domingo, 9 de dezembro de 2018

NÃO HÁ PREVIDÊNCIA QUE SE SUSTENTE

Aposentada aos 40 anos de idade, dra. Matilde deve passar algo em torno de cinquenta anos recebendo da previdência acreana um vultoso benefício mensal.
Estupefato, cumpri recentemente a obrigação de conceder essa aposentadoria especial, em mais um ritual do aprofundamento da crise previdenciária que se aguça, no Acre, no Brasil e no Mundo.
Não! não houve ilegalidade nem fraude nenhuma. Tudo dentro da lei, absolutamente dentro da lei. Dra. Matilde é exemplo de probidade e tem vida inspirada na ética e na moral.
Se a aposentadoria foi por invalidez? Também não! Dra. Matilde é exemplo de pessoa saudável, cheia de vigor e juventude.
A servidora, em si, não deve ser motivo de qualquer censura pessoal, por menor que seja. Dra. Matilde apenas utilizou-se dos direitos que as regras previdenciárias em vigor lhe conferem. Está tudo bem certinho, tudo dentro da lei, na aposentadoria dessa jovem servidora. Isso, porém, significa mais um alerta sobre a imperiosa necessidade de uma reforma, ampla, rigorosa e responsável, nas leis que regem atualmente os regimes de previdência social. O cobertor é curto. As despesas crescem desenfreadamente e as receitas não conseguem acompanhar. No Brasil, só algo parecido com o milagre dos “cinco pães e dois peixes” cobririam as deficiências dos seus regimes próprios.  Mas Jesus Cristo, o santo rabino da Galileia, preside outro tipo de previdência.
Vejam um exemplo concreto dessa desproporção no Poder Executivo do Acre: entre 2006 e 2018, a quantidade de benefícios cresceu 233%. Saiu de 4.500 para 15.000 benefícios. Enquanto isso, a folha, que era de 7,6 milhões, deu um salto de 830%, atingindo um total de mais de 70 milhões.
A respeito da norma legal que permitiu o benefício acima, concedido a Dra. Matilde, o Estado do Acre, em passado recente, lutou até a instância maior do Supremo Tribu
nal Federal, para garantir que a Lei Complementar (federal) nº 51, de 20/12/85, fosse declarada não recepcionada pela Constituição Federal de 1988. Perdemos. Mas não ficou só nisso. Acharam pouco e, posteriormente ao nosso insucesso, o Congresso Nacional deu àquela lei uma roupagem nova, aprovando as Leis Complementares nºs 144/2014 e 155/2015, permitindo à mulher policial aposentar-se aos 25 anos de serviço (independentemente de onde haja trabalhado), desde que conte com 15 na carreira policial. Isso sem previsão de qualquer limite de idade.
Nada contra a valorosa classe policial, mas os nobres legisladores deviam ter indicado, em algum artigo da Lei, as respectivas fontes de custeio. Os Estados e municípios não possuem uma Casa da Moeda. Esse tipo de “bondade”, concedida de forma politiqueira pelas distintas “excelências” de Brasília, sem olhar para os efeitos desastrosos, é, na verdade, uma maldade contra toda a sociedade. No amanhã, outra geração haverá de pagar.
Dra. Matilde, além dos 15 anos e 6 meses vividos como policial, apresentou ao Acreprevidência uma certidão, emitida pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, reconhecendo 11 anos e 7 meses de contribuição, preenchendo, assim, todas as exigências legais. Como não há previsão de idade, seu direito era líquido e certo, e não podia ser questionado por ninguém. Parabéns, Dra. Matilde. Faça bom proveito de sua aposentadoria.
Escrevo hoje sobre tal assunto porque esta foi a mais emblemática de todas as aposentadorias que concedi, durante os 13 anos em que estive à frente do Acreprevidência. Acredito que nesse período, fui signatário de bem mais de 10.000 aposentadorias e pensões previdenciárias a segurados do regime próprio do Estado do Acre. Antes deste benefício, ora abordado, a aposentação campeã, neste particular, era a de uma outra mulher, militar de alta patente, que fora para casa aos 43 anos de idade.
Não posso, contudo, concluir esta crônica sem confessar que minha própria aposentadoria como funcionário público federal, é um exemplo de benefício originado na contramão da sustentabilidade do regime previdenciário. Em 1994, num desses momentos angustiantes da vida, resolvi me aposentar.  O Ministério do Planejamento indeferiu-me a contagem de tempo de escola agrotécnica, mas minha ansiedade em ir logo para casa proporcionou-me um ato de insanidade. Aposentei-me proporcionalmente (naquele tempo era possível) e deixei pra lá qualquer briga judicial pelo tempo não reconhecido.  E sabem com quantos anos deixei o serviço ativo?  49 anos e 5 meses de idade. Se é um absurdo? Estou convicto disso! Eu houvera atingido meu melhor nível de conhecimento e experiência no cargo que exercia. Podia ainda trabalhar satisfatoriamente por mais uns 20 anos.   Naquela decisão tempestuosa, além do cofre do regime, também fui prejudicado. Hoje, eu agradeceria se as leis da época fossem mais rígidas. Teriam me obrigado a esperar por uma aposentadoria integral.
Bem, amigos, parafraseando um alerta feito por alguém (Prof Google acaba de me informar que foi um naturalista francês, no século 19), nos afirmando que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o “Brasil”, quero gritar algo parecido:
- “Ou o Brasil reforma com seriedade sua previdência, ou a previdência acaba com o Brasil!”

DÉFICIT ATUARIAL DO ACRE: SE NÃO SABE O QUE É, NÃO FALE BOBAGENS

(*) José de Anchieta Batista
Quem emite opinião sobre algum assunto a respeito do qual nunca ouviu falar, expõe-se ao ridículo. E quando o desconhecimento sobre a matéria atinge a quase totalidade das pessoas, é facílimo para o sujeito danar-se a falar besteiras, com interpretações estúpidas, trocando alhos por bugalhos. Ninguém faz o contraponto, e a mentira se instala, principalmente se a intenção é macular a honra de alguém.
Aqui no Acre, há alguns anos, maldosamente, lançou-se para a sociedade a informação de que na previdência acreana existia um rombo (no sentido de roubo) de oito bilhões e seiscentos milhões de reais (Reserva Matemática de 2014). Esses números, colhidos do balanço geral do Estado, significava o registro contábil da Provisão Matemática Previdenciária que, obrigatoriamente, tem que ser contabilizada por todos os Regimes Próprios do Brasil.
Tecnicamente, a Provisão Matemática Previdenciária é a apropriação de valores necessários para fazer face à totalidade dos compromissos líquidos do plano, junto aos seus segurados, registrada contabilmente no Passivo da unidade gestora do RPPS. Ou seja, o profissional da Ciência Atuarial, de posse dos dados dos participantes do plano e de premissas atuariais, faz uma projeção dos recursos que serão necessários para honrar o pagamento dos benefícios previdenciários que advirão.   A avaliação atuarial, obrigatoriamente repetida todos os anos, é um instrumento de gestão previdenciária, não tendo como resultado um rombo (ROUBO). Quanta ignorância!
Claro que o DÉFICIT ATUARIAL, ou seja, a diferença entre a Provisão e os ativos garantidores, será sempre menor se os governantes tiverem se preocupado em constituir uma reserva correspondente à massa de participantes. Mas isso às vezes se torna impossível dada a insolvência e circunstâncias outras de nossos entes federativos.
No caso do Acre, a reserva não existe. E não existe porque nunca foi feita, principalmente até dezembro de 1993, quando não devia existir essa preocupação, visto que a vinculação era com o regime geral. Esse passado veio prejudicar o Estado, ante a criação de seu próprio regime, a partir de 1994, com edição da Lei Complementar nº 39/93.
Em outubro de 1996, apenas dois anos depois, e sem que o Acre contribuísse com um só centavo dos 13% a que estava obrigado, editou-se a Lei Complementar nº 52, trazendo para o Tesouro do Estado um montante da ordem de 41 milhões de reais, descontados de seus servidores. O cofre do Estado passou, então, a arrecadar as contribuições e pagar os benefícios. Morreu aí a ideia de um fundo previdenciário, em separado, com finalidade de abrigar a gestão financeira e a poupança garantidora do regime.
Quando em 2006, o Estado do Acre, para cumprir dispositivo da Constituição Federal, (re)instituiu (?) seu regime próprio, o lógico era que um aporte fosse feito para compensar todo o passado de tempo de serviço das pessoas, muitas delas com mais de 20 anos no Estado. Todos esses tempos contados para aposentadoria representam um custo nas avaliações atuariais. Contudo, naquele momento, o Acre não tinha condições para fazê-lo, e o regime passou a funcionar sem um só centavo de poupança. Arrecadava-se no presente para pagar obrigações geradas no passado. Era insustentável.
Recorde-se que, em dezembro de 2006, quando fazia um ano da edição de leis, reestruturando o nosso Regime Próprio, já havia no Poder Executivo, uma folha de proventos e pensões com 4.593 benefícios, e isso representava uma despesa de R$ 7.622.133,14.  Naquele ano, os benefícios civis tiveram um superávit (diferença entre as contribuições e o custo das folhas) da ordem de R$ 16 milhões de reais, enquanto os benefícios dos militares representaram um déficit aproximado de 9 milhões para o Tesouro Estadual. Desde o início, contudo, já sabíamos que a curva descendente do superávit dos benefícios civis seria iniciada em menos de dez anos. Os números nos mostravam que o saldo positivo do Fundo, no que tange aos servidores civis, teria existência muito curta. Assim, depois de já haver atingido uma acumulação de 300 milhões, entrou em declínio e, em 2016, o Tesouro Estadual passou a complementar a folha mensal de benefícios.  Hoje esse déficit financeiro mensal ultrapassa quarenta milhões, numa folha de setenta.
Da forma como as previdências são criadas no Brasil, a conta nunca fechará. O servidor é aposentado, momento em que quase sempre deixa de contribuir (no Acre 84% ficam isentos), e o Fundo de Previdência recebe mais uma despesa para pagar. Isso, repito, sem a existência de reserva financeira.
Lembro que em 1993, quando foi editada a Lei Complementar nº 39, criando o sistema previdenciário para o servidor público acreano, eu era fiscal do Ministério da Previdência, aqui no Acre. Algumas vezes fomos obrigados a bloquear o FPE do Estado, por inadimplência. Os parcelamentos eram vultosos e as contribuições mensais sempre estavam em atraso. Naquele momento, justamente para fugir do INSS, foi criado o sistema de previdência no Acre. Antes de qualquer ideia de visão social, ou bondade para com o servidor público, aquilo significou, na verdade, o que vulgarmente chamamos de “pulo do gato”. Fugiam de um enorme problema, mas passavam a plantar as dificuldades que estamos vivendo atualmente.
Aos maliciosos, politiqueiros e ignorantes sobre o assunto, é bom ressaltar que os déficits financeiros atuais não significam algum roubo por parte de nenhum governo. Podemos, sim, afirmar que tudo teve motivação numa “imprevidência” histórica.
Bem, acho que fui além do que devia abordar. É que, após ouvir muitas leviandades sobre isso tudo, tornou-se difícil me prender apenas aos 15,5 bilhões de Provisão Matemática Previdenciária (2018), registrados na Contabilidade Geral do Estado.  Meu ponto final, portanto, é a respeito dessa tal provisão:
- Minha gente, esse montante resulta de uma conta feita, a valor presente, levando em consideração as obrigações futuras (atualmente num horizonte de 75 anos). No Brasil, os mais de 2.100 estados e municípios que possuem regimes próprios, estão obrigados a registrar essa conta. Não significa que, nem aqui nem em lugar nenhum, alguém tenha assaltado os cofres da previdência. Se não entendem do assunto, evitem a maldita leviandade.
 (*) Auditor-fiscal aposentado da Receita Federal do Brasil, ex-Presidente da Associação Brasileira de Instituições de Previdência (ABIPEM) e atual Presidente do Acreprevidência.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A CULPA É DO CAPIROTO - (José de Anchieta Batista)

José de Anchieta Batista
No início dos tempos, quando o verdadeiro Criador iniciou sua interminável obra, jogou no jardim do Éden um sujeitinho chamado homem, um cara petulante, boçal, metido a maioral, que, dotado do que chamamos de inteligência, passou a comandar tudo o que estava a seu redor.
Foi-lhe dada a gerência de tudo, e ele se viu, ali, meio que perdido, diante daquele sem número de mistérios para desvendar e compreender. Foi obrigado, logo de início, a descobrir que muitas coisas eram indispensáveis na manutenção da vida, enquanto outras podiam significar a morte. Era preciso estar atento para distinguir o que lhe era bom do que lhe era nocivo. Aprendeu a escolher os melhores lugares onde construir seus abrigos, compreendeu logo que a água e os alimentos deviam estar por perto, construiu obstáculos para se proteger dos muitos inimigos, fez armas para sua defesa e subsistência, descobriu forma de obter fogo etc.
Assim, o homem, desde sempre, viu-se obrigado a evoluir, ora tendo sucesso em suas descobertas, ora quebrando a cara em seus experimentos. E foi nesse ambiente de infinitas incógnitas que o espécime hominídeo passou a cuidar de seus permanentes desafios e se viu aterrorizado por fenômenos incompreensíveis, muitos deles bem acima de seu poder de enfrentamento. O medo sempre fez parte de sua vida. Além das feras naturais, aterrorizavam o seu cotidiano, as chuvas torrenciais, os relâmpagos, os trovões, os raios, os vulcões, os terremotos, os maremotos, etc.
Diante de constantes surpresas e mistérios, o homem encontrou sobejas razões para supor que alguma força superior fosse responsável por tudo. Sentia uma necessidade natural de buscar explicações e dar autoria ao que era motivo de felicidade ou infelicidade.  Surgiu a ideia das divindades e dos capetas. Deu-se forma a um Deus, todo poderoso, “imagem e semelhança” do próprio homem. Paralelamente, criou-se o Diabo, também com imagem e semelhança humana, para fazer o contraponto, transitando na contramão, responsável por tudo o que não presta. O bem e o mal passaram, então, a ter seus mentores. Consagrou-se a inabalável certeza de que aquilo que é bom vem de Deus e o que é ruim vem do Diabo. O depois da morte e a concepção de que o homem possui uma alma, lançaram novas e perturbadoras interrogações. Foi então que se instituiu, com vários modelos, neste enredo confuso da vida eterna, um Céu para os bons e um Inferno para os maus.
 Estamos não sei em que ano do início de tudo.  No estágio atual dessa novela, as religiões proliferaram desmedidamente, cada uma com sua barulhenta empáfia, atribuindo-se o papel de dona do verdadeiro caminho, pregando os esplendores do Céu e os abismos do Inferno.
Nesse contexto, conheço um sem número de pessoas que seguem doutrinas religiosas, sem hesitar ou questionar qualquer das “verdades” que lhes repassam. Creem piamente em que os dirigentes já foram iluminados por Deus e isso lhes vem suprir todo e qualquer questionamento. Prende-me a atenção uma particularidade. Depois de fascinado e inebriado pela crença, tudo o que acontece na vida do sujeito passa a ter uma influência direta de Deus ou do Diabo. Também se estabelece um tratamento injusto e desleal entre o santificado e os outros filhos de Deus. Se ele compra um carro, foi Deus que lhe deu. Se passa num concurso, foi Deus que o ajudou. Se sofre um acidente, está em provação ou sofrendo um ataque do capeta (mas deus o socorrerá). Se arranja alguém para casar, foi Deus que enviou. E por aí vai. Passa a existir em tudo, um agente invisível, que não é o próprio sujeito. Em sua vida, os acontecimentos passam a ter outro significado: prêmio divino, provação, bênção, tentação do maligno, castigo de Deus etc.
Soube recentemente de um fato tragicômico em uma dessas igrejas espalhadas por aí:
Depois de seis meses de adultério, num romance ocultíssimo envolvendo um irmão e uma irmã de fé, há muito considerados exemplares no seio da igreja, alguém os flagrou e se achou na obrigação de bater com a língua nos dentes para o Pastor.  
Em razão disso, teve lugar um encontro secreto, rigorosamente restrito aos personagens, evento este a que deram o nome de “reunião do perdão e da misericórdia divina”. 
Após um rosário de citações bíblicas, seguiu-se um ritual de reprimendas ao Capeta e seus asseclas. Depois, feito o afastamento do mal, ouviram-se as santas e severas recomendações do pastor e, finalmente, as bênçãos dirigidas aos envolvidos.
Os dois casais se perdoaram abraçados, sob chuva de lágrimas, com juras de inquebrável fidelidade. Todos estavam perdoados entre si.
Mas sabem o que justificou e facilitou aquele santo desfecho?
Na análise dos fatos, chegou-se à conclusão de que os dois pecadores agiram sob a força da “tentação do inimigo”. Estavam, agora, novamente limpos da culpa e tinham só que vigiar para não caírem novamente nos laços do Satanás.
Não estou contra o ato do perdão em si. O que me enche o saco é essa história de que tudo é culpa do Capiroto.
Coitadinho do Diabo. Imagino-o resmungando:
- Bando de filhos da puta, vocês não assumem nada? Tudo eu?! Tudo eu?!



sábado, 27 de outubro de 2018

BRASIL DOS BRUZUNDANGAS, DE MACUNAÍMA E DO ZECA DIABO (José de Anchieta Batista)

A política praticada neste velho, mas sempre novo Brasil, nunca me gerou o menor interesse quanto a alçar-me a qualquer cargo eletivo. Funções eletivas ou, no caso, eleitoreiras, para mim, não assentam. Eu não me adaptaria aos regulamentos sub-reptícios, nem também ao conjunto dos pares. Não, por minhas virtudes que são muito poucas, mas por meu jeito de ver a sagrada missão desses prepostos.

Quando saí do Exército, em 1987, achei que deveria participar de alguma atividade na vida civil, voltada para o melhoramento da sociedade, no que tange à cidadania. Fiquei quieto por algum tempo, depois parti para a possibilidade de filiar-me a alguma agremiação partidária. Havia um desejo muito vivo de pôr em prática a nova condição de cidadão, agora liberado das amarras da vida na caserna. Aventurei-me, então, por me filiar ao Partido Democrático Trabalhista – PDT, do Brizola. Vejam bem: logo o partido do Brizola, o maior inimigo vivo de que se ouvia falar dentro dos quartéis. Mas o fiz. Ao dizer isso ao meu ex-comandante, coronel Pacheco, sujeito simples e muito boa praça, num encontro casual ali no Casarão, ouvi o seguinte gracejo, com evidente censura:

- “Nossa! Eu tinha um comunista dentro do quartel e não sabia.”- Ainda bem que os tempos já eram outros.

Aqui no Acre, o senador Mário Maia comandava o PDT e na Assembleia Legislativa tínhamos o deputado sargento Garcia, também oriundo das fileiras do Exército, que pouco tempo depois resolveu afastar-se e permanecer arredio aos embates partidários.

Inicialmente, como um neófito que de nada entendia, fiquei por ali querendo aprender como caminhar naquele mundo misterioso, de segredos, de artimanhas, onde obrigatoriamente teria que me aperfeiçoar em muitas maneiras de dar rasteiras em sapos. E nesse particular, quem não for profissional, melhor pegar o chapéu e dar o fora. Foi o que fiz. Da euforia ao desencanto foi um caminho muito curto.

Depois dessa fase, voltei a empolgar-me em 1989, na primeira campanha do Lula, vindo a filiar-me ao Partido dos Trabalhadores em 1996. Lá permaneço até os dias de hoje, no que pese meu descontentamento pessoal, por nitidamente haverem deixado de assumir erros que foram praticados. Não admitir o óbvio é uma óbvia burrice. Isso foi um forte ingrediente para nos levar ao quadro triste a que fomos submetidos pelo povo. Como remediar de imediato? Acho que agora é tarde e depende de uma inteira reconstrução.

Meus caros amigos, olho com muita revolta para esta nefasta política brasileira, cuja melhor prática é a da “politicagem”, sem compromisso com a moral nem com a ética. Tudo é muito nojento e a verdade não tem vez. Dentre tudo, o que mais me entristece é um sentimento de estagnação. As mudanças caminham como um jabuti. Parece que permanecemos sempre no mesmo lugar. E, enquanto isso, a pouca-vergonha continua se expandindo. As leis motivadoras da eterna safadeza, as cooptações movidas por interesses espúrios, o uso da mídia, a ignorância popular, o poder econômico, dentre outras motivações, fazem com que o povo simplesmente não promova o passo à frente e, assim, nunca alcance outros patamares de dignidade. E esta nossa humilde, boa e amada gente brasileira nem percebe que tem decretado continuamente grandes recuos em sua própria cidadania.

Hoje, o sentimento que tenho é de real desencanto. Não estou falando em razão dos revezes alcançados em minhas opções pessoais. Isso faz parte do grande jogo da Democracia. O problema é que o horizonte continua sempre muito escuro. Sinto-me partícipe de um quadro social dos mais tristes, onde parece que a esperança agoniza. Olho então, com amargura indescritível, do miolo de tudo isso, e grito não sei para quem:

- Triste do povo que busca “um herói” para lhe devolver pelo menos o direito de sonhar.

Atenção, amigos, isso é desalentador. Neste caso, quando encontram o tal personagem, geralmente um maior fracasso está logo ali.

Assim, ante esta realidade cruel, por vezes me coloco nos capítulos de Os Bruzundangas, do Lima Barreto, ou me encho de certeza de que sou um morador de “Sucupira, do saudoso Dias Gomes.

Existem as exceções, mas é desanimador olhar os agentes atuais da politicagem brasileira. Isso, de todos os lados. O povo não está preparado e não sabe mudar, vez que lhe faltam os atributos reais para isso, e quem está lá em cima não tem interesse algum em mínimas mudanças.

Para quê mudar?

domingo, 14 de outubro de 2018

OS RECRUTAS DE ASSIS BRASIL E O HEROÍSMO DO VEREADOR (José de Anchieta Batista)

Estado do Acre, início da década de  80.
Não sei como as coisas evoluíram para os dias atuais. Naquele tempo, ao ingressar na vida de caserna, o recruta era submetido a um período de rigoroso internato, que durava mais ou menos quarenta e cinco dias. Naquela fase inicial de adaptação, havia uma correria dos diabos, num vai e vem descomunal. Do toque de alvorada, às seis da manhã, ao toque de silêncio, às vinte e duas horas, a vida dos coitados era movida a gritos, sem quase descanso, num ambiente de verdadeiro pandemônio. Tudo aquilo visava ao enquadramento dos jovens aos rígidos regulamentos do quartel. O ajustamento de conduta àquele novo mundo exigia muito e custava caro a cada recruta. Para os superiores, parecia que nada estava correto, mesmo que estivesse perfeito. Havia sempre repetições e mais repetições de tudo que era executado.

O coroamento dessa fase, chamada de Instrução Individual Básica, se dava, aqui na Amazônia, com a participação na famosa Operação Boina. Eram oito dias de treinamentos intensivos na floresta, com prática de operações de guerra, em que se buscava imitar um combate real na selva.

Terminada a fase de adaptação, que significava uma completa imersão daqueles jovens em outra realidade totalmente adversa, havia a grande festa de entrega das boinas verdes, com a presença de autoridades civis e militares e, principalmente, de familiares e amigos. Estavam ali, prontos para enfrentar qualquer inimigo, os novos “Rambos”.

Na fase seguinte, era procedida a distribuição dos efetivos para os pelotões de fronteira, nas cidades de Assis Brasil, Brasileia e Plácido de Castro, permanecendo em Rio Branco, os designados para servir na sede do 4º Batalhão Especial de Fronteira.

Num daqueles anos do início da década de 80, em Assis Brasil, após mais cinco dias de instrução interna, ainda sob regime de confinamento, chegou a sexta-feira em que receberiam um pequeno grito de liberdade.

Por volta das 16h30, os recrutas ouviram severas recomendações quanto ao comportamento na cidade, e foram liberados. Correram para o alojamento, puseram seus uniformes de passeio, e desceram, quase num único grupo, a ladeira que liga o quartel à Assis Brasil.

Muitos recrutas eram de outras localidades e não conheciam nada por ali. Estavam ansiosos por manter novo contato com o mundo que haviam deixado do lado de fora da caserna, ver as garotas, tomar umas lapadinhas de cachaça, comer algo diferente das gororobas do rancho.

Foi praticamente uma invasão a Assis Brasil. Mais parecia uma faminta vara de queixadas rompendo a selva. Poucos escolheram a pracinha para passar aqueles momentos. A maioria já tinha como destino certo os poucos botecos do centro. Não podiam perder tempo. A ordem era se recolherem ao quartel até as 21h00, no toque do pernoite.

Como era de se esperar, por volta das dezenove horas, surgiu um arranca-rabo entre um grupo de recrutas e alguns rapazes da cidade, que bebiam no salão de uma pensão. O vereador Zé Louzeiro - nome fictício - que estava presente, tentou apaziguar a recrutada, mas a coisa ficou feia para seu lado. Preferiu, então, dar um jeito de sumir na escuridão do fundo do imenso quintal, indo se esconder debaixo do poleiro das galinhas. Ali aguardou silencioso por quase meia hora, até que tudo voltasse ao normal. De lá, apenas escutava a barulheira e observava o que era possível, na espera de que fosse seguro retornar. Os rapazes da cidade, em desvantagem, resolveram dar o fora, mas o quebra-quebra continuou.

De repente, algum dos moradores teve a ideia de gritar bem alto: - “lá vem a patrulha do quartel!”.

Pareceu uma voz de comando determinando que a tropa debandasse. Os recrutas evitaram a estrada e enfrentaram a subida íngreme que dava acesso às proximidades do quartel. Deles, não ficou ninguém. Escafederam-se até mesmo os que estavam na pracinha.

O vereador, quando sentiu que as coisas estavam normalizadas, voltou ao salão, ainda vazio e com algumas cadeiras e mesas quebradas. Foi até o fogão, retirou um tira-gosto da panela, encheu um copo de pinga e marchou garboso até a beira da calçada, onde um grupo de muitas pessoas, no meio da rua, se ocupava em comentar o ocorrido. 
No ombro esquerdo da camisa, Zé Louzeiro trazia algumas manchas de sangue, provocadas por arame farpado. Eram seus “ferimentos 
Todo posudo, as vestes sujas de titica de galinha, o vereador ergueu o copo, tomou um respeitável gole de cachaça, saboreou o pé de galinha que trazia na outra mão, pediu silêncio a todos, e bradou com ares de grande herói:
- Senhoras e senhores de Assis Brasil, como vocês viram, eu botei eles pra correr e se voltarem eu boto de novo! Tão pensando o quê? Que aqui não tem macho, é? Meu dever é defender vocês! Isso, acabei de fazer! E tenho dito!- discursou o vereador, ingerindo o restante da pinga e retornando ao interior da pensão, sob palmas e gargalhadas dos moradores que ali estavam.
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domingo, 2 de setembro de 2018

ESMOLA PRA SÃO JOSÉ - (*) Poeta Zé Laurentino

Tem certas coisa, seu moço,
Que eu num gosto munto, não!
Por inxemplo: ouvir contá
Históra de assombração,
De arracamento de dente,
Ouvir históra de briga...
Eu posso até escutá,
Mas me dá u’a fadiga!...

E outra coisa, seu moço,
Que de bom gosto eu num faço,
É dá esmola a quem pede
Com santo imbáxo do braço.
Pois eu acho que o santo
Num tem munta precisão,
Afiná, eu nunca vi
Um santo comer feijão.

Mas, por arte dos pecado,
Ou por minha pouca fé,
Todo dia lá em casa
Passa um velho andando a pé,
Por siná, munto feliz,
Chega em minha porta e diz:
Esmola pra São José!!!

E o diabo da muié,
Que é muito da alcovitêra
(Inda num vi u’a muié
Mode num sê rezadêra),
Adquire um tanto ou quanto,
Corre, vai dá ao santo,
Pra o velho fazê a fêra.

Muitas vez, logo cedinho,
Se eu vou tomar o café,
Quando dou fé o grito:
Esmola pra São José!!!

Isto foi me enchendo o saco,
Cada vez enchendo mais…
E um dia, eu cheguei em casa,
Com a barguia pra trás,
Sentei num sepo de pau,
Tomei uma de rapé,
E ouvi a voz lá porta:
Esmola pra São José!

Pro mode dá a esmola,
A muié se arremexeu,
Mas eu lhe gritei: Num vá,
Que quem vai hoje sou eu!

Quando eu cheguei lá na porta,
O velho teve um espanto!
E eu disse: Vá trabaiá,
Que eu num dou esmola a santo!
Troque o santo numa enxada,
Deixe de ser preguiçoso,
Que santo num quer esmola,
Num seja tão presunçoso!

O velho me olhou e disse:
Que São José te perdoe…
E se Deus tiver ouvindo,
Quero que ele te abençoe

E que cubra a tua casa
De paz, amor, união
Saúde, prosperidade,
Sossego e compreensão…

E se um dia o senhor,
Precisar deste velhinho
Ele não mora tão perto,
Mas eu lhe ensino o caminho.
Fica no sítio Acauã,
Onde já morou meu pai,
À direita de quem vem,
À esquerda de quem vai.

Se um dia, o senhor passar
Por ali, com precisão,
De fome o senhor não morre,
Também não dorme no chão.

Quando o velho disse aquilo,
Eu senti naquele instante
Como se eu fosse uma formiga
Sob os pés dum elefante.

Tava com as perna tremendo,
Digo e não peço segredo:
O velho deu-me uma surra,
Sem me tocar com o dedo.

Eu, com tanta ignorança,
Ele tanta mansidão,
Fez eu pagar munto caro

A falta de inducação.
Entonce, naquele instante,
Eu gritei por Salomé,
Que trouxesse pro velhinho
Uma xícara de café.
E fui contá meu dinheiro,
Tinha somente um cruzeiro,
Dei todinho pra São José!…
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(*) ZÉ LAURENTINO: - Grande poeta (também radialista) paraibano, nascido no Sítio Antas, em Puxinanã-PB, no dia 11/04/1943. Faleceu no dia 15/09/2016, em Campina Grande, cidade onde residiu durante quase toda sua vida.  Este amigo poeta, nos velhos tempos, fez parte de minhas andanças etílicas, em alguns recantos de Campina. E haja versos!!! Depois, sumi pelo mundo, e nunca mais nos vimos. Caprichos da vida. Guardei dele boas lembranças e me doeu saber que foi versejar em outras dimensões.
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sábado, 18 de agosto de 2018

OS IMBOCIOTAS - José de Anchieta Batista

Em tempo de guerra, a convocação para o serviço militar se sobrepõe à mera voluntariedade, pois se estabelece, acima de tudo, a obrigação de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Isto é algo milenar na vida castrense. Em tempo de paz, contudo, a escolha da profissão militar significa bem mais uma aceitação voluntária daqueles rigorosos preceitos que regem a vida na caserna. Em nenhum caso, entretanto, seja em momento de guerra, seja em momento de paz, é dado insurgir-se contra os regulamentos. O descumprimento do dever, mesmo de forma parcial, possui em algum lugar dos mandamentos disciplinares, uma dosagem apropriada de amargo remédio.
O cotidiano nos quartéis transcorre de forma ímpar, diferente do mundo civil, pautada na estrita obediência à hierarquia e à disciplina, princípios basilares em que se fundamenta a vida militar. Estes são dois pilares imprescindíveis para que seja possível o sucesso na paz e na guerra. Pelo menos era assim durante o tempo em que por lá estive. Dizem que mudou muito, mas continuo com a certeza de que, afastadas as duas vigas mestras, melhor será fechar os quartéis e contratar vigias, guardas-noturnos e jagunços, pois a bagunça estará instalada e nada funcionará a contento.
Naquele ambiente de severa observância às normas, onde é sempre repetido que “ordem dada deve ser ordem cumprida”, acontece de tudo. Ali, vamos encontrar permanentes relações humanas bem propícias a dois comportamentos doentios: o puxa-saquismo e o abuso da autoridade.
Em vinte e três anos de caserna, juntei uma penca de “causos” que trago bem guardados num compartimento especial do alforje de minha vida.
Lembro que certa vez, no pátio do quartel, um cabo que cuidava da faxina, aproximou-se do comandante e, com um lenço na mão esquerda, fez sua apresentação em voz alta e falou:
- Coronel, uma andorinha indisciplinada fez cocô lá de cima e sujou o ombro de sua gandola. Peço permissão para limpar.
O comandante, avessos a bajulações, deu-lhe uma “mijada” e determinou que ele sumisse dali e fosse cumprir suas obrigações com o lixo.
Noutra oportunidade, um sargento foi voluntário para um desgastante treinamento de sobrevivência na caatinga e justificou o porquê de ser ele voluntário:
- Capitão, eu tenho me sentido com excesso de saúde.
Muitos e muitos fatos de bajulices estão registrados na memória do passado dos quartéis.
Vale relembrar um episódio ocorrido no Batalhão Especial de Fronteira, daqui de Rio Branco: um soldado convidou o comandante da Companhia de Selva para ser o padrinho de batizado do filho. Dias depois, passou por minhas mãos uma certidão de nascimento, em que o garoto herdara o nome completo de seu padrinho, acrescido apenas da palavra Silva.
Em outro quartel de fronteira, não me lembro precisamente onde, em plena efervescência do governo militar, quando sobejavam frases de incentivo ao patriotismo, a filha de um cabo do rancho recebeu, num ato de puxa-saquismo nacional, o nome de Elvira do Ipiranga.
E assim proliferam as sagas tragicômicas dos bajuladores.
Enfoquei aqui “causos” do meio militar, mas ao vir conviver no mundo civil, encontrei também essa doença alastrada com maior prodigalidade. É uma moléstia humana.
Mas, não posso fechar esta crônica sem registrar pelo menos um fato de abuso de autoridade. Em um quartel nordestino onde eu servia, estávamos na primeira reunião de subtenentes e sargentos, com o novo comandante, um sujeito cuja fama de tirano chegou ali bem primeiro do que ele. Em certo momento daquele primeiro encontro, um sargento ousou interrompê-lo, pedindo permissão para fazer uma pergunta. Coitado de meu amigo! Recebeu a maior mijada de sua vida. Para mim, foi um momento extremamente ridículo. Jamais alguém poderia supor que aquele miserável babaca pudesse pensar que estava acima de Deus.
- Cale a boca, sargento! Não interrompa a fala de seu comandante! Fique sabendo que quando um comandante fala até o vento para – bradou ele do alto de seu Olimpo particular.
Perplexos, escutamos aquela sentença como uma predição de tudo o que haveríamos de passar em seus dois anos de comando. Um inferno, um terror.
A partir daquela primeira reunião, algum espirituoso tascou-lhe o apelido de “o imbociota”, palavra resultante de sua condição de “imbecil”, “boçal” e idiota”, e que foi sobejamente dita e repetida durante aquele malfadado biênio. Era nossa insignificante vingança.
Finalizo com um alerta de que estes “causos” não existem como regra dentro dos quartéis. A rigorosidade dos regulamentos militares podem até favorecer, mas não são responsáveis pela prática de condutas abomináveis. Aqueles regulamentos, pela peculiaridade da missão, não podiam deixar de ser rigorosos, mas neles também estão previstas regras da boa convivência humana, respaldada no absoluto respeito. Os exageros são produtos dos “IMBOCIOTAS”.

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sábado, 11 de agosto de 2018

A BRABEZA DO BRABO - José de Anchieta Batista(*)

Do livro: “Histórias e Causos que a Vida Contou”
Desde os seis ou sete anos de idade, passou a ser chamado pelo apelido de Brabo.
No primeiro dia de escola, toda a meninada encontrou nele, imediatamente, muitos motivos para gozações. Parecia um boneco de brinquedo. Tinha metade da estatura dos outros, era exageradamente franzino e sua cabeça parecia a de um macaquinho. Com aquele jeito esquisito, seu primeiro apelido foi “monstrinho”, mas diante de suas reações agressivas, os colegas adicionaram outro apelido que veio a predominar definitivamente: Brabo. É que ele saía no braço com meio mundo. Fosse quem fosse. Tivesse o tamanho que tivesse. Havia, contudo, uma infinita desvantagem nisso. Não vencia um só dos embates. Na maioria das vezes, no auge da brabeza, os garotos erguiam-no do chão, sem qualquer esforço, e ele ficava balançando no ar as duas perninhas, sem alcançar coisa alguma. Depois ia ele se sentar, amuado, chorando e xingando, lá pelos recantos.
Os dias se passaram, consagrou-se realmente como Brabo e, até hoje, por volta dos cinquenta anos, quase ninguém sabe seu verdadeiro nome. No transcorrer de todas essas décadas, certamente cansou-se de reagir ao apelido e se tornou tão natural ser chamado assim, que a brabeza do Brabo, para reagir a isso, sumiu. Se o chamarem por seu nome de batismo, que também não sei qual é, com certeza não atenderá. 
O lado bom de tudo isso é que, apesar do apelido, o Brabo se fez um cidadão pacato, absolutamente avesso à violência. Por outro lado, o garotinho briguento dos tempos de escola não conseguiu mudar sua compleição física. Continuou um magricela, um pedaço de gente, com estatura bem inferior a um metro e meio.
Há algum tempo, nosso personagem resolveu montar um bar a que deu o nome de “Bar Paz e Amor”. Num pequeno salão de duas portas, instalou prateleiras e balcão, comprou geladeira, sinuca, mesas, cadeiras e adquiriu utensílios para servir tira-gostos. Ele atende lá na frente e sua mulher cuida dos afazeres da cozinha. A todos ele faz questão de dizer que o ambiente é familiar, em contradição com as atitudes das figuras femininas que lá frequentam. O negócio tem andado de vento em popa, mas o Brabo, vez por outra, tem que apelar para a polícia vir restabelecer a ordem, em decorrência de algum arranca-rabo.
Certo dia, o tempo fechou lá no bar do Brabo e a urgência foi atendida por uma guarnição da Companhia de Operações Especiais, conhecida popularmente como COE, cujos componentes passam por uma seleção rigorosíssima, como se estivessem procurando lutadores de vale-tudo. Só pode fazer parte da corporação quem tiver corpo agigantado e muita disposição na hora do quebra-pau. Vestem farda preta, são de pouca conversa e, dependendo da valentia do abordado, deixam o sujeito moído de peia.
A guarnição atendeu com presteza ao chamado, mas um fato pouco comum aconteceu. Ao entrar no bar, um daqueles gigantes de dois metros de altura e massa corpórea de um mamute, foi logo fazendo a pergunta de praxe:
- Quem é o brabo daqui?
- Sou eu! – respondeu firmemente o pobrezinho do Brabo, caminhando em direção ao soldado.
Por infeliz coincidência, empunhava um pedaço de taco de sinuca que alguém houvera quebrado na hora da confusão e que ele acabara de apanhar do chão para jogar no lixo. O brutamontes não quis papo. Sentiu-se ameaçado e desceu-lhe a mão aberta no tronco da orelha. O pobre do Brabo foi estatelar-se a uns oito metros de distância, completamente nocauteado, lá no meio da rua.
- Comigo, brabeza é na porrada! Mais algum brabo por aqui? - arrematou desafiante o policial.
Quem era doido de responder? Alguns presentes, porém, com muito jeito, apressaram-se em desfazer o lamentável equívoco e correram para acudir o coitado do Brabo que, totalmente zonzo, procurava identificar em que mundo se encontrava.
Desfeito o tumulto, verificou-se que os baderneiros responsáveis pela confusão já estavam muito longe e o comandante da patrulha entabulava, comovido e prestimoso, um insistente pedido de desculpas pela violenta trapalhada.
Vida afora, o Brabo se fez manso, mas infelizmente continua a carregar e a sofrer o peso da falsa brabeza de seu apelido.

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(*) Escritor, poeta, passageiro do tempo e da agonia... e não sei mais 
o quê.