quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MENINO DA RUA DO GAGAÇO


JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA recita de sua autoria o poema "MENINO DA RUA DO BAGAÇO". É um desabafo de revolta perante a realidade que o tempo trouxe. É um grito de saudades. Onde estão os personagens da infância? Valeu a pena crescer?

sábado, 12 de novembro de 2016

QUINQUILHARIAS DE MEU MATULÃO

 (*) José de Anchieta Batista
Fui criança, fui adolescente, fiz-me adulto, vaguei por estes Brasis e, finalmente, me tornei um velho. Sou agora um idoso, com o peso, os “privilégios” e as proibições que a idade impõe, ouvindo a todo momento um rosário de “não pode isso”, “não pode aquilo”.
Viajo no tempo até minha infância. Lá está Dona América, minha cuidadosa e amada mãe. Lá está Seu Batista, meu honrado pai e meu primeiro herói. Lá estão meus irmãos, minhas irmãs, meus colegas, minhas professorinhas.
Ontem, era eu um menino, com meu pequeno universo, minhas curiosidades, minhas travessuras, minhas fantasias. Nascido em meados do século passado, tornei-me ancião, e nem senti o tempo passar. Mas ele passou ... e quase com a duração de um relâmpago. Foi assim mesmo, minha gente. Realmente eu nem percebi a correria desembestada com que os anos se foram. E me vejo hoje, não mais que de repente, aproximando-me dos setenta e dois anos de vida.
Parece mentira, mas os detalhes daquele mundo longínquo vieram grudados em mim, como se fossem tatuagens irremovíveis. Conduzo uma espécie de museu, onde vou guardando minhas quinquilharias afetivas. É ali que está armazenado o meu vivíssimo arquivo de recordações.
Na verdade, é bem chocante admitir que o tempo passou.  Mas passou. E diante disso, o que me restou de tudo aquilo que me embalou na mais tenra idade?
Lá estão, em meu áspero Sertão da Paraíba, o povoado de Aparecida, onde sou hoje um mero desconhecido, a rua onde morei, o grupo escolar, o Rio do Peixe, a velha ponte, os pés de oiticica, o caminho para o roçado de meu pai, o campo de futebol, as fogueiras de São João, os brinquedos que eu mesmo fazia, meus animais de estimação, e tudo o mais.
E aqui vou eu carregando o meu matulão, com o que juntei em minha estrada. Não sei quem hoje sou, haja vista a imensa metamorfose que me foi imposta nos caminhos que percorri. Avalio tudo, de ponta a ponta, e me vem a certeza de que me tornei um enigma que não sei decifrar. Sinto-me a síntese de tudo que vivi. Sou um mosaico em que os pedaços não se somam com similitude e harmonia. As regras, diabólicas ou benfazejas, da tão hipócrita sociedade, os momentos da vida, as pessoas, as coisas, foram me falseando a essência, com as suas imposições mexendo em minha idiossincrasia, e deixando em mim seus fragmentos, suas cores, seus odores, suas alegrias, seus sofreres, tudo colado em meu eu, à maneira dos carrapichos que se prendem às nossas vestes. Hoje estou somado a tudo isso, e vejo que me tornei nada mais nada menos do que a média inexata de tudo.  O que me alivia o fardo são minhas convicções espiritualistas de que tudo continua depois da “morte”, quando poderei ainda melhorar os dados de minhas contas, diante da Contabilidade Universal.
O tempo realmente passou, fazendo de mim um colecionador de momentos bons e ruins.
Lá está minha primeira namorada e meu primeiro amor; lá estão minhas paixões e meus sonhos de adolescente, e lá estão meus amigos, muitos dos quais nunca mais encontrei.
Sofri o diabo pela vida afora, mas consegui sobreviver a tudo, buscando sempre não expulsar de mim a criança que fui, nem o mundo que a cercava.  Nesse caminhar, amei, fui amado, sorri, chorei, lutei como um maluco e, em tudo, fui herói e vilão ao mesmo tempo. Não atingi a tão apregoada Sabedoria, que deveria estar comigo na velhice. Simplesmente não a encontrei, porque diante da verdade maior, não tinha os “olhos de ver” nem os “ouvidos de ouvir”. E certamente por causa disso não plantei nem colhi o que Deus esperava de mim. Acho que agora já não dá mais tempo.  
Ah, meu Deus, por que passou o tempo? Sequer pude compreender o real significado da vida.
Estas minhas reflexões são feitas, como se repentinamente eu acordasse, possuído de enorme ressaca, esfregasse os olhos, identificasse o mundo em derredor e, por fim, ouvisse a realidade gritar aos meus ouvidos:
- Seu babaca, o tempo passou!
Agora quase tudo virou reminiscências. E eu não consigo revirar minha bagagem, cheia dessas quinquilharias, sem que os momentos já vividos não doam em minha alma.
É, amigos. Parece meio louco este meu sentir, mas os espectros de toda a caminhada estão vivíssimos em mim. Nada morreu, tudo viaja comigo, aqui no meu matulão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A POESIA DO PARAIBANO RAUL CAMPELO MACHADO





   









UM BRILHANTE, QUASE DESCONHECIDO,  POETA PARAIBANO:  > RAUL MACHADO.
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LÁGRIMAS DE CERA

Quando Estela morreu choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada
Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada!
Ah! não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,
Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!

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NO CAMPO SANTO

A sepultura em que repousa Estela,
– Lírio que, mal se abrira, desmaiara! –
Não tem jarros, estátuas, nem capela,
Nem inscrições em lousa de Carrara.
Mas é tão simples, tão florida e clara,
Que basta ver-se-lhe a feição singela,
A sua alvura, entre roseiras, para
Saber-se que é a sepultura dela...
É o mais pobre dos túmulos vizinhos...
E o mais lindo, entretanto, que há na terra!
Cantam, na sua cruz, os passarinhos...
E, ressurgindo em formas caprichosas,
A mocidade morta, que ela encerra,
Sorri à vida, transformada em rosas.
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Raul Campelo Machado era jurista, ensaísta, conferencista, escritor, poeta e também poliglota. Nasceu em 07 de abril de 1891, em Batalhão, atual Taperoá, Estado da Paraíba.
Iniciou os estudos em Taperoá, complementando-os no Lyceu Paraibano; a seguir, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde cursou somente o 1º ano, indo concluir na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
Aos 15 anos, já compunha versos que publicava no Jornal A União, órgão oficial do governo do Estado da Paraíba.
Aprovado em concurso público, foi nomeado Auditor de Guerra, indo servir nos Estados do Paraná, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.
Exerceu as funções de: Promotor da Justiça Militar, em Pernambuco; Ministro do Tribunal de Segurança Nacional; Secretário Geral da Comissão Organizadora dos Estatutos dos Funcionários Públicos e Ministro Corregedor da Justiça Militar.
Era Membro da Sociétè des hommes de lettres e da Sociétè Academie d`histoire Internationale, ambas da França.
Faleceu em 19 de julho de 1954, a bordo no navio Provence, quando regressava da Europa, aonde fora em busca de tratamento de saúde.
É Patrono da Cadeira 35 da Academia Paraibana de Letras
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Obras: Cristais de Bronze (1909); Água de Castália (1919); Asas Aflitas (1924); Pelo Abolicionismo da Arte (1925); Praxe do Processo Criminal Militar (1926); A Culpa no Direito Penal (1929); Direito Penal Militar (1930); Pássaro Morto (1933); Código Penal Militar da Alemanha (1932); Poesias (1936); Dança das Ideias (1939); A Lâmpada Azul do Sonho (1946); Asas Libertas (1950).
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sábado, 5 de novembro de 2016

AS FLÔ DE PUXINANÃ - recitado por JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA

Autoria do meu conterrâneo ZÉ DA LUZ 
Livro BRASIL CABOCLO
Amigos, na gravação, não sei onde fui buscar "JOSÉ DA LUZ". Que pena! É "ZÉ DA LUZ", ômi !!! Perdão!


sábado, 29 de outubro de 2016

PRANTOS POR UMA MERETRIZ

(*) José de Anchieta Batista

Disseram-me agora
Que Leda Maria
Morreu num bordel,
Em meio à imundície...
E esta notícia
Soou-me cruel.

Mergulho no longe
De tempos distantes...
Fagulhas de instantes
Me vêm do passado...
E Leda Maria,
Em minha lembrança,
Revejo criança...

Ninguém, com certeza,
Lá na redondeza,
Mais bela que ela
Jamais conheceu.
- Primeira paixão...
- Primeira ilusão...
- Primeiro amor meu...

Um dia embriaguei-me
No olor dessa flor...
Bebi de seu beijo
O virgíneo sabor...
E nós nos amamos,
E nós dois pecamos,
Se é que é pecado
Pecar por amor.

- Que houve depois?

- A sórdida sina
Pra longe a levou...
A vida, que é treda,
Roubou minha Leda...
E em Leda Maria
Não mais se falou...

O expresso da vida
Deixou-a pra trás...
E Leda Maria
Não vi nunca mais.

Cumpri pela vida
Meu torpe destino,
Aos poucos, morrendo,
Doendo no peito
Meu sonho desfeito
Ainda menino.

Disseram-me agora
Que Leda Maria
Morreu num bordel,
Em meio à imundície...
E esta notícia
Soou-me cruel.

Se ainda a amava?
- Não sei! Eu não sei!
Não foi só por pena
De Leda Maria
Que hoje eu chorei! 
*****

sábado, 22 de outubro de 2016

NINGUÉM PODE SERVIR A DOIS SENHORES

(*) José de Anchieta Batista
Para submeter Jesus ao que chamamos de beco sem saída, os fariseus e herodianos planejaram dirigir-lhe uma ardilosa pergunta. Fosse qual fosse sua resposta, ficaria  exposto a uma verdadeira encrenca. E assim o interpelaram:
- Mestre, é justo pagar impostos ao imperador romano?
E a sábia resposta não só silenciou seus interlocutores, como trouxe também ao mundo uma expressão, por ele pronunciada com divina autoridade, e que se consagrou como um princípio geral de vida, uma espécie de mandamento da boa convivência e um caminho para a prática da justiça.
Aqueles hipócritas ouviram, então, do Grande Mestre, a celebérrima sentença:
- “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.  
Imagino os semblantes surpresados e confusos dos que ouviram aquilo. A lição certamente os deixou sem novas interpelações, e eles devem ter retornado muito desconfiados para junto daqueles que os mandaram fazer a provocação.
Naquela inesperada resposta, certamente inexiste qualquer atitude de covardia. Jesus nunca procedeu como um covarde. Agiu ali com sábia precaução, para não precipitar contra si, nem o ódio dos opressores, nem o repúdio de seus conterrâneos, já tão massacrados pela usurpação de tais tributos. O grande Enviado de Deus sabia que não era ainda chegado seu momento e, diante daquela cilada, fez valer sua divina sabedoria.
Os homens daquela época deram a Cesar quase tudo, porque quase tudo era de Cesar e, a Deus, quase nada, porque quase nada se destinava a Deus. Daquilo tudo sobrou um Cristo submetido aos poderes que vinham de César, ali representado por Pôncio Pilatos, cuja histórica atitude foi lavar as mãos, antes de entregá-lo à turba para a crucificação. Foi assim que aqueles homens maldosos e ignorantes fizeram retornar a Deus o que era realmente de Deus: seu Filho Maior.
De tudo aquilo, evidenciamos uma certeza, e também uma lição, para os que hoje têm “os olhos de ver”:  Os religiosos, mancomunados com o poder da época, mataram o Cristo impiedosamente.
Meus amigos, acho que não podemos mesmo misturar Estado e Religião. Isso está previsto na Carta Magna brasileira, mas é bem diferente o que acontece no mundo real. Sub-repticiamente essa mistura está selada e acontecendo claramente.
Temos no Brasil pessoas que alcançam, sabe Deus de que forma, a liderança religiosa numa comunidade e, depois, encontram ali uma forma de ocupar um assento em algum nível de poder do mundo. Seus eleitores são geralmente os humildes encabrestados pelo horrível temor do fogo do Inferno. Eleitos, os políticos de “vida sacrossanta”, os autoproclamados “profetas”, abandonam de vez o púlpito eclesial, para ocuparem alguma tribuna dos parlamentos, ou mesmo alguma cadeira executiva. A corrida para isso tem sido tão crescente que o domínio do pensamento religioso está se instalando em todos os plenários, fazendo totalmente tendenciosas as propostas ali discutidas e votadas, com deturpação do que vem a ser um estado laico. Desta forma, a laicidade prevista e pregada nos nossos códigos de leis, simplesmente não existe. Os religiosos têm-se juntado a outros poderosos de todos os tipos, e vão assumindo de forma rápida os destinos do estado brasileiro. Neste contexto, os adeptos das milhares de denominações de igrejas, não são meramente ovelhas da fé. Trazem consigo a condição de fiéis eleitores. E o Estado laico, pela maneira como as coisas têm acontecido, fica só na letra morta.
Custa-me crer que Jesus, ao relembrar os fatos de seu tempo, e o ritual de que foi vítima, concorde com tudo isso que hoje se repete.   É muito nítida e verdadeira a assertiva de que não dá para misturar as coisas de Cesar com as coisas de Deus. E é justamente isso que acontece quando alguém que se diz arrebanhador de almas se alia à ambição do poder político. Essa mistura nunca vai dar certo. Em minha forma de ver, ou o sujeito é um zeloso pastor de almas ou se entrega aos afazeres da política. Esses dois mundos são incompatíveis na mesma pessoa.
Defendo como salutar que aqueles que cuidam dos “caminhos do céu” dentro da sociedade, tenham atitudes críticas em defesa da moral e da ética por parte dos governos estabelecidos. Também defendo que exerçam uma constante cobrança na execução de políticas voltadas realmente para o povo, principalmente para os menos favorecidos. Mas se querem participar diretamente do mundo da política, transfiram o cajado para outros, e não usem a submissão psicológica dos membros da igreja para subirem os degraus dos poderes do mundo. A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!
Padres, pastores, missionários, ou como sejam chamados, acordem! A missão dos senhores é cuidar de seus rebanhos; é orientar, amparar e zelar pelas virtudes daqueles que buscam Deus; é mostrar caminhos; é exercitar e fomentar a prática do bem e do amor ao próximo, porque estas são genuinamente coisas de Deus. Deixem que os Césares cuidem da política. Compreendam isso! 
Finalizo com outra sentença, também proclamada pelo próprio Cristo:

- “ NINGUÉM PODE SERVIR A DOIS SENHORES! ”

sábado, 15 de outubro de 2016

MEU CONTERRÂNEO ZÉ DA LUZ E SUA POESIA.

ZÉ DA LUZ – assim foi chamado Severino de Andrade Silva, imortal poeta nordestino, nascido em Itabaiana, agreste paraibano, no dia 29 de março de 1904. Era alfaiate de profissão, mas brilhou realmente com seus eternizados versos matutos, em que retratava, com fidelidade, a alma dos rincões nordestinos. Faleceu no dia 12 de fevereiro de 1965, no Rio de Janeiro, cidade onde vivera desde 1951.
Não se pode falar de poetas nordestinos, sem incluir um espaço reservado ao grande Zé da Luz. Seu livro “BRASIL CABOCLO” (1936) foi prefaciado por nada menos que José Lins do Rego. E o autor de “Menino de Engenho” assim inicia seu Prefácio:
- “Pediu-me Zé da Luz um prefácio para o seu livro de versos. E eu lhe disse: Meu caro poeta, você não precisa de prefácios, porque a sua poesia fala com mais autoridade que qualquer palavra de apresentação. Que autoridade terei para dar carta de fiança a quem possui os melhores tesouros deste mundo? Ora, Zé da Luz, você vale pelo que é, e não pelo que se possa dizer de você. (...).

Grande Zé da Luz!

Preencho hoje meu humilde espaço, com uma pequena mostra de suas poesias, decerto já conhecidas de muita gente:

A CACIMBA

 Tá vendo aquela cacimba
Lá na bêra do riacho,
Im riba da ribancêra,
Qui fica, assim, pru dibaxo
De um pé de tamarinêra?
Pois, um magote de môça
Quage toda menhanzinha,
Foima, assim, aquela tuia,
Na bêra da cacimbinha
Tomando banho de cuia!
Eu não sei pru quê razão,
As águas dessa nacente,
As águas qui alí se vê,
Tem um gosto deferente
Das cacimba de bêbê…
As águas da cacimbinha
Tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça…
Tem um gostim do suó
Dos suvaco déssas môça…
Quando eu vejo essa cacimba,
Qui inspio a minha cara
E a cara torno a inspiá,
Naquelas águas quilara,
Pego logo a desejá…
…Desejo, pra que negá?
Desejo sê um caçote,
Cum dois óio desse tamanho!
Pra vê, aquele magóte
De môça tumando banho!

*****
AS FLÔ DE PUXINANÃ

Três muié ou três irmã,
Três cachôrra da mulesta,
Eu vi num dia de festa,
no lugar Puxinanã.
A mais véia, a mais ribusta
Era mermo uma tentação!
Mimosa flô do sertão
Que o povo chamava Ogusta.
A sigunda, a Guléimina,
Tinha uns ói qui ô! mardição!
Matava quarqué critão
Os oiá déssa minina.
Os ói dela paricia
Duas istrêla tremendo,
Se apagando e se acendendo
Im noite de ventania.
A tercêra, era Maroca.
Cum um côipo muito má feito,
Mas porém, tinha nos peito
Dois cuscús de mandioca.
Dois cuscús, qui, prú capricho,
Quando ela passou pru eu,
Minhas venta se acendeu
Cum o chêro vindo dos bicho.
Eu inté, me atrapaiava,
Sem sabê das três irmã
Qui eu vi im Puxinanã,
Quá era a qui mi agradava...
Inscuiendo a minha cruz
Prá sair desse imbaraço,
Desejei morrê nos braços,
Da dona dos dois cuscús!

*****
 AI! SE SÊSSE!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse!?
Mas porém, se acontecesse
Qui São Pêdo não abrisse
As portas do céu e fosse,
Te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse,
Prá qui eu me arrezorvesse
E a minha faca puxasse,
E o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virge tôdas fugisse!!!

*****

sábado, 8 de outubro de 2016

DEFUNTOS, VELÓRIOS E ENTERROS

(*) José de Anchieta Batista
Nunca fui muito chegado a velórios e enterros. Quando as circunstâncias obrigam-me a estar presente em algum deles, minha passagem ao redor do caixão é sempre muito rápida. Só me demoro o tempo necessário para cumprimentar os familiares e amigos. Depois disso, me movo um pouco entre os presentes, mas a porta de saída fica sempre me chamando. Não me faz bem dar adeus a um corpo inerte, rijo, desfigurado, sem vida, principalmente se se tratar de alguém com quem eu tenha convivido mais de perto. Também me incomoda profundamente, naquele ambiente de imensa tristeza, a dor silente ou lamuriosa daqueles que ficam. É meu jeito de ser. Há, porém, as mais diversas formas de lidar com estes momentos tristes da vida.
Diferentemente de mim, aqui no município de Senador Guiomard (AC), Dona Marina sente-se altamente aborrecida se não lhe comunicarem a existência de algum velório. Fica braba. Seja quem for o defunto, ela quer cumprir o que chama de “ato de piedade cristã”. Dure quanto durar a visitação ao falecido, aquela senhora fica ali, fazendo companhia ao morto. As pessoas estranham essa sua devoção por velórios, mas isso é dela. Perguntada sobre o motivo disso, ela responde: Quando for a minha vez, quero me ver rodeada por muita gente. Quero muitas pessoas me acompanhando até o cemitério. Deve ser triste a solidão neste momento.
Por falar em personagens voltadas para velórios e enterros, ninguém pode esquecer as carpideiras, “cantadeiras de incelências” ou “choradeiras”, profissionais femininas que durante os velórios são pagas para, em torno do caixão, rezar, cantar e chorar por um defunto alheio.  Dizem que em alguns recantos ainda existem, mas não sei precisar onde. Os mais antigos, como meu pai, sempre me falavam dessas senhoras e afirmavam que nos pés de serra do Nordeste, velório sem carpideiras não estava completo. Vestidas de preto, da cabeça aos pés, não dispensavam o negro véu, nem um rosário nas mãos. Choravam e se lamuriavam de forma tão doída que, nem a viúva, nem a mãe, nem as filhas do defunto, conseguiam chorar com tanto sentimento de dor.
Essa profissão, bizarra por excelência, não nasceu no Brasil. Li registros de que foi trazida de Portugal e é tão antiga que o Velho Testamento lhe faz menção:
- “Assim diz o Eterno dos Exércitos: Considerai e chamai as mulheres pagas para chorar, para que venham depressa; trazei as mulheres mais sensíveis e hábeis nesta arte” (Jeremias - 9:17).
Há também aqueles que adoram fazer discursos de despedida na beirada da cova.
Existiu, lá em João Pessoa (PB), um sujeito chamado João Costa e Silva, cujo apelido era Mocidade. Essa figura folclórica, detentora de desequilíbrio mental, possuía conhecimentos aprofundados sobre a história da Paraíba e era de uma oratória brilhante, muitas vezes sem nexo, mas, espetacular. Tratava-se de um sujeito que lia muito e, por isso, adquirira um invejável vocabulário. Aquele tribuno popular era um maníaco por exibir sua verve. Subia em qualquer batente, caixote de madeira, tamborete, ou algo que o valha, e lá se ia mais um discurso verborrágico. As autoridades viam-se muitas vezes em apuros nos eventos públicos. O famoso orador sempre dava as caras e queria falar. Mocidade era assim chamado porque, mesmo diante de uma plateia de idosos, iniciava seus discursos sempre da mesma maneira: “"Mocidade da minha terra...".
Pois bem, aquele personagem tinha por mania participar de enterros, nos quais sempre encontrava um jeito de fazer um discurso vibrante na beira da sepultura. Ali, enchia o morto de elogios, mesmo que nunca o tivesse conhecido.  Soubesse de algum enterro, principalmente de gente da alta, lá estava Mocidade, com sua eloquência desvairada.
O famoso Mocidade morreu em 1981. Não sei se lhe dedicaram algum pesaroso discurso de despedida. Restou-lhe atribuída uma espirituosa frase: “Na Paraíba, até para ser doido, precisa ter juízo”.
Defuntos, velórios, carpideiras, enterros, cemitérios, coveiros, assombrações, etc, são responsáveis por um acervo riquíssimo e inesgotável de crendices, histórias e “causos” os mais diversos.
Quando morei em Altamira (PA), um velhinho, ex-combatente da II Guerra Mundial, garantiu-me que certa vez estava presente num velório, no interior do Amazonas, e lá pelas tantas da noite, o morto sentou-se apavorado dentro do caixão e, com olhos esbugalhados, preparou-se para descer. O rebuliço foi enorme. Correu gente pra todo lado. No outro dia o ex-defunto recomeçou sua vida normalmente, mas uma senhora, que estava presente no momento do alvoroço, sofreu um ataque cardíaco e morreu. O velório dela deu continuidade ao do ressuscitado.
Uma curiosidade a respeito disso:
- O “professor Google” acaba de me afirmar que esse fenômeno, sepultador de muita gente ainda viva, tem o nome de catalepsia. Não sei se a Medicina descobriu algum jeito de evitar isso, mas a possibilidade de ser enterrado assim é apavorante. Já pensaram no tamanho da agonia?
Caros amigos, confesso meu enorme respeito por quem terminou de cumprir aqui na Terra a sua jornada. Alio-me sempre à dor e à saudade de todos os parentes e amigos, mas me confesso avesso a funerais. Quando digo isso por aí, sempre me alertam de que precisamos prestigiar os defuntos, a fim de sermos retribuídos quando for a nossa vez. É exatamente assim que pensa a Dona Marina, lá de Senador Guiomard. Não sei se procede. Eu, porém, não tenho essa preocupação. Quando chegar a minha vez, além de já não me afetar a solidão deste mundo, com certeza, alguém vai querer enterrar o que sobrou do “envelope” que ocupei por mais de setenta anos. De morto, todo mundo quer se ver livre. Incomoda demais.
Bem, amigos, esse é meu jeito. 

PROFETAS DE DEUS OU DO DIABO?

(*) José de Anchieta Batista
Que se sintam excluídos de tudo o que aqui abomino, os verdadeiros pastores e irmãos diversos, praticantes dos ensinamentos crísticos, amantes de um Deus supremo, e que respaldam suas vidas na fraterna prática do “ amai-vos uns aos outros! ”.
Faço aqui uma advertência que traduz meu modo de pensar:  todas as divergências existentes entre nós nascem de nossa pequenez e de nossa ignorância, mas indubitavelmente somos todos irmãos. Há uma verdade suprema que não alcançamos porque não temos ainda, nem “os olhos de ver”, nem “os ouvidos de ouvir”.
Nos últimos dias, tenho lido e ouvido dos que praticam um evangelismo míope e radical, algumas mensagens altamente absurdas sobre a morte do ator Domingos Montagner. Opiniões de verdadeiros ignorantes, metidos a sábios, a santos ou a profetas, que buscam aparecer diante do mundo. São os mesmos que vomitam sermões, condenando hipocritamente a intolerância religiosa, a falta de fraternidade, etc., mas que concluem sempre “a palavra de deus” julgando os seus semelhantes e decretando que fora das quatro paredes de seus cultos, não tem como algum vivente seguir a Jesus, e que, por isso, nós, “os marginais da fé”, arderemos no fogo do Inferno. Não aprenderam ainda, e por certo nunca aprenderão, que Jesus não deixou religião nenhuma, a não ser a semeadura de um novo mandamento: “ amai-vos uns aos outros! ”.
Não devia perder meu tempo com esses pobres coitados, que também são meus irmãos, contudo não consigo me conformar diante desses discípulos do desamor. A mirabolante versão de autoria desses malucos intolerantes, sobre aquela recente tragédia, é a de que Deus matou o ator da TV Globo, porque ele participara de “rituais satânicos” junto com os índios, ali nas margens do Rio São Francisco. Um absurdo. Uma insensatez. Uma visão que, além de absolutamente anticristã, significa um berro de intolerância, de discriminação religiosa e de desamor ao próximo. Desses julgadores e condenadores, pela hipocrisia aprendida e praticada, nem sei se as orações conseguem ultrapassar o teto de seus templos. Mas dos índios, acredito piamente que as preces são escutadas com enorme prazer pelo Grande Espírito de Deus. Nenhuma religião ou crença que eu conheça, ou de que tenha tido notícias, pratica alguma expressão de louvor e gratidão a Deus, mais autêntica, mais pura, mais sagrada do que nos rituais daqueles que mais genuinamente se sentem dissociáveis da Natureza. E nós, os “evoluídos” da humanidade, vivemos como se não fôssemos também Natureza. Talvez, por isso, a destruímos irracionalmente. No passar das eras, interferimos nos milenares costumes de nossos indígenas, porém muitas coisas ainda foram conservadas, principalmente no que se refere ao seu mundo sagrado. É por intermédio da Natureza que esses indígenas se comunicam com Deus. Algo mais propício? Abomino, sob todos os aspectos, que alguém queira impor os deuses de qualquer religião em substituição às sagradas divindades dos nossos irmãos.
Abençoai sempre, ó Deus, aquela gente rústica, simples e ignorante (aos nossos olhos), que vos oferece a sagrada coreografia de suas danças, seus cânticos e gritos de louvor, de gratidão ou de súplicas, num cenário em que a própria Natureza é o divino templo. Isso é muito, muito, muito mais sublime do que os rituais de algum “shopping center da fé”, onde Jesus é a grande mercadoria. E que mercadoria, hein?!
No sentido contrário ao comportamento desses autoproclamados “profetas” - não sei se de Deus ou do Diabo -, na semana que passou, o Padre Massimo Lombardi, da Diocese de Rio Branco (Acre), convidou-me para um encontro, no próximo dia 08/10/2016, com participação de católicos, evangélicos de diversas denominações, umbandistas, candomblecistas, xamanistas, indígenas, daimistas, budistas, e qualquer um que se interesse por este contexto tão diversificado e complexo. Surpreendi-me bem mais quando o padre afirmou que desta vez estendeu o convite aos ateus. Nada mais crístico do que algo assim. Em certo momento eu quis saber do padre como funciona esta possível “torre de babel”. Prontamente me asseverou que o ambiente é de completa paz, pois ninguém tenta “converter” ninguém. 
- “ Apenas fazemos valer o sentimento de fraternidade que deve existir em cada um. Somos todos irmãos, filhos que somos do mesmo Pai. Ninguém tenta impor o seu credo. Ouvimos irmãmente a todos, sem nos prendermos a pontos conflitantes. Não entramos em qualquer discussão sobre quem está certo ou errado, ou sobre quem está “salvo” ou não. E acredite, professor Anchieta, que cada um tem algo muito importante a dizer aos outros. ”  –  explicou o Padre Mássimo.
Sei que muitos, de todos os lados, não aceitam isso. Sabe por quê? Simplesmente porque o barulho da hipocrisia não permite que eles ouçam a voz do Cristo: “Amai-vos uns aos outros! “.
Parabéns, Padre Massimo, estarei lá.
Que podemos esperar de muitos religiosos que hoje vemos espalhados por aí? Por que esses presunçosos semeadores de contendas proclamam tanto o nome de Satanás, vendo-o em todos os recantos, em vez de priorizar o lado do bem e a sua prática?   Pobres coitados! E ainda se sentem totalmente puros e prontos para um arrebatamento.
Ah, amigos, vejo neles aqueles mesmos que montaram a grande farsa contra Jesus e que, sob o falso manto de zeladores dos caminhos de Deus, julgaram e condenaram o Divino Homem da Galileia.
Concluo esta crônica afirmando que essa gente me faz lembrar um sujeito mau-caráter chamado Caifás, influente religioso daquela época, na condição de sumo-sacerdote ...  
... e um Cristo exangue, desfigurado e sem vida, no alto do Gólgota, pregado na cruz.

sábado, 10 de setembro de 2016

TEMER - MORDOMO DE FILME DE TERROR

Minha visão é a de que, no julgamento de Dilma Rousseff, mesmo que tenha sido cumprido o ritual legalmente previsto, não tivemos algo limpo, nem ali esteve presente a balança da justiça. Ressalto isto, mas não quero aqui me prender a maiores detalhes da destituição compulsória de que ela foi vítima. Tampouco desejo, mesmo que minimamente, criar uma discussão sobre os erros e acertos de sua administração, se a companheira governou bem ou mal, se merecia ser absolvida ou não. E embora convivendo no mesmo lado político, não pretendo aqui esgoelar-me inutilmente em seu favor, visto que tudo está consumado, e de forma irreversível. Meu alvo aqui é outro.
No ritual da autêntica inquisição parlamentar, instalada em nossas mais altas casas legislativas, Dilma Rousseff foi defendida com maestria, brilhantismo e competência pelo eminente advogado José Eduardo Cardozo. Tudo ficou desnudado, mostrou-se a verdade, mas não teve jeito. A farsa, devidamente travestida com a indumentária constitucional, foi antecipadamente preparada, e o resultado haveria de ser um só: seu impedimento de continuar gerindo os destinos do Brasil.
Em qualquer ambiente sério do mundo, os fatos, ali esmiuçados e debatidos, resultariam na comprovação de que as alegadas acusações não traziam em si a gravidade suficiente para arrebatar-lhe a cadeira outorgada pelo povo. Não havia crime. Tudo era forjado. Muitos de seus próprios julgadores já haviam cometido, quando governantes, as mesmíssimas falhas ou equívocos. Mas, de forma ardilosa, tudo estava arquitetado para defenestrar Dilma. Muitas daquelas figuras não tinham qualquer condição moral para julgá-la. Outros, de dedo em riste, trajados de vestais e pousando de bons moços, pareciam não ser o que verdadeiramente eram:  ladrões do dinheiro do povo. Também não podiam julgá-la. Não tinham moral para atirar a primeira pedra. Mas com deslavado cinismo e pouca vergonha, julgaram-na. Em momento algum, porém, aqueles furiosos algozes, ousaram acusá-la de corrupta. O julgamento foi até o fim, e nada atenuou o chicotear de seus verdugos. Os olhos e os ouvidos daquela gente estavam propositadamente fechados hermeticamente.
Enquanto tudo era levado a efeito, algo se fazia bem nítido em cada episódio ali acontecido. Por trás de tudo, existiam movimentações estranhas para garantir que o roteiro seria cumprido com sucesso. Michel Temer, com seus coadjuvantes de ocasião, todos frios, astutos, calculistas, agressivos, verborrágicos e igualmente famulentos pelo poder, esgueiravam-se atuantes, à luz do dia ou mesmo nas sombras.
Na tarde do dia 31 de agosto deste 2016, o Senado Federal afastou, de forma definitiva, por 61 votos a 20, a presidente da República, pelo povo eleita com mais de 54 milhões de votos.
Mas o ritual não estava terminado. Uma malandragem foi colocada em prática. Por sugestão do próprio Renan Calheiros, presidente da Casa, fez-se uma segunda votação para garantir, à presidente deposta, o direito de continuar a exercer funções públicas. E, ao contrário da votação anterior, a nova proposta saiu vitoriosa.
Que generosidade deles! Não, não foi isto. Não houve um gesto de bondade, nem um ato de justiça. Aquilo era uma manobra. Não podiam desperdiçar tão maravilhosa oportunidade. Precisavam aproveitar o momento para produzir algo que beneficiasse, em julgamentos futuros, figuras mafiosas, como Eduardo Cunha e outros deputados e senadores, na mira da operação “Lava-Jato”. Em vez de uma ação de benevolência com Dilma, tratava-se, na verdade, de uma jogada espúria. A própria Dilma externou sua estranheza diante daquele gesto inesperado.
Não muito distante dali, Temer assistia, inquieto e ansioso, lá no Palácio do Jaburu, ao desfecho daquele jogo de cartas marcadas. Precisava consumar de vez o seu intento e viajar ainda naquela noite para a China, como presidente efetivo. E realmente viajou. Foi comemorar e bazofiar por aí, feliz da vida com mais esta vitória da insensatez e da hipocrisia da politicalha brasileira.
A respeito deste personagem chamado Michel Temer, o senador Antonio Carlos Magalhães, falecido em 2007, perspicaz raposa da nojenta política brasileira, num embate de agressões verbais, descreveu-o em pouquíssimas palavras:
- “Não me impressiona sua pose de mordomo de filme de terror”.

Impossível que alguém fizesse uma descrição mais adequada. Ele não tem somente a pose. Tudo nele externa um quê fantasmagórico, carregado dos mistérios de quem se move nas sombras da noite. Traz consigo um semblante imperturbável de quem sabe mascarar emoções, e em sua bandeja maligna de “mordomo de filme de terror” estão os licores envenenados. O diagnóstico que fez o velho político baiano foi sintético, mas altamente descritivo. Michel Temer, com seu jeitão esfíngico e indefinível, faz qualquer um se sentir diante dos mordomos de filmes do Hitchcock.

O Temer, pelos caminhos normais, jamais seria presidente de nosso País. Não teria estatura para isso. Ser vice-presidente, por duas vezes, significou nada menos que duas tentativas pré-concebidas para se tornar presidente. É como se diz: armou e deu certo. Dilma caiu na armadilha. O Temer montou tudo, desleal e sorrateiramente, como sempre agem os mordomos de filme de terror. Fez valer sua caricatura grotesca, descrita pelo famoso e histórico senador. Arquitetou, juntamente com seus coadjuvantes, nos enormes e soturnos subterrâneos desta mansão chamada Brasil, a conspiração, a música fúnebre, o ritual macabro do grande episódio que culminou com a queda de Dilma Rousseff. Ainda bem que já não vivemos mais no tempo da forca, da guilhotina, da fogueira, do fuzilamento.
Olho agora para a grande mansão que abriga a síntese maior da politicalha nacional. O mordomo, rodeado de asseclas, com um sorriso maroto num recanto da boca, ri-se de todos, orgulhoso da vergonhosa façanha. Muito além dos segredos, das assombrações e das almas penadas do velho casarão, ele conhece meticulosamente cada palmo dos jardins, dos bosques, dos pomares, dos esconderijos, dos subterrâneos, das entradas e saídas secretas da velha edificação. É familiarizado, não só com os vassalos e serviçais, mas também com os desvios das regras de convivência do velho palácio. Assim, lhe foi fácil arquitetar a grande sacada para assumir o lugar maior como mandatário da mansão.
Agora, malgrado seu, grande parte dos moradores das terras do grande castelo não vê legitimidade e não o aceita como novo mandatário, exigindo sua imediata substituição.

Cuidado, Senhor Michel: Ao final das fitas de cinema, o “mordomo do filme de terror” tem sempre suas próprias maldades voltadas contra si.