segunda-feira, 20 de março de 2017

O CASAMENTO DE CHIQUITA E VICENTÃO

(Anchieta Batista)
          Os fatos se dão por volta de 1954. Embora reais os personagens, dei-lhes nomes fictícios.
No lugarejo de Capoeira das Éguas, o disse-me-disse era algo que ocupava a agenda de todos os dias. Alguma fofoca sempre animava as rodinhas formadas nas calçadas, logo nas primeiras horas da manhã, dando um sabor muito especial às sempre animadas conversas das “cumades”, que por vezes deixavam queimar o feijão na panela. Talvez a ocupação com a vida dos outros fosse a razão principal de não se morrer de tédio ali, onde se vivia mergulhado numa mesmice sem fim.
          Certo dia o caldeirão do “nem te conto, cumade!” amanheceu fervendo em todos os recantos.
          A festa de casamento do Vicentão com Chiquita Mocó, na noite anterior, fora regada a muita comida e bebida. O velho Malaquia (assim mesmo: sem o “s”) caprichou. O ano tinha sido de inverno e a festança aconteceu em meio a uma fartura danada. Tudo ao estilo da época, naquele brabo sertão nordestino, com um “forró da mulesta”, animado pelo famoso instrumento de oito baixos do velho Pedro Nascimento. O fu-ru-fum-fum do fole começou ainda no finalzinho da tarde, quando o sol se despedia do mundo, com seus últimos raios avermelhados.
          Por volta das duas da madrugada, o velho Malaquia comandou o fim do furdunço e deu por terminada a comemoração do casório da filha. Todo mundo debandou para suas casas. Os noivos foram conduzidos na velha fubica do João do Jipe, para a inauguração da moradia recém-construída pelo pai da noiva. Chegara, enfim, o momento de usufruírem do sagrado direito, pacientemente conquistado, já que, por aquelas bandas, o sujeito não era nem doido de mexer com uma donzela, antes do casamento. Isso cheirava a defunto. Principalmente naquele caso, porque o velho Malaquia carregava a fama de ter sido cabra de Lampião.
          Capoeira das Éguas mergulhou no silêncio e o luar da madrugada tomava conta da noite. Tudo parecia muito bem. A coisa, contudo, não acontecia tão romântica assim. Lá pelas três da madrugada, a Chiquita Mocó pulou pela janela, fugiu de sua lua-de-mel, em desabalada carreira, descalça e vestida de camisola, até a casa do velho Malaquia, do outro lado do lugarejo.
          Nossa Senhora! Aquilo foi um prato cheio para todo mundo. Os
vizinhos faziam questão de acordar uns aos outros para contar a novidade. E o rebuliço tomou conta do lugarejo, bem antes do sol nascer.
          Não precisou muito elucubrar para se descobrir a razão do desespero da Chiquita.
          Vicentão era um matuto de quase dois metros de altura, uns cento e vinte quilos, porte de um gorila, vaqueiro dos bons, pegador de boi brabo, e trazia também consigo o apelido de “Jumentão”.
          A pobrezinha da Chiquita era uma magricela de dezesseis anos, muito bonitinha e cobiçada por muitos rapazes, mas não pesava mais que quarenta e cinco quilos.
          Já lá se vão muitas décadas, depois da fatídica noite. Lembro-me, porém, que ninguém voltou a ver o Vicentão. No mesmo dia, sem dar qualquer satisfação ao pai da noiva, nem a ninguém, desapareceu de Capoeira das Éguas. Foi morar para as bandas de São Paulo.
          Quanto à Chiquita, nunca mais quis chegar nem perto de homem. Preferiu o caritó. Todos os contemporâneos que permaneceram vivendo em Capoeira das Éguas, botam a mão no fogo, jurando de mãos postas, que a pobrezinha morreu virgem, em 2007, aos setenta e um anos.
          Na época do ocorrido, eu era menino e não entendia por que os adultos expulsavam-me de perto de seus buxixos e risadas, às vésperas do casamento da Chiquita. Depois me caiu a ficha: na realidade eles estavam fazendo seus maliciosos prognósticos. Vaticinaram quase corretamente.
             Pobrezinha da Chiquita!

sábado, 28 de janeiro de 2017

A MÁQUINA DE ESCREVER - Giuseppe Ghiaroni


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GIUSEPPE ARTIDORO GHIARONI
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Giuseppe Artidoro Ghiaroni foi um poeta e jornalista brasileiro. Nasceu em Paraíba do Sul, Estado do Rio de Janeiro, no dia 22/02/1919. De família pobre, suas primeiras ocupações foram de aprendiz de ferreiro, ajudante de cozinha e estafeta. 
No Rio de Janeiro, foi redator do Jornal A Noite, cronista e autor de novelas na Rádio Nacional. Em 1959, sua novela “A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo” reuniu quase uma centena de artistas para fazer as vozes dos personagens bíblicos.
Ghiaroni foi ainda contratado da Rede Globo onde, dentre outros trabalhos, assessorou Chico Anysio, na década de 1990, na "Escolinha do Professor Raimundo". 
Este grande poeta morreu no Rio de Janeiro, em 21/02/2008.
Transcrevemos a seguir um de seus poemas mais famosos:
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A MÁQUINA DE ESCREVER
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Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.
Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.
Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.
Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.
Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.
Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.
Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.
Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.
Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.
Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!
Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.
Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.
Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.
Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.
Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.
(FIM)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ZÉ LIMEIRA - O POETA DO ABSURDO


O POETA DO ABSURDO
Recitação de ANCHIETA BATISTA
VERSOS DE ZÉ LIMEIRA - O POETA DO ABSURDO
Este personagem histórico chamado Zé Limeira (1886 – 1954), natural da mesma cidade onde nasci (Teixeira – PB), foi definitivamente incorporado ao folclore nordestino. Não o conheci. Contudo, velhos familiares meus assistiram a suas cantorias, quando perambulava por aqueles pés de serra. Pelo retrato que dele se faz, era um sujeito fora de seu tempo. Muito antes do aparecimento dos astros do Rock, já chocava os costumes sertanejos com sua indumentária diferente, fitas coloridas enfeitando a viola, adornos de anéis e pulseiras, óculos tipo Ray Ban, etc. 
Os versos que improvisava fizeram de Zé Limeira um poeta diferente. Misturava personagens, fatos históricos, épocas, lugares, numa verdadeira “salada”, não importando o resultado da alquimia de seus versos. O importante era RIMAR!
Orlando Tejo, paraibano de Campina Grande, poeta, advogado, jornalista, professor, peregrinou por algum tempo, colhendo “valorosos versos” desse vate extravagante e condensou tudo num livro chamado ‘Zé Limeira – Poeta do Absurdo”.

MATUTO NO FUTIBÓ - Zé Laurentino

MATUTO NO FUTIBÓ - Zé Laurentino 
RECITADO por José de Anchieta Batista

ZÉ LAURENTINO: - Grande poeta (também radialista) paraibano, nascido em Puxinanã-PB, no dia 11/04/1943. Faleceu no dia 15/09/2016, em Campina Grande, cidade onde residiu durante quase toda sua vida. 
Nos velhos tempos, tomamos algumas carraspanas juntos, em alguns recantos de Campina. O Zé era uma criatura extraordinária. Era um sujeito porreta. A Paraíba perdeu um ícone da "poesia popular".

- Oxente! Isso é hora de tu ir imbora, hômi? Ô cabra avexado da peste! Tchau, Zé!


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AI, SE SESSE!

AI, SE SESSE!
Poesia matuta do extraordinário poeta paraibano ZÉ DA LUZ  (1904 - 1965).
Livro: "Brasil Caboclo - O Sertão em Carne e Osso". - (Recitação minha)

ROUBALHEIRA NA COISA PÚBLICA

ROUBALHEIRA NA COISA PÚBLICA
Versos compostos em 1987 - Governo Sarney - publicados na época, pelo Jornal "O Rio Branco" (ACRE), e depois, em meu livro "MENINO DA RUA DO BAGAÇO" (2007). Hoje, em 2016, vinte e nove anos depois, pouca coisa mudou em termos de honestidade, mas, pelo menos, já vemos poderosos encarcerados.

UFAC - CAGARAM NA PISCINA (Soneto Escatológico)

UFAC - CAGARAM NA PISCINA - Pelo autor:  JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA
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Em 1988, a piscina da Universidade Federal do Acre, UFAC, teve suas águas "cloradas", límpidas e saudáveis, repentinamente invadidas pela contaminação e pela fedentina que lhe proporcionou algum de seus futuros "doutores". Meu dileto e competente amigo, Professor Moacir Fecury, Magnífico Reitor à época, cumpriu sua obrigação de mandar apurar quem fora o responsável por aquilo e, para tanto, determinou a abertura de uma sindicância. 
O saudoso Zé Leite, editor-chefe do Jornal "O Rio Branco", sempre espirituoso, imprimiu à notícia um exagero proposital e anunciou um "rigorosíssimo inquérito", momento em que me pediu alguns versos sobre o malfeito, no que foi prontamente atendido. 
Assistam à humilde recitação do "Soneto Escatológico", de minha autoria, escrito em homenagem ao epopeico fato.
Quase trinta anos são passados... Nunca se soube quem cometeu aquela tremenda e histórica molecagem. 
O certo é que o "competente inquérito" deu no mesmo produto da façanha, ou seja, em merda.

A CACIMBA

"A CACIMBA"
  Esta é uma engraçada poesia matuta de meu espirituoso e imortalizado conterrâneo poeta ZÉ DA LUZ (1904 ---> 1965). Curtam minha humilde declamação. (ANCHIETA)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CAPOEIRA DAS ÉGUAS - Por Valdeci Duarte

(Coluna "Prosa Poética" do Jornal Página 20 de 15/01/2017)


Valdeci Duarte
Tomei conhecimento desta obra ainda no seu lançamento, em Janeiro de 2015 e estava na expectativa de leitura e comentário à altura. Felizmente chegou o momento. Trata-se de um relato emocionante sobre esta cidadezinha da Paraíba, uma história contada por um genuíno paraibano, o mestre das letras, José de Anchieta Batista, que há muitos anos reside em terras acreanas.
Logo nas primeiras folhas o autor faz questão de esclarecer alguns pontos do seu enredo, inclusive apresentando alguns personagens centrais da trama, como o Sargento Neves, o garoto Dino e a menina Celina. Ainda comenta sobre os lugares comuns em todo o romance, como o lugarejo que à época se chamava Capoeira das Éguas, que no final dos anos 60 virou cidade, “um local no meio do sertão da Paraíba em que as pessoas conviviam como se fosse uma comunidade de parentes, num jeito solidário de subsistência, mesmo quando entre elas não havia nenhum tipo de parentesco”.
No início, Capoeira das Éguas era tratada com o maior descaso, o que até os dias de hoje ainda se perpetua em partes significativas do nordeste brasileiro. Em locais assim, há sempre alguém que se aproveita da miserável situação do povo, em proveito próprio. A condição de dependência em que vive grande parte do povo brasileiro, conforme relata o autor, é típico do que acontecia com a pequena população do vilarejo que em alguns momentos, alguns “se sentiam eternamente gratos e fiéis a esses verdadeiros carcarás da humanidade”.
Um relato cômico é o do personagem Cu Pelado, papagaio da raça estrela, verdadeiro ser pornográfico daquelas bandas e do vira-lata Lampião, que à época da terrível seca de 1953, teriam recebido recursos para acudir os flagelados. No mesmo capítulo houve o relato da velhinha que surgiu mendigando no povoado, sendo encontrada em estado de putrefação debaixo de um juazeiro, após os urubus terem dado os primeiros sinais. Tudo indica que a miserável teria morrido de fome.
O mais curioso da história da velhinha é que no lugar em que ela foi encontrada e sepultada, nasceu uma espécie de seita de veneração à indigente. Muitos ignorantes e desesperados pela verdade teriam fundado um grupo dos denominados “Filhos da Santa Velhinha”. Diante do surgimento de tantas denominações religiosas, talvez o autor tenha tido a intenção de satirizar esta situação. Neste caso, chegou a afirmar que quase um século depois a devoção à “Santa Velhinha” permanecia até os dias atuais naquelas bandas.
O romance Capoeira das Éguas traça um perfil das pequenas cidades que se formaram durante a colonização do interior do Brasil, em especial no interior do nordeste, pelo sertão da Paraíba, característico dos muitos rincões onde a religião predomina, não pelo conhecimento, mas pelo convencimento do achismo dos indivíduos “entendidos” sobre as coisas do outro mundo.
Esta foi uma boa leitura. Revivi algumas coisas que ouvi, quando vivia no meio da mata, contados pelos avós seringueiros, sobre as botijas encantadas. Há pequenas variações, já que os relatos que ouvi eram de botijas escondidas nos mais variados lugares, na floresta amazônica. Um show de descrição da parte do autor que afirma ter crescido e ter voado “nas asas do tempo, deixando para trás” seu chão natal, sua gente.
Uma figura digna de apreciação, diz respeito ao personagem Antônio Moura, homem dos melhores que habitavam as cercanias de Capoeira das Éguas. Um sujeito entendedor de muitos assuntos. Um homem paciente com seus colegas. Era bem resolvido na vida, tinha dinheiro e sempre estava disposto a apoiar as melhores causas em prol dos outros. Talvez por isso fosse detentor de grande admiração de seus compatriotas. Mas apesar da enorme aceitação na comunidade local nunca aceitou enveredar pelos caminhos da política.
Na figura de padre Israel, em uma de suas passagens por Capoeira das Éguas, o autor enfatiza o seu contentamento e a sua postura diante das coisas de Deus. Um dos homens justos do lugar e dedicado em sua missão. Assim o autor o descreve: “desapegado do mundo material, sempre pronto a acudir os necessitados era uma figura amada, que convivia com seus paroquianos misturando-se a eles com forma brincalhona de ser”.
Algo bem curioso foi a abordagem do autor sobre a sexualidade daquele povo sertanejo, que tinha nesse assunto verdadeiro preconceito. Por ali, “tudo que se referia a sexo era um enorme tabu em todos os recantos”. De forma experiente foram narrados episódios de extrema curiosidade que as crianças passavam a ter sobre esse assunto, tanto os meninos, quanto as meninas, também os adultos e pessoas que enveredavam pelos caminhos do homossexualismo.
Em um dos capítulos, o autor faz a narração da existência de um prostíbulo inaugurado na cidade que apesar da grande aceitação dentre os homens, teria sido veemente condenado pelas senhoras direitas do lugar que não sossegaram até fecharem o puteiro.
Lá pela metade da trama, é possível entender o semelhante paralelo existente entre a vida dos personagens Dona Laura, Sargento Neves, Celina, Dino e a de seu criador, com sua vida após o abandono do seminário. Fica evidente que um dos personagens tomou emprestada a vivência do autor, quando da sua ida ao seminário, enviado contra a sua vontade, acabou vivendo no seminário, até quando foi obrigado, mas veio a largar antes de se formar padre em busca de viver o seu amor infantil. O final feliz dos personagens principais, Celina e Dino, foram garantidos.
O leitor consegue assistir a um romance revivido pelo autor que atravessou toda essa trama no início da vida, logo após os 10 anos de idade. O relato da ida ao internato, as evidências de que não chegaria ao final do “Seminário de Padre”, as fortes lembranças de Celina, a despedida de Dona Laura, as novas amizades feitas no convento e a decisão de voltar em busca de seu final feliz.
É com carinho e admiração que li e faço a indicação desta obra de José de Anchieta Batista, que uma vez lida, passam os leitores a conhecer um pouco mais da vida do autor, que embora não tenha deixado explicitas as aparências com a realidade que o mesmo viveu um dia, elas são evidentes.
(*) Leitor de José de Anchieta Batista.

sábado, 14 de janeiro de 2017

VERSOS DE ZÉ LIMEIRA - O POETA DO ABSURDO

Este personagem histórico chamado Zé Limeira (1886 – 1954), natural da mesma cidade onde nasci (Teixeira – PB), foi definitivamente incorporado ao folclore nordestino. Não o conheci. Contudo, velhos familiares meus assistiram a suas cantorias, quando perambulava por aqueles pés de serra. Pelo retrato que dele se faz, era um sujeito fora de seu tempo. Muito antes do aparecimento dos astros do Rock, já chocava os costumes sertanejos com sua indumentária diferente, fitas coloridas enfeitando a viola, adornos de anéis e colares, óculos tipo Ray Ban, etc.
Os versos que improvisava fizeram de Zé Limeira um poeta diferente. Misturava personagens, fatos históricos, épocas, lugares, numa verdadeira “salada”, não importando o resultado da absurda alquimia de seus versos. O importante era RIMAR!
Orlando Tejo, paraibano de Campina Grande, poeta, advogado, jornalista, professor, peregrinou por algum tempo, colhendo “valorosos versos” desse vate extravagante e condensou tudo num livro chamado ‘Zé Limeira – Poeta do Absurdo”.

Transcrevo aqui, algumas dessas joias:

Quando Jesus veio à Terra
Foi gerente da Paulista,
Sócio de São João Batista,
Depois da Segunda Guerra...
De tanto subir a Serra
Tivero um padecimento,
Inda existe documento
Da juvenia dos dois,
Hoje, amanhã e depois
Diz o Novo Testamento.

O Marechal Floriano
Antes de entrar pra Marinha
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano,
Foi vaqueiro vinte ano,
Fora os dez que foi sargento,
Nunca saiu do convento
Nem pra lavar a corveta,
Pimenta só malagueta
Diz o Novo Testamento!

Pedro Álvares Cabral,
Inventor do telefone,
Começou tocar trombone
Na volta de Zé Leal,
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumento
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três,
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento!


Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e o mundo,
O poeta Zé Raimundo
Começou castrar jumento
Teve um dia um pensamento:
“Tudo aquilo era boato”
Oito noves fora quatro
Diz o Novo Testamento!

Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraíba falada,
Cantando nas Escritura,
Saudando o pai da coalhada,
A lua branca alumia,
Jesus, José e Maria,
Três anjos na farinhada.

Uma véia gurizada
Pra mim já é fim de rama,
Um véio Reis da Bahia
Casou-se em riba da cama,
Eu só digo pru dizê,
Traga o Padre pra benzê
O suvaco da madama.

Jesus foi home de fama
Dentro de Cafarnaum,
Feliz da mesa que tem
Costela de gaiamum,
No sertão do cariri
Vi um casal de siri
Sem comprimisso nenhum.

Napoleão era um
Bom capitão de navio,
Sofria de tosse braba
No tempo que era sadio,
Foi poeta e demagogo,
Numa coivara de fogo
Morreu tremendo de frio.

domingo, 8 de janeiro de 2017

UM MONÓLOGO, QUASE ORAÇÃO

Ó Deus!
Com certeza existes muito além das ilusões que estão por aí;
Ou melhor, das futilidades que estão por aqui.
Não te quero adquirido das prateleiras religiosas! Não, não quero.
Ali, és artesanal, és imperfeito, és feio, és macabro!
Pois é. Ali, deturpam-te todo e ainda conseguem dizer-te Perfeito, Boníssimo, Amor e Luz!
Foi assim que me fizeram o ateu que eu não sou!
Não te creio aquilo!

Ó Deus!
Creio-te tão grande no microcosmo, quão simples no que é infinitamente grande.
E eu, na minha significância tão insignificante, me contorço nesta amplidão feita de tempo e de espaço ...
Com certeza aqui estou, ó “Razão Primária de Tudo”, por algum salutar motivo. Não talvez por ser tão pequenino, mas por ser acólito irrefreável de minha própria rebeldia.  Mesmo assim, diante de tudo, não me sinto teu prisioneiro, mas prisioneiro de mim mesmo. Na verdade, estão grudadas em mim, as minhas asas para voar; Sei que as tenho, sinto-as, mas não consigo desprendê-las!

Ó Deus!
Fervem mistérios em minh’alma. Minha evolução adormecida parece despertar. E eu vago como um sonâmbulo ...  Tateio paredes, quero dizer versos ... restam-me grunhidos. Já não sei a diferença entre o pesadelo e o sonho.  
Tudo bem! O que importa isso?
Não! Não quero mais sonhar. Quero realizar, quero fazer, porque também sou Deus ...  Quero voltar das margens para o centro, donde me afastei para encontrar estes malditos grilhões.
E eu tenho pressa, pois o tempo, que é tão nosso, passa! E como tantos outros ignorantes e desnorteados, às vezes lanço meu tempo no desperdício, buscando-te nos burburinhos indecifráveis que me ensurdecem e me confundem, dentro deste labirinto em que me perdi.

Ó Deus!
Sempre que te busco nas religiões, sinto-me um órfão, um infeliz, uma simples interrogação irrespondível. Sinto-me no Coliseu da velha Roma ...  E ali:
- sou o impiedoso César que se deleita!
– sou o leão faminto e enfurecido!
- sou o Cristão à espera de um milagre!
E ainda consigo ver-te assistindo a toda a barbárie, alheio, insensível,  como se nada te tocasse.
É neste momento que me revolto e te pergunto agressivamente:  Que Deus és tu?

Ó Deus!
Por vezes, 
lá estou eu lustrando as pedras da coroa de Herodes; 
lá estou eu com João Batista, em meio ao deserto, jogando conversa fora, num banquete de mel com gafanhoto; 
lá estou eu vendendo bodes, pombos e bugigangas, no templo de Jerusalém ...
Por vezes,
lá estou eu a segurar a bacia de Pilatos e até mesmo a lhe enxugar as mãos...
E minhas mãos? Sim! Aquelas mesmas mãos que bateram palmas em apoio a Caifás ... que acenaram por Barrabás ... que fugiram de enxugar a fronte do Messias ... são as mesmas que agora empunham e manejam a lança do centurião.

Ó Deus!
Tudo isso me faz quase um deserto insuportável! Não estás aqui, mas estás em tudo ...  Estás em tudo, mas não estás aqui. É como se existisses, sem existir.
Apesar de tudo, fica em mim uma certeza: - tu não és nada disso que me oferecem! E se eu não te fizer nascer em mim, grande como verdadeiramente és, continuarás sendo esta ilusão absurda, perversa, inconcebível e inexplicável. Não te quero assim!

Ó Deus!
Tu estás em mim e eu em Ti! Somos UM!
Basta de minha pequenez! Dá-me o caminho de volta!
Busquei a cegueira! – abre-me os olhos!
Tornei-me surdo! – abre-me os ouvidos!
Caminhei para a escuridão! – ilumina-me!
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MATUTO NO FUTIBÓ - Zé Laurentino

ZÉ LAURENTINO: - Grande poeta (também radialista) paraibano, nascido em Puxinanã-PB, no dia 11/04/1943. Faleceu no dia 15/09/2016, em Campina Grande, cidade onde residiu durante quase toda sua vida.   Nos velhos tempos, tomamos algumas carraspanas juntos, em alguns recantos de Campina.  O Zé era uma criatura extraordinária. Era um sujeito porreta. A Paraíba perdeu um ícone da "poesia popular".
- Oxente! Isso é hora de tu ir imbora, hômi? Ô cabra avexado da peste! Tchau, Zé!

MATUTO NO FUTIBÓ

Hoje o pessoá do mato
já tá si civilizano.
já tem rapaz istudano
pras banda da capitá;
Já tem moça qui namora
cum os imbigo de fora,
ediceta, coisa e tá.

Mas essas coisa eu istrãin,
mi dano e num acumpãin
a tá civilização ...
Quero qu’a morte me mate:
- Nunca fui numa buate;
- Nunca vi televisão.

E esse tá de cinema,
eu num sei nem cuma é ...
Avião? - Deus qui mi livre!!
- Só ando im burro ou a pé!
E seno eu brocoió,
um triato nunca vi
e tombêin nunca assisti
um jogo de futibó.

É isso mermo, patrão!
eu naci pra sê matuto,
vivê qui nem bixo bruto
dano di cumê a gado...
Mas cum certeza sô gente,
pruquê um véi, meu parente,
dixe qu’eu fui batizado.

Mais pru arte dos pecado,
um fí di cumpádi Chico
o fazendêro mai rico
dali daquele arredó,
cum priguiça di estudá,
inventô di inventá
um jogo de futibó

E no paito da fazenda
mandô butá duas barra
e eu fui ispiá a farra
do lote de vagabundo ...
mais quando oiêi... afroxei!
E acridite qu’eu achei
a coisa mió do mundo!.

Eu, cabôco lazarino,
cum dois metro de artura,
os braco dessa grussura,
medo p´ra mim é sulipa!
- de jogar tive um parpite,
e aceitei o cunvite
pru mode jogá de quipa.

Mi dero um carção listrado
e um pá de jueieira
tombém um pá de chuteira,
u’a camisa de gola,
e eu gritei: arre diabo!
- eu já peguei tôro brabo
e sigurei pelo rabo
pruquê num pego u’a bola?

Sei que o jogo começô ...
- o juiz bom e honesto -
p´ra começá era Ernesto
o nome do apitadô,
qui mitido a justicêro,
pru mode o jogo pará,
bastava a gente chutá
a cara dum cumpanhêro.

Bola vai e bola vem...
um tá de Zé Paraíba
inventô de dá uns driba
no fí de Chica Brejeira...
esse deu u’a rasteira
qui o pobe do matuto
passô uns cinco minuto,
imbolando na poeira.

O juiz mandô chutá
uma bola contra eu
pruquê meu fubeque deu
um coice no Honorato...
Aí o juiz errô !!!
Se o fubeque é quem chuto
ele qui pagasse o pato

Mais afiná, meu patrão
não gosto de confusão...
mandei o cabra chutá!
fiquei esperando o choque...
tanta fôça a bola vinha
qui vinha piquinininha
Cumo bala de bodoque!

E eu fui pegá a danada,
me atrapaei, meu patrão...
passou pru dento dos braço,
Isprudindo o tirombaço
Bem “naquela região”!
E foi bateno e eu caino
Me espulinhano no chão.

O povo batêro im riba,
Me dero um chá de jalapa,
uns treis copo de garapa,
E um chá de quixabeira.
Quando tive u’a miora
joguei a chuteira fora,
Saí batendo a poeira.

E desse dia pra cá,
nem mode ganhá dinhêro,
num jogo mais de golêro...
Nem cum chuva, nem cum só ...
Nem aqui, nem no diserto...
nunca mais passo nem perto
dum campo de futibó.

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domingo, 11 de dezembro de 2016

HISTÓRIA DE UM CÃO

(*) Luis Guimarães Júnior                                   
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve mundo.
     Recebi-o das mãos dum camarada.
     Na hora da partida. O cão gemendo
     Não me queria acompanhar por nada;
     Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo, cabisbaixo, mudo,
Olhava-o ... o sol nas ondas se abismava ...
"Adeus!" - me disse, - e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
     “Trata-o bem. Verás como o rafeiro
     Te indicará os mais sutis perigos;
     Adeus! E que este amigo verdadeiro
     Te console no mundo ermo de amigos.”
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
     Nas longas noites de luar brilhante,
     Febril, convulso, trêmulo, agitando
     A sua cauda - caminhava errante,   
     À luz da lua - tristemente uivando.
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
     Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
     Cinco meses depois, do meu amigo
     Um envelope fartamente cheio:
     Era uma carta. Carta! - Era um artigo.
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes;
     Gabava o steamer que o levou; dizia   
     Que ia tentar inúmeras empresas;
     Contava-me também que a bordo havia
     Toda a sorte de risos e belezas.
Assombrara-se muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo.
Citava o caso d'uma passageira ...
Mil coisas mais de que me não recordo.
     Finalmente, por baixo disso tudo,
     Em nota bene do melhor cursivo
     Recomendava o pobre do Veludo,
     Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão, tranquilo e atento,
Me contemplava, e creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
     Depois lambeu-me as mãos, humildemente,
     Estendeu-se aos meus pés, silencioso,
     Movendo a cauda, - e adormeceu contente,
     Farto dum puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente, um dia,
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
     E respirei: - “Graças a Deus! Já posso”
     Dizia eu “viver neste bom mundo,
     Sem ter que dar diariamente um osso
     A um bicho vil, a um feio cão imundo”.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
     Mal respirei, porém! Quando dormia,
     E a negra noite amortalhava tudo,
     Senti que à minha porta alguém batia:
     Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito:
E - de cansado - foi rolar dormindo,
Como uma pedra junto do meu leito.
     Praguejei furioso. Era execrável
     Suportar esse hóspede importuno
     Que me seguia como o miserável
     Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em voz alta e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.
     Zunia uma asa fúnebre dos ventos;
     Ao longe o mar na solidão gemendo,
     Arrebentava em uivos e lamentos...
     De instante a instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto,
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto,
E a chuva meus cabelos fustigava...
     Despertei um barqueiro. Contra o vento,
     Contra as ondas coléricas vogamos;
     Dava-me força o torvo pensamento:
     Peguei num remo - e com furor remamos.
Veludo, à proa, olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
     No largo mar ergui-o nos meus braços,
     E arremessei-o às ondas de repente...
     Ele moveu gemendo os membros lassos
     Lutando contra a morte! Era pungente!
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas, moribundo.
     Mas ao despir, dos ombros meus, o manto,
     Notei - oh grande dor! - haver perdido
     Uma relíquia que eu prezava tanto!
     Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente,
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente,
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
     Certo caíra além no profundo mar,
     No eterno abismo que devora tudo;
     E foi o cão, foi esse cão imundo
     A causa do meu mal! Ah! se Veludo
Duas vidas tivera, duas vidas,
Eu arrancava aquela besta morta,
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.
     Corri, abri ... Era Veludo! Arfava;
     Estendeu-se aos meus pés  e docemente,
     Deixou cair da boca, que espumava,
     A medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo; estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.
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LUIS Caetano  Pereira GUIMARÃES JUNIOR
Diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 17 de fevereiro de 1845, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 20 de maio de 1898. Foi um dos dez Eleitos membros para se completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde Criou uma Cadeira n. 31, que tem como patrono o poeta Pedro Luís.
Era filho de Luís Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira. (Há uma divergência na data de seu nascimento: Sílvio Romero indica o ano de 44; outras fontes registram 1847. A filha do poeta, primeiros D. Iracema Guimarães Vilela, forneceu uma Múcio Leão de dados de 45). Fez os estudos no Rio Rio de Janeiro. Aos dezesseis anos escreveu o romance Lírio Branco, dedicado a Machado de Assis. Partiu para São Paulo, a fim de continuar os estudos PREPARATÓRIOS, e lá recebeu uma carta de Machado de Assis, animando-o um Prosseguir na carreira das letras. Fez o curso de Direito não Recife entre 1864 e 1869. Ali assistiu ao desenvolvimento da "escola condoreira", tomou parte em que mais Diretamente ou menos. Continuou a escrever, multiplicando-se no jornalismo e escrevendo livros de contos, comédias e poesias. Aos 28 anos, apaixonado por Cecília Canongia, cogitou de se casar. Sua situação não jornalismo e nas letras, embora brilhante, não lhe proporcionava os Meios estavelmente para viver. O poeta e amigo Pedro Luís, então ministro dos Negócios Estrangeiros, Oferece-lhe um lugar na diplomacia como secretário de Legação em Londres. De 1873 um 1894, passou por vários outros postos, em Santiago do Chile, em Roma, onde serviu sob as ordens de Gonçalves de Magalhães, e em Lisboa, foi, depois, como enviado extraordinário, para Veneza. Em 1894, transferiu-se aposentado, já, para Lisboa, onde veio falecer um.
Em Lisboa, como secretário de Legação, teve ocasião de conhecer alguns dos mais ilustres espíritos do tempo. Foi amigo de Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Fialho de Almeida. Distinguia-se como poeta e como homem do mundo. Ramalho Ortigão assim o definiu: "Como poeta, ele é um primeiro adido da legação A elegância ... O seu estilo tem um lavor de renda, uma suavidade de veludo e ar um perfume de toilette". Tinha predileção pelas cidades da arte e do pensamento. O poeta celebra Londres, celebra Roma. Mais que tudo porém, recorda o seu país. Suas principais obras são Corimbos e Sonetos e rimas. O primeiro representa a fase em que vivia no Brasil (1862 um 1872); o outro, o período em que residiu na Europa. A Apreciação de críticos e estudiosos como Vicente de Carvalho, Medeiros e Albuquerque e Carlos de Laet, foi de pleno Reconhecimento da poesia de Luís Guimarães Júnior. Seus sonetos Revelam um grande apuro da forma, combinações métricas finas e sutis, eo gosto pelos motivos exóticos que ele Pôde sentir em observar e suas Peregrinações por terras estrangeiras. Romântico de inspiração, mas já dentro da orientação parnasiana, ele foi, no apuro da expressão, um precursor da poesia de Raimundo Correia, Bilac e Alberto de Oliveira.
Obras: Lírio branco, romance (1862); Uma cena contemporânea, teatro (1862); Corimbos, poesia (1866); A família agulha, romance (1870); Noturnos, poesia (1872); Filigranas, ficção (1872); Sonetos e Rimas, poesia (1880); Contos sem pretensão (1872), e várias peças de teatro.


(DADOS EXTRAÍDOS DA PÁGINA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS)
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