Numa vida que muito me fez...

Já não me assusta morrer,
Porque sei que a morte não existe,
A não ser como estação da vida.

Já não me assusta morrer...
Sou convicto da vida além da morte
E vejo a morte sublimando a vida.

(Anchieta)

sábado, 26 de setembro de 2009

À menina Marina Silva











Lá vem a menina,
franzina, morena,
selvagem, serena,
Sem medo de nada...
- da onça pintada,
- do mapinguari,-

- dos grandes mistérios
das coisas daqui.

Lá vem a menina
com seus desafios...
nascida no ventre
das terras do norte...
com alma gigante,
guerreira e pacata,
nos traz lá da mata
a seiva mais forte...

Lá vem a menina,
nas curvas do rio,
num barco de sonhos,
audaz, destemida,
remando nas águas
que a vida lhe trouxe,
com seu jeito doce
de ser atrevida.

.............................
(José de Anchieta Batista)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Aos quinze anos de Danúzia

(filha de meu amigo Joaquim Ferreira)

Menina Danúzia,
Dos teus quinze anos,
No esplêndido dia,
Que posso ofertar-te
Da humílima arte
De minha poesia?

Ao ter-te por tema,
Escrevo um poema
Com alma inspirada,
Mas quase que nada
Eu sei te dizer...
- Meu verso é tão pobre,
Tão pobre é meu canto,
Diante do encanto
Que existe em teu ser!

Menina Danúzia,
Do amor tu surgiste
E assim te vestiste
Da aura do amor...
Conserva o fulgor
E a paz do sorriso,
Pois isto é preciso
Pra o mundo ser lindo...
Menina Danúzia,
Sorri para a vida,
Que a vida, menina,
Está te sorrindo!

Teu aniversário!
Que os céus abençoem
Teu lindo fadário!
Danúzia, querida,
Que o Deus do universo
Escute o meu verso,
E nada na vida
Te fira ou maltrate!
Que o mundo te trate
Com muita bondade
E extremo carinho!
Que a felicidade
Te siga aonde fores
E encontres só flores
Por sobre o caminho!

Menina Danúzia,
Dos teus quinze anos,
No esplêndido dia,
Só pude ofertar-te
A humílima arte
De minha poesia...
E quase que nada
Te soube dizer...
- Meu verso é tão pobre,
Tão pobre é meu canto,
Diante do encanto
Que existe em teu ser!

(Anchieta)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Conversando com minha morte

Há um encontro marcado entre nós dois...
E não nos é permitido
deixar de consumá-lo.
Não sei em qual momento,
nem sei em qual lugar...
mas, virás!
Então me levarás por mundos desconhecidos...
onde não sei se "descansarei em paz",
onde não sei se me cansarei bem mais...

Esse é teu jeito de ser: - uma incógnita!

Ninguém sabe, aliás,
onde moras,
como és,
donde vens,
nem quando virás...

És imprevisível!

E embora nosso encontro seja inevitável,
serás tu que virás até mim,
pois não pretendo buscar-te
para a celebração do meu suposto fim.

Desde criança imaginei-te a mais cruel das criações,
pois no contexto de todos os contextos,
sempre foste para mim
a mãe da maldade universal!
E assim...
alimentei um terrível pavor de ti
e te odiei com toda a amplitude...
pois tu eras simplesmente o próprio mal.

Um dia, porém,
resolvi desmascarar-te!
Vasculhei o meu mundo de ilogismos
e fui encontrar-te na raiz
de minha própria gênese...
... e na perenização de minha espécie...
condutora de imorredouros egoísmos.

Mas, deixa isso pra lá!

O que eu quero é estar preparado para receber-te...
e como um lunático que espera
a sua namorada imaginária,
eu te esperarei...
com a inquietude
de um condenado,
com a incerteza de quem não sabe para onde está indo,
mas trazendo dentro de mim
a mansidão de um cordeiro a ser imolado.

Então,
eu quero que tuas asas
deslizem macias pela amplidão...
pelo desconhecido...
e me levem a mundos melhores do que este,
já que este tão insano me tem sido.

Sabes?
Tenho tentado preparar-me para receber-te,
com um sorriso nos lábios...
sereno e enternecido...
E até saudar-te como se procede
no reencontro com uma velha amiga...
- E eu sei que isto me será permitido.

Ah! Se possível,
quero preparar-te
uma roda de samba,
um forró de pé-de-serra,
ouvir “assum preto” e o “último pau-de-arara”,
pela última vez...
e não me acuses de insensatez!

Sim, amiga,
eu tenho certeza de que um dia virás...
mas, quando enfim decidires,
por favor...
chega sem barulho,
sem confusões,
sem atormentar-me,
sem desesperar ninguém...
e leva-me... leva-me... leva-me...
                      
Leva-me pelo além,
mas, com a ternura que por vezes tens...
leva-me, se possível,
sem fazer sofrer ninguém!
sem aquele doloroso e interminável suspense...
leva-me ao doce som de alguma valsa vienense...

Descobrirei, por fim,
que moravas aqui,
dentro de mim!

Não quero lágrimas,
não quero orações,
não quero rezas,
não quero cantos fúnebres,
não quero cultos,
não quero missa!
Leva-me em paz...
Ó mais profundo símbolo de justiça!

(Anchieta)

domingo, 13 de setembro de 2009

Ser ou não ser?

Dorme o não ser!
Não ser !
Nada ser!
Ainda não ser,
No vácuo do ser...
Não pensar em ser,
Não pensar em não ser,
Nem nas razões do ser,
Nem do não ser...

Fiz-me ser
Do ser
Ou do não ser?
Como ser?
Como não ser?

De repente... ser!
A vida ser,
Consciência do ser,
Sentir ser no ser,
Navegar no ser,
Nas ilusões do ser,
Nos mistérios de ser.

Mas...
Depois de ser,
O ser há de ser,
Ou não há de ser
Um eterno ser?

Ser ou não ser?                         
                         
Não sei se o ser
Vale a pena ser,
Que a dor de ser
Faz parecer
Melhor não ser!
                                 
(Anchieta)

sábado, 12 de setembro de 2009

No Forró do Damião

 (Xote  -  Brasileia, 1985)
                              
Tô cum dô de cutuvelo,
Tá doendo minha dô,
Me agarro cum quem pódi
E me sábi dá amô...

Gasto a sola do sapato,
Rélo o buxo no salão,
Vô até o ôto dia,
No forró do Damião!

Vai puxando aí o fole,
Damião,
Qui eu quero me arrumá...
Venha cá, minha morena,
minha flô,
Tô querendo ti abraçá...

Todo mundo tá sabendo
Qui nós tem esse xodó,
Vô fungá no teu cangote,
Me moiá no teu suó!

(Anchieta)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Fascinação

Ano de oitenta e cinco,
Dezessete de setembro...
Manhã quente, eu bem me lembro...
E a lembrança em mim persiste,
Perco a calma, fico triste,
Uma angústia o peito invade,
Na tortura da distância
Tudo agora é só saudade!

Perdi-me dentro da noite,
Nas asas dos sonhos meus...
Veio depois um adeus
E a vida tornou-se um culto
Pra venerar o teu vulto...
Veio a saudade sem fim,
Me torturando, doendo,
Mexendo dentro de mim.

O brilho do teu olhar
Cravou-se em meu coração
Como se fosse um arpão
Envenenado de amor!
Lábios lindos como a flor...
E na voz, a melodia,
Sentimental e plangente
Do cantar da cotovia.

Teus cabelos são carícias,
Teu riso é luz, é aurora,
Teu corpo, abrigo onde mora
O encanto da natureza!
E toda essa beleza
Que me tortura e inquieta
Transformou-se em cativeiro
Da alma deste poeta.

(Brasileia - 1985)
(Anchieta)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Por quê?

Invejo a sorte de alguns,
Mas doutros eu nada invejo...
No mundo há flores do campo
E há tiriricas do brejo.

Pra uns a sorte é bem boa
Pra outros ela é bem má...
É que alguns são “filhos de...”
E os outros são “filhos da...”.

Esta flagrante injustiça
Fere os sentimentos meus...
Parece até que nem todos
São filhos do mesmo Deus.
                    
(Anchieta)

sábado, 29 de agosto de 2009

EM LUGAR DE UM "PREFÁCIO", UM "PRÉ-FÁCIL"

A apresentação de meu livro:
- Como não se trata de um PREFÁCIO tradicional, não estou fazendo segredo deste particular. Pensei sobre o assunto e resolvi não perturbar ninguém para prefaciar o "MENINO DA RUA DO BAGAÇO".  Por esse motivo, aquilo que seria PREFÁCIO virou

PRÉ-FÁCIL
                 
Queiram desculpar-me o atrevimento,
Por esta obra que a vocês eu passo,
Denominada no seu nascimento
De "Menino da Rua do Bagaço"!

A linguística faz-se aqui precária,
Mas os meus sentimentos são profundos...
Não se trata de obra literária:
São pedaços de vidas e de mundos!

Pela modéstia, não irá somar
Alguma coisa à nossa "Flor do Lácio"
E por isso fugi de suplicar
Que alguém me fizesse algum prefácio.

Jogar-me-íam, com certeza, flores,
Num estilo de atroz verborragia...
-  "Ao notável poeta, mil louvores!" -
E por detrás de tudo, a hipocrisia!

Para que ocupar um erudito,
Que, com certeza, pouco tempo tem?
É tão humilde o que eu tenho escrito,
Que eu me proíbo perturbar alguém!

Talvez sobejamente o livro peque
Por ser este menino inconsequente...
Mas assim mesmo nasce este "moleque"
Travesso, humilde, pobre e irreverente.


(José de Anchieta Batista)
         

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

UFA!

Caros amigos e amigas.


Cumpri minha tarefa de organização do livro. Remeti o material para a editora. O nome será mesmo MENINO DA RUA DO BAGAÇO.
Nesses sessenta dias nascerá. Não é uma obra literária: - "São pedaços de mundos e de vidas", como nele eu declaro.


Agora voltarei a mexer no Blog.   


Abraços.


Anchieta

domingo, 9 de agosto de 2009

Sarney, Sarney, por favor!

Sarney, Sarney, por favor,
O povo já está cansado...
Não dá mais para esconder
Seu mundo despudorado...
Com essa gente vilã,
Do tipo Collor e Renam
Vai ser o fim do Senado.

Sarney, Sarney, por favor,
Deixe Brasília pra trás...
Volte lá pra São Luís
Ou Macapá – Nem sei mais...
Já basta de mar de lama,
Vista logo seu pijama
E deixe o Brasil em paz!
                           
(Anchieta)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Coisas que eu disse em 1987 e 1988 no jornal "O Rio Branco"

- Discurso de palanque tem que ser interpretado com dicionário de antônimos.

- O extremista nada mais é do que o sujeito que se encarcerou em si mesmo. Perdeu o direito e a liberdade de pensar livremente.

-Comício é um bando de idiotas escutando mentiras.

- Se o problema dos políticos é o "rabo preso", seria bom amputar esse apêndice antes de entrar na política.

- Marajá é o engraçado que ganha muito para trabalhar pouco; Operário é o desgraçado que ganha pouco para trabalhar muito.

- Muitos políticos, ao receberem o passaporte para o inferno, ainda vão tentar subornar São Pedro.

-  O político safado é como mulher que passa chifre no marido: - morre jurando sua honestidade.

- Algum dia teremos os bons políticos fazendo a regra. Por enquanto eles fazem a exceção.
(Anchieta)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quadrinhas

.
Tão repleta de problemas,
Minh´alma ficou lunática...
- Minh´alma, tu és espírito
Ou livro de matemática?

***
Quando de falsas ilusões me inundo
E a vida faz-se amarga e sem sentido...
A perfídia comanda o colorido...
E eu busco o "preto e branco" de meu mundo!

***
Você já não me diz nada...
Tão triste a vida tem sido,
Que a minha alma, coitada!
Só tem chorado e sofrido!

***
Tento esquecer sua imagem,
Mas sempre tem sido em vão...
Você hoje é tatuagem
Gravada em meu coração!

***

(Anchieta)

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Rio do Peixe


Cenário:
Século XX - Década de 50 - Distrito de Aparecida - Sousa - Paraíba

O nosso Rio do Peixe
- Um ziguezague no chão -
Um bordado de mil esses(SS)
Atravessando o sertão...
“S” da palavra "seca",
“S” de sofreguidão!

O nosso Rio do Peixe,
No inverno, quando enchia,
A imensa felicidade
Em suas águas trazia...
Depois ficava soturno
Qual uma estrada vazia...

Às margens daquele Rio
Fui feliz quando criança...
Misturada às suas águas,
Vinha também a bonança...
Pra nós o Rio do Peixe
Era o rio da esperança.

Mas nosso Rio do Peixe
Muito ligeiro secava...
Era como um viandante
Que bem depressa passava...
Sumia a água e o peixe,
Somente areia ficava...

Hoje eu sei que aquele Rio
Não era efêmero assim...
Eu o trouxe dentro d´alma
Lá do sertão donde eu vim...
E é rio que nunca seca
Nas saudades que há em mim!
Rio Branco - Acre, 25 de julho de 2009
(José de Anchieta Batista)


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Contraste.


Há pessoas cujo transatlântico não cabe em nenhum oceano e, por isso, são infelizes. Outras navegam em pequenos igarapés, conduzindo seus caíques como se cruzassem um verdadeiro mar de felicidades. E assim, são simplesmente felizes.

(Anchieta)

domingo, 19 de julho de 2009

Castigo

.
Quem por insensatez desmata e queima
A nossa Amazônia, este jardim,
Em deserto tentando transformá-la,
Só pode ser um cara tão ruim...
Que devemos pôr nele um par de chifres
E condená-lo a só comer capim.

(Anchieta)

sábado, 11 de julho de 2009

Quando criança

Quando eu era criança
pensava que era bom ser bom
porque Deus era muito carrasco...
eu queria ser bom para algum dia
ter o direito de subir por algum arco-íris...
e entrar no céu...
(o arco-íris era um caminho colorido por onde os homens bons chegavam a Deus.)
Quando eu era criança,
pensava que os trovões eram a voz de Deus com raiva de nós...
pensava que Deus procurava os homens maus com as luzes dos relâmpagos...
então os matava com os raios que caíam do céu...
depois os trancava no inferno para sempre...
Quando eu era criança,
pensava que os urubus faziam seus ninhos bem perto dos céus...
e eu queria subir na montanha
para de lá subir nas nuvens
e então encontrar seus ninhos...
Como um menino bom, teria o direito e o prazer de voar com eles...
Ah! que tempos!
E agora?
Que me restou de tudo aquilo?
Que me restou daqueles meus pensares?
Que me restou daqueles meus pavores infantis?
Não sei!
Tentei ser bom... não sei se perdi meu tempo...
Quis ser sempre um menino, mas cresci...
sobrando-me, contudo, algo importante:
- eu não deixei morrer minha criança...
Já não mais me fascina o arco-iris,
Já não mais me apavoram os trovões nem os relâmpagos,
Já não mais olho para os urubus...
Mas, que bom!
- Já não tenho mais medo de Deus!

(Recife,PE, 10/07/2009)
(Anchieta)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

ACREANO, SIM (Transcrição do Blog do Altino Machado)



"Conforme este blog já havia antecipado há meses, o presidente da Assembléia Legislativa do Acre, Edvaldo Magalhães (PC do B), anunciou que vai baixar resolução determinando que todos os documentos e publicações oficiais da Casa utilizem o gentílico "acreano" e não "acriano", contrariando o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Embora seja do Centro de Tradições Gaúchas, o presidente do Tribunal de Justiça do Acre, desembargador Pedro Ranzi, também decidiu aderir ao movimento em defesa do "acreano". O governador Binho Marques (PT) já havia aderido ao determinar o recuo da Agência de Notícias do Acre no uso do "acriano".
A Assembléia realizou ontem um ato solene para que a Academia Acreana de Letras e a Universidade Federal do Acre fizessem a entrega de um estudo e uma resolução em defesa da preservação do "acreano".
Lamentável que nossos acadêmicos e "imortais" tenham esquecido de tornar público o estudo e a resolução. Devem ter levado manuscritos e alguém ainda está a digitá-los.
Pelo visto, apenas o jornal A Tribuna vai continuar a nos ofender."


(Blog do Altino Machado - 10/07/2009)






segunda-feira, 6 de julho de 2009

A estrada de Zé Ninguém



(Recife-Pe, 6/7/2009)

Olho a mata...
E a derrubada...
Zé ninguém fazendo estrada
Pra tentar viver,
Zé Ninguém fazendo estrada
Pro Brasil crescer....
Zé Ninguém,
Na miséria vai morrer...
Mas está fazendo estrada
Pro Brasil crescer...
Mas está fazendo estrada
Pra tentar viver!
Olho a mata...
E a derrubada...
Zé Ninguém fez uma estrada,
E Sem pensar em nada...
- Nem no que sofreu -
Lá no fim da estrada
Com alma cansada
Zé Ninguém morreu...
(Anchieta)

domingo, 5 de julho de 2009

Versos para Mary

.
Que há nos teus olhos,
Mimosa morena?
Que dor envenena
O teu doce olhar?
Por que dos teus lábios
Fugiu o sorriso?
Olhar-te eu preciso
Sem dor pra chorar.
Ó Mary, morena...
Menina mimosa,
Tu és meiga rosa,
És fúlgido encanto!
Por que no teu peito,
A dor te ferindo
E em teu rosto lindo,
As nuvens de um pranto?
Apaga esse tédio,
Prossegue o caminho,
Arranca esse espinho
Com que te feriste!
Enfeita com risos
A tua beleza,
Pois tua tristeza
Também me faz triste.
De ti me enternece
Tamanha doçura,
Não quero a amargura
Turvando o teu rosto.
Tão bom se meu verso
Pudesse ajudar-te,
Pudesse tirar-te
Do peito o desgosto.
Eu, triste poeta,
As mágoas solfejo
Na forma que vejo
Tristezas fluindo.
Mas, Mary, eu te peço
Em minha poesia:
- Eu quero a alegria
De ver-te sorrindo!
Que há nos teus olhos,
Mimosa morena?
Que dor envenena
O teu doce olhar?
Por que dos teus lábios
Fugiu o sorriso?
Olhar-te eu preciso
Sem dor pra chorar.
(Anchieta)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Buscando-nos


Eu vou pela estrada,
Tu vens pela estrada,
Nós dois nessa estrada...
Não sei aonde vamos,
Só sei que vagamos,
Em busca do tudo,
Perdidos no nada.

Na ausência do sol,
Eu sou o teu sol,
Tu és o meu sol...
Não sei aonde vamos,
Só sei que vagamos,
Buscando os matizes,
De um novo arrebol.

Tu gemes tua dor,
Eu gemo esta dor!
É a dor junto à dor...
Sofridos nós vamos,
Descrentes vagamos,
Buscando um oásis
De paz e de amor...

(Anchieta)

xxx

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O amor e o fim das guerras

.
A metralha ali gargalha...
Serra, serra a motosserra...
E enquanto mata a metralha,
Sua irmã - mas que canalha! -
Lá na mata, a mata serra!

Sucumbe a vida na Terra...
E ao fim de cada batalha,
Parece perdida a guerra:
- Gargalha a motosserra!
- Sorri de nós a metralha!

Mas se o amor se agasalha
Nos corações... se encerra
O destruir que se espalha...
- Fará silêncio a metralha!
- Será muda a motosserra!
...........................................
(Anchieta)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Maldito amor

Relembro com saudade - que beleza!
Mês de setembro - se já não me engano...
Recordo que era rosa a cor do pano
Que vestia teu corpo de princesa.
De repente se foi minha tristeza
E eu colhi, em teu porte tão risonho,
A flor do meu amor - maldito sonho!
Hoje tento esquecer-te, não te esqueço!
Quanto mais eu te amo mais padeço!
Quanto mais tento rir mais sou tristonho!

Foi cruel o teu modo de mentir
E eu me perdi na tua falsidade...
Tua paz escondia a tempestade
Que me fez de repente sucumbir.
Muito tarde, bem tarde, eu quis fugir
Dos vis grilhões de meu amor pungente...
E agora assistes implacavelmente,
Ao ritual macabro desta dor...
Tu acendeste a chama deste amor,
Para matar-me no seu fogo ardente!

Surgiste como a estrela matutina,
Embelezando o céu de meu viver...
E eu, já tão cansado de sofrer
Cruéis desilusões em minha sina,
Vi nos teus olhos puros de menina
Motivos pra viver e adorar-te...
Mas a dor me persegue em toda parte,
Por isso eu sofro tanto quanto amei!
- Sublime foi o amor que eu te dei!
- Maldito agora eu sou por tanto amar-te!

(José de Anchieta Batista)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Epitáfio

Ó minha ingrata querida,
No livro da tua vida,
- Este pedido eu te faço -
Reserva nele um espaço,
E escreve lá num recanto,
Que este alguém que te amou tanto
E a quem só deste amargor,
Morreu de morte de amor,
Na desventura completa...
E abaixo espero que ponhas
As oito letras tristonhas
Do nome deste poeta.

(Anchieta)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Amar... e viver deste amor que há em mim!




Se o amor é vida,
A vida é amor...
Sem amor a vida
Não tem sabor...

O amor é luz...
É luz e é cor...
São todas as luzes,
São todas as cores
E exala o perfume
De todas as flores.

O mais lindo tema,
De todos os temas!
São só quatro letras,
E a sonoridade
De todos fonemas!
Não cabe em meu peito
Nem nos meus poemas.

De qualquer semente,
Brota e se expande,
Se faz forte e grande,
Faz-se infinito...
Bendito ou maldito,
No inexplicável
De suas raízes:
- Céu dos venturosos!
- Dor dos infelizes!

O amor que respiro
É o misto das coisas
Mais transcendentais...
É a beleza de todos
Os sons musicais,
Tocados na harpa
De meus ideais...
- O amor por que vivo
Que bem que me faz!

Não há sinonímia
Para o meu amor...
Sinto-me senhor,
Faço-me cativo...
Eu sinto que amo!
Eu sinto que vivo!

Quero a simbiose
De nossa existência,
Na plenipotência
Do amor que há em mim...

Meu ser em teu ser...
Teu ser em meu ser...
Amar e viver
Deste amor que é só teu,
Deste amor que é sem fim!

(José de Anchieta Batista)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Maria do Céu

.
Envolvida pelo véu
Dos encantos divinais,
Brilhou Maria do Céu
No céu de meus ideais.

Deixou-me, depois, ao léu,
Com meus tormentos fatais...
Partiu Maria do Céu,
Pra não voltar nunca mais!

Maria do Céu partiu,
O seu sorriso sumiu,
Seu viver tornou-se inglório...

E, por tanta insensatez,
Maria do Céu se fez
Maria do Purgatório!

(José de Anchieta Batista)

sábado, 13 de junho de 2009

Tristonho carnaval


Lá na rua a cidade está repleta
Das ilusões festivas da folia...
Aqui dentro, eu morrendo de tristeza,
Pois não existe espaço pra alegria.

Foi você, minha musa idolatrada,
Quem fez de minha festa um funeral...
E entre as quatro parades de meu quarto
Pra mim já não importa o carnaval.

O pior é que depois da terça-feira,
Quando o rei-momo abandonar a rua,
O samba-enredo desta solidão
Cá dentro de meu peito continua.

Das cinzas de meu triste carnaval,
A mais cruel lembrança me restou:
Você - a colombina que sumiu!
E eu - este palhaço que ficou!

(José de Anchieta Batista)

Cantiga de desencanto


Tão perto de mim...
E às vezes eu penso
Que tenhas partido...
Pois tu não consegues
Ouvir meu gemido.

Com teu próprio lenço
Enxugo uma lágrima
Que mora em meu rosto...
Mas tu não consegues
Sentir meu desgosto...

Meu tempo passando...
Meu sonho em declínio...
Ser quase não sendo!
- Por isso não vês
Que estou eu morrendo...

Da vida, o crepúsculo,
Um mundo cinzento...
Um céu incolor...
Mas tu não me falas
De amor... mas que amor?

Depois que eu me for
Talvez que tu corras
Pra me socorrer...
Mas já será tarde...
Não vai mais doer!

(José de Anchieta Batista)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Para Glads - no dia dos namorados






Glads,

minha doce amada,
No dia dos namorados
Tentei fugir da mesmice...
Não dizer-lhe as mesmas coisas
Que anteriormente eu já disse...
.
Então forjei algum verso
Bem romântico e bonito...
Tentando nele ser dito
De nosso mundo o esplendor...
Mas, quanta simplicidade!
Meu poema, na verdade,
Estava aquém deste amor!

Glads querida, os meus versos
Não vou dizer-lhe nenhum...
Melhor mesmo é que eu repita
Um ritual mais comum!

A praça estará bonita ...
A vida cheia de graça...
Minha mão na sua mão...
Meu olhar no seu olhar...
E nesse enlevo sem par,
Um riso... um beijo...um abraço...
Depois jantar lá no Paço,
Namorar e passear...
Tudo, tudo, a gente faz,
Como fez há um ano atrás...

E ao som de uma canção,
Que eu também quero cantar,
De novo eu vou confessar
Num bilhete escondidinho
Entre as rosas de um buquê
O meu sentimento escrito:
- Tão grande quanto o infinito
É meu amor por você!



.
(Rio Branco - Junho de 2009)
(Anchieta)

Desencontro

Faz tempo... Que tempo faz?
Não me lembro muito bem...
Mas esses tempos de atrás
Guardados comigo vêm.
Foi num mundo de ternura
De inocência e esplendor
A nossa primeira jura,
Tão pura jura de amor.
Foi-se a boneca e a bola...
Foram-se os tempos da escola
Que ficava lá na esquina...
Nós dois, crianças pequenas,
Duas coisinhas morenas,
Eu, menino - ela, menina.
Tudo ficou para trás...
Que tempo doce e risonho!
Agora, como num sonho,
Ela é moça - e eu, rapaz.
Parece que enfim acordo
Para a vida e não concordo
Sucumbir na ilusão vã...
- Vejo-me agora sozinho,
pois há outro em seu caminho
E ela se casa amanhã.
(Anchieta)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A amiga MARINA SILVA



(Escrito em homenagem a seu aniversário – em 08/02/2008)


Ao falar sobre ti, amada amiga,
Não te sintas doer com o que eu te diga,
Se eu te ferir em tua humildade.
Bendita seja a tua heróica luta,
Que Deus faça acordar quem não te escuta,
Na defesa da pobre humanidade!

Busco a verve de minha inspiração,
Mas não dá pra fluir do coração
Algum verso à altura de MARINA.
Tudo em mim é pequeno... o verso é pobre...
E por mais que o poeta se desdobre,
Sente a sua poesia pequenina...

Talvez, mais justa, a doce melodia,
A sinfonia do nascer do dia,
Que tem lugar no seio lá da mata...
Talvez o assobiar do seringueiro,
Talvez da flor do campo, o doce cheiro,
Talvez o murmurejo da cascata...

Talvez o encanto da manhã de estio...
O sol beijando as águas do meu rio
Que lentamente ainda busca o mar...
Talvez mais te falasse ao coração,
Ouvir do ribeirinho uma canção...
Enquanto ainda há tempo pra cantar.

Ao longe, um brado dessa voz tão mansa,
Que teluricamente não se cansa
De defender o resto que nos resta!
Há gritos de socorro pelos ares,
Ao longe ouvimos o gemer dos mares
E aqui perto de nós morre a floresta!

Que poesia fazer? Que homenagem?
Como exultar teu ser, tua coragem?
Como ser justo ao nosso sentimento?
Eu não posso, MARINA, é impossível...
A minha pequenez é indescritível
Por bem mais mereceres no momento.

Deste nosso telúrico sacrário,
Faz-se justo que em teu aniversário,
Genuflexos, a Deus agradeçamos...
E é da alma de cada companheiro
Que externamos a ti e ao mundo inteiro
A grandeza do amor com que te amamos!

(José de Anchieta Batista)


sexta-feira, 5 de junho de 2009

Fratricídio



A vida em chama...
Cruel esse drama!
Funéreo episódio
No inferno do ódio:
- O amor em eclipse!
- É o apocalipse!
Cenário bem forte
De luta e de morte...
Terrível demais!
Homens? Animais?
Por que tanta guerra?
Estigma da Terra?

Cizânia, vingança
E a desesperança...
Nos rostos – assombros,
Nas ruas – escombros,
Sequer, uma flor...
Só gritos de dor!

O sangue... os feridos...
O horror... os gemidos...
Da gente engajada
Na luta por nada...
Clamor na amplidão!
Irmão contra irmão!

Sinistros os vultos,
Crianças e adultos...
Agora guerreiros,
Do ódio os herdeiros...
- O embate, pra quê?
- A morte por quê?

Cadê a esperança?
O sorrir da criança
Há muito morreu...
Ó Deus, quem sou eu?
Ó Deus, onde estamos?
Pra onde é que vamos?

(ANCHIETA)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Senhor Deus dos desgraçados! (1990)

O que fizeste, Cabral?
Que maldição, afinal,
Nos fez a sorte tristonha?
Será que em tua viagem
Não puseste na bagagem
A honestidade e a vergonha?

Ó Pero Vaz de Caminha,
Aqui, a planta daninha
Proliferou muito mais...
E esta minha pobre gente,
Tão sofrida, impaciente,
Já não mais sabe o que faz!

Às vossas preces benditas,
Jesuítas, jesuítas,
Ninguém nos céus disse "amém!"...
De lá, Poeta, responde,
Onde é que Deus se esconde,
Que socorrer-nos não vem!

Castro Alves, vem de novo,
Chorar a sorte de um povo
- Os filhos dos degredados -...
Vem lançar ao infinito
Novamente aquele grito:
- "Senhor Deus dos desgraçados!"

(Anchieta)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Versos para Lucinha


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Quadrinha

.
Enquanto eu vivo te amando,
Tu vives de mim fugindo...
Solidão se consumando
E eu nela me consumindo!

(Anchieta)

domingo, 31 de maio de 2009

Até quando?

Por quanto tempo estes sóis
Estas nuvens, estes mares,
Estes rios, estes ares,
Hão de existir para nós?

Que tempo nos vai restar
Para que o último vivente
Respire avidamente
A última porção de ar?

Quanto tempo ainda resta
Para que esteja caída
A última folha sem vida
Da derradeira floresta?

Que tempo nos sobrará,
Para nos nossos anseios
Ainda ouvir os gorjeios
De um último sabiá?

(Anchieta)

sábado, 30 de maio de 2009

Quadrinha

.
Quem planta muitos amores,
Veja bem o que é que faz!
Eu plantei... não colhi flores,
Só espinhos! - Nada mais!
.
(Anchieta)

Extrema revolta

.
Se ela perguntar como é que estou,
Responda-lhe que eu desapareci,
Que houve um terremoto e que eu sumi,
Que a enchente do rio me tragou...
Que o Cometa de Halley me levou
E que este louco nunca mais foi visto...
Responda que eu morri - talvez só isto!
E jure que assistiu na prelazia
Rezarem missa de trigés´mo dia,
Só não lhe diga que eu ainda existo!
(1986)
(Anchieta)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Nostalgia

.
Na tarde tristonha,
Estava eu morrendo,
Minh´alma sofrendo
A angústia dos sós...
Porém, de repente,
Teu vulto aparece,
E, como uma prece,
Eu ouço tua voz.

O mundo sombrio,
A dor que em mim arde,
As sombras da tarde,
A falta de calma...
Mas a melodia
Que cantas me encanta...
Tua voz me acalanta,
Perfuma minh´alma!

E como se eu fosse
Um teu velho amigo,
Divides comigo
As mágoas sentidas...
E o mesmo eu te faço,
Sem susto e sem medo,
Te abrindo o segredo
Das minhas feridas.

Nós dois pela tarde,
Dois seres, dois mundos...
Tormentos profundos
Matando nós dois...
Sofridos, perdidos,
Morrendo nas águas
De um rio de mágoas
Que a vida compôs.

Daqueles momentos
De grande ternura,
A tua doçura
Comigo ficou...
Ainda te escuto,
Ainda te vejo,
- Sublime lampejo
Que não se apagou!

Senti tua ausência,
Teus pés no caminho...
Fiquei tão sozinho
Nesta ansiedade...
E em meu mundo triste,
Às vezes suponho
Que tu foste um sonho
Que agora é saudade!
.
(Anchieta)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

ANÍSIA GASPARINA - Miss Brasília 1967 - Um conto de fadas

Em 1967, uma linda moça pobre, de nome ANÍSIA GASPARINA FONSECA, morava em Taguatinga (Brasília) e trabalhava como doméstica para ajudar no sustento de sua mãe (lavadeira) e de seus irmãos. Por incentivo da patroa concorreu ao Miss Brasília, tendo sido a vencedora. No Miss Brasil, foi a mais aplaudida e a preferida do público no Maracanãzinho, mas só conseguiu o 4º lugar. Talvez sua falta de escolaridade tenha influenciado nisso, porque sua beleza era indubitavelmente inigualável. Eu, naquela época morava em Brasília e tive a satisfação de conhecê-la em uma das festas lá do clube da Marinha - o “Área Alfa”. Na mesma noite, lembro-me de haver comentado com um amigo: -“Como pôde Deus exagerar tanto na beleza dessa mulher?”
Muito longe de fazer-lhe justiça, dediquei-lhe maravilhado estes humildes versos:

VERSOS PARA ANÍSIA
.
Parai tudo, tudo quando,
Anísia com seu fulgor,
Luzindo o seu resplendor,
Fôr pela rua passando!

Recebei-a com carinho,
Vede só o quanto é bela,
jogai flores da janela,
Perfumando o seu caminho!

Oh! Dai ouvidos a mim,
Somente por um segundo:
- Bebida pra todo mundo,
Seu moço do botequim!

Guardas, agora parai
Todos os carros da rua,
Pois tão bela quanto a lua,
Anísia passando vai!

Contemplai sua beleza,
Soberana e irradiante...
Comparai-a neste instante,
Com a própria natureza!

Jogai-lhe flores cantando,
Retirai vossos chapéus,
Brilhai estrelas dos céus,
Pois Anísia vai passando!

Seu moço do violão,
Seu coração não palpita?
- Sole uma valsa bonita!
- Cante uma bela canção!

Poetas, versos falai!
Não vos inspirais bastante?
Fazei versos neste instante,
Que Anísia passando vai!

Tangei, sinos da Matriz!
Cantai, pardais, com fulgor!
Exala perfume, ó flor,
Que esta rua está feliz!

Abre alas, minha gente,
E, silêncio! – por bondade,
Porque Sua Majestade
Vai passando à nossa frente!
***
(Escrito no Bar Caravelle – então situado na W3 Sul – Julho/67
(José de Anchieta Batista)

"Anos atrás"

Ao visitar recentemente o Alma Acreana, excelente blog do Isaac Melo, vi uma inserção de matéria extraída do livro do Zé Leite, Tão Acre, e resolvi comentar algo sobre meu saudoso amigo:

"Isaac,

O Zé Leite era uma verdadeira enciclopédia de tudo quanto é tipo de curiosidades, sutilezas e gozações. Todo mundo era alvo. Ninguém que pertencesse a seu mundo estava livre. Tudo servia de motivo para formular alguma piada, até consigo mesmo.
Um dia ele me disse: - Anchieta, cometemos muitas besteiras, não é?. Olha o que escrevi: - "anos atrás". Isso é redundância! Nunca conheci ninguém com "ânus na frente". Só fiz sorrir e concordar.
Até o fim da vida foi ele assim! Saudades!"
***
O Zé era exatamente isto: dois olhos, dois ouvidos, uma mente extraordinária, um grande coração e as mãos registrando a vida de uma forma alegre.

ANCHIETA"

terça-feira, 26 de maio de 2009

Farisaísmo

.
Que farsante fariseu!
Que petulante que eu sou!
Pensar que o centro do mundo
É sempre ali onde estou!

Desperta, ó ego maldito,
Desce deste pedestal,
Salta lá do egocentrismo
Pra teu mundo marginal!

Vem chorar a tua essência,
Lamentar o mundo teu...
Vem gritar no teu silêncio:
- Centro de nada sou eu!

Que maldita hipocrisia!
Que vaidade mais sem fim!
De nada, nada, eu sou centro!
Nem sei se centro de mim!
***
(José de Anchieta Batista)

domingo, 24 de maio de 2009

Teleagonia da Teleacre

Hoje ainda sofremos muito com problemas de comunicação telefônica. Imaginem antigamente. Não me lembro bem o ano, mas estávamos na década de 80. O presidente da Teleacre era o saudoso Thaumaturgo Filho, de quem vim a me tornar amigo nas noitadas de "O Casarão". Fiquei sabendo por meio dele que quase nada tinha por fazer. O problema era realmente do sistema em uso aqui no Acre. E lá se foram meus versos para o jornal "O Rio Branco":

Telegrama, teleférico,
Telex, telepatia,
Teletipo, Telescópio,
Telebrás, telefonia,
TELEACRE! - tele-o-quê?
-Teledor! Teleagonia!

Graham Bell! Graham Bell! nos acuda!
Que serventia isto tem?
Pego o fone e disco um número
Pra falar com certo alguém,
Mas ninguém fala comigo,
Nem eu falo com ninguém!

Não adianta macumba
Quando essa coisa se cala!
Talvez a foniatria
Possa devolver-lhe a fala!
Telefone em Rio Branco,
Virou enfeite de sala!

E quando rompe o silêncio,
Outra surpresa nos traz:
-Barulhos, silvos e "bips"
Dos espaços siderais...
Mas, servir de telefone,
Só isto é que ele não faz!

Seu Diretor, dê um jeito
Nessa grande absurdez!
A paciência do povo
Já se esgotou de uma vez!
Somente o que funciona
É a conta no fim do mês!

(Anchieta)

sábado, 23 de maio de 2009

Meu derradeiro sonho

.
O sonho tem acalentado de tal forma a minha existência, que se for anunciado meu último minuto de vida, aproveitá-lo-ei para viver meu sonho derradeiro. Ainda não sei qual.
.
(José de Anchieta Batista)

A Rua do Bagaço

.
A Rua do Bagaço é uma dessas ruas pobres e tristes, composta de um amontoado de barracos em total desordem. Pois bem: num desses barracos eu me escondo. É aí que tenho passado minha vida inteira debruçado na janeleta, a contemplar o panorama que me cerca. Tudo parece confuso e indecifrável. Por mais que alguém me afirme que esta rua é maravilhosa, nem meus olhos nem meu coração conseguem ver isso. Dentro de mim há um sentimento de que a vida nos tritura aos poucos. Longe, mais ao centro da movimentada cidade, as ruas cruzam-se. Ruas, não! Imensas avenidas, largas, festivas, decoradas com ornamentos fascinantes, num misto de muitas cores. As cores da hipocrisia. Aqui e ali, ocasionalmente, se desenrola a comédia, porém o mais comum é a tragédia. Às vezes me revolto, fecho a janela, deito-me no chão frio, enrosco-me qual fosse um caracol e em desespero... eu choro! Às vezes, desço até as margens do rio e fico ali sentado, pensando alheio como os loucos pensam, sem encontrar a razão de ser deste imenso pandemônio que existe nas ruas da vida. Depois, saio por aí, andando à toa, buscando debalde tocar-me alguma indiferença quanto a tudo isso. Retorno ao velho barraco, bem mais angústiado, sem um novo sonho, sem uma nova esperança e bem mais cansado. Então, assobio uma canção triste, forjada sempre em alguma desdita, recito versos do Augusto dos Anjos, deito-me no catre, olho as estrelas pelas frestas do velho telhado e mergulho no pesadelo de minha insônia.
Canta um galo no quintal.
Ladra um cão na madrugada.
A Rua do Bagaço dorme...
.
(José de Anchieta Batista)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sumiço do livro

A imprensa acreana noticiou, em 1986, o sumiço do livro de atas de um partido político, o que trouxe uma série de acusações entre os respectivos dirigentes partidários de então. A pedido do Zé Leite (editor-chefe de "O Rio Branco"), retratei o fato com os seguintes versos:
.

O livro onde está?
- Desapareceu!
Alguém o rasgou!
Alguém o perdeu!
- Já sei: foi você!
- Não, não! Não fui eu!
.
Um vai ao xangô,
Um outro faz prece,
Consulta-se o "Daime"...
E a confusão cresce,
Por causa do livro
Que não aparece.
.
Quem foi o vilão?
Quem foi o culpado?
O diabo levou!
- Diz um inspirado -
Pois ele era arquivo
De muito pecado!
.
Buscando o porquê
Que o livro sumiu,
Um mago famoso
Do caso sorriu...
E olhando nos búzios
Então descobriu:
.
- O fato é gozado,
Estranho e cênico!
Foi graça, talvez,
De um esquizofrênico!
Fizeram do livro
Papel higiênico!
.
(Anchieta)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Acordai, ó poetas!

- De onde essas vozes?
- São gritos de algozes!

Poetas! poetas!
Saí dessas tendas,
Tirai vossas vendas
E olhai pra sentir!
O sol vai cair,
Seremos deserto...
E a pátria, por certo,
Não há de ter nome!
Despi vossos véus
E olhai para os céus,
Ó filhos da fome!

Ó Deus, onde estão
Teus filhos mais bravos?
Mandai-os, urgente,
Quebrar a corrente
Dos novos escravos!

Ouvi, ó poetas,
A dor na amplidão!
Saí das alcovas,
Chorai vosso irmão
Jogado no inferno
De um tipo moderno
De escravidão!

Os seres humanos
Não são mais humanos!
Os nossos poetas
Não são mais poetas!
As vozes são tênues,
Há falso lirismo,
Os versos são gritos
Do próprio egoísmo!

Por Deus, acordai!
Gritai e gritai!...
Uni vossas vozes,
Que o verbo é a espada
De vosso lutar!

Quem sabe? Quem sabe?
O Deus do infinito
Talvez vosso grito
Resolva escutar!

***

Quebrando a cara

(a cena - motivo de gozação por parte de amigos - ocorreu na Praia do Futuro, Fortaleza, Ceará, em 1991)

O teu corpinho bonito
Vestido em seda tão fina,
Acendeu, doce menina,
O meu desejo maldito...
E o vento me vendo aflito,
Ansioso e de tocaia,
Levantou a tua saia,
Mas do prazer me privou,
Pois nos meus olhos jogou
A areia fina da praia...

Quando o vento foi passando,
Que eu me livrei da poeira,
Fui cometer a besteira
De sair te procurando...
A todos fui perguntando
Pra onde tu tinhas ido...
Mas o sujeito enxerido
Tem sempre a sorte malvada:
- Fui encontrar-te sentada
No colo do teu marido.

***

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DEPUTADO EDMUNDO PINTO E A CRIAÇÃO DO TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO ACRE


Em 1987, os versos transcritos logo abaixo foram publicados e remetidos ao saudoso amigo Edmundo Pinto, então Deputado Estadual, que fez leitura do texto no plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Acre .
Os fatos: - Naquele ano, o nosso combativo Edmundo empreendia uma luta incansável contra a grande maioria de seus pares, quando buscava aprovar uma emenda constitucional que tinha por objeto a criação do Tribunal de Contas do Estado. Até então existia apenas uma “Auditoria Geral de Contas”, que fazia o julgamento das contas dos gestores públicos. Era nítido o desinteresse dos colegas para que o deputado visse aprovado o seu projeto.
No dia marcado para a votação, mais uma vez o nosso Edmundo viu-se frustrado, pois aprovaram tudo, menos a tal emenda. Até criaram uma nova secretaria de governo, denominada por ele, em seu desabafo, de “mais um novo cabide de empregos”.

Aqui vão meus versos e meus cumprimentos aos familiares do bravo e saudoso amigo, covardemente assassinado em 17 de maio de 1992, na cidade de São Paulo. Exercia então o cargo de Governador do Estado do Acre.



Criar no Acre um Tribunal de Contas,
É a maior de todas as afrontas!
Nesta terra só mora gente séria,
De gente séria não se julgam contas!

- Esse monstro talvez que nos vigie
E pode até tirar nosso sossego,
Em seu lugar melhor é que se crie
Mais um novo “cabide de emprego”!

E do parto político do dia
Abortou-se uma tal “Secretaria”.

Isto, sim, é legítimo e é legal,
Porém criar no Acre um Tribunal,
É vergonhoso e inconstitucional!

A confusão gerou-se no recinto,
E ali cantou de galo o bravo Pinto,
Quando o “infame projeto” em discussão
Quase que lhe valeu a cassação.

(José de Anchieta Batista)
(O Edmundo não se deu por vencido e não descansou enquanto não viu aprovada sua matéria)
.

domingo, 17 de maio de 2009

A loucura

Não sou psiquiatra, mas tenho certeza de que um dos maiores problemas no tratamento da loucura é a nossa capacidade de convencer o mundo de que somos doidos, enquanto jamais admitimos nossa doidice.

(Anchieta)

sábado, 16 de maio de 2009

Igualdade

Por que tanta vaidade doentia,
Se essa vida que tens tão pouco dura?
Se serás consumido qualquer dia,
Lá na frieza atroz da sepultura?

Dos patamares vãos da hipocrisia,
Quando caíres dessa imensa altura,
Que sentires morrer a fantasia,
Chorarás, deste mundo, a ilusão pura!

Terás a campa rica e ornamentada
E eu terei minha cova desprezada,
Lá num recanto, junto aos matagais...

Mas, entre as grades tétricas da morte,
Quando os vermes selarem nossa sorte,
Mostrarão que não somos desiguais.

(José de Anchieta Batista)

TUA AUSÊNCIA

No bosque silente,
Ao vento, a flor dança,
E eu beijo a criança
Que brinca inocente.

Do norte ao sul,
Do leste ao oeste,
O mundo se veste
De um límpido azul.

E o mundo é tão lindo,
Que eu tenho certeza
De que a natureza
Se encontra sorrindo.

A luz matutina,
O verde da selva,
A brisa na relva
Que enfeita a campina.

E esse encantamento
Parece sem fim,
Mas dentro de mim
É grande o tormento.

E eu sofro demais...
Meu peito se agita,
Meu coração grita:
- Querida, onde estais?

(Anchieta)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Triste apelo

(Mais alguns versos escritos em minha juventude)

Se queres mesmo o fim deste sonhar,
Risca meu nome dos teus alfarrábios,
Esquece a luz do meu tristonho olhar,
Desculpa o mel que te roubei dos lábios!

Se julgas que entre nós tudo morreu,
Só nos resta um adeus neste momento...
Para que prosseguirmos tu e eu,
Se te convém buscar o esquecimento?

Rasga todos os versos que te fiz!
Olvida meu amor e meu carinho!
Se junto a mim jamais serás feliz,
Não serei mais a pedra em teu caminho!

Esquece nossas íntimas carícias,
Se é que assim tu viverás em paz...
Nossos beijos e todas as delícias
Do nosso amor... - Não te recordes mais!

Amargos prantos o meu rosto cobrem,
Mas não te cause pena a minha dor!
Segue feliz! E dentro em ti não sobrem
Sequer as cinzas deste nosso amor!

Mas, se souberes que um desventurado,
Viveu do amor e nele pereceu,
Reza uma prece pelo desgraçado
Pois pode ser que tenha sido eu!

(José de Anchieta Batista)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Xis da questão

Nenhum jornalista teve tão grande expressão no jornalismo acreano quanto Zé Leite. Nos idos de 1986, era ele Editor-Chefe de "O Rio Branco". Certa feita, num dos textos que escrevi (não me lembro qual), cometi um terrível erro. Quando li a matéria publicada, lá estava "esporadicamente" grafado "exporadicamente". Fiquei brabo e telefonei para o Zé, culpando todo mundo. Zé Leite, após consultar o meu original (datilografado), verificou que a culpa houvera sido minha e me lançou um desafio: "escreva em versos aos seus leitores e explique esse "xis" da questão, cara!"
Achei boa a ideia e, após constatar que no teclado o "xis" é posicionado imediatamente abaixo do "esse", disparei:
.
Nunca gostei do "xis" - letra maldita!
Pois o tal "xis", às vezes me enlouquece...
Nas equações o "xis" é meu problema,
E em Português, por vezes, me aborrece:
- "Esporadicamente" não tem "xis"
E eu escrevi um "xis" em vez de "esse"!

Seria um absurdo pôr a culpa
Na revisão tão rápida que fiz;
Mais absurdo ainda, se eu jurasse
Que eu cometi o erro porque quis,
Ou se culpasse o dedo que, na máquina,
Escorregou do "esse" e bateu "xis"!
(Anchieta)

sábado, 9 de maio de 2009

Doutor Honoris Causa

(O fato é verdadeiro, mas, por conveniência, preferi omitir o nome do sindicalista da UFAC)
.
Em 1998, dez anos após a morte do ecologista e líder sindical Chico Mendes, a Universidade Federal do Acre concedeu-lhe, “in memoriam”, o título de Doutor Honoris Causa, reconhecendo o grande mérito de seu trabalho frente ao Conselho Nacional de Seringueiros, de sua luta em prol da criação das reservas extrativistas, de seu esforço em defesa dos povos da floresta e de seu papel como grande articulador nos movimentos de índios e seringueiros. Familiares, amigos, velhos companheiros do Partido dos Trabalhadores, autoridades do governo, membros das mais diversas instituições, de dentro e de fora do Acre, estiveram presentes, o que fez daquele evento um grande acontecimento.
Num dos momentos em que acontecia tão memorável homenagem, o Cláudio Ezequiel, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Acre (SINTEAC), participava, numa roda de amigos, de animado papo em que se exaltava a figura do Chico. Estavam todos orgulhosos pela outorga de tão nobre comenda ao ilustre companheiro. Mas, enquanto os assuntos se sucediam o Cláudio matutava lá com seus botões: - “se o Chico nunca se sentou no banco de uma universidade, como havia se tornado doutor? Não dava para entender! Depois de morto, ainda pior!". Foi aí que resolveu aproveitar a oportunidade, mesmo temeroso de ser achincalhado pelos companheiros, para acabar de vez com aquela sua ignorância. Olhou para os que estavam em seu derredor e lançou-lhes ansioso a pergunta:
- Finalmente, meus amigos, quem pode me explicar o que danado significa ser um “doutor honoris causa”?
Todos se entreolharam. Um longo silêncio se instalou no ambiente. Havia uma hesitação geral. Ninguém queria correr o risco de falar uma bobagem. Por fim, um membro do Sindicato dos Servidores da Universidade resolveu arriscar:
- Não acredito que você não saiba, Cláudio!
- Pra ser bem sincero, amigo, não sei! – respondeu.
- Cláudio, esse Doutor nasceu na Europa, em pleno século dezoito. Era muito sabido, destemido e defensor dos direitos humanos. Lutou em prol de muitas causas importantes, assim como o Chico Mendes. Seu verdadeiro nome era Honório, mas depois de morto ficou conhecido como Honoris Causa.
Todos ouviram aquilo, cada um com sua muda interrogação, mas sem qualquer questionamento. Acharam tal resposta meio esquisita, contudo, se ninguém sabia maior detalhe sobre o assunto, melhor seria aceitar o convicto pronunciamento do companheiro e continuar o animado bate-papo sobre outras coisas, deixando para trás esse tal “Dr. Honoris Causa”.
O Cláudio, porém, não se deu por satisfeito. Achara estranha aquela resposta. Perguntaria ao deputado Nilson Mourão. Ele haveria de tirar a prova dos noves. O Nilson já estudara durante alguns anos em seminário de padres e de certo já ouvira falar sobre esse doutor. Ademais, o que ele falasse mereceria crédito. E não demorou muito para que o deputado desse as caras por lá.
O Cláudio não perdeu tempo:
- Nilson, o que vem a ser Doutor Honoris Causa”?
- Ora, Cláudio, esta expressão é uma expressão latina. Honoris Causa significa “causa nobre”. Doutor Honoris Causa é o titulo atribuído a personalidades que tenham se distinguido pelo saber ou pela atuação em prol das nobres causas da humanidade, como é o caso de Chico Mendes.
Cláudio então acrescentou: - mas isso já foi nome de alguma pessoa?
Resposta: - Nunca ouvi falar.
Após aquela miniaula, o Nilson seguiu seu destino, deixando para trás alguns pares de olhos voltados para o companheiro que emitira a opinião anterior.
O Cláudio Ezequiel foi direto: - Então, amigo? Você foi brabo no chute, hein?
Com voz muito firme, a resposta foi imediata:
- Eu posso até ter me enganado quanto ao nome do Doutor, mas que esse título foi criado no século dezoito... isso foi!
Até hoje não se sabe se alguém acreditou.
.
(José de Anchieta Batista)

Ruas de nossas vidas

A vida é uma rua!
Cada um de nós é uma rua!
Existe um nome para cada rua:
- Nome modesto quando ela é pobre,
Nome bonito quando ela é rica.
Mas, não falemos das mais opulentas...
Pois milhões delas são nojentas ruas,
Sem luz de postes, lamacentas, tristes
E infectadas são milhões de ruas!

Quem mora na pobre rua?

- Dizem lá nas ruas ricas,
Que os marginais, os vilões,
Os vadios moram lá!
Já ficou convencionado
Que é território maldito
E os santos que ali existem,
Ou estão nos oratórios,
Ou nos quadros pendurados
Na paredes dos barracos...

Rua pobre, pobre rua!
Crianças brincam na lama,
Vestidas em sujos trapos,
Sem escola, sem saúde,
Buchos redondos e cheios
De tanta esquistossomose!

A rua pobre, a maldita rua,
A rua dos meliantes,
Onde os bagaços são depositados,
Onde a sujeira já não causa asco
À mísera plebe da nojenta rua...

Ali se engana a fome com sobejos,
A água impura é que sacia a sede,
A morte prematura é natural,
A desgraça causa pouco espanto
E o sonho existe quase pesadelo
Pois a esperança já morreu primeiro!

Tudo é normal na Rua do Bagaço,
Porque tudo "é vontade lá dos céus..."
E com mãos-postas se agradece a Deus,
Pela graça da vida na miséria...
- Alguém lhes ensinou que o sofrimento
É o caminho para a vida eterna.


(José de Anchieta Batista)

RENÚNCIA

(versos escritos em minha juventude)

É claro que eu devo esquecer teu olhar
E não me ofuscar tanto assim só por vê-la...
É claro que eu sei que não devo sonhar
E toda esta ânsia preciso contê-la.

Eu hei de expulsar este ardente desejo,
Pois sinto este amor me prendendo nos laços!
Preciso esquecer de sonhar com teu beijo,
Preciso fugir de querer os teus braços!

Não posso e não devo me ungir da esperança,
Porque não convém a ilusão sem sentido...
Que vale este sonho fazer-me criança,
Se sei que este sonho me é proibido?

Não queiras julgar-me pior do que sou,
Se fujo do amor que me prende e fascina...
Embora sofrendo, te juro que vou
Buscar esquecer-te, mulher tão divina!

Por todo este idílio, te sou muito grato,
Mas sei que preciso fugir de querer-te!
Amar-te não posso! Seria insensato!
É bem mais prudente, mulher, esquecer-te.

Perdoa ao poeta, esta alma-criança,
Que fez-se cativa de tua beldade!
De ti guardarei a mais linda lembrança!
Serás, para sempre, uma doce saudade!

(José de Anchieta Batista)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O AFILHADO DO DEPUTADO XIZINHO

(O fato é real, mas aos personagens foram dados nomes fictícios)
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Do primeiro listão apresentado pelo Deputado Xizinho, todos os seus afilhados tinham sido nomeados. De faxineiros a assessores de todos os escalões. Os agradecimentos e as juras de fidelidade a seu nome deixavam-no bastante orgulhoso. Continuava deveras prestigiado. Pedido seu era uma ordem. E não atendessem! Romperia, com certeza, levando consigo todo o seu eleitorado. E havia uma razão muito forte para tão grande convencimento: - No pleito anterior, obtivera o triplo dos votos necessários para se eleger, e isso lhe dava o cacife mais valoroso de todos os políticos do sertão da Paraíba.
À noite, terminou de ler o jornal, ligou a televisão, e preparava-se para acender o cachimbo, quando a empregada anunciou um tal Zé Pirrita. Dizia-se seu "cumpade" e insistia em querer falar-lhe.
O velho político cumprimentou-o com aquela gentileza de todo candidato em época de eleição. Era de fato um de seus muitos compadres, lá do interior, e do qual já nem se lembrava mais. Morava num lugarejo, nos cafundós do judas, num de seus currais eleitorais.
Perguntou-lhe a razão de sua visita, e a resposta foi muito curta:
- Quero emprego no Estado.
Pirrita explicou-lhe que se cansara do pesado e não queria mais continuar como agricultor.
- O Deputado ouviu com paciência as considerações do matuto e garantiu-lhe, com toda a certeza, que seu nome constaria do último listão de nomeações. Seria dali a três dias. Deixasse os documentos... e pronto!
O homem agradeceu e despediu-se feliz, convicto de que em breve estaria mamando nas tetas do governo.
O listão foi apresentado, todo mundo foi nomeado, menos o Pirrita.
Quando o Deputado foi saber o motivo, disseram-lhe que o nível do emprego solicitado exigia habilitação. Seu afilhado possuía uma única qualificação: - agricultor.
O velho político esbravejou:
- Não interessa! Quero o homem nomeado!
O Secretário de Estado tentou justificar-se:
- Mas, deputado, nesse nível aí... com esse salário, somente a função de motorista... e o homem não sabe dirigir!
- Nomeie! Está me ouvindo? Ele aprende a dirigir depois!
O Secretário não insistiu mais. Havia recebido ordens expressas do Governador para não contrariar o Deputado.
A nomeação saíu no mesmo dia.
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(José de Anchieta Batista)

O CIRCO

(Naquelas cidadezinhas do interior da Paraíba, quando aparecia um circo, a criançada mais pobre acompanhava o palhaço pelas ruas, a fim de ganhar ingressos para o espetáculo. Eu participei desse ritual. Numa dessas oportunidades, não me saí muito bem.)
.
- Hoje tem espetác´lo?
- Tem sim, sinhô!
- Nove horas da noite?
- É sim, sinhô!
- Tem vôo da morte?
- Tem sim, sinhô!
.
Era a meninada,
Toda alvoroçada,
Na rua, na praça,
Seguindo o palhaço,
Querendo assistir
Ao circo "de graça"!
.
No último dia,
- No último, só -
Mamãe teve dó,
Pois ela sabia,
Bem dentro de mim,
A ânsia que havia...
.
Com terna carícia,
Beijou-me no rosto
E, contra seu gosto,
Após forte abraço,
Deixou que eu saísse
Atrás do palhaço.
.
E lá fomos nós,
Como em procissão...
E em uma só voz,
Com todo vigor,
Gritando o refrão:
- Tem sim, sinhô!
.
À frente, o palhaço,
Um tal "Catatau",
Com cara pintada
De forma engraçada
E quase três metros
De perna de pau.
.
O circo era, em tudo,
A maior novidade,
Pois nunca outro igual
Houvera passado
Por nossa cidade.
.
E atrás do palhaço,
Com todo o vigor,
Gritando o refrão:
"Tem sim, sinhô!",
A gente seguia...
- Só filhos de pobre,
Que o filho do nobre
Comprava o bilhete
Na bilheteria.
.
Já faz muitos anos
E eu nunca esqueci
Do que aconteceu.
A tarde inteirinha
Gritei, fiquei rouco,
Mas isso foi pouco!
Que azar tive eu:
- O filho da Anita
Roubou-me o bilhete
Que o homem me deu!
.
(José de Anchieta Batista)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

AO MEU DIPLOMA UNIVERSITÁRIO


(Estes versos são um desabafo escrito em 1985)

És somente um papiro que rotula...
E muito bem tu cumpres teu papel!
Onde a mediocridade se estimula,
Transformas o apedeuta em bacharel!

Mas para que não fosses emergente
De uma epidêmica ociosidade,
Lutei contra a canseira e, honrosamente,
Venci meus anos de universidade.

E eis que te tenho, enfim, nas minhas mãos,
Como um laurel que a conquistar me pus...
Só não supus, jamais, que fossem vãos
Os meus esforços p´ra fazer-te jus.

De ti me fiz o próprio abonador,
P´ra que não fosses fútil pergaminho,
Mas não valeste pelo teu valor:
- Queriam que eu te desse algum padrinho.

E eu não te dei, por honra e por capricho,
Contrário ao ritual que compra as massas!
Antes, prefiro transformar-te em lixo,
Honrosamente alimentando as traças.

Se algum dia reinar a compostura,
Tão desdenhado assim não serás tu...
E eu hei de retirar-te da clausura
Do empoeirado fundo de um baú!
(Anchieta)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Postalgia

(Em 1985, era um suplício utilizar os serviços de correio em Rio Branco. Enquanto no restante do Brasil, a celeridade era uma qualidade daquela empresa, no Acre, uma encomenda por "SEDEX" muitas vezes demorava mais de 15 dias. Publiquei, então, em "O Rio Branco", este desabafo.)
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Senhor chefe do Correio,
Por favor me acredite,
Paciência tem limite
E eu mesmo já estou cheio
De sofrer tanto aperreio
Com minha correspondência!
Não sei se é negligência,
Não sei quem é o culpado,
Não sei se falta empregado,
Mas eu lhe peço clemência!


Por este Brasil afora,
O Correio é, na verdade,
Padrão de seriedade,
Sem desleixo e sem demora...
Mas este daqui, agora,
Só tráz aborrecimento!
Eu estou c´um pensamento
De mudar de mensageiro:
- Tudo chega mais ligeiro
Transportado num jumento!


Corrija aí o defeito
Que embaraça o serviço,
Pois o Correio, com isso,
Há de mudar de conceito!
Mas, se este caso é sem jeito,
P´ra findar este massacre,
Feche as portas, ponha um lacre,
Demita aí todo mundo,
Jogue as chaves no mais fundo
Do leito do Rio Acre!

(Anchieta)

terça-feira, 5 de maio de 2009

GAIFO, GALFO, GARFO!

Houve tempos em que os pais interferiam diretamente na escolha de quem casaria com seus filhos. Foi com essa interveniência que o jovem Severino Mauá, recém-saído da faculdade de direito, uniu-se em matrimônio com Florentina, filha única de um velho compadre de seu pai.
Florentina, moça rica e viçosa, era semi-analfabeta, embora se julgasse muito sabida e desembaraçada. Cursara apenas o segundo ano primário, o que lhe proporcionava assinar o nome. Dizia seu genitor que mulher não carecia de ser letrada. Sabendo cozinhar e lidar com as coisas domésticas era o bastante para ser boa dona de casa e bem cuidar do marido e dos filhos.
Moldada daquela forma, era Florentina precisamente o oposto do Doutor Mauá, um homem erudito e, acima de tudo, um zeloso no trato com nosso idioma, o que fazia com esmerada correção. Daí sua luta constante para minorar as aberrações do linguajar de sua companheira. Já conseguira, por exemplo, que pronunciasse corretamente o próprio nome: - já não se apresentava mais como "Fulorintina".
Era um tormento para o causídico ter que comparecer a uma reunião social acompanhado da mulher. Quanto à etiqueta, conseguira sucesso acima do esperado. Mas no falar... era um desastre. Até já suplicara que, em determinadas ocasiões, abrisse a boca o mínimo possível. De preferência, apenas movimentasse a cabeça para confirmar ou negar alguma coisa.
Certo dia, durante um jantar oferecido pelo prefeito à nata política da cidade, esqueceram de colocar talheres justamente onde foi se sentar a nossa amiga. Florentina olhou para um lado, olhou para outro, e socorreu-se do Doutor:
- Mauá, mi arranja aí um gaifo!
O marido, entre irritado e envergonhado, passou os olhos pelos presentes e sussurrou-lhe:
- Florentina, o nome não é gaifo! O nome é...
A mulher não o deixou concluir. Faria ela mesma a correção. E alteando a voz:
- Dixe gaifo pruquê quiz! Tô cansada de sabê qui o nome é galfo!
E acrescentou:
- Gê - A - LÊ - GAL - FÊ - Ó - FÓ! GALFO!
Os convivas entreolharam-se. O Doutor Mauá, vermelho como um tomate, entregou-lhe o utensílio, perdeu completamente o apetite, enquanto Florentina, orgulhosamente, punha seu garfo a trabalhar.
.
(José de Anchieta Batista)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Procissão dos desgraçados

(1989)
Crianças abandonadas,
Mendigos pelas esquinas,
Multidões desesperadas,
Prostituídas meninas!

Morando em rua sem nome,
Trajando sujos molambos,
Os párias morrem de fome,
Na miséria dos mocambos...

Procissão dos desgraçados!
Cortejo dos infelizes!
Dizei-me, ó desventurados:
- Quais são as vossas raízes?

Se não supondes suplício
Viverdes de circo e pão,
Então vibrai co´o bulício
Desses tempos de eleição!

Se não vos dói essa dor,
Nem vos sucumbe a agonia,
Então vibrai co´o sabor
Dos frutos da hipocrisia!

Nutri-vos com a promessa!
Aplaudi vossa desgraça!
Correi, correi bem depressa,
Que hoje há comício na praça!

(José de Anchieta Batista - 1989)

domingo, 3 de maio de 2009

Minha triste lágrima

Minha triste lágrima,
Ó essência de mim,
Não queimes assim,
Quando eu te chorar!
És gota de um mar
De quimeras mortas,
Vazão das comportas
De minha loucura...
Não posso guardar-te
E vivo a chorar-te...
Tu és desventura!

Minha triste lágrima,
Pingo de desgosto,
Fogo que em meu rosto
Rola do meu eu...
Angústia, saudade,
Infelicidade,
Mágoa que choveu...
Fragmento de vida,
Meu mal liquefeito
Que vem do meu peito,
Qual dor derretida.

Minha triste lágrima,
Bálsamo e espinho,
Choro-te sozinho,
Meu rio de dor!
Meu grito de amor,
Eterno e infindável,
Não és suportável
Da forma que existes,
Nas covas tão fundas,
Nas sombras profundas
Dos meus olhos tristes...

(José de Anchieta Batista)

sábado, 2 de maio de 2009

Custo de vida X Salário

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Custo de vida e salário
Parecem dois animais:
- Custo de vida é veloz
Maldoso qual satanás!
- Salário é lerdo, é sem pressa,
Família dos tracajás!

(José de Anchieta Batista)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Eu e o Rio Acre

(O Rio Acre e, sobre ele, passarela para pedestres - paisagem encantadora)


(Poema Escrito embaixo da Gameleira, em 1988 - histórica árvore de imenso porte, frondosa, bonita, majestosa, existente à margem do Rio Acre, no 2º Distrito de Rio Branco)
Tudo é ermo... e eu a esmo...
Rio Acre, às tuas águas,
Vim juntar as minhas mágoas,
Este Rio de mim mesmo.

Vim aqui falar contigo,
Vim buscar-te como amigo,
-Nem sei se sabes quem sou...
E em tuas margens, meu rio,
Em manhã de céu de estio,
Rio Acre, aqui estou!

És natureza sorrindo,
Sou tristeza que vem vindo
De algum pranto que choveu...
Rio Acre, aonde vais?
E no fragor de meus ais,
Aonde estou indo eu?

Vens vindo de muito além?
Venho de longe também...
Vê que mundo Deus compôs!
Temos um rumo traçado
E cada um prá seu lado,
Vamos seguindo nós dois!

Rio Acre, meu irmão!
Que destino nos conduz?
- Tu vais morrer no Purus
E eu, no mar da solidão!
(Anchieta)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O adeus do gari

Coletando o lixo
Tá faltando alguém...

Morreu um gari
Que passava aqui,
Mas a sua falta,
Não sentiu ninguém!
Gente assim tão simples
Que importâancia têm?

Quase que ninguém
Foi dizer-lhe adeus...
Tão somente os seus!
E o gari partiu,
Miseravelmente,
Como aqui nasceu,
Como, enfim, viveu:
- De forma abjeta,
Como a vil coleta
Do trabalho seu.

Caiu da caçamba,
Por fatalidade.
Morreu qual viveu:
- Em meio à cidade,
Limpando os sobejos
Da sociedade.

Talvez que sonhasse,
Nessa vida sua,
Morar num palácio
Da pomposa rua,
Onde, na riqueza,
Ele, com certeza,
Fosse bem feliz...
Onde possuísse,
Como aquela gente,
Vida condizente
Como sempre quis...
E onde algum vizinho
Visse o seu carinho
Por aquela pobre
Turma de garis.

E em busca do lixo,
Morreu na avenida...
Levando os seus sonhos,
Partiu desta lida,
Num trágico adeus
Aos lixos da vida.

(Anchieta)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ser ACREANO

Ser acreano não é a mera posse de uma certidão de nascimento acreana (que eu não tenho), nem de um título de cidadania (que honrosamente me foi outorgado). Ser acreano é desfrutar de uma paixão telúrica. É um estado d´alma.
(Anchieta)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Disenteria Acadêmica

("homenagem" a alguém que, ao exibir o seu anel de "dotô", se disse "aDEvogado")

Vem da universidade
O seu "deproma" legal,
Dando o direito, afinal,
De ostentar este anel...

Mas eu não sei, francamente,
Nem posso compreender
Onde é que está o saber
Pra se dizer bacharel.

(Anchieta)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Elucubrações

(Escrito em coluna do jornal "O RIO BRANCO" (ACRE), entre 1987 e 1990)
.
- O que estão fazendo com nosso povo leva-me à conclusão de que Calabar deveria ser canonizado. (escrito em 1989)
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- Agiota é o sujeito que socorre uma vítima para terminar de liquidá-la. (1987)
********
- Parem aí, coveiros apressados, o Brasil pode ainda estar vivo! (1988)
********
- Aviso aos conservadores intransigentes: é mais fácil ser atropelado no trilho do que na trilha. (1988)
********
- As feministas têm mesmo muitas coisas a conquistarem; as femininas, não. (1987)
********
- Sociedade! Sociedade! Por que fedes tanto? (1990)
********
- Abram as portas dos hospícios! Não precisamos disso. Estamos vivendo num imenso manicômio. (1988)
********
- Não sei que vantagem existe em ser poeta. Comecei a ser "fazedor de versos" aos oito anos, mas se fosse para viver de escrever poesias, já teria morrido de fome. (1987)
********
- Eu sei lá o que é consenso nesta política brasileira! - Desconfio de que seja alguma coisa com corrupção no meio. (1990)
********
- A estrada da sabedoria começa na humildade e termina no infinito. (1989)
********
- Com o quadro educacional dos dias de hoje, é bom não se permitir que os animais pastem em terrenos de estabelecimentos escolares. Pode ser que lhes seja outorgado algum "deproma". (1988).
********
- Busquei Deus nas religiões... elas me fizeram ATEU.
********
- Existem sorrisos que nos torturam mais do que mil bofetadas.
********
- Chamam-me de poeta. Afinal, o que diabo é "ser poeta"? (1987)
********
- Atualmente, sentir vergonha de ser brasileiro é um sentimento deveras patriótico. (1987)
********
- A mãe-pátria, há muito, virou madrasta! (1988)
********
- Deixamos de ser colônia de Portugal, para nos transformarmos em "possessão do FMI". (1988)
********

sábado, 25 de abril de 2009

Chorar de Alegria

- "Quem chora de alegria não está chorando! Com certeza, está sorrindo!"
(Anchieta)

Sou acreano sim, Mary! Você, também!

(No blog do Altino Machado, a MARY surpreendeu-se quanto à minha ACREANIDADE, quando comentou meus versos, ali transcritos, sobre a mudança ortográfica de ACREANO para ACRIANO. Comentário feito por Mary:
... José de Anchieta Batista é acreano? Não sabia, mas, eu também sou acreana (de coração e com "E") pois adquiri o jeito acreano de ser.)
.

A SEGUIR, MINHA RESPOSTA, MARY:


Mary, receba um abraço
Deste tão humilde escriba...
Que desde muito criança
Viveu "pra baixo e pra riba",
E um dia aportou no Acre,
Vindo lá da Paraíba.

Sou nascido em Teixeira,
No torrão paraibano...
Conquistei, fui conquistado
Por este calor humano!
Não me desfiz da origem,
Mas me tornei ACREANO!

Se é assim, minha amiga,
Que você também se sente...
Com certeza a sua alma
Vive ACREANAMENTE!
Cultive a doce alegria
De pertencer a esta gente!!!

(Anchieta)

Prece de um ateu!

Ó Deus!
Hás de existir diferente dos deuses das religiões:
Ali, és imperfeito, és cruel, és macabro!
Ali, me fizeram o ateu que eu não sou!
Não te creio aquilo!

Ó Deus!
Da forma como sejas,
aceita meu "muito obrigado" por mais este dia.
Dá-me um pouco mais do espaço e do tempo onde me prendeste...
Com certeza o fizeste por algum salutar motivo,
Em benefício do filho rebelde.
Prisioneiro, não me deste asas para voar,
mas me deste o sonho. Nele, como tantos outros ignorantes,
às vezes desperdiço tempo buscando-te
na amplidão do espaço inatingível...
Ah! que pequenez! Se eu não te fizer nascer dentro de mim,
continuarás sendo esta ilusão inexplicável...
Da forma como em ti creio,
Serás sempre suprema justiça,
Mas serás sempre suprema bondade!
Obrigado, meu Deus!

(ANCHIETA)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sarney - Presidente da República

(Escrito em outubro de 1988)

Quando Tancredo morreu,
Mal foi apagada a vela,
Olhaste para o Planalto,
Saltaste pela janela,
E vendo a fofa poltrona,
Correste pra sentar nela.

Ó tu, José Ribamar,
Ou mesmo José Sarney,
Presidente por acaso
De nosso Brasil sem lei,
Que foste fazer aí,
Que até agora eu não sei?

(JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sou "ACREANO"! Não sou "ACRIANO"!

(Depois de tantos anos como ACREANOS chega uma regra nascida não sei de onde, violentando-nos e querendo fazer-nos ACRIANOS. Que é isso, meu Povo?) .
.
Quem quer trocar por “I” o nosso “E”,
Deste Torrão jamais sentiu o cheiro...
Nós somos ACREANOS e, por certo,
Dos Brasis, o Brasil mais brasileiro!
Não nos imponham tão fajuta regra,
Pois nossa regra existiu primeiro!

As marcas desta gente não se muda
Por decreto, por lei, por portaria...
Não se trata da troca de um fonema,
Pois o problema é de cidadania...
Consultemos o povo! Plebiscito!
Façamos uso da democracia!

O "E" faz parte da palavra Acre!
Mas o "I" faz-se intruso na raiz!
- Já que a regra é sem pé e sem cabeça,
O jeito de escrever meu povo diz:
- Não mudem nosso "E", pois é com ele
Que nossa gente é brava e é feliz!

Essa norma importada do além-mar,
Com seu modo de ser tão lusitano,
É desrespeito à alma do meu Povo,
Heroico, destemido e soberano!
- Que me tachem de rude e apedeuta,
Que eu não vou aceitar ser "acriano"!
(José de Anchieta Batista)

domingo, 19 de abril de 2009

Por fora

Mais por fora do que cebola em salada de frutas!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sextilha 1

Trombadas:

Nas ruas, o trombadinha,
Nas mansões, o trombadão...
Um é pobre e maltrapilho,
O outro é rico e figurão...
Um a polícia persegue,
O outro eu juro que não!
(Anchieta)
***

O nome do guri

Ocorrem coisas esquisitíssimas nos dias de hoje, imaginem só o que não acontecia nos tempos de nossos avós.
O garotinho nascera bonito e forte, tornando-se o centro de todas as atenções da casa. Tudo virou festa com a chegada do mais novo integrante da família.
Somente numa particularidade ele causou enorme confusão: - o nome. As opiniões sobre como se chamaria eram muito diversificadaas. A mãe sugeriu que o batizassem como Vitório, mas não foi aceita a idéia: - este nome já houvera sido colocado em um bezerro recém-nascido. Não ficaria bem. O orgulhoso pai, após muito matutar, pensou que resolveria a questão, quando anunciou que o bruguelo teria o nome de "Xarlis". Isso aí! Xarlis com "x" e "i-s". Ninguém concordou. Era nome que não assentava em gente pobre. Os futuros padrinhos também entraram com uma sugestão: - Virgulino! Foi rejeitado de imediato quando se lembraram que este era o nome do cangaceiro Lampião.
Assim, todo mundo opinava, mas ninguém conseguia dar solução ao problema. O coitadinho do guri já tivera uns duzentos nomes, contudo, findava sempre sem nenhum.
Por fim, foi sugerida uma busca nos velhos livros que o pai do menino mantinha em casa, e que, vez por outra, os folheava sem entender coisa alguma. Eram velhos compêndios encontrados à margem da estrada, provavelmente caídos de alguma mudança. Pois bem: - Seu Chiquinho, o pai da criança, ficou encarregado da pesquisa. Naquele mundo analfabeto ele era o mais letrado, pois houvera estudado a "Carta de ABC", conseguira aprender a assinar o nome e a escrever rudimentarmente alguma coisa. Talvez agora, daqueles alfarrábios, surgisse uma idéia nova que melhor se encaixasse na simpatia geral.
Como os livros são depósitos de sabedoria, não demorou muito para que todo mundo chegasse a um consenso. Ninguém discordou. Era fantástico aquele nome! Como soava bem! O próprio garoto orgulhar-se-ia dele.
Seu Chiquinho anotou direitinho num pedaço de papel e lá se foi todo orgulhoso providenciar o que chamavam de "rezisto".
O homem do cartório foi, talvez, o maior simpatizante da escolha. Achara-a fabulosa.
O grande problema é que o tal livro, em que se empreendeu tão extraordinária pesquisa, proporcionou ao garoto o extravagante e curioso nome de "Prepúcio" José da Silva.
(José de Anchieta Batista)

Impotência

Meu pobre povo!
Meu povo pobre!
Onde é que está
Vossa vergonha?
Vós a não tendes,
Pois não sabeis,
Mas se a souberdes,
Vós a tereis!

Meu povo triste!
Meu triste povo!
Onde é que está
Vosso direito?
Vós o não tendes,
Pois não sabeis,
Mas se o souberdes,
Vós o tereis!
(Anchieta)
***

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Dizendo o óbvio

"O óbvio tem que ser dito e repetido para não deixar de ser o óbvio."

Verdade patente

- "Quem pensa que tem todas as respostas, certamente não fez todas as perguntas".

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Maria Madalena - Uma injustiçada

Pobre Maria Madalena! Gregório Magno (Papa), lá no século VI, deu-lhe o estigma de prostituta. Isso, para anular de vez a fama que ainda mantinha de principal discípula de Cristo. Como ser uma mulher mais importante que os homens que ladeavam o Mestre? Ah! Isso, não! - Se analisarmos todos os evangelhos (inclusive os ditos apócrifos), em momento algum, encontraremos que a mulher adúltera, que busca socorro junto a Jesus, seja a mesma Maria Madalena, mulher rica e de grande importância social, com palacete às margens do Lago de Genezaré.
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Jesus - Uma mercadoria de primeira

Vez por outra me vem uma vontade enorme de mudar de ramo e iniciar-me no negócio mais lucrativo do mundo no momento: IGREJA! Já pensei em criar uma. O absurdo estaria em que nem eu mesmo acreditaria na minha criação. Seria uma vigarice. Nunca tive vocação para bandido.
********
Por falar nisso, lembro-me bem de que nunca fui muito bom para negócios. Não aprendi sequer a vender bananas, quanto mais a vender o Cristo. Seria um péssimo estelionatário na venda do Grande Mestre. Já começaria falido. É muita cara-de-pau por aí... É muito vigarista vivendo às custas da ignorância de seus semelhantes!
********
Jesus nunca fundou o cristianismo (nem religião alguma). Na realidade seu fundador foi Saulo de Tarso. O que Jesus mais fez foi pregar a ÉTICA e a MORAL! Vejam que nítidos exemplos: "Fazei aos outros o que quereis que vos façam!" - "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra!". O maior problema de tudo começou quando "transformaram" Jesus em Deus.
Deturparam tudo! Como imitar um Deus? - Deus não pode servir de parâmetro para ninguém!
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Haja sangue de Cristo para ser derramado por um bando de estelionatários da fé. São ludibriadores de uma grande massa de ignorantes desesperançados. Esses "sepulcros caiados" deviam estar na cadeia!
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segunda-feira, 30 de março de 2009

Questionamento:

Ó Deus! Para que inteligência em doido?
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domingo, 29 de março de 2009

O fogo do inferno

Tenho certeza de que, quando morrer, não irei para esse inferno que propagam. Ele simplesmente não existe! Deus não faria tanta crueldade com sua própria criação. Mas... se essa condenação realmente existisse, o maior castigo não seria o fogo ardente fazendo churrasco de mim. O pior de tudo seria suportar eternamente a companhia de religiosos, sacerdotes e pastores. Haja saco!!!
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sábado, 28 de março de 2009

DIZEM POR AÍ:

- Tanto faz o diabo como a mãe dele!
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-VIDA e MULHER : - Boa somente a dos outros!
********
Anda mais do que cavalo de cigano!
********
Jumento carregado de açúcar, até o rabo é doce!
********
Apanha mais do que cachorro de açougue!
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FRASES LINDAS (que eu não disse)

"...Que tu és como Deus: princípio e fim!...
"(Florbela Espanca - SONETO: FANATISMO)
********
"Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor."
(Nelson Cavaquinho - A FLOR E O ESPINHO )
********"
... e a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão.
"(Silvio Caldas e Orestes Barbosa - CHÃO DE ESTRELAS)
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"... quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação..."
(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira – ASA BRANCA)
********
"...A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. "
(Chico Buarque – PEDAÇO DE MIM)
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"...Pare o mundo que eu quero descer!"
(Raul Seixas - EU TAMBÉM VOU RECLAMAR)
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"...O ideal que sempre nos acalentou renascerá em outros corações."
(Charles Chaplin - LUZES DA RIBALTA)
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“... saudades do beijo que nunca te dei.”
(Capiba – verso da música MARIA BETÂNIA)
********
“... simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti.”
(Cartola – verso da música AS ROSAS NÃO FALAM)


quarta-feira, 25 de março de 2009

SEU DOUTÔ, CUMÉ QUI VAI?

Seu Doutô, im meu Brasi,
Tá difice di vivê!
A misera do salaro
Já num dá nem pra cumê...
Si piorá mais um pôco,
Que qui a gente vai fazê?

Tá danado, Seu dotô!
Num sei cumo suportá...
Já num si pode vistí
Nem fío pode istudá...
Mas pru falá nessas coisa,
Cumo vai seu caviá?

Cumé qui vai o seu luxo,
No meio dessa soçaite?
Cumé é que vai seus dinheiro,
Nessa tá de overnaite?

Cumo vai suas fazenda,
Qui vale muitos milhão?
Cuma vai seus cadilaque,
Nas garage das mansão?
Cumé qui vai seu jatinho
Nos céu de nossa nação?

-Aquelas contas gurduxa
Qui já déro o qui falá,
- E qui levô pra cadeia
Quem resorveu dedurá -
Tá rendendo muita grana
Nos paraízo fiscá?

O sinhô já pranejô
Viajá pra vê a copa?
Cumé qui foi seus passêi
Lá nos paíz das Oropa?

Cumé qui tão seus iate?
Cumé qui vai o seu gado?
Cumé qui tão os banquete
Com seus uísqui importado?
Cumo vai sua campanha
Pra se fazê deputado?

- Não me arresponda, Doûtô!
Prifiro num iscutá!
Qui uvindo sua disgraça,
Eu sô capaz de chorá!!!
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terça-feira, 24 de março de 2009

MENINO DE RUA

Na tua escola
Não usas caderno,
Nem livro ou sacola.
Teu mundo é a bola,
O espaço baldio,
O banho de rio,
Nadar no açude,
A bola de gude,
A pipa empinada
Com muita destreza,
Quebrar a vidraça,
Brincar lá na praça,
Fazer safadeza...

Teu mundo é só isso:
- Fazer rebuliço!
Tu és um pivete,
Tu pintas o sete!

Menino de rua,
Perdoa esse nome,
Perdoa tua fome
E os teus pés no chão!

Tu vives na tua
Universidade,
Onde o plavrão
É a erudição
De tua verdade...
- Terás o diploma
Da promiscuidade!

Menino de rua,
De todas as ruas,
Pois todas são tuas,
Nenhuma tu tens...
De onde tu vens?

Tu vens da singela
Palhoça ou favela...
Tu vens da sujeira,
Sem eira nem beira...
Menino, não sabes
Que aqui tu não cabes?

Vens de um submundo
Nefasto e imundo
- E bem sabes disso! -
Tu vens do mocambo,
Vestido em molambo,
Tu vens do cortiço!
Tu vens da penúria,
Tu és coisa espúria
No meio da massa!
Tu vens da pobreza,
Da amarga torpeza,
Do joio da raça!

Meu pobre menino,
Com mágoa te vejo
Qual fosses sobejo
De um mundo grã-fino...

Mas sei, meu menino,
- Menino de rua -
Na sorte que é tua,
Se és filho de Deus,
Tu és meu irmão!
- Não és um demônio!
- Não vives em vão!

*******************

QUE VERDADE!

Detesto religiões, embora tenha consciência de que ainda são um mal necessário! A respeito, dentre todos os avatares da humanidade, destaco Jesus. Trouxe lições irrefutáveis de vida. Pregou um outro tipo de caminho, de verdade, de vida. Pregou ÉTICA! Pregou MORAL! Confundiram tudo!!! Usaram seus ensinamentos para benefício próprio ou de grupos, sempre com interesse de escravizar as mentes! Para esses ele também sentenciou:
- "Sepulcros caiados!"
- "Raça de víboras!"
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domingo, 15 de março de 2009

ACORDA, PIERRô!

Oh! Tu, Zé Ninguém,
Acorda, Pierrô!
Que a tua alegria
Bem pouco durou...
Não há mais confetes,
Não há serpentinas,
Não há colombinas,
Já tudo acabou!

Fugiste do peso
Do teu dia-a-dia,
Bebeste, brincaste,
Feliz desfilaste,
Na vã fantasia...
E quase esqueceste
Da dor que escondeste
Na falsa alegria!

Já tudo passou...

E tu, Zé Ninguém,
Eterno pierrô,
Acordas de novo
E pisas o chão...
- Total desencanto!
Retoma teu pranto,
Que a festa do povo
Era só ilusão!

sábado, 14 de março de 2009

Prantos por uma meretriz

Disseram-me agora
que Leda Maria
Morreu num bordel,
Em meio à imundície...
E esta notícia
soou-me cruel!

Mergulho no longe
De tempos distantes!
Fagulhas de instantes
Me vem do passado...
E Leda Maria,
Em minha lembrança,
Revejo criança...

Ninguém, com certeza,
Lá na redondeza,
Mais bela que ela
Jamais conheceu!
- Primeira paixão!
- Primeira ilusão!
- Primeiro amor meu!

Um dia embriaguei-me
No olor dessa flor!
Sorvi-lhe do beijo
O virgíneo sabor!
E nós nos amamos,
E nós dois pecamos,
Se é que é pecado
Pecar por amor!

- Que houve depois?

- A sórdida sina
Pra longe a levou...
A vida que é treda
Roubou minha Leda
E em Leda Maria
Não mais se falou...

O expresso da vida
Deixou-a pra trás...
E Leda Maria
Não vi nunca mais!

Cumpri pela vida
Meu torpe destino,
Aos poucos, morrendo,
Doendo no peito
Meu sonho desfeito
Ainda menino.

Disseram-me agora
Que Leda Maria
Morreu num bordel,
Em meio à imundície...
E esta notícia
Soou-me cruel!

Se ainda a amava?

- Não sei! Eu não sei!
Não foi só por pena
De Leda Maria
Que hoje eu chorei!

(Anchieta)

FILOSOFIAS BARATAS E DITADOS DE BOTECO

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Completo hoje (14/03/2009) 64 anos. - Mais 1 ano? - Não! Menos 1 ano!!! Não farei balanço da minha vida. Não quero perder tempo com arrependimentos, nem ficar me vangloriando por alguma coisa que fiz ou deixei de fazer. Prefiro simplesmente partir para os 65(contando de baixo para cima).
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Em rio que tem piranha, jacaré nada de costa e macaco toma água de canudo.
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Se a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela!
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Grosso que só papel de enrolar pregos!
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Quando ouço um sujeito dizer que não tem ciúmes de sua mulher bonita, minha vontade é sentir ciúmes dela no lugar dele!
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Não serve pra nada! É como peito em homem!
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Teimoso que só mosca de fundo de cachorro!
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Devagar ou depressa, jamais alteraremos a duração da eternidade! Estamos de passagem por aqui... por isso, vivamos a vida com equilíbrio! O resto é só ilusão.
*******
Nas eleições da vida, só sou candidato a defunto. Aliás, quando nascemos já estamos a caminho das urnas (funerárias). Todos somos eleitos. Ninguém perde!
*******

quarta-feira, 11 de março de 2009

SONETO ESCATOLÓGICO

(No final da década de 80, um engraçadinho defecou dentro da piscina da Universidade Federal do Acre. Isso foi motivo de "rigoroso inquérito", que também deu em merda. Como o assunto é de alto nível, descrevemos o fato de forma erudita, ou seja, com um soneto)


Esquecendo que a UFAC tem latrina,
Não se sabe se antigo ou se calouro
Fez a "coisa" ofuscar qual fosse ouro,
No lindo azul clorado da piscina.

E o desvairado autor desse "tesouro"
- Produto que na terra predomina -
Jogou nos ares grande fedentina,
Pra consumar a falta de decoro...

Alguns pedem medalha e honra ao mérito!
Outros exigem que esta coisa estranha
Não se jogue no arquivo do pretérito...

E em meio a essa confusão tamanha,
Vai, com certeza, o competente inquérito,
Dar no mesmo produto da façanha!!!

(Anchieta)



terça-feira, 3 de março de 2009

ARCO E FLEXA


(Autoria da Senadora Marina Silva)
.
Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.

Do alvo mirado
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.

Sendo assim não terei arma,
Só assim não farei a guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.

Sou o arco, sou a flecha,
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.

Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.

Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.

segunda-feira, 2 de março de 2009

INCONGRUÊNCIAS


Não sou noite, nem sou dia,
Nem vento, nem calmaria,
Não tenho voz, nem sou mudo,
Não sou nada, nem sou tudo,
Não sou fome, nem fartura,
Nem sensatez, nem loucura,
Nem relento, nem abrigo,
Não sou longe, nem sou perto,
Não sou mar, nem sou deserto,
Não sou rei, nem sou mendigo...
.
Sou o que presta e não presta,
Sou funeral e sou festa,
Sou errado e sou correto,
Sou letrado e analfabeto,
Sou deista e sou ateu,
Sou os outros e sou eu,
Sou pacífico e sou brabo,
Sou real, sou ilusão,
Sou o sim e sou o não,
Sou um deus, sou um diabo...
.
Sou parte da romaria,
Sou a fina hipocrisia,
Sou mais ou menos a média
Da tragédia e da comédia...
Sou verdade e sou mentira
Sou a calma e sou a ira,
Sou alegria e sou pranto,
Sou achado e sou perdido,
Sou sorriso e sou gemido,
Sou o encanto e o desencanto...
.
Sou passado e sou presente,
Precavido, inconsequente,
Sou o ódio e sou o amor,
Sou medo e sou destemor,
Sou machado e sou o lenho...
Não sei de onde é que venho,
Não sei pra onde é que vou...
...E assim perdido na estrada,
Numa confusão danada,
Não sei que diabo é que sou!!!

EU PENSO QUE...

...ou vivemos as nossas vidas com a verdadeira alegria de viver, ou vivemos no cotidiano o nosso próprio funeral . A dor? A dor nada mais é do que o caminho do sorriso! Por isso deve ser revestida de esperança!!!
.
... perdi muito tempo procurando Deus, aqui, ali e alhures. Nos templos, nos livros, nos profetas... Que bobagem!!! Tudo era um deserto! Ele estava bem aqui, e eu nem sabia que ele estava tão perto: - no recôndito de minh´alma. Nesse caminhar, ficou-me uma certeza: - se nunca nos encontrarmos, jamais encontraremos Deus. E tem que ser assim,graças a Deus!
.

... Deus há de me proteger dos males das "religiões". O Cristo e outros avatares da humanidade foram trucidados pelos "religiosos", muito embora não tenham conseguido destruir deles, nem as idéias nem as mensagens trazidas para a construção de um mundo melhor. Evidentemente, não há comparação entre mim e os que foram eliminados. Quero, contudo, preservar o meu sagrado direito de pensar livremente, de alcançar Deus da forma como posso alcançá-lo, sem me submeter ao formato de um deus que alguém queira me impor. Quando o FANATISMO e o ILOGISMO caminham juntos, imaginem onde se pode chegar. Para essa gente, prefiro continuar sendo ateu, graças a Deus!
(Anchieta)

MENINO DA RUA DO BAGAÇO - (poema incluído no livro)

Que bom voltasse tudo uma outra vez...
A rua, a vida, o tempo e o mesmo espaço...
Meninos lá da Rua do Bagaço,
Neste momento, onde é que estão vocês?
.
Dispersos pela vida amarga e crua,
Na vã procura da felicidade!
Oh! como dói saber que na verdade
Ela morava ali na nossa rua!
.
Eu me lembro de cada desatino,
Que sempre me valia algum castigo...
Mas, que bom que voltasse o tempo antigo
E eu voltasse de novo a ser menino!
.
Namorar escondido a Eleonora,
Ser bamba do pião, craque da bola,
Frequentar novamente a mesma escola
E apaixonar-me pela professora!
.
Infernizar a louca - a Dona Xica,
Só pra ver a coitada esbravejando,
Olhar as moças nuas se banhando
Lá debaixo dos pés de oiticica...
.
Esse tempo distante é como um vulto
Que me segue na rota da velhice...
E agora eu vejo o quanto era tolice
O sonho pertinaz de ser adulto.
.
Oh! gosto amargo de desesperança!
Oh! caminhos cruéis por onde passo!
- Voltar quisera à Rua do Bagaço
E nunca mais deixar de ser criança!
.
(Anchieta)