segunda-feira, 8 de março de 2010

BANDIDAGEM RELIGIOSA

Dois alertas:
- Não tenho religião, nem pretendo ter nenhuma;
- Se alguém, após ler o que aqui escrevo, tiver a intenção de salvar minha alma, por favor desista. Fique onde está para não perder seu precioso tempo.

***

Minha esposa, a Glads, reclama-me muito de minha ojeriza a certas tapeações utilizadas por uma corja de vendedores do Cristo, para conseguirem conquistar novos adeptos, ou continuarem subjugando psicologicamente aqueles que já foram encurralados anteriormente.
Diz ela: "eles têm lá seu valor, pois retiram dos vícios, da marginalidade, da prostituição, muitas pessoas.".
Até concordo. Minha revolta, contudo, está nos artifícios utilizados para adquirir fortunas, sugadas de criaturas desesperançadas, miseráveis, infelizes, transformando-as em verdadeiras escravas intelectuais. Essas pessoas tornam-se contribuintes de um imposto diabólico, a que denomino de "pedágio para o céu".

Se olharmos para a telinha da TV, os números de contas correntes bancárias estão sempre ali. Os apelos para engordá-las são tão comoventes, tão impressionantes, tão dramáticos, tão convincentes, que, aos incautos e ignorantes, soam na forma de uma obrigação, cujo descumprimento é uma sentença de condenação ao inferno. Os coitados saem dali dispostos a vender televisores, geladeiras, carros, qualquer coisa, para saciar a gana dos impostores.
É por isso que a imunidade tributária dos templos, existente lá na constituição federal, tem que ser reformada, a fim de ser estabelecida uma fronteira entre o mundo religioso sério e aquele da autêntica bandidagem, onde uma ganância sacana e imensurável visa ao enriquecimento pessoal. Cada vez mais isto tem se tornado visível e comprovadamente real em tantas investigações policiais que já foram procedidas.

Certa vez perguntei a um senador da República se isso vai se perpetuar assim.
Resposta: - quem é doido de mexer com isso, Anchieta?
Dessa forma, mui lamentavelmente, não se vislumbra a mais remota possiibilidade de mudanças, pelo menos por enquanto.

Voltemos às pilantragens:
Há poucos dias, num desses meus momentos de insônia, liguei o televisor e me deparei com as cenas de "um milagre": - retiraram as muletas de um cidadão, ali na frente das câmeras, e mandaram que o mesmo saísse caminhando sem elas. "Mais depressa!"... "Mais depressa!"... "Mais depressa!" - gritava o pilantra-mor. E o pobre miserável, aparentemente coxo, saiu aos tombos  pelo meio do imenso palco, ou picadeiro (desculpem-me os profissionais circenses), tentando empreender uma corrida forçada, enquanto se ouvia um repetido coro de "glória a Jesus!". Um genuíno delírio coletivo!
As cenas deixaram-me convicto do seguinte: - o sujeito, ou era realmente um coxo e cumpriu sem maiores problemas o seu papel de auxiliar principal daquela tapeação, ou era sadio e pode vangloriar-se de ser um artista de primeiríssima qualidade como coadjuvante em sacanagens daquela espécie.
Uma coisa é certa: - não pude deixar de ver em tudo aquilo uma deslavada palhaçada.
É interessante  como os prodígios que eles praticam estão longe das passagens descritas lá nos evangelhos. Os milagres lá da bíblia (sobre os quais também guardo minhas reservas) não eram feitos pela metade. Tais ocorrências extraordinárias, mesmo ficando a critério de cada um acreditar ou não na sua veracidade, receberam indubitavelmente dos seus relatores o contorno de milagres verdadeiros. Pelo menos o paralítico curado por Jesus, colocou o leito nas costas e foi-se embora para casa. O coxo que foi curado por Pedro também não saiu por aí, caminhando com dificuldade e ainda vítima da curiosidade e da zombaria públicas.  Nos textos em que são descritos os milagres, nem Lázaro deixou de ser defunto para ser um enfermo, nem os mudos começaram a falar com o defeito da gagueira, nem os cegos deixaram de ser cegos para se tornarem míopes.
Os milagres bíblicos não eram meios-milagres!

Desculpe-me, querida Glads, mas não tenho como me conformar diante de tanta pilantragem!
                                                                  

2 comentários:

Isaac Melo disse...

Meu caro amigo Anchieta,
é muito pertinente e necessário seu texto. Faço coro com você!

Um grande abraço!

Brunno Damasceno disse...

Grande Professor Anchieta, mais uma vez você conseguiu expor com clareza o sentimentos de alguns "sem alma" (adjetivo usado pelos pastores para indicar nossa classe), não somos pessoas sem fé ou sem amor, apenas nos indignamos com tanto oportunismo, e quanto a tirar pessoas do alcolismo ou drogas infelizmente também observo pelo outro lado, eles se aproximam de pessoas com problemas psicológicos e sociais para incluir em seus rebanhos financeiros mais um Dólar Humano, ou Pessoas "Reais". Parabéns pelo texto.