domingo, 17 de julho de 2016

SEM OXIGÊNIO E SEM ASSUNTO

(Anchieta)
Cumpro sempre, nas manhãs dos sábados, a obrigação semanal de enviar ao jornal “Página 20”, em Rio Branco – Acre, algo que ocupe o domingueiro Espaço do Anchieta.
Hoje é exatamente um sábado.  Estou em casa há nove dias, umidificador ligado, nebulizador junto à rede, uma drogaria sobre o criado-mudo, enfrentando a agudez desta seca, sob o suplício deste maldito cheiro de fumaça. Não olhei as estatísticas sobre as queimadas em 2016, mas meu enfisema pulmonar acusa que as labaredas continuam por aí. Alguns loucos permanecem queimando tudo.
E em meio a esta falta de ar, minha crônica não cria vida. Já tentei vários assuntos, mas de repente paro, tusso um pouco, deleto tudo, e fico com os dedos sobre o teclado, esperando alguma coisa que me incentive. Nada vem.
Neste mundo que parece caminhar ao deus-dará, não me deviam faltar assuntos para escrever, sobretudo porque, a cada minuto, alguma selvageria, algum ato de desumanidade, alguma maluquice sem limites, ocupa a tela das televisões. A própria Mãe Natureza se encarrega de responder, por meio de catástrofes, as insanidades humanas. Notícias que nos tragam alegrias, que nos falem de paz, que fomentem o amor, são pouquíssimas. As desgraças desfilam aos montes, poluindo sempre mais as nossas mentes, como se tudo agora tivesse por finalidade destruir, de forma rápida e absoluta, as résteas de esperanças ainda existentes em nossos corações.
Por expressar-me assim, meus amigos, não pensem que me tornei um desesperançado. Ultimamente, até que tenho buscado motivar, a mim e a meus semelhantes, perdidos que estamos, um retorno para nós mesmos, pelo caminho do amor e da paz.
Há uma oração tradicional de nossa Igreja Católica, a “Salve Rainha”, um misto de louvação e súplica, dirigida à mãe de Jesus, em que se implora dela a maternal ajuda, em razão de vivermos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.  
Então, amigos, neste “vale de lágrimas”, sobre o que devo escrever hoje?  Juro que ainda não sei! Abro os ouvidos para as notícias da Globonews e os principais enfoques são as duas mais recentes e cruéis desgraças: as mortes provocadas por um maluco que atropelou propositalmente muitos irmãos franceses na cidade de Nice, e um golpe militar na Turquia. Mortes, mortes e mortes! Até pensei em dedicar mais uma página de meus escritos a esses horrores de nosso imenso hospício. Mas, não. Hoje não me animei escrever sobre nada disso.
No Brasil, muitas coisas aconteceram durante a semana, todas provenientes do caos aqui instalado, sob o signo da pouca-vergonha e do desrespeito ao povo brasileiro. Embora tenha certeza de que o Comando Superior, Deus como eu concebo, esteja passando tudo a limpo, o que é muito salutar, também não me animei a escrever sobre o mau-cheiro dessas podridões.
Peço para não pensarem que a indiferença e a desesperança tomaram conta de mim, diante desta realidade maluca que nos cerca. Não. Não é bem isso. É que as irritações, as decepções e as raivas fazem muito mais agudas minhas crises respiratórias. Preferi, então, no dia de hoje, poupar-me um pouco, deixando de lado as insanidades humanas e as bandalheiras que nos decepcionam e revoltam todos os dias.  Creiam, porém, que está bem viva em mim aquela angústia indescritível que nos sufoca muito mais quando nos tornamos septuagenários.
E por falar em sufoco, arrisquei-me, quase agorinha, a abrir a janela de meu quarto. Estava lá fora o cinzento, enfumaçado e poluído céu do Quinari, recanto do mundo onde me escondo. Esbravejei furiosamente, contra tudo e contra todos, e me tranquei novamente, o mais rápido que pude, para ocupar-me de meu costumeiro ritual de nebulização.
Amigos, acho que valeu positivamente a ausência de um assunto específico com que me ocupar, pois foi assim que nasceu esta crônica, tratando de tudo, sem falar de nada.
Ah! Ia-me esquecendo:
- Aos que supõem que estou moribundo, ou quase isso, peço que retirem este pensamento urgentemente da cabeça. Pela conversa que mantive, nesta madrugada, com o Dono deste Sagrado Sanatório, a Terra, recebi como diagnóstico a necessidade de permanecer aqui por mais trinta anos.   Não sei se isto é bom ou ruim – Ele é que sabe – mas tenho de me acalmar diante disso tudo, pois ainda serei testemunha de muita coisa debaixo destes céus.

sábado, 9 de julho de 2016

CUMÉ QUI VAI, SEU DOTô?

Seu Doutô, im meu Brasi
Tá difice di vivê!
A misera do salaro
Já num dá nem pra cumê...
Si piorá mais um pôco,
Que qui a gente vai fazê?

Tá danado, Seu dotô!
Num sei cumo suportá...
Já num si pode vistí
Nem fío pode istudá...
Mas pru falá nessas coisa,
Cumo vai seu caviá?

Cumé qui vai o seu luxo,
No meio dessa soçaite?
Cumé é que vai seus dinheiro,
Nessa tá de overnaite?

Cumo vai suas fazenda,
Qui vale muitos milhão?
Cuma vai seus cadilaque,
Nas garage das mansão?
Cumé qui vai seu jatinho
Nos céu de nossa nação?

-Aquelas contas gurduxa
Qui já déro o qui falá,
- E qui levô lá pra cadeia
Quem resorveu dedurá –
Tá rendendo muita grana
Nos paraízo fiscá?

O sinhô já pranejô
Viajá pra vê a copa?
Cumé qui foi seus passei
Lá nos paíz das Oropa?

Cumé qui tão seus iate?
Cumé qui vai o seu gado?
Cumé qui tão os banquete
Com seu uísqui importado?
Cumo vai sua campanha
Pra se fazê deputado?

- Não me arresponda, Doûtô!
Prifiro num iscutá!
Qui uvindo sua disgraça,
Eu sô capaz de chorá!!!
 (Rio Branco – 1987)

domingo, 3 de julho de 2016

UM FERIADO PARA CADA RELIGIÃO

(*) José de Anchieta Batista
É difícil, muito difícil, abordar qualquer assunto que passe por perto do mundo sagrado de cada um. O respeito à forma como as pessoas acreditam em suas “verdades” intangíveis deve estar sempre presente para não ferirmos as concepções que embalam nossos semelhantes. Neste mundo de incertezas, amarguras, fragilidades e ignorâncias, todos nós temos necessidade imperiosa de crer em algo maior que nós, mesmo que tal crença pareça às vezes revestir-se de um ilogismo sem limites. Fruto, então, de nossa pequeneza, buscamos ser adotados por alguma onipotência que possa tudo o que não podemos.
Afirmo aqui que, sob a ótica dos preceitos espirituais adotados, não existem religiões certas ou erradas, desde que haja observância da saudável convivência, da fraternidade, da moral e dos costumes. Vejo as religiões como caminhos escolhidos para praticarmos nossas buscas pelo sagrado. Nelas, a fé assume uma concretude que a ninguém é dado o direito de desrespeitar. Contudo, na vivência desta certeza interior, ninguém pode invadir o mundo dos outros. A fé religiosa é um sentimento personalíssimo que expressa a convicção de cada devoto a respeito do divino. Até mesmo aqueles que se assumem ateus, têm que ser respeitados.
A Constituição da República Federativa do Brasil declara, de forma contundente, que vivemos num país laico. Os credos e os cultos são livres. Assim, observadas as demais normas que regem os direitos e os deveres individuais e coletivos, nada pode obstaculizar, nem a crença, nem a prática dos cultos respectivos. Acho isso muito bom. O que não é salutar é essa disputa desenfreada por novos adeptos, em que se busca muito mais o famigerado dízimo, do que a “salvação” da alma do dizimista. Aí, não! É abominável. O sagrado não pode se transformar em mercadoria. Outra prática nociva, adotada neste momento, de maneira desenfreada, é a utilização da religião para fins politiqueiros. Bem, sobre esta pouca-vergonha, ocuparei este espaço em outro momento.
Na realidade, o ponto central desta minha humilde crônica é outro. Quero focar aqui minha insurgência contra a designação, por lei, de um dia dedicado especificamente a qualquer religião. Isso nos impõe obediência a uma determinação que bate de frente com a observância de um estado laico.
Nunca pude compreender, e provavelmente nunca compreenderei, a necessidade de existirem feriados específicos destinados a homenagear esta ou aquela religião. Se vivemos num país onde a laicidade é um preceito constitucional, não podemos admitir a existência desses tipos de feriados. No Estado do Acre, por exemplo, foram editadas leis, em momentos recentes, criando o “Dia do Evangélico” (2010) e o “Dia do Católico” (2016). Para que isso? Sinceramente, para quê? Será que isso faz parte de uma disputa sobre quem é maior diante dos olhos de Deus? Ou faz parte de uma demonstração de forças diante dos olhos dos homens? E já que estamos tratando de parcelas da humanidade que proclamam seguir ensinamentos cristãos, fico procurando, sem qualquer sucesso, um só versículo dos evangelhos em que Jesus pelo menos insinue concordar com isso. Aliás, que se tenha registro, o Santo Homem da Galileia nunca pronunciou a palavre “religião”. Está registrado, porém, que os religiosos da época o condenaram e o crucificaram.
Ah! Tenham a santa paciência! Parem de alimentar a reinante hipocrisia, esta terrível prática que se espraia e se eterniza cada vez mais por todos os recantos.
Amigos, se formos dedicar um dia para cada credo religioso, o calendário, com seus 365 dias, vai ser curto. A lista das religiões de todas as vertentes é quilométrica. Com certeza vão existir tantos feriados, que ninguém mais trabalhará neste País.
Diante de tudo isso, vai aqui um fechamento jocoso para minha crônica:
- Se estamos todos debaixo do mesmo guarda-chuva jurídico, quero, de minha parte, cobrar também um feriado em homenagem ao “Anchietismo”. Trata-se de uma religião fundada por mim, sem pé nem cabeça, cheia de futilidades, para ser praticada durante esta minha passagem pela Terra, e que se baseia nas minhas próprias imperfeições. Em seu minúsculo templo, eu sou o único membro, e fui por mim mesmo eleito o sumo sacerdote. É uma religião complicadíssima de ser praticada, pois sua liturgia está recheada de egoísmos, vaidades, falta de amor ao próximo, etc.
Repito, para finalizar: exijo o “Dia do Anchietismo”! Adianto que não aceito o de meu aniversário. Quero uma data determinada por lei, a exemplo das outras religiões. Proponho, então, que em algum artigo da norma legal, conste que o honroso feriado será sempre no dia 31 de fevereiro.
Arre lá! Vamos deixar de construir muros, minha gente!

domingo, 26 de junho de 2016

O CIRCO (Do livro “Menino da Rua do Bagaço”)

(*) José de Anchieta Batista
Naquelas cidadezinhas do interior da Paraíba, quando aparecia um circo, a criançada mais pobre acompanhava o palhaço pelas ruas, a fim de ganhar ingressos para o espetáculo. Eu participei desse ritual. Numa dessas oportunidades, não me saí muito bem.

-Hoje tem espetác´lo?
- Tem sim, sinhô!
- Nove horas da noite?
- É sim, sinhô!
- Tem voo da morte?
- Tem sim, sinhô!

Era a meninada,
Toda alvoroçada,
Na rua, na praça,
Seguindo o palhaço,
Querendo assistir
Ao circo "de graça"!

No último dia,
- No último, só –
Mamãe teve dó,
Pois ela sabia,
Bem dentro de mim,
A ânsia que havia...

Com terna carícia,
Beijou-me no rosto
E, contra seu gosto,
Após forte abraço,
Deixou que eu saísse
Atrás do palhaço.
E lá fomos nós,
Como em procissão...
E em uma só voz,
Com todo vigor,
Gritando o refrão:
- Tem sim, sinhô!

À frente, o palhaço,
Um tal "Catatau",
Com cara pintada
De forma engraçada
E quase três metros
De pernas de pau.

O circo era, em tudo,
A maior novidade,
Pois nunca outro igual
Houvera passado
Por nossa cidade.

E atrás do palhaço,
Com todo o vigor,
Gritando o refrão:
"Tem sim, sinhô!",
A gente seguia...
- Só filhos de pobre,
Que o filho do nobre
comprava o bilhete
Na bilheteria.

Já faz muitos anos
E eu nunca esqueci
Do que aconteceu.
A tarde inteirinha
Gritei, fiquei rouco,
Mas isso foi pouco!
Que azar tive eu:
- O filho da Anita
Roubou-me o bilhete
Que o homem me deu!

(*) Autor do livro: “Menino da Rua do Bagaço” – Editora Publit

FELICIDADE, ONDE ESTÁS?

(*) José de Anchieta Batista
A Terra está doente e sobre ela mora uma humanidade doente e infeliz.
Engana-se quem pensa que a Terra é meramente um gigantesco agregado de matérias girando em torno do Sol. Ela tem sua alma e é viva como nós. Ela tem sentimentos. Ri e chora, geme e canta.
Hoje, esta nossa Mãe está vilipendiada e triste. Nós, os homens, em todos os quadrantes, ferimo-la cotidianamente. Mas nisso tudo uma coisa é certa: o que nela plantamos, dela colheremos. Não adianta achar que não vamos ter uma resposta. Vamos, sim. Aqui ou além, hoje ou amanhã. Não precisa ser profeta para saber disso. A grande Lei de Causa e Efeito, nela funciona milimetricamente.
E nós, os inquilinos deste sofrido planeta, como estamos? Para esta pergunta, lamentavelmente, só nos vem uma resposta:
- Estamos mal, muito mal. Continuamos doentes e infelizes. Aliás, temos uma dificuldade enorme em aprender os caminhos da felicidade. E assim prosseguimos, trôpegos, atordoados e sem rumo. Somos infelizes porque não sabemos ser felizes. Somos prisioneiros da mentira e desconhecemos até mesmo quem somos nós. Nesse contexto, é verdade que “somente a verdade nos libertará”, mas não a conhecemos, nem sabemos onde, nem como encontrá-la. Assim, desperdiçamos todo nosso tempo com o ilusório, e o grande tesouro continua perdido.
Todos os dias, as notícias que invadem nossas vidas gritam, sem cessar, que a humanidade é infeliz.
Iniciamos o Século XXI e sequer conseguimos alcançar ainda a razão de nossa própria existência, nem compreendemos nosso caminhar pela Terra, onde carregamos pesada bagagem de dores e vicissitudes. Nossa ignorância e nossa pequenez fazem quase inócuas as nossas vidas. Sonhamos, gritamos, esperneamos, queremos ser felizes, mas não conseguimos. Até nos curvamos diante daquela “verdade suprema” que sempre querem nos impor. Há livros sagrados que nos ameaçam com a desgraça do eterno castigo. Dobramo-nos então e nos proclamamos “felizes graças a Deus”. A infelicidade, contudo, mesmo que tentemos escondê-la sob o manto da hipocrisia, continua aqui, entre nós, na vida de cada um, disfarçada, picando-nos como um percevejo.
Cansados e desiludidos, entregamo-nos à indiferença, entretanto nos sentimos mais vazios ainda. Por vezes, sem uma réstea de luz ou esperança, abominamos tudo e sentamos à beira do caminho. Choramos. Nada nos acalenta nem nos cura. Estamos doentes e infelizes. Além disso, condenados à morte, esta tenebrosa madame que tanto nos apavora.
Buscamos os compêndios de autoajuda, onde está a fórmula mágica universal. Vemos, contudo, que se trata de uma panaceia que mostra a mesmíssima solução para todos os viventes, indistintamente, como se todos tivéssemos a mesma estrutura física, mental e espiritual. E, enquanto os autores enriquecem, continuamos com as nossas dores, despidos, friorentos, vazios, tentando conviver com nosso desespero. Nada colhemos. Continuamos infelizes. Para completar, algum dia, nos estarrece a notícia de que o autor era um infeliz e que se matou.
Buscamos as religiões, as filosofias, os curandeiros, os adivinhos, e eles nos fazem de repente fascinados. Logo, porém, o que parecia uma ilha de felicidade, traduz-se em momentâneo encanto que logo se desfaz. Nada! Voltamos à estaca zero. Estamos mais vazios e descrentes. Somos infelizes.
Assim, lá vamos nós, peregrinos, na procissão da dor, desconhecidos de nós mesmos, inconscientes da realidade maior, despudorados, feras humanas, fingidos, intolerantes, bagunceiros da Mãe Terra, desirmanados, etc. E queremos ser felizes. Como?
Repito o que acima afirmei:
- Todos os dias, as notícias que invadem nossas vidas gritam, sem cessar, que a humanidade é infeliz.
Em meio a tudo, existem os que sobem aos montes e fazem ecoar na amplidão dos vales, com um pergaminho nas mãos, que são verdadeiramente felizes. Encontraram os céus! Pode até ser verdade. A respeito disso, é bom lembrar aqui que “ninguém crê no que quer, crê no que pode crer”. Verdade isso!
Na realidade, nossa Terra está doente e sobre ela mora uma humanidade doente e infeliz.
Caminhemos! Não estamos completamente perdidos. Tudo tem sua razão de ser, mesmo que não compreendamos.
Salvemos nossa Mãe Terra e plantemos a verdadeira libertação no mais íntimo de nós mesmos.
Algo me diz que é bom ser bom e que este é o único caminho. 
Tenho colecionado muitos fracassos, mas estou tentand

terça-feira, 14 de junho de 2016

EU CHAMO O BICHO-PAPÃO P’RA TE PEGAR!

(*) José de Anchieta Batista
Há algum tempo, atendi em minha sala do Acreprevidência um velho senhor, altamente revoltado.  Respondeu o meu “bom dia!” com voz de brabeza e apertou-me a mão com extrema indiferença.
O pessoal da recepção já me informara sobre seu estado de nervos. O homem não estava para brincadeira.
Em minha sala, pedi-lhe que sentasse, ofereci-lhe um copo d’água, e solicitei que me contasse seu problema.
- Eu vou ser muito curto e grosso! – iniciou o cidadão, enquanto retirava do bolso do surrado paletó, um papelzinho com timbre do Banco do Brasil, em que constava o seu saldo bancário.
E continuou:
- Olhe aqui. Cadê o meu dinheiro? Meteram a mão no meu salário. Isso é um absurdo. Quero sair daqui com uma solução. Além do mais, quero lhe dizer que sou um idoso e se eu ficar doente por causa disso vou processar todo mundo daqui – falou-me de um fôlego só.
- Calma, meu senhor?
- Calma, coisa nenhuma! Basta de tanta roubalheira! Quero o dinheiro que me levaram, senão vou chamar o 24horas.
Este tipo de ameaça, longe de causar medo, sempre me traz uma espécie raiva.
- Bem, seu José, deixe eu falar uma coisinha para o senhor.  Aqui não trabalhamos nem resolvemos problemas, com medo desse tal 24 Horas, nem de outras coisas desse tipo. Isso não nos amedronta. A regra aqui é tratar bem e garantir os direitos de todos.
E continuei:
- O senhor é um idoso, mas eu sou um idoso também. Inclusive sou 7 anos mais velho do que o senhor. Dá para conversarmos numa boa. Só quero que o senhor faça uma coisa antes de analisarmos o seu contracheque: vou chamar minha advogada para o senhor assinar a acusação de que foi roubado pelo Acreprevidência.
No mesmo instante o homem levantou-se, passou a mão na cabeça e tentou desdizer tudo o que tinha antes afirmado.
- Não, doutor Anchieta! Não se trata disso. É porque eu fiquei nervoso. A gente exagera sem querer e fala besteira. Desculpe-me! – disse-me com voz humilde.
O Departamento de Manutenção de Benefícios analisou para ele os detalhes do contracheque. O velho houvera utilizado toda sua margem consignável. Entre mil pedidos de desculpas, saiu dali cabisbaixo, mas plenamente convencido de que o erro era totalmente dele.
Contei essa historinha para realçar algo altamente nocivo a nossa gente. Vejam bem a ameaça que foi feita. O velho senhor não me ameaçou de queixar-se ao Governador, nem de procurar o Ministério Público, nem de registrar o fato na Polícia, nem de procurar um advogado. Quis amedrontar-me com o tal “24 Horas”. Quis apavorar-me do mesmo jeito que me faziam quando criança: - “Vou chamar o Bicho-Papão!”
Amigos, isso está muito em voga aqui em nosso Estado. No presente caso, ficou só na ameaça, mas o gestor público pode ter seu nome exposto à execração por qualquer motivo, sem prévio direito de defesa, simplesmente porque tais chamados são atendidos e feitas publicações irresponsáveis. Depois, como limpar o nome pessoal e o da instituição? Difícil, minha gente, porque o estrago já estará feito. E cada um que se vire para provar a inocência, mostrar a versão correta e também defender a órgão público que dirige.
Há algum tempo, esse mesmo “24 Horas” publicou levianamente que eu havia concedido uma aposentadoria graciosa. Diante da nojenta mentira, obtive no Judiciário o mais absoluto sucesso. E fiquem certos de que irei aos tribunais mil vezes se preciso. Não deixarei nada de graça, nem me amedrontarei. Assim devem proceder todos os cidadãos, principalmente os mais visados, aqueles que estão à frente da administração pública.  Em sã consciência, quero aqui registrar que o trabalho da imprensa deve ser ardorosamente defendido por todos, e que sou absolutamente contra quem quer que seja coibir a divulgação dos fatos ocorridos no nosso cotidiano. Meu foco é nesses maléficos instrumentos on-line que, pelo menos, aqui no Acre, se dizem jornais, mas que servem para aterrorizar e sujar a honra das pessoas e plantar a desmoralização das instituições. Isso pode ser tudo, menos jornalismo, porque prestam um enorme desserviço à Sociedade. É que isso também incentiva pessoas, principalmente as mais ignorantes, a buscarem direitos inexistentes, inverterem versão dos fatos, acusarem inocentes, etc.
Ultimamente, na busca de atingir o Governo, todos os olhos maus dessa gente voltaram-se para a Maternidade Bárbara Heliodora. Ali trabalham, comprovadamente, pessoas altamente responsáveis, competentes e comprometidas com o sacerdócio que abraçaram. Isso, porém, não basta. É preciso fomentar a tragédia, revoltar a sociedade e principalmente os familiares, com notícias levianas. É preciso aproveitar algum momento de dor. O caos é necessário para tentar desequilibrar o Governo. Brincam então com os sentimentos das pessoas. Citemos os casos de dois natimortos, oriundos de Santa Rosa do Purus e de Capixaba. Em ambos os casos a dedicação da equipe de profissionais foi elogiável. Uma das mães estava com o feto já morto em seu ventre, há dois dias, contudo conseguiu ser salva. A família é hoje altamente agradecida a todos por isso. Mas os fatos foram transformados em um prato cheio para notícias recheadas de toda maldade possível. 
Lembremos também a foto de manchas de sangue num suposto banheiro da Maternidade. O acolhimento do hospital teria sido tão desumano que a criança nascera sem qualquer acompanhamento. Depois do grande sensacionalismo, irresponsável e mentiroso, apurou-se na internet que o ambiente e as manchas vermelhas da foto se referiam a uma cena de teatro, no Estado do Maranhão.
 Enquanto isso, os profissionais, em vez de estarem cuidando de suas nobres atividades, com a serenidade que o ofício exige, passam a trabalhar num clima de medo, para não serem vitimados pela calúnia e pela difamação. Isso gera uma insegurança que é nociva a todos. Suas vidas são afetadas enormemente. Passam a ter mais uma obrigação: - defenderem-se de forjados crimes a eles atribuídos.
Amigos, hoje são incontáveis as páginas escritas na internet, e que se autodenominam “jornais”. No Acre, excetuados alguns poucos periódicos produzidos com lisura, existem os que chegam a dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis. Há uma terceirização da responsabilidade. Eu, porém, sempre vi no anonimato um ato de covardia.
Foquei o “24 horas”, por causa da ameaça feita pelo idoso a que me referi no início desta crônica, e também por conta da maldade que já me praticaram.
Saibam também – e que fique bem claro -  que seria grande insensatez minha querer que as notícias que me desagradam sejam silenciadas. Nunca! Mas quero que elas venham ao mundo com responsabilidade, quero a verdade, nada mais que isso.
Ah! Ia-me esquecendo:
- Não leio esses pasquins, sabem por quê? Porque não tenho tempo para a prática do mau gosto. Mas quando neles houver algo que me afete, com certeza alguém me avisará.  Então, chamarei o meu Bicho-Papão.
(*) Caminheiro do Tempo e do Espaço ... e não sei mais o quê. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

do romance CAPOEIRA DAS ÉGUAS

(...)
 Em 1953, a seca foi terrível e, em consequência, os governantes implantaram, mais uma vez, programas para acudir os flagelados. Na execução desse socorro às vítimas do flagelo das secas, conhecido popularmente como “emergência”, inexistia qualquer controle efetivo que os revestisse de algum princípio de moralidade. Isso propiciava toda espécie de desmandos. Os chamados “fantasmas” fervilhavam em meio à relação de nomes dos trabalhadores. Até animais de estimação faziam parte dos que recebiam aquele socorro.
Dentre tantos desmandos, citam-se exemplos deveras curiosos, e até engraçados.
Naquele ano, foram inscritos, nas frentes de trabalho, dois flagelados com os nomes de José Aurora da Silva e de José Virgulino Caetano. Como nunca se ouvira falar da existência dessas criaturas ali em Capoeira das Éguas, os mais curiosos deram um jeito de saber o destino dos envelopes com o dinheiro. Um era entregue na Pensão Aurora e o outro, no açougue do Zé Caetano. Como todos os parentes deles já estavam abrangidos pelo programa, deduziu-se que um dos “Josés” era o pornográfico papagaio “Cu Pelado”, da proprietária da pensão Aurora, e o outro “José” se tratava do vira-lata “Lampião”, do debochado Zé Caetano, um açougueiro vendedor de carne de bode. Para completar o absurdo, os “Josés” ganhavam como fiscais de tarefas, pois a remuneração era um pouco maior. Claro que os donos dos bichinhos dividiam com alguém o “suado” pagamento.
Descoberta a trampolinagem, tudo ficou por isso mesmo, e os envolvidos, ao serem perguntados sobre o assunto, ainda tinham o descaramento de se justificarem:
Esse dinheiro não é de ninguém mesmo! Se a gente não faz, outro faz!
E era desse jeito que os programas de socorro aos flagelados aconteciam.
Aqui, um parêntesis para um destaque ao famoso “Cu Pelado”.
Tratava-se de um papagaio da raça “Estrela”, proveniente das bandas do Pará, cuja “erudição e eloquência” o fizeram famoso. Era versado em xingamentos e saudações pornográficas a quem transitasse por perto dele. Além de saber gritar: “café-vovó!”, “Dá-pé-meu-lô-ro!”, “au-ro-ra-vem-cá!”, ele passava o tempo todo numa gritaria só: “Pi-ri-qui-tô!... Pi-ri-qui-tô!”... “Seu-bos-ta!”... “Seu-bos-ta!”.
Aprendia facilmente tudo o que lhe ensinavam, principalmente quando se tratava de sacanagem. Mas, quem fazia isso, às vezes, se tornava vítima das próprias aulas ministradas ao safado. Dona Aurora bem que tentou, muitas vezes, ensinar-lhe um hino da igreja, mas nunca teve sucesso.
Todos os dias, bastava ouvir a voz do João Mendes e lá se iam os repetidos conselhos do louro: “tomá no cu!”, “tomá no cu!”, “tomá no cu!”.
O Tonheiro, todo santo dia, passava por perto da pensão só para ouvir o louro fazer a festa: “fi-da-pu-ta!”... “fi-da-pu-ta!”... “fi-da-pu-ta!”. E os dois ficavam se insultando com o mesmo xingamento.
O Sebinha teve de suportar a vida inteira: “viado-véi!”, “viado-véi!”, “viado-véi!”.
Cu Pelado aliava a pessoa aos ensinamentos dela recebidos. Era realmente uma graça.
Na esculhambação da “emergência”, pelo menos o louro era responsável por alegrar a “Pensão da Aurora”. A velha tinha de ser bastante agradecida ao papagaio, pois fazia a propaganda de seu estabelecimento. Significava uma atração à parte, animando os clientes da casa.
O papagaio nunca estava de lundu, mas só aceitava “dar o pé” para pessoas de seu convívio mais aproximado. Só nunca se soube o porquê de sua inscrição como trabalhador da “emergença”, como alguns chamavam. Acredita-se que se tratava de um cachê artístico. E assim, “Cu Pelado” cumpriu o importante e histórico papel como personagem daquele tempo. Enfim, o safado do papagaio morreu de velho, mas sua fama vem sendo repassada de geração a geração.
Quanto ao outro flagelado, o “Lampião” do Zé Caetano, só servia para dormir, ficar tentando morder o próprio rabo, ou latindo para o João Mendes, que adorava bater o pé em sua direção.
Tudo isso faz parte das histórias daquele fim de mundo, em que o pranto e o sorriso, a tragédia e a comédia, o inferno e o paraíso, aconteciam no mesmo ambiente, quase sem um muro que os separasse.
(...)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

LANÇAMENTO

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Vamos lá, amigos! Será também uma oportunidade para revê-lo.

domingo, 29 de maio de 2016

TEMER E O “SAMBA DO CRIOULO DOIDO” DE SUA PREVIDÊNCIA

(*) José de Anchieta Batista
Não sabendo por onde caminhar, Temer pôs ao seu redor um grupo de eminências pardas para promover a fajuta alteração organizacional do governo federal, apresentando à população falsas ideias de retração de despesas e de moralização administrativa.
No que tange à previdência, seu mal engendrado governo impôs um modelo sem pé nem cabeça. A figura já defenestrada do Romero Jucá, agora candidato ao posto de corrupto profissional, um sujeito interesseiro, perspicaz, sabe-tudo e tagarela, compôs, juntamente com o Meirelles, Eliseu Padilha e Moreira Franco, um novo “samba do crioulo doido”, evidentemente sem qualquer qualidade. O famoso samba do Sérgio Porto, o grande Stanislaw Ponte Preta, é uma verdadeira obra de arte, em que o autor do “Festival de Besteiras que Assola o País - FEBEAPÁ”, faz uma salada, proposital, de importantes personagens e fatos históricos, de épocas diferentes, e o resultado disso é algo de muita graça e muito bom gosto. Mas a obra deste grupo que assumiu o comando do País é uma obra ridícula, sem originalidade, sem substância e sem graça. Em muitos setores da administração, estão acontecendo coisas parecidas, mas no que tange à previdência, a invenção é verdadeiramente sem criatividade e de inspiração grotesca. E não me deem a desculpa de que a Dilma deixou as coisas assim ou assado. Se possuem um mínimo projeto de governo, que o executem, pelo menos dentro de uma lógica. Também não me falem de falta de tempo porque, há muito, tudo estava orquestrado: imobilizaram o governo da Presidente, inclusive na falsa condição de aliados, depuseram-na, e agora não sabem o que fazer, ou o fazem atabalhoadamente.
Minha principal revolta é saber que, em seus improvisos, desmontaram o Ministério da Previdência Social - MPS, com 42 anos de existência, e ao qual estou vinculado desde 1987. Transformaram-no em uma Secretaria do Ministério da Fazenda, sem quê nem para quê. Isso tem lógica? Nesse malfeito, estão demolindo a casa onde residem a história e o conhecimento científico, e onde labutam pessoas capacitadas a formularem políticas para recuperação da previdência nacional. É bom deixar bem claro que ali trabalham técnicos e não milagreiros. Aliados a especialistas de outros consagrados órgãos, eles sempre apontaram os caminhos a seguir, o que sempre foi algo inócuo, pois não dispõem de poder para implementá-los. Até defenderia uma reestruturação do MPS, mas nunca transformar o Ministério em uma simples Secretaria de um outro que só pensa em cifrões e que poderá, em determinadas ocasiões, atuar tão somente como algoz dos aposentados e pensionistas.  Ao agora finado Ministério da Previdência não pode ser atribuída a culpa pelos sucessivos e crescentes insucessos das políticas previdenciárias adotadas no País. Nós, os técnicos da área, temos passado a vida inteira buscando apontar soluções. Não foram poucas as vezes em que, depois de grandes esforços, de grandes empreitadas, descobrimos que perdemos todo o nosso tempo, e que estávamos “fazendo buraco n’água”, porque os responsáveis por deflagrar as mudanças, sempre achavam melhor “empurrar o problema com a barriga”. As razões são muito nítidas: conveniências politiqueiras, medo de enfrentar a realidade, ausência de bom-senso, deserto total de compromissos com futuras gerações, etc. E nesse contexto, parece eterno o entendimento de que, quando a catástrofe maior chegar, quem estiver nos governos ...  que cuide das vítimas!
Aqui, mais uma vez, um alerta quanto ao futuro da previdência social brasileira. Do jeito que está, ela caminha para explodir nosso País. Não tenhamos dúvidas de que um tsunami chegará. Aliás, os ventos já sopram muito fortes. Mas não é com mudanças pífias nas leis, ou deslocando de um lugar para outro as pessoas e as salas onde funciona a administração da previdência social, que a salvaremos. Isso não resolve problema algum, sobremodo, o déficit mensal de mais de 10 bilhões de reais. Paralelamente, em nada isso ajuda diante da gravíssima situação dos regimes próprios da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. 
A realidade inexorável nos impõe uma escolha: ou criamos coragem, convocamos a sociedade, e enfrentamos o problema, ou o próprio problema se resolverá por meio do caos.
Amigos, avaliem esta outra bizarra e maluca mudança que esta gente ousou implementar.  Ao desmontar o Ministério, e diante da absoluta impossibilidade de fulminarem o Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, que hoje cuida de mais de 33 milhões de benefícios previdenciários e assistenciais, vincularam aquele importante Instituto ao Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário – MDSA. Meu Deus! Teria toda lógica migrarem para lá os benefícios assistenciais, pois acho que há muito deveriam estar naquela pasta. Nunca, porém, os benefícios previdenciários. Estes não estão vinculados a políticas de socorro a pessoas carentes! Não diviso quais novas políticas de desenvolvimento social vão pôr em prática para os segurados do INSS.  Não seria bem mais lúcido manter o MPS vivo, e permanecer a autarquia a ele vinculado como sempre esteve? Prefiro tratar o assunto com uma gozação: Será que, em seus desvarios, encontraram na palavra “agrário” algum motivo para ali encostarem os aposentados e pensionistas? Será que isso aconteceu? Parece absurdo, mas não duvido. Isso contribuiria para moldar a versão fajuta do “samba do crioulo doido”, que eles estão compondo. Vejam: até o nome do Ministro escolhido tem inspiração agrária e corrobora com isso: Chama-se Osmar Terra.
Temer, acorde! As medíocres mudanças feitas na sua previdência são bijuterias para esconder os verdadeiros problemas. Suplique ao Henrique Meirelles para desmanchar essa tapeação.
Ah! Ia-me esquecendo: amanhã, nas suas reuniões, Senhor Temer, veja se não grita, batendo na mesa com força, que já foi Secretário de Segurança de São Paulo e que por isso sabe tudo sobre previdência.
(*) Escritor, poeta e auditor-fiscal aposentado do Ministério da Previdência Social.

sábado, 21 de maio de 2016

A GRANDE FILOSOFIA DE UM RELES FARRAPO HUMANO

 José de Anchieta Batista
Trago, de minha infância, lembranças de muitos momentos de terror, e disso, esta maldita, chamada morte, foi sempre a causadora número um.  Pensar em morrer, ser jogado num buraco e ter o corpo coberto de terra, fazia-me viver momentos de verdadeiro pânico. Imaginar que minha mãe ou meu pai morresse, deixando-me órfão, era algo muito atroz para minha cabeça de criança. Não sei quantas vezes chorei e perdi o sono por isso.
Em Aparecida, lugarejo onde morei quando menino, naquele sertãozão da Paraíba, ao se ouvir, em qualquer momento do dia, o barulho do gerador de luz e, logo em seguida, a difusora tocar a “Ave-Maria de Schubert”, todo mundo já sabia que alguém virara defunto. Enquanto Domiciano, o locutor, avisava de forma condoída, com pequenos intervalos, que alguém partira para o outro mundo, o sacristão badalava, no sino da igreja, o toque inconfundível do acontecimento fúnebre.
Os anos se foram, mas eu trouxe comigo o barulho do motor de luz, a difusora e seus repetidos anúncios, a melodia inconfundível da clássica Ave-Maria, as badaladas do sino, os caixões de defunto, o cemitério e suas catacumbas, e o choro desconsolado dos que ficavam. Como tatuagens invisíveis, permaneceram em minha alma todos aqueles momentos que sempre faziam do mundo em minha volta algo carregado de coisas tristes, mal-assombradas e aterrorizantes. Junto a essas lembranças, ecoavam sempre as palavras do padre Oriel, alertando ameaçadoramente sobre os nossos destinos depois da morte. Aquilo era cruel. Por muitos dias, depois de cada enterro, eu me enchia de dois grandes pavores: a possibilidade de ser visitado pela alma do defunto e, também, um medo horrível de bater as botas e ser mandado para o fogo do inferno.  
O tempo passou e me fiz adulto, mas continuei diante dos mistérios que envolvem o nascer, o viver e o morrer. Sempre houve mil interrogações irrespondíveis. Em cada estágio da vida, de alguma forma, embaralhei-me todo entre as diversas concepções religiosas e as filosofias defensoras de todas as possibilidades imaginárias. Vaguei por diversos caminhos. Prevalecia algo absurdo: eu estava na Terra para viver um lapso de tempo, acumulando créditos e débitos para trocar por um lugar eterno, no céu ou no inferno. Era eu um vaticinado a duas únicas opções, sem nenhuma apelação: após a morte, seguiria para Deus ou para o Diabo! E isso, eternamente! Por achar aquilo inconcebível, finalmente mandei tudo e todos às favas.
Quando me fiz ateu, começou outro tormento. O assédio de pessoas fanáticas – o fanatismo é uma cegueira – para me livrar do fogaréu de Lúcifer.  À ilógica e boba chatice de insistir para que eu “aceitasse Jesus” a fim de me fazer “salvo”, irritava-me bem mais. Não via um fiozinho de bondade no deus que me traziam. Ele era pavorosamente mau. E os que queriam levar-me a ele, também não me pareciam possuir as credenciais.  Posso afirmar que, se para entrar nas bem-aventuranças, os pré-requisitos são as virtudes, eu nunca, nunca, nunca mesmo, tive o privilégio de conhecer alguém que houvesse conquistado as chaves deste céu que eles mesmos pregam.  
Passado algum tempo, vi-me diante dos ensinamentos da Lei de Causa e Efeito. Foi aí que pude divisar um Deus lógico e justo, sem o desconforto das velhas concepções. Por este caminho, Deus não era perverso, nem um pai desalmado.  Deus era amor.  Aprendi, então, que em tudo reina uma irrefutável Justiça. Não só aqui, mas em todo o Universo, o que está posto, no lugar onde estiver e da forma como estiver, está onde deveria estar. A alegria e a dor, aqui e ali, seja lá onde se manifestarem, fazendo sorrir ou chorar, são efeitos de uma causa. Deus é suprema justiça e, por conseguinte, a injustiça é provocada por nossa imperfeição.  Por essa lei divina, mandamento maior da justiça do Pai Supremo, nada está fora do lugar; nada está fora do tempo; nada é maior nem menor do que devemos pagar ou receber.  E é sob a égide desta fabulosa lei, que pomos em prática nosso livre arbítrio e colhemos o que plantamos.
Sou agora absolutamente convicto de que tudo o que acontece em nosso derredor faz parte, ou passará a fazer parte, dos registros de nosso livro pessoal de contas correntes. Nada está esquecido nem fugirá dos roteiros de Deus.  O acaso não existe e tudo tem sua razão de ser. Também não me resta dúvida de que precisaremos voltar mais vezes à Terra para continuar nossa evolução. É aí que a morte deixa de ser a mãe do terror e passa a ser um sagrado instrumento de oportunidades.
Para concluir, vamos a um fato de meu acervo pessoal.
Há uns trinta anos, numa parada de ônibus das proximidades da Igreja de São Peregrino, no bairro da Floresta, eu aguardava um coletivo para o centro de Rio Branco. Em minha alma fervilhavam problemas. Eu vivia um período de separação judicial e tinha ido, naquela tarde de domingo, visitar minhas filhas.  Estava ali sozinho, debaixo do abrigo, pensando nas vicissitudes da vida, quando se aproxima, cambaleante, sujo, esfarrapado, cabelos desgrenhados, um senhor bêbedo, cotidianamente visto naquelas redondezas, sempre em estado de embriaguez.
- Boa ... boa... boa tarde, seu... seu doutor! -  dirigiu-se a mim, tropeçando nas palavras.
- Boa tarde, amigo - respondi-lhe, embora disposto a não lhe dar papo.
- Vossa Excelência ... me perdoe, mas que hora ...que hora é essa? – perguntou-me, escorando-se na coluna do abrigo.
Consultei o relógio, sem saber que necessidade tinha aquele pobre farrapo humano de saber as horas. Com certeza não estaria atrasado para compromisso nenhum. Que eu soubesse, tudo o que possuía na vida estava justamente ali. Não tinha casa nem família, alimentava-se da caridade e dormia onde fosse vencido pelo cansaço.
- São três horas – disse-lhe.
O pobre miserável olhou para mim, e como se de repente incorporasse a alma de algum filósofo, balbuciou:
- Nem é cedo ... nem é tarde... tá tudo na hora certa.
Pronunciou aquele singelo desabafo, aparentemente sem nexo, escorregou as costas na coluna de madeira, sentou-se sobre um velho jornal, pousou a cabeça sobre os antebraços apoiados nos joelhos, e simplesmente adormeceu.
Em cima do que hoje me é possível alcançar, acredito que aquele meu pobre irmão externou ali uma verdade que naquela época eu desconhecia. Verdade da qual fazíamos parte, eu, ele e tudo ao nosso redor. É quase certo que jamais eu venha a saber quem era realmente aquela criatura, nem sua verdadeira identidade diante de Deus. O que posso afirmar é que ele era um peregrino de si mesmo.


Nunca mais o encontrei. Dele, porém, uma simples e grande mensagem ficou, como diz a canção popular: “tudo está em seu lugar, graças a Deus!”

domingo, 15 de maio de 2016

“EU TENHO DE ...”, “EU TENHO QUE ...”, NAS LIÇÕES DA VIDA

(Crônica publicada no jornal "PÁGINA 20", de 15/05/2016 - Rio Branco - Acre - Espaço do Anchieta)
Acredito que os profissionais da linguística, os filólogos, os gramáticos, não passam por esta mesma via crucis.  Sempre há mais uma armadilha escondida nos labirintos de nossa Língua Portuguesa.  Ó Deus! Quantas arapucas?!
Ao escrever determinada crônica, veio-me de repente uma dúvida: “tenho de” ou” tenho que”? E lá me fui consultar uma figura intangível, sagrada, diabólica, admirável, enciclopédica, maluca, etc., indispensável hoje em dia, chamada professor Google, este gênio, versado em todo tipo de assunto, capaz de elucidar qualquer dúvida a respeito de qualquer matéria. O grande mestre possui uma espécie de prateleira cibernética, onde se misturam produtos falsos, genéricos, ou originais, distribuíveis, prestativa e graciosamente, a qualquer aluno desta enorme sala de aula, instalada no enorme manicômio em que vivemos. São respostas brilhantes, obscuras, eruditas, ridículas, e até mesmo respostas que não respondem coisa alguma, ou que se prestam apenas para repetir que o óbvio continua sendo o óbvio.  A respeito das expressões “ter de” e “ter que”, consultei o grande sábio, e um rosário de opções apareceram na tela do computador. Encontrei referências ao “ter de” como uma forma culta, de uso histórico, há muito substituída por “ter que”, por se ter feito antiquada; alguém comentou a possibilidade de utilização de uma ou de outra, para casos distintos, e apontou regras para isso; outros mencionaram uma saída mais simples: “tanto faz como tanto fez”.  Em meio às possibilidades oferecidas, decidi continuar utilizando, quando da construção de um período, a forma que melhor agradar ao ouvido, embora confesse minha preferência pelo “ter de”.
Não vou encerrar por aqui minha abordagem sobre o assunto. Levado pela consulta ao professor Google, uma outra luz brilhou. Num rápido pensar, descobri que tais expressões jogam suas complicações para além do uso da gramática, atingindo-nos de outra forma, com efeitos maléficos. Vejo agora que minha vida pessoal esteve sempre vinculada a estas expressões. Não esporadicamente elas deixam marcas em nosso viver. Falo assim porque em alguns instantes importantíssimos da vida, sob o comando de minha própria vontade, deixei de priorizar coisas mais importantes, tendo como justificativa “ter de ...”, ou “ter que ... “.  
Hoje, setentão, a ocupação mais presente neste quase crepúsculo da vida, é fazer inventários de tudo o que houve pelo caminho. No mais das vezes, isto é muito dolorido. Contudo, de uma coisa já me tornei absolutamente convicto: quanto menos formos dependentes desta expressão compulsória, menos atravancado está nosso caminho, em busca da felicidade. Assim, o “ter de”, ou o “ter que”, tem de estar vinculado tão somente a tudo o que constrói. Foi numa dessas retrospectivas de septuagenário, que me vieram, justamente, as lembranças de coisas mais que importantes, que eu deveria ter feito, mas não as fiz, porque “tinha de”, ou “tinha que”. 
 Minha precaução talvez tenha vindo tarde, mas aconselho que quando tivermos de dizer um não a uma pessoa querida, ou priorizar alguma coisa por meio destas expressões, é de boa providência mensurar o peso das escolhas.
Só para exemplificar, lembro que certa vez, minha filha Sílvia, com apenas cinco anos, esperneou para que eu brincasse de bonecas com ela. Que custava? Quanto valia aquele momento? Juro que não sei avaliar o preço.  E eu não lhe fiz aquele minúsculo desejo, somente porque “tinha de” sair para papear com amigos. Agora, em meu último quadrante, quase meio século depois, “tenho de”, ou “tenho que”, amargar a lembrança daquele instante aparentemente sem importância.
Os amigos se foram ... minha filha ficou. 
Sabemos que tudo é simplesmente como um relâmpago. Assim afirmo em meus versos intitulados EFÊMEROS”:
De repente / os tempos se vão / e não voltam mais, / a infância se vai, / a juventude que é linda, / um dia se finda... /Sem a luz do sonhar, / o amor se desfaz ... / Que grande tolice / achar que a velhice / é paz e saber! / Como o rio que vai, / se esvai o viver... / E tudo o que foi / ficará para trás... / E o sonho? / Que sonho? /Não há nada mais!
Concluo esta crônica, com três expressivos versos da música ”Epitáfio”, do conjunto musical brasileiro “Os Titãs”:
“...
Devia ter complicado menos,
Trabalhado menos,
Ter visto o sol se pôr...”

terça-feira, 10 de maio de 2016

SALVE, MAMÃES!

(Crônica publicada no jornal "PÁGINA20", de 8/05/2016 - Rio Branco - Acre - Espaço do Anchieta.)
Porque todos os dias são dias das mães, o que me parece antipático estar repetindo, quero apenas reafirmar para minha querida mãe terrena, Dona América, que continuo e continuarei a dedicar a ela o mesmíssimo amor filial, em igual diapasão com que sempre a amei. Além do reconhecimento pelo amor incondicional que permanentemente me dispensou, trago também pela vida afora, a eterna gratidão por se ter feito a grande intermediária no milagre da minha atual existência aqui na Terra.
Pelo sujeito inquieto que sempre fui, devo ter sido um inquilino muito chato no materno ventre de Dona América. Aliás, é bom lembrar que a gravidez é um inquilinato em que o pagamento de aluguel funciona de forma inversa: o ocupante é que é ressarcido. E isso é feito com a moeda mais valorosa do mundo, não conversível em dólar, que tem o nome de AMOR.
Louvo neste momento, de maneira muito forte, não só as mulheres que se fizeram mamães fisicamente, mas todas as mulheres. Entendo que, de alguma forma, todas são mães, mesmo as que nunca tenham vivido a gestação de algum rebento. Todas trazem no recôndito da alma, de forma viva, adormecida, ou mesmo reprimida, os atributos e a essência da maternidade.
Permitam-me externar, a seguir, algumas concepções, pessoais e sempre respeitosas, que alimento sobre a mulher.
Já disse e tenho por vezes repetido que a mulher foi um divino esquecimento de Deus. Na indescritível magia, o Supremo gritou “faça-se a luz!” e fez chegar o esplendor e a perfeição de sua obra ao mais escondido recanto do seu reinado infinito, nas dimensões micro e macro. Num abrir e fechar de olhos (que deve ter durado milhões e milhões de anos) deu forma, função e estabeleceu regras para tudo, tim-tim por tim-tim, sem a menor falha. O que apontamos como imperfeito é produto da pequeneza do que nos é possível alcançar. Conforme a Bíblia, Deus criou o homem, mas se “esqueceu” de fazer a mulher. E somente depois, como bondoso pai, olhou para a insipidez da vida de Adão e forjou a figura sublime de uma companheira para o solitário habitante do Éden. Não a idealizou, contudo, apenas para habitar a solidão do primeiro homem. Assim, Deus não se ocupou em criar simplesmente um animal chamado mulher. Havia algo além. A mulher (energia feminina) trazia consigo tudo o que faltava para que a obra estivesse completa e continuasse a ser sempre recriada ou renovada. É importante compreender que a mulher foi feita Deusa. A nossa Deusa! Pois bem, esta soberana chamada mulher, além da divina essência do amor, veio investida da incumbência de eternizar a criação.
Pensando bem, meus amigos, é uma respeitosa gracinha quando afirmo que a mulher foi um “divino esquecimento de Deus”. Não, não, não foi. Ela estava na sagrada prancheta do Criador, aquele que é a causa primária de tudo, aquele que sabe todos os porquês, desde o infinitamente pequeno ao infinitamente grande.
É bom ressaltar que quando Deus criou a mulher, deu-lhe existência para muito além da fêmea. Ele criou a Mãe! Ora, ora, não é a mesma coisa? Não, não. Há uma enorme diferença, sim! A fêmea é só a reprodutora, a mãe é Amor!
E já que existe este dia dedicado à figura materna, não posso deixar de lembrar que a Terra tem vida e também é nossa sagrada mãe. Por meio do divino milagre da gestação, o ventre materno abriga, alimenta e prepara, por nove meses, o nosso frágil ser para entrada em um estágio de vida na Terra. Migramos, então, do ventre sagrado de nossa mãe humana, para viver no sagrado ventre da Mãe Terra. E ela amorosamente nos dá tudo, tudo, para que nela sejamos felizes. Ingratos filhos somos nós. Esta nossa majestosa e sagrada Mãe, da qual subtraímos a sobrevivência terrena, agoniza numa das enfermarias do universo, e parece que isso em quase nada nos preocupa. Faz-se urgente um despertar, porque nós, que tanto a destruímos, vivemos justamente no seu ventre sagrado e morreremos juntos. Somos suicidas.
Salve, Dona América, minha Mãe, e todas as queridas mães. Recebam hoje a certeza de nosso amor!
Salve, Sagrada Mãe Terra! Perdoa-nos, hoje, por nossa ignorância e nosso desamor.
(Anchieta)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

HISTÓRIAS E "CAUSOS" QUE A VIDA CONTOU

Recebi da Editora Scortecci (SP), há alguns dias, meu mais novo livro, intitulado “HISTÓRIAS E “CAUSOS” QUE A VIDA CONTOU”.
Não decidi ainda a data nem o local de lançamento, mas penso marcar o evento para este mês de maio.  Em breve, estarão todos convidados para esse encontro de conversa e descontração.
Creiam que a pretensão não é comercial. Meu verdadeiro propósito é deixar um registro enquanto há tempo. Será, porém, muito bem-vinda, aquela ajudazinha, já que a Editora não produz livros “de graça”.
Transcrevo, a seguir, as páginas 15 e 16, nas quais sintetizo a alma deste novo filho:
  PALAVRAS DO AUTOR
Caros amigos.
Havia prometido a mim mesmo publicar algum livro ao completar meus setenta anos. Avancei em alguns capítulos de três novos trabalhos, mas não concluí nenhum. Ocupei-me, então, em juntar pedaços da mim, deixados pelo caminho, publicados ou não em jornais, e o resultado está sendo batizado com o nome de “HISTÓRIAS E CAUSOS QUE A VIDA CONTOU”. São poemas, histórias, contos, pensamentos etc., que escrevi, motivado pela luz ou pela penumbra de algum momento da vida.
Quase cem por cento dos fatos relatados foram reais. Outros sofreram o tempero da fantasia do autor, sem adulterar, contudo, os pontos relevantes de cada enredo.
Muitos personagens são meus conhecidos, alguns são conhecidos de conhecidos meus, e outros entraram nos contos e histórias, como Pilatos entrou no Credo: ninguém sabe o porquê.
Alguns atores das histórias foram rebatizados com nomes diferentes dos seus. É óbvio que o fiz para evitar alguma confusão. Aqui no Norte há um ditado que traduz meu comportamento: “Em rio que tem piranhas jacaré nada de costas e macaco toma água de canudo”.
Algum material, fui encontrar entre antigos arquivos de meu computador. Outros, entre publicações feitas num blog que alimentei por algum tempo com essas coisas da vida.
 É importante salientar que, em algumas páginas, externo opiniões sobre o que penso a respeito da espiritualidade, das religiões e de suas práticas. Quero, porém, advertir a todos sobre meu respeito por todas elas. Claro que o bom senso nos leva a identificar os absurdos. Aquilo que vem violentar os bons costumes e a salutar convivência humana. Exceto isto, para mim não interessa se meu semelhante é ateu, ou se encontra Deus numa imagem, numa árvore, no oceano, no firmamento, ou se o reconhece por qualquer outra forma.
Minhas poesias externam, dentre outros enfoques, a tristeza ou a alegria interior; a busca por um mundo melhor; o amor vivido e sentido; os sonhos do dia a dia; a maldade do homem contra o homem e seu desleixo para com o planeta Terra, nossa casa.
Acredito que esta coletânea, a que denominei “HISTÓRIAS E CAUSOS QUE A VIDA CONTOU”, traz em suas páginas um misto de risos e lágrimas que, com certeza, motivarão algumas reflexões.
Fraternas saudações.
Anchieta.
Rio Branco-Acre, 13/Dez/2015”